30 de out de 2009

Booooh

Por que falar "casa mal-assombrada" se assombração, pelo que sei, nunca é uma coisa boa? Mesmo porque, se alguém me disse que uma casa é bem(-)assombrada, eu imaginaria que há muitos fantasmas nela e não assombrações legais...

Placebo

Não há duas músicas que eu goste tanto cujas letras e melodias entrem tanto em choque quanto "Every you every me" e "Without you I'm nothing".

26 de out de 2009

Nós

Um descuido que se dê e o laço está feito. E depois do laço, vêm os nós. E quando mais se estreitam os laços, mais o nós parece indissolúvel. E assim nossas vidas se dissolvem mornas e plásticas e frágeis.

A linha da minha mão termina onde começa a sua? Já não sei, pois as vidas vêm sido tecidas em nós – coloridos. As fronteiras parecem não existir, conforme os nós vão sendo feitos.

E se em outra situação qualquer, os nós poderiam significar um problema, agora me vejo feliz por não saber como desfazê-los – ainda que às vezes nos possam servir de amarras.

Com os nós, lanço meu navio ao mar, teço o manto mais quente, arrumo-lhe a gravata. Uma vez que um laço é feito, o nós é uma certeza. E assim não consigo deixar que ninguém saia da minha vida.

O nós parece imperar num mar de constância, dentro do caos em que às vezes parecemos submergir. E são esses laços que nos resgatam quando somos lançados à correnteza.

25 de out de 2009

Como conquistar aquele gatinho

[Gomes da Costa te ensina]

Diário: Peregrinação

Atraso por causa do trânsito? Sem problemas. Chances de perder a prova porque os portões fecham às 7:30 e ainda estou longe do meu destino? Okay, sem crise. Eu saí tranquila de casa e assim continuei pelo resto do dia. Mesmo ao constatar que não teria almoço e que o tal ônibus que me levaria para casa não passava onde eu estava. Não era uma falsa frieza perante empecilhos bobos que em outros tempos me teriam estragado o dia, era simplesmento o modo como tenho vivido as coisas.

Encontrei alguns amigos lá - eles também iam fazer a tal prova. Entrei semi-afobada na sala e me deparei com aquela figura tranquila e pacífica: meu amigo, também professor, Mister Clock. Trocamos um sorriso e logo pego os papéis, acho um lugar e me acomodo.

O lápis de escrever ficou com minha aluna Aninha. Okay, vamos de caneta preta mesmo. O moço sentado atrás de mim: "Você esqueceu o lápis?" Confirmo e ele continua: "Precisa de um?". Agradeço muito contente, abro o estojo e dele tiro borracha e novo apontador com reservatório. Tinha tudo menos o lápis e sem ele, borracha e apontador de nada servem.

Primeira prova: vários chutes e muito bom senso. Depois de não almoçar (e roubar bolachas recheadas de Mister Clock) e encontrar conhecidos com os quais troquei impressões sobre o fracasso geral, fiz a segunda prova. Nessa todos se saíram melhor, a despeito da formulação duvidosa de algumas questões. Mais uma vez o moço sentado atrás de mim (o mesmo moço) me emprestou o lápis de escrever...

A maioria do grupo voltou junta para casa. Vim voando só para ver se ainda encontrava o Jovem Forster e sua esposa - a sósia da Miriam Freeland e um doce de pessoa. Encontrei ambos e conversamos um pouco. Bem divertido! Eu não via o Jovem Forster há uns seis anos, acho.

Neste fim de semana, parece que vivi noves vidas e nove dias, diante do tanto de novas impressões, pessoas, pensamentos, gostos, experiências e histórias que agora fazem parte de mim.
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Descoberta do dia: a Estrada do Campo limpo é realmente longa - principalmente se você está a pé e/ou de sandália rasteirinha.
Música: "Lua Estrela" (Manacá)
Desejo: respostas de e-mails importantes.
Melhor frase: "Adoro esse cheiro" [o Jovem Forster enquanto folheava as páginas de uma HQ]

Rain

[Esbarrei com esse excerto agora há pouco e quis muito dividi-lo com o mundo...]

24 de out de 2009

Diário: Color Shot

Hoje fui a um jogo de paintball. Não, caros leitores, essa que aqui vos fala não foi uma mera expectadora. Participei dele! No meu time, coletes vermelhos, Spartacus, O Pirata, O Garoto de Santos e o Meu Músico favorito. Apanhamos bastante: de cinco partidas, vencemos só uma. (acho... só depois do jogo fiquei sabendo que tínhamos ganhado a primeira O.o) Eu disse que era café-com-leite e pude reconhecer a minha fragilidade física - tendo sido acertada milhares de vezes e ganhado os hematomas e machucados dos quais já tinham me falado. Mas, como eu sempre digo, quem sai no campo de paintball é para levar balas de tinta. O dia estava lindo e a turma estava ótima. Me diverti como há tempos não me divertia. E tive o prazer de bancar a tia e encher os meninos de docinhos e refrigerante - minha maneira de querer bem.

Ele - Meu cabelo está terrível: passo a mão nele e sinto o condicionador saindo.
Eu - Olha o meu cabelo... tá saindo tinta.
Ele - Ah! Você pinta o cabelo?
Eu - [hesitando] Sim, mas não ultimamente...
[alguns instantes depois...]
Ele - Puxa... Acabamos de sair do paintball e eu perguntando se você pinta o cabelo...

(Tentei colocar a conversa exatamente como me lembro...)
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Descoberta do dia: tinta de bala de paintball tem gosto ruim e nem todos os Garotos de Santos surfam.
Música: "Tira a sandaia" (Auscult)
Desejo: começar um curso de dança.
Pensamento: Alguns chiliques são inevitáveis, mas todos evaporam rápido ao calor de um novo dia.

23 de out de 2009

Raulzito

A primeira vez que me lembro de ter ouvido falar em Raul Seixas eu devia ter uns 10 ou 11 anos. Era aniversário de morte dele e a Globo estava exibindo um especial - desconfio seriamente que era o Video Show.,mas enfim... Fiquei muito impressionada com suas músicas e seu trabalho (e só viria a entender "Rock das Aranhas" depois de velha - shame on me).

Ao longo da minha breve existência, conheci as mais variadas pessoas que, em suas diferenças, acabaram sendo unidas pela admiração a Raul Seixas. Acho isso muito bonito, essa lealdade, embora não suporte o clássico "toca Raul!" transborante da boca de qualquer fã. Parece que qualquer show de rock é uma mera desculpa para pedir "Gita" ou "Metamorfose ambulante" =]

Lembro-me de ter perguntado para minha mãe porque o Raul Seixas tinha sido tão especial e ela me respondeu:

- Ele era o tipo de pessoa que usaria um par de botas vermelhas não porque todo mundo usava, mas porque gostava, porque tinha vontade.

Esse exemplo simples me marcou muito, pois, para mim, pôde dar a dimensão de sua autenticidade - e de tudo aquilo que dela decorreu. E minha maneira de celebrar Raul Seixas é sempre cantar suas músicas nos bares de karaokê.

Bibi passeia de trem

Bibi olha feliz através da janela do trem. Observa atentamente tudo o que se passa (e passa) pela janela. Era sempre como se visse o mundo pela primeira vez - o cheiro de papel de presente e o fitilho amarelo desfeito. Tanto olha para fora que quase perde o que há dentro: um homem com uma muda de árvore. Curioso, Bibi mantém-se quieto e parece ser inteiramente absorvido pelas folhas amareladas do pé-de-alguma coisa. O homem de olhos cansados. Saberia ele dizer que árvore ela aquela? Não que Bibi entendesse muito de plantas - na verdade, não sabia nada de nada -, mas alguma coisa prendia sua atenção intensamente. A árvore era um filhote como ele. Ainda sem frutos nem flores - será que dava flor? Ele não dava. Bibi sorri. O homem cansado nem repara em seus olhos pidões - precisa porque precisa saber... Quem sabe tivesse uma desse em seu quintal, quando fosse grande. Nunca tinha visto ninguém levar uma árvore no trem, muito menos uma de 1,70, folhas amareladas e raízes num saco de lixo preto.

Bibi chega a sua estação e depois de algum ensaio, pergunta que árvore é essa? É pé de quê?

- Jaca – diz o homem com ar cansado.

Diante da emoção de Bibi, o homem não se manifesta. Bibi agradece e segue o seu caminho, com a certeza de ter um pé-de-jaca quando crescer. Não sabia se seria médico, poeta ou astronauta, mas, naquele momento, o pé-de-jaca lhe bastava.

Diálogo (1)

Dois amigos num ponto de ônibus:
A - Mas eu não entendo!
B - O quê?
A - Como você diz coisas nas quais não acredita?
B - O que eu digo não se aplica a mim.
A - Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço?
B - Não. Eu simplesmente não generalizo: não é porque eu digo que as pessoas devem ter esperança que devo ter também.
A - Você não tem que utilizar o produto que vende?
B - Péssima analogia... Ela me perguntou se deveria ter esperança sobre aquela história e eu disse que sim, embora eu mesmo não tivesse caso o fato tivesse se dado comigo...
A - Mas o fato se deu também com você!
B - Por isso mesmo. Tem coisas que são empíricas, não adianta.
A – Estou preocupado com você...
B – Por quê? Porque não sorrio mais como costumava – 24 horas por dia?
A – Mas você ainda sorri 24 horas. Não te vejo melancólico ou taciturno.
B – E isso é ruim?
A – Não, é só que...
B – Ela precisava ouvir coisas bonitas. Ouviu. São coisas sinceras da minha parte. Espero mesmo que sua vida se acerte. Por isso não posso medi-la pela minha vivência.
A – Mas o que a sua vivência te diz?
B – Que muita água vai rolar, minha querida. Ou se preferir, que sou um hipócrita.

Kiss















(Vladmir Kush)

21 de out de 2009

A dança

Da primeira vez que ele me tirou para dançar, desajeitadamente pisou no meu pé. Todavia, no baile seguinte, resolvi dar-lhe uma segunda chance:

- Quem nunca pisou no pé de alguém que atire a primeira pedra...

Ao vento

Espantei-me com o amor perene que permeia minha vida.

20 de out de 2009

Diário: O Processo

Ontem fez dois meses que algumas coisas mudaram na minha vida, mas só lembrei disso hoje de manhã. Será isso um sinal? Mais especificamente de quê? As coisas mudaram e mudei com elas. Aliás, estou em processo de - sempre.

Eu acho que o que realmente importa é sempre o “como” e não o “o quê”. Todo mundo tem seus momentos de glória e de lama – isso é o “o quê”. Já o “como” pode ser tanto como você chegou lá quanto como você pretende sair (hohoho) – na minha opinião, muito mais revelador de quem somos e nos tornamos ao longo da vida. Em suma, tudo gira ao redor do processo...

E nesse processo de aprendizado, sempre descobrimos algo sobre nós, não? Pois descobri que meu amor é incondicional e quero abraçar o mundo – o que por vezes se revela algo negativo, por eu não estar ainda totalmente familiarizada com tais procedimentos. Mas o fato é que é difícil amar vegetais [okay, fui injusta agora, logo que até vegetais reagem a estímulos externos].

No fundo, acho que a maioria de nós espera que suas palavras ou atitudes repercutam na vida dos outros, não? Para que eu vou passar suas camisas se você não se importa em vestir camisas amassadas? Posso passar suas camisas, mas vale muito mais a pena passar as camisas de quem se importa com elas (ou de quem as rejeita). Do contrário, parece desperdício.

Pelo menos é isso o que eu espero. Não conto mais piadas para quem não se importa com elas, mas só para quem se habilita pelo menos a ouvi-las [sim, isso foi uma metáfora: quem me conhece sabe que não sou engraçada e nem de longe tenho talento para piadas, mas já não ressinto disso hohoho]

Mas excesso de expectativa é altamente nocivo. Assim, vai de cada um distribuir as expectativas de modo saudável ao longo de seu dia. Ou não. Só não espere ganhar na loteria para ser feliz.
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Descoberta do dia: Cair da cama sempre machuca, não importa se você tem 7 ou 70 anos.
Descoberta musical: “All the young dudes” (Mott the hopple)
Auto-conhecimento: quando preciso ser didática e objetiva, sou linear; do contrário, os pensamentos vão brotando e sendo exteriorizados e os amigos lineares com os quais converso se perdem.
Desejo do dia: Dominar o mundo.
Música: “Wake up alone” (Amy Winehouse).

19 de out de 2009

Lili vai para a arena

Armada de palavras, Lili se lança ao campo de batalha. Todavia, dessa vez não vai de peito aberto, pois, com as suas palavras mais queridas, teceu uma armadura (quase) inquebrável.

É o preço que se paga pela experiência.

Todo dia ela faz tudo sempre igual. Mata um leão. No dia seguinte, outro leão. E depois, outro leão. Sempre com suas palavras, pois é só isso o que carrega consigo. Na sua aparente fragilidade, Lili poderia dominar o mundo – afinal jaz latente em seu espírito a essência de uma grande ditadora.


Mas contenta-se em matar o seu leão diário e diariamente termina seu dia com uma das cenas de Brave Heart.

18 de out de 2009

Febre

O sol ardia intensamente. Meu rosto ardia pulsante. E o cigarro entre meus lábios ardia secamente. A fumaça subia e se misturava aos pensamentos que vazavam pelos meus ouvidos. Coisas demais para um sujeito só. Passei a mão pelo rosto e constatei que esquecera de fazer a barba. As meninas saíam para a rua com seus vestidos de verão e achei que a vida não era justa. Não era a primeira vez. Falavam sobre as provas. Eu dava ombros, mais nada daquilo me importava, só o Coltrane que pulsava na minha cabeça e pensei em puxar o gatilho. Eu achei que fosse morrer porque aquela febre não diminuía. Mas o cachorro – barriga ao sol – me impediu: cavou um buraco perto do banco de cimento e enterrou uma wafer de morango.

Meu cigarro foi acabando e só sobraram minhas cinzas. Ambos havíamos sido consumidos.

16 de out de 2009

Sadismo

Dois urubus se encaram ferozes no meio da turba. Não sabem porque brigam, mas de fato não importa mais. Primeiro é o olhar que fuzila. Depois um avança sobre o outro - ambos implacáveis. O cheiro do sangue e do ódio pode ser sentido a milhas e milhas de distância. E a carnificina continua até que um deles cai.

O outro, com seu olhar de aço, deixa-o para morrer sozinho - embora houvesse tantos outros urubus presentes, nenhum deles estava realmente lá.

Tão logo o primeiro urubu se metamorfoseou em carcaça, veio o segundo para devorar-lhe a carniça.

14 de out de 2009

Inversão (1)

Sou totalmente contra a violência, mas constatei na pinhata um certo ar terno e resolvi colocar a imagem aqui para vocês. Sem esquecer, naturalmente, do elemento surreal que compõe a cena - e talvez o pesadelo de muitas criancinhas a maltratar esses pobres bonecos (?). Eu não teria coragem de espancar uma pinhata...
Lembrete: ao menos não temos tal tradição no Brasil - não que eu saiba. Mas temos a malhação de Judas - coisa tão feia essa...

13 de out de 2009

Lili diz "adeus"

Nem o Pequeno Príncipe – com seus olhos de veludo azul –, nem Thor – com seu silêncio inquebrável – tinham respondido suas cartas. Lili não fez salseiro por isso. Pensou que talvez cartas de amor e cartas de saudade pudessem ser intimidantes e até mesmo ofensivas – embora não soubesse dizer exatamente como. Ou ainda, talvez, não fossem importantes como havia julgado. Não seria a primeira vez que superestimaria as coisas que fazia. Mas não se envergonhou por isso: as pessoas nem sempre dão o mesmo valor às coisas.

Nem dramas nem atitudes passionais, ela simplesmente disse adeus. Não era do tipo que se jogava sobre o caixão do falecido. Era do tipo de trazia flores. Entregou-as ao dois na plataforma de embarque. Nenhum dos dois a olhou. Já não sabia quem estava deixando quem ir embora. Mas o “adeus” era certo.


Com seu vestido amarelo, por fim, despediu-se de ambos na estação de trem e deixou que seguissem. Um certo desapontamento subterrâneo tocou a de leve. Mas tão leve Lili estava que deixou que chegasse à superfície em forma de lágrima e disse adeus a ele também. Partiram os três no mesmo trem.

O próximo trem sairia dali a pouco. Pegou sua maleta abarrotada de histórias e o guarda-chuva – quebrado. Foi quando ouviu uma voz:

- Lili...

Era o Homem de Lata. Muito surpresa, ela não sabia o que dizer. Tinha lhe escrito uma carta também – uma carta de desculpas. E ele havia lhe respondido – uma carta cheia de explicações e algumas desculpas. Acho que os dois complicavam a vida.

E lá estavam os dois na estação de trem. Um silêncio sem fome, só presença. Ela tinha dito que precisaria continuar sem ele, embora dele muito gostasse. Ele lera a carta e também não sabia o que dizer, porque quando as palavras não dão conta, preenchemos o vazio com silêncio.

Mas ele conseguiu.

O Homem de Lata encontrou umas palavras, uns gracejos para fazê-la sorrir. Aquele seu sorriso de quem se importava de verdade. Ele queria que ela ficasse. E ambos pareciam novamente perdidos na teia que havia sido tecida ao longo dos anos. Lili não se importou, teve vontade de abraçar aquela figura tão querida. Mas conteve-se:

- Está tudo bem sim...

Não era da natureza do Homem de Lata ir até a estação e pedir que Lili ficasse. Todavia, por algum motivo inexplicável, ele foi até lá e pediu – emaranhado no silêncio que por pouco não os devorara.

Ele pegou a maleta cheia de histórias e os dois caminharam juntos. No fundo, Lili sabia que logo se separariam novamente. Mal sabia o Homem de Lata que, secretamente, ela pensava em tomar o trem do dia seguinte.

12 de out de 2009

Clara e a epifania


Ele já estava a uns três quarteirões da casa de Clara quando se deu conta: havia esquecido alguma coisa lá. Não conseguia se lembrar do que era nem se esforçou muito para tal. Instintivamente, sabia que precisava voltar. Tocou a campainha duas vezes. Clara atendeu. O seu espanto ao vê-la foi genuíno. Quem mais poderia atender senão ela? Muito séria, transbordava aquela lucidez e aquela verdade lancinante. Ele pensou ter dito algo como “oi”, mas não estava muito certo. Um moletom qualquer. Shorts. Pés descalços. Cabelos soltos e bagunçados – ainda úmidos. Tinha um halo de sono e de morte – embora seus olhos, incandescentes, chispassem vida.

- Ah! Os livros?
Ele fez que sim com a cabeça. Estava tonto: nunca a tinha visto tão bela nem tão letal. Quer dizer algo, mas não sabe o quê. Preferiu não dizer nada. Queria encontrar as pupilas em seus olhos escuros, mas não conseguia. Eles pareciam querer tragá-lo para sabe-se lá onde. Um oceano de possibilidades talvez. Convidou-o para entrar. Ele aceitou hesitante. Ficou de pé junto à porta, com medo de se perder entre as pilhas de livros.

Pega numa estante cinza Senhora. De dentro de uma caixa, tira Um copo de cólera. De uma gaveta, o surpreende com Mrs. Dalloway. Sobre a mesa, numa pilha, A insustentável leveza do ser, Dom Casmurro e As horas nuas. Por fim, pegou um caderno com alguns poemas de Drummond, Bandeira e Castro Alves.

- Acho que é isso.

O silêncio imperava e ele a contemplá-la. Quem era ela? Não lembrava se aquele gosto dos lábios de Clara – que agora pareciam se concretizar junto aos seus – eram do que tinham vivido ou do que desejava agora. Não conseguia distinguir o que tinha vivido (teria vivido?) do que tinha sonhado - ou estava sonhando? Como podia tudo aquilo? Se conheciam há algum tempo, disso sabia. E ele não se lembrava de tê-la visto daquele modo. O despudor das mãos. A nudeza do rosto sem pintura. A ausência de qualquer perfume. Era simplesmente Clara na sua complexidade e completude.

- Quer um chá?

Fora surpreendido pelo convite que o chamava docemente a realidade. Viu um esboço de sorriso e hesitou. Um chá implicaria ir até a cozinha. Conseguiria sair de lá depois? Não trouxera novelo nem migalhas de pão para demarcar o caminho a ser feito dentro do apartamento de Clara.

- Não, obrigado.

Sem demonstrar qualquer emoção – tão diferente do seu jeito efusivo de sempre –, ela entregou-lhe a pequena pilha de livros e era como se Clara lhe entregasse a si mesma naquele momento. Ele quis tocar-lhe de leve a mão, mas ela recuou. Impassível e impossível.

- Acho que era só isso.

Ela concordou com um suave meneio de cabeça. E ele logo saiu. Clara fechou a porta sem olhar-lhe uma última vez. Saiu do apartamento com os livros desejados, mas a sensação de que esquecera alguma coisa permanecia.

Quinzinho e a esFINGE


Tanto falavam do cubo-mágico que Quinzinho, curioso, arranjou um. Sem receita nem nada foi montando. Queria mesmo desvendar o tal mistério. Ao final de míseros e exatos treze minutos ele olha o cubo montado.


– Ah! Todo o mistério e era isso?

10 de out de 2009

Mandando os demônios embora

Para o Felino

A - Por que você está tão feliz?
B - Porque eu me resolvi.
A - Vai se alistar no exército?
B - Não. Mudei minha orientação sexual. Você acha que as meninas vão gostar de mim?
A - Você é a garota dos sonhos de toda garota.
B - (sorrindo) Não era nada disso, mas bom saber.
A - Eu sei que não era sério...

8 de out de 2009

Preconceito Linguístico

Três amigos à mesa do restaurante universitário. Animados conversam até que um deles se depara e repara a enorme língua de boi em seu prato. Os três em choque e os demais estudantes vão passando e comentando. Meu Deus! O que é aquilo? Mas havia quatro lugares à mesa: o quarto jovem – um perfeito estranho para os três amigos – se deliciava com seu pedaço de língua de boi – um comportamento perfeitamente estranho para os demais.

Versinho Pluvial

Pouco me importa o guarda-chuva,
Pode até estar quebrado,
Mas o que tenho para mim
É que meu dia não vai dar errado
(Frau Forster)

6 de out de 2009

Mecânica feminina


Voltando para casa do trabalho, sempre passo por uma oficina mecânica. A dona é uma mulher madura, bonita e séria. O lugar é um brinco. Mas eu realmente não esperava ter ouvido o que ouvi: Laura Pausini tocando ao fundo. La Solitudine.

Bom dia

Os teus lábios de coral
– veludosavam –
O sumo de um pêssego.

(Frau Forster)

Lili e a gota d'água

A sua mágoa, Lili colocou dentro de um vidro de perfume vazio. Certo dia, não sentindo mais o cheiro de cinzas pela casa, foi consultar o pote e constatou estarrecida que ele estava vazio. Como podia se antes estava a transbordar? A mágoa havia vazado pelo fundo do vidro e se dissolvera na corrente de ar que atravessava sua casa. O vento a levara para longe. Olhando mais atentamente, percebeu um líquido claro e adocicado que brotava espontaneamente e disseminava seu cheiro de terra úmida pela casa.


O vidro de perfume estava cheio até a boca e Lili poderia plantar sementes novas agora. Só não entendia porque a mágoa logo desaparecia enquanto que aquele outro líquido parecia permanecer secretamente para sempre.

5 de out de 2009

Bolsa de Mulher

Porque uma vez eu disse à Miss Pineapple que sempre levava um benjamim comigo. Afinal, uma mulher prevenida vale por duas: benjamim, pilhas, guarda-chuva, capa-de-chuva (deu para sentir a tensão pluvial, não?), spray para a garganta (tão maltratada!), agenda, caneta, chave de casa (com uns três chaveiros), chave do serviço (dois chaveiros), celular (nunca usado), balinhas tic-tac, carteira, copo de plástico (dobrável!), niqueleira, bilhete-único, óculos de sol... isso sem contar a necessaire... mas acho que ainda preciso de um canivete.

Está certo, eu não tinha um benjamin comigo. Mas devia, porque fez falta.

(Diga-me o que tens na sua bolsa que te direi quem és...)

Sonho-metáfora

Sonhei que nós dois caminhávamos lado a lado na marginal Pinheiros. Conversávamos bastante, como sempre. Porém, numa certa parte do trajeto, nos separamos. Você preferiu atravessar diretamente enquanto eu tinha escolhido atravessar pela passarela. Não dissemos nada, só nos separamos. Sorri secretamente, pois sabia que o nosso destino era o mesmo.
(Mais uma vez meu subconsciente me prega peças...)

1 de out de 2009

Quarto de dormir (Arnaldo Antunes)

um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois
e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for
bem abraçada no lençol da cama vai chorar por nós
pensando no escuro ter ouvido o som da minha voz
vai acariciar seu próprio corpo e na imaginação
fazer de conta que a sua agora é a minha mão
mas eu não vou saber de nada do que você vai sentir
sozinha no seu quarto de dormir

no cine-pensamento eu também tento reconstituir
as coisas que um dia você disse pra me seduzir
enquanto na janela espero a chuva que não quer cair
o vento traz o riso seu que sempre me fazia rir
e o mundo vai dar voltas sobre voltas ao redor de si
até toda memória dessa nossa história se extinguir
e você nunca vai saber de nada do que eu senti
sozinho no meu quarto de dormir