31 de mai de 2012

Exorcismo coletivo ou De como não sei dançar

- Vamos apostar corrida até lá embaixo? - Charlie me perguntou.

Ela sabe que não sou chegada em corridas. Nunca fui.

- Ah quero não - respondi, apressando o passo, descendo as escadas...

Fui.

Eu fui o tiro que cortou o ar. Sem os pés no chão. Podia ter estilhaçado a vidraça. Mas eu era ar livre. Sem paredes - só o palco no fim  e Bowie no ar. Comigo.

- Corre! - gritavam alguns animados.

E eu continuei correndo. E correndo. E correndo. Não sei porque corri, porque corria. Também não sei porque parei. Mas parei e virei: Charlie tinha parado bem atrás, lá looonge, arquejante, asmática. Esperei que ela chegasse. Esperei dançando [?]:


E pensar que no dia anterior eu era a magricela de vestido bonito, salto alto, cookie na mão. Mordiscava-o enquanto o meu coração seguia passional a percursão. E eu ensaindo um passinho aqui. Outro ali. Mas não sei dançar. Mas esse não era o problema, porque nem que eu soubesse, lá não era lugar para dançar. Era um evento profissional. E de papéis sociais eu entendo muito bem.

Engoli a vibração da percursão. Meu corpo reverberava e absorvia todas as notas daquelas batidas. E eu querendo sair dançando loucamente, jogar os sapatos, os cookies, largar a bolsa no chão. Rodopiar.

Mas não.

De volta a Bowie, fui a um dos eventos do 16º Cultura Inglesa Festival no último domingo. Várias bandas se apresentaram no Parque da Independência (SP) e a noite terminou com a apresentação de Franz Ferdinand - e eu maldizendo o dia em que nasci pisciana para ter os pés tão sensíveis.

Gostei muito dos shows. Muito mesmo. Aquele som que percorre o seu corpo e sai pelos seus poros. Parece que te limpa, purifica. É quase um exorcismo coletivo: adeus preocupações, demônios, problemas... Ao menos por uns três minutinhos. E os braços se agitam, cabeças, cabelos, gritos, pulos.

Por esses três minutos, somos todos iguais: a nosso desejo é a mesmo. Que a música nos torne mais do que os meros mortais de cada dia. Queremos a comunhão com a voz, a melodia, os instrumentos, a multidão, as luzes. Somos um só cantando juntos:



Saí de lá deixando para trás três toneladas. E as cinzas.

[e continuo pensando em como eu corri naquele dia e em como muitas vezes a gente desconhece a si mesmo - o que é muito bom: imagine o tédio se conhecer por completo!]

30 de mai de 2012

E eu lá vou saber?

Porque eu não sei. Ninguém me ensinou. Não nasci sabendo. Ninguém me explicou. E eu esperava o quê? Que me pegassem pela mão e dissessem:

- Ó nenê, é assim.

Também não li livros. O que tentei ler achei tudo vazio: teoria sem prática é cobaia de laboratório - dissecada. Não sei como se faz, preciso aprender. Alguns até me ajudam, mas tem coisas que é você com você mesmo.

O que me resta então, antes de tomar qualquer decisão, é fazer algo que bem sei fazer: observar.

29 de mai de 2012

Diário: Juventude

Acho engraçado como as pessoas atribuem muitas coisas em mim à minha juventude. E olha que eu não sou tão jovem. Embora pareça mais jovem. Nunca sei se é bom ou ruim. Hoje, por exemplo, o grande assunto da manhã foi a minha ausência de casaco e sapatos.

- São os hormônios da juventude - me disseram com simpatia.

Todos enrolados em seus casacos de lã e eu de pés de fora - sim, eu tinha os meus motivos, mas enfim.

O fato é que lá pela hora do almoço, cruzei com uma amiga - casaco nas mãos e mangas arregaçadas.

- Da próxima vez, te ligo antes de escolher a roupa - ela me sorriu.

Todos derretiam enquanto meus pés tamborilavam contentes e radiantes. Quero me livrar do peso dos casaos de lã. Sejam eles quais forem.

28 de mai de 2012

Ah o Drama [1]: Conjugando o verbo sofrer

[...] Tem  vezes que a gente olha para a própria vida e diz:

- Cara, eu vou sofrer mesmo.

É a constatação de um fato ainda a ser consumado, mas é algo quase fatal: parece haver muito pouco a se fazer para se evitar o tal sofrimento. Mas será que se precisa evitar o sofrimento a todo custo sempre? Não sei, às vezes acho que as pessoas o evitam demais - e não sei até que ponto isso é bom. Também não digo que chamo o sofrimento para lhe dar um chamego:

- Ô coração, senta aqui no meu colo e tire um cochilo!

Mas também mandá-lo embora como se ele não tivesse nada a me oferecer... Ah... Fica complicado. Principalmente porque o

- Cara, eu vou sofrer mesmo.

não é necessariamente conformista e acomodado, talvez possa ser antes um indício de que se vê as consequencias de nossas ações, ações nem sempre essas ensaiadas e bonitinhas. Na maioria das vezes não são. 

Às vezes, é como um transplante de rim: você sabe que precisa, mas não tem total controle da situação. Outras vezes, é só uma questão de não se adaptar na velocidade que requer a mudança. Seja como for, tem coisas que só sentindo na pele mesmo para aprender.
 

26 de mai de 2012

Diário: Noturnos

Vou chegando em casa. Estaciono e desço do carro. É noite escura já. Poucas luzes acesas e um pouco de friagem. Pego as bolsas, contorno o carro. Já a chave na mão direita quando alguém grita ansiosamente meu nome, lá da esquina.

É um rapaz que agita a mão efusivamente. 

Alto, barba e bigode. Não mais do que isso pela luz fraca e amarelada.

Aceno de volta, mecanicamente. E com um certo temor. Aceno sem saber para quem aceno. Puro reflexo. Ainda assim, hesitante. Quem poderia ser? Quem me reconheceria e daria-se ao trabalho de me chamar àquela hora, ainda que estivesse só passando? 

Me contentei em entrar em casa e guardar a curiosidade junto comigo.

25 de mai de 2012

Pacto

Eles juraram. Ele a fez jurar: caso não conseguissem ficar juntos, matariam-se. 

E estava feito o pacto. 

Depois de muitas reviravoltas, perceberam que seria impossível ficarem juntos.

- O pacto - ele disse, os olhos brilhando, a lâmina da faca.

O pacto. Cada qual com sua faca: matariam-se ao mesmo tempo. Ele, desprendido que era, encravou-a no peito, dramaticamente. Não morreu de pronto, teve ainda algum tempo agonizante ainda. Tempo o bastante para vê-la indo embora sem pesar.

Ela amava mais a vida do que ele.

24 de mai de 2012

O Bambuá Inabalável

Eu gosto daquelas frases de sabedoria oriental, principalmente uma segunda a qual temos que ser flexíveis como o bambu. Mas eu preferia ser sólida como uma rocha. Mesmo. É porque nem só de bambu vive o panda e nem só de flexiblidade vive a gente.

Porque às vezes a vontade é a de ser um baobá. Ou mesmo o cacto do Bandeira: belo, áspero e intratável. Mas baobás me fazem pensar em raios que os partam. E cactos sempre acabam parando tudo e atrapalhando o tráfego, o sábado e o que mais o Chico [meu amor] quiser.

Então como ser inabalável? Um híbrido de bambu, baobá e cacto? Cacto tem espinhos. Sem cactos. Quero criar raízes, numa mistura de bambu e baobá. Pode? 

E enquanto enquanto não crio flores [baobá dá flor?], vou até que inabalável dentro do possível. Comecei mentindo para mim mesma [mentindo? muito bonito!], mas depois não é que eu paguei para ver e vi que vai? É uma questão de trabalho interno. Um tal burilamento [adoro essa palavra] que começa a cavocar a gente, bem no íntimo. 

E um dia você chega ao ponto de nem mais precisar respirar fundo para buscar calma, paciência ou paz de espírito. Tudo simplesmente flui. E você percebe que dorme melhor, come com mais prazer e olha para as coisas de um modo diferente. E talvez, se tiver o olhar atento [olhos de ver], vai perceber pequenas flores desabrochando entre seus cabelos.

23 de mai de 2012

Eufemismo

Ela foi se aproximando e pelo seu olhar eu soube que lá vinha. Muito firme, ela me perguntou:

- Posso te fazer uma pergunta?

"Agora seriam duas", pensei.

- Diga.

- Você acha que eu sou folgada e me encosto nos outros? - ela perguntou, seríssima.

- Acho que você sabe fazer muitas coisas sozinha e sem a ajuda dos outros - respondi muito firme.

- Mas você acha que sou folgada e me encosto nos outros? - ela insistiu, quase brava.

- Acho que você fazer muitas coisas sozinhas e sem a ajuda dos outros - repeti mais firme ainda.

Ela ficou me olhando, tentando entender quando tomo mundo tinha deixado de dourar a pilula.

22 de mai de 2012

Culpa da falta de talento. Mesmo?

Eu podia ter falado das aulas de canto. Podia ter dito que queria muito cantora. Mas limitei-me a dizer-lhe que amava o teatro. E que adoraria trabalhar nos palcos. Eu tinha vontade, paixão (a sensação de se estar no palco era uma coisa sem igual, nunca senti nada parecido). Mas me faltava talento.

- Não é uma questão de talento. É uma questão de estudo e prática. Se você de dedicar, você consegue. Eu mesmo não me considero talentoso - ele me disse com simpatia.

Mal sabia ele que, para mim, não era uma questão de prática ou estudo. Era tudo uma questão de coragem. Ou a falta dela. Porque fracassar em algumas coisas parecia ser fracassar na vida. Era a morte. Acho que é o peso que damos às coisas. 

Ouvindo Chão de Giz (Zé Ramalho)

21 de mai de 2012

Vem

Você bateu à minha porta. Timidamente. Uma timidez de menino encantadora. Abri, mas você não entrou. Parecia ter criado raízes. Receio dos frutos ou das flores? 

Era um impasse. E eu te sorri e sussurrei:

- Vem.

Medo de eu te mandar embora? Te estendi a mão. Meu apartamento de luzes quentes. Lâmpadas incandescentes. Perfumes diáfanos. Incenso. Meu rosto escondido nas sombras das cortinas. Escondido nos ardis que jurei não usar com você.

Mas é sério?

Não sei. E precisava saber? Desde quando as pessoas precisam de certeza? Achei que só eu precisasse delas. Tivesse precisado. Não preciso de certeza. Preciso do que quero agora. 

E minha mão estendida. E a você a toca. Mão fria. Precisa entrar para um bom conhaque.

- Vem.

Receio de que? De mim. Mas olhe a inocência bordada no meu rosto. Na minha boca ansiosa. Eu te convido para entrar, mas não posso te puxar pela mão. Você tem que querer. E quererá? Me aperta a mão. Quer. Me quer.

- Vem.

E como que despido de seus receios - fossem quais fossem - você dá um passo a frente, sabendo ser esse um caminho sem volta.

20 de mai de 2012

Física quântica

Descobri que gosto das coisas difíceis. E das pessoas difíceis. Não é que seja uma coisa consciente, que eu chegue e diga: Você é difícil? Então quero você. Também não é que eu goste de sofrer. É simplesmente como as coisas são. É como as coisas acontecem.

Talvez eu atraia a dificuldade. Talvez eu leve jeito para lidar com ela. Acho que, no fundo, eu sei que dou conta. Nem que seja para bater o martelo e falar uma hora: foi difícil, mas eu tentei. A tentativa é uma coisa que valorizo, do mesmo modo que valorizo o processo em detrimento do resultado.

É por isso eu gosto tanto tanto de você, mesmo você sendo chatíssimo, ansioso ao extremo e por vezes inconveninte. Gosto de olhar para essa sua cara de criança e pensar: você ainda vai ser um grande homem.

É por isso que eu escolhi a profissão que escolhi. Não que as coisas estejam fáceis hoje em dia e só minha carreira seja uma coisa meio complicada. Não mesmo. Já foram fáceis? Será que tudo esteve já mais calmo e tranquilo algum dia? Só acho que hoje as dificuldades são outras, são diferentes das dos nosso pais.

É por isso que gosto de V. Woolf. Que fui ao experimento teatral de minha amiga Diva Ruiva. Há sempre o risco de se sentir inadequado, incapaz, estúpido ou burro mesmo, mas eu arrisco. Arrisco e não é porque eu seja louca por desafios. É porque simplesmente as coisas são assim.

18 de mai de 2012

Doutrina da Contenção

- Tia, posso chorar na aula? - ela me perguntou com os olhos marejados, já fora da sala.

Olhei para ela espantada:

- Meu bem, você pode chorar quando e o quanto quiser. Chorar é o tipo de coisa que a gente não pede permissão. 

Abracei-a e ela começou a soluçar. Comecei a pensar em todas as coisas para as quais não deveria haver permissão. Chorar era apenas uma dentre muitas. E pensei em todas as vezes em que não me permiti chorar ou sentir quaisquer outras coisas.

De repente, o choro e as outras coisas deixavam de ser prioridade. Virariam estorvo com o correr dos anos - e das lágrimas?

17 de mai de 2012

Folie à deux

- Tenho medo de enlouquecer - me confessou Frida, muito séria, depois que todos tinham saído da cozinha.

Admiti que também tinha, mas acabei não lhe contando qual era a minha grande estratégia: "elouqueça os outros antes que eles te enlouqueçam". Estratégia essa que vinha dando muito resultado. Além disso, por vezes era necessário desligar-se do que acontecia ao redor, abrandando a gravidade das coisas graves que iam tomando conta de tudo e pesando ao nosso redor.

Frida arrumou os cabelos presos e o casaco felpado. Olhei para seu rosto: tão cansado quanto o meu. Nós duas tão jovens e já com tanto em jogo. Tanta coisa nas mãos. Tanta responsabilidade. Tanta falta de jeito para coisas que ninguém conseguia resolver e que nós duas, cada uma ao seu modo, tentávamos levar.

Ainda assim, havia o medo de enlouquecer, pairando silencioso e gritante em nossos ouvidos. Aquele silêncio pré-apocalíptico, antes de explodir o peito, o crânio, antes de explodir a bomba.

Os pratos vazios sobre a mesa e nossas almas tão cheias de tudo. Respiramos fundo e rimos. E falamos sobre arte. Porque o riso e a arte iriam nos salvar. E a literatura. E o nosso bom senso e a nossa lucidez. Porque aquele que se embriaga em demasia não consegue se salvar quando o navio está afundando. Mantinhamo-nos ligeiramente ébrias, mas sóbrias o bastante para pular no mar e nadar até a margem quando chegasse a hora - que logo chegaria.

E, além de tudo, sabíamos nadar. Eu olhava para essa minha nova amiga e nela me reconhecia. Um alívio sempre é reconhecer-se no outro e saber que com ele pode se dividir, ainda que em silêncio - no riso ou no pranto - medos concretos como o de enlouquecer.

16 de mai de 2012

Em movimento

 
A vida é uma montanha-russa. Eu já disse aqui e volto a dizer. Altos e baixos. E tudo numa velocidade que a gente nem respira. Mas eu sou teimosa e teimo em respirar. E entre altos e baixos, vou buscando o meu momento. Seja no carrossel, seja na roda-gigante. E com direito a algodão-doce.



13 de mai de 2012

Circense

"Old Clown" (2008) de Lubomir Tkacik
O primeiro se equilbrava na corda bamba só para impressioná-la... Ligeiro e ágil. Ameaçava cair e saltou, de uma pirueta, pousando são e salvo e brilhante no solo. Estrela cadente agora terrena.

Ela olhou para ele e seu olhar apagou-lhe o brilho. Buraco negro.

O segundo tirava coelhos da cartola e cartas da manga só para cativá-la... Charmoso e encantador. Pediu-lhe que escolhesse uma carta e adivinhou-a com facilidade. De um punhado de lenços, tirou um buquê de rosas.

Ela olhou para ele e para as rosas: seu olhar as fez murchar.

O terceiro domava o leão só para surpreendê-la... Corajoso e poderoso. Mostrava toda a sua masculinidade no estalar do chicote - bicho tinha que ser domado. Seu sorriso confiante reluzia o reflexo das grades do felino.

Ela olhou o leão e para ele: o primeiro, fez miar; o segundo, subjugou com o olhar. O sorriso confiante ficou opaco.

Teria preferido o despretencioso palhaço, com seu rosto pintado e sua falsa alegria.

12 de mai de 2012

20 e poucos anos: Misbehaving

- E aí ele me perguntou se eu iria ao pancadão com ele... - fui concluindo.

- Pancadão? Você, Lô? - Raul riu de mim.

- Aí olhei para ele e disse que não era a minha praia. Ele parou por um instante e pareceu me dar razão: "é, você é comportada demais mesmo".

- Esse povo acha você comportada porque é o que parece quando olham para você.

- Não é? Posso enganar quem eu quiser. Eles não entendem que existem mil e um outras maneiras de se comportar... mal.

Sorri e ganhei de Raul um beijo na testa.


11 de mai de 2012

Take it back




Ontem fui até a sua casa, pedir minhas asas de volta. Pedir, não implorar. O sangue ainda verte pelas minhas costas. Deixa rastro. E mal sei eu que a vertigem é partilhada.

10 de mai de 2012

Sobre vingança e coisas cafonas

E ele era um turbilhão - incandescente e intenso. Perdia noites de sono, tentando entender onde tudo tinha se perdido - como se sempre houvesse explicação para as coisas da vida. Já tinha quebrado tudo e colocado fogo em tudo - como se todo aquele ritual pudesse exorcizá-lo de tudo o que ela tinha significado.

Sua paixão sucumbira e tudo o que ele mais queria agora era vingança. Ela tinha enterrado o amor de ambos com tal alegria doentia que a morte para ela seria pouco: ela precisava ser humilhada publicamente, seu orgulho reduzido a cinzas, seu corpo apetitoso a farelos (que nem os pombos iriam querer), sua existência (quem dera vazia) reduzida à nada.

Pois numa dose de cólera, ele teve um visão, uma epifania. Ela nunca gostara de andar abraçada com ele, nem de beijá-lo em público, nem de demonstrar afeto. Era fria. Rainha das Neves. Não gostava de cartões, bombons, presentinhos, flores... Muito menos de flores. Rosas então? A morte.

Então foi assim que decidiu matá-la.

Compôs uma serenata, a serenata mais bela que alguém já fizera. Comprou bombons, flores e chamou um carro de som para acompanhá-lo certa noite ao apartamento dela.

Ele chegou, seu corpo cheio de... Ele não soube dizer. Endireitou o violão elétrico e começou a tocar. E tudo parecia girar ao seu redor. Agora era tudo ou nada. 

Ela saiu para a sacada, morava do primeiro andar. Seu rosto era de espanto, mas mãos imóveis. Continuava irritantemente bonita, mesmo pálida e petrificada. Ela ouviu quase até o final, pois antes do fim já estava no térreo, cobrindo-o de beijos, os beijos mais incandescentes e intensos que ele já vivera - pois todos sabem que beijos são vividos.

E então ele se viu misturado, como não tinha notado estar antes. E viu seu amor zumbi ressuscitar despedaçado do túmulo. Os crisântemos tinham virado rosas, como água virara vinho.

9 de mai de 2012

na sua janela

Ele vinha com suas provocações, seus comentários, seu desprezo, suas ridicularizações. Queria ver até onde ela aguentava ir, até onde segurava o ar nos pulmões, a voz na garganta, as lágrimas nos olhos.

Ele esperava que ela se sentisse cada vez menor, com as doses homeopáticas de maldade que ia tentando destilar pelos seus dias.

Só não esperava que, ao ser perguntada sobre como estava, ela respondesse, ainda que despedaçada:

- Melhor impossível.

O sorriso dela era honesto e duro. E ele se viu desarmado: ela era a bala que estilhaçara a vidraça.

8 de mai de 2012

E o que vem depois do começo?

Porque todo começo é difícil. Ouvi isso mais de uma vez e sempre acreditei nisso. Todavia, ultimamente, a pergunta que não quer calar é:

- Quanto tempo dura o começo?

Porque eu não sei mesmo o que pensar. Porque talvez dessa vez não seja uma questão de ponto de vista. Porque eu sou realista com matizes otimistas e algumas coisas simplesmente se tornam insuportáveis, por mais Polianna que uma pessoa possa ser - o que não é o meu caso.

Porque às vezes as coisas mais importantes, as decisões mais sérias e decisivas parecem estar além de nosso alcance. E o que eu faço enquanto o mundo desmorona e ninguém faz nada? Tento manter o dique sozinha e salvar a Holanda como o menino da história?

Porque algumas coisas são tão intensas e parece que envelhecemos dez anos em uma semana. Dez anos em um dia. E, ainda assim, sem conseguir chegar onde se precisa. A andorinha que não faz verão sozinha, num impasse ou perdida no meio do caminho.

7 de mai de 2012

Muito romântico

Para você

Porque você me comove. A lentidão dos seus passos pesados. O jeito como arruma os talheres sobre o prato. O modo tranquilo como folheia seus milhares de livros. A delicadeza com a qual arruma a cama. O total embaraço no salão de dança.

A sua quase sempre tão pensada escolha de palavras. E a profusão e o fluxo intenso das mesmas em momentos passionais. Me comove a sua intensidade morna que transborda e inunda a sala do nada. Represa que estoura. Seu olhar sonolento a pousar nos meus olhos.

O tique do seu olho esquerdo me comove. Assim como o lóbulo intócavel da sua orelha direita. A sua maneira de ajeitar a gravata. Suas meias sempre trocadas. O relógio sempre esquecido me comove. E o seu modo de encarar o tempo também.

E dói tanto que você nem imagina. Dói porque você não sabe, nem vai saber. Você vai achar cafona, porque, para você, afeto sem ensaio é feio.

Na verdade, eu tenho medo. Medo de você não achar cafona. Medo de você me querer. Medo de eu, lá no fundo, te comover também.

6 de mai de 2012

Santinha e o Destino

Uma festa na casa de Clara. Santinha brinca com um lacinho do vestido e confessa para Lô:

- Sabe que eu cismei que vou casar com um engenheiro gringo e mais velho?

- Casar?! Credo, Santinha! Quer dar golpe do baú em velho gagá? - Lô comenta.

- Que golpe do baú que nada! Eu só acho que é o meu destino, sabe? - ela sorri, sonhadora.

- Se você diz... Mas é que eu acho que tem tantas outras coisas na vida! - explica Lô.

Clara chega até as duas trazendo alguém:

- Lô e Santinha, este é o Hans. Ele é engenheiro, velho amigo do meu pai e acabou de chegar da Alemanha. Ele está louco para experimentar a culinária local. A Santinha tem um restaurante fantástico, sabe Hans?

5 de mai de 2012

Sobre meninas e lobos

- Mesmo que você fez isso com ele? - perguntou o Caçador chocado, impressionável e impressionado.

- É sim - Chapeuzinho Vermelho pegou uma colherada de sorvete tranquilamente.

- Nossa, Chapeuzinho! - ele deu um assobio.

- Que foi? - a colher parada no ar.

- Quem te olha não diz que você é capaz. O que você fez com o Lobo.... Foi tão... Cruel - gole de cerveja na garganta seca - E ele era um cara tão legal!

- Ei, quantos anos você tem? Doze? Não fiz por mal. É a vida - sorvete derretendo na boca.

 - Talvez a gente não se dê conta do poder que tem - matutou ele, bebendo o último gole de cerveja.

- É, talvez - ela respondeu sem dar atenção.

- Só que você acabou fazendo de novo - o Caçador ponderou.

- Eita papo de mulherzinha. Fiz o quê? - leve ar de irritação de Chapeuzinho.

- O que você fez com ele antes: maltratou outro Lobo - o mesmo ar paternalista de sempre.

- Sim e totalmente ciente, como da primeira vez - ela sorriu com satisfação e arrumou a boina vermelha - Às vezes fazer o outro feliz dá prazer. Às vezes é a sua miséria que nos enche o coração de alegria. É uma linha tênue entre um e outro, mas o que permanece é o prazer.

4 de mai de 2012

Perdi minha identidade!

E não sei onde! Ora essa, porque se soubesse não teria sido perdida!

... e pode ter sido em qualquer lugar: nas revistas adolescentes, nas intermináveis filas de hospital, na casa do primeiro ex-namorado boboca, nos corredores do prédio da faculdade, nas reuniões do partido político, nas ideologias roubadas de livros de intelectuais, no moralismo seco e estéril, nas cervejas do botequim, nas festas a fantasia, na casa do segundo ex-namorado boboca, na primeira contratação, na primeira demissão, na perda dos meus pais, no desfile da Gaviões, na praia com o biquini, na viagem à Irlanda, na maternidade precoce, no primeiro ex-marido boboca, na lavagem cerebral da mídia, na bomba que eu explodi, no jornal de direita, no papo quadrado de esquerda, nas tradições burras, nas verdades sujas...

Perdi.

Se acaso alguém achar por aí uma identidade com uma foto 3x4 de carinha rechonchuda, olhos sonhadores e cabelos lisos e compridos (pequena crente, me chamavam assim), favor mandá-la para o endereço abaixo:

333, Lost Street.

Se bem que...

... me encaro no espelho e vejo que a pessoa já não é a mesma: outra cara e outros cabelos. Talvez eu simplesmente não precise mais daquela velha identidade de quando eu tinha os meus doze anos.

E, ainda assim, os meus olhos cismam em manter alguma coisa daquela época. Tem coisas que eu não entendo.


3 de mai de 2012

Les filles

Ela: - Ando em crises existenciais, profissionais e sentimentais. E você?

Ele: - Crise sentimental.

Ela: - Mesmo?

Ele: - É sim. Por conta de uma menina.


Ela: - É... Meninas às vezes têm esse efeito.

1 de mai de 2012

Entrega

Ela pareceu surpresa quando abriu a porta:

- Oi. Tudo bem?

Mas mesmo assim sorriu e pediu que ele entrasse. Ele hesitou, mas aceitou depois de notar os chinelos vermelhos que ela usava. O embaraço dele, embora sutil, era genuíno.

- Quer beber alguma coisa? - ela perguntou com um sorriso.

Ele hesitou, mas aceitou um copo de chá gelado. Enquanto ela ia até a cozinha, ele observava o apartamento. Pilhas de livros. Caixas de discos. Montes de roupas - dobradas e separadas por cores. Para ele, era tudo uma verdadeira bagunça, mas ela conseguia se encontrar com facilidade: sabia tudo o que tinha e onde jazia cada coisa. Para cada coisa o seu lugar. Olhava o lugar como se fosse a primeira vez, mas era apenas mais uma de centenas - e ele temeu/temia que fosse a última.

- Aqui - ela entregou o copo.

Ele sorriu timidamente e aceitou o copo. Tudo parecia estar em seu lugar, menos ele. Ficou olhando para ela, pensando. E lembrando. A história dos dois. Ah sentiu-se cafona, tão cafona que doía. Mas veio tudo num turbilhão - inevitável. Os passeios de bicicleta. Os banhos de chuva. Os pastéis de feira. Os luais à dois. As filas de cinema.

Permaneceram em silêncio. Ela sorria. E esperava que ele achasse o que parecia estar procurando com o olhar por entre suas coisas espalhadas pela sala: coragem.

- Então... Você está precisando de alguma coisa? - começou ela.

- Eu... eu... Esqueci uma coisa ontem à noite - disse ele, coçando a cabeça.

- Sim, eu sei. Já vou buscar - disse ela, pulando da poltrona cor de uva.

As fotos. As festas. As folias. O pacto feito com catchup - ela tinha visto aquilo num filme. Ridículo. Bons amigos. A virada de ano à beira mar. E ela tinha admitido, entre um gole de champagne e outro:

- Sou romântica, fazer o quê?

Mas quem sucumbia agora era ele.

- Aqui está - ela voltou segurando algo em suas mãos - Achei que fosse voltar para buscar.

- Nunca o esqueceria - ele sorriu amarelo.

Ela deu ombros singelamente e entregou-lhe o pequeno embrulho com delicadeza:

- Guardei na gaveta com meus pijamas, para ficar aquecido. Enrolei-o num cachecol.

Era o cachecol que ele tinha lhe dado. Ele abriu o embrulho: lá estava seu coração. Vivo e pulsante.

- Obrigado - disse ele, hesistante - Esqueci ontem, sabe?

Ela desviou o olhar.

- Não foi ontem não: faz tempo que o esqueceu aqui em casa. E eu o deixei ficar. Bom, acho que é isso, certo? - ela suspirou, derrotada.

- É, é sim - ele estendeu-lhe o cachecol triste, titubeante.

- Não, fica com você.

- Está bem.

Ele a seguiu até a saída, hesitante. Olhou para o apartamento novamente. Esquecera que o seu lugar ficava entre o disco do Coltrane, o livro de Bandeira e três cupackes de café da manhã. Olhou para ela, como nã olhava há muito tempo:

- Melhor ficar com você - ele devolveu-lhe seu pequeno embrulho - O lugar dele é aqui.

Sorriu.