31 de jul de 2012

Diário: O seu olhar melhora o meu

Uma rodinha feminina. O assunto era plástica, estética, essas coisas. Uma das meninas comentou:

- Meu marido era estrábico, coisa bem visível. Quando a gente se conheceu eu me apaixonei pelo olhar dele e ele era estrábico. Depois ele fez cirurgia porque era uma coisa que o incomodava demais, ele sofreu muito na infância, na escola. Tinha mil neuras. Mas, para mim, foi o olhar dele. Foi isso o que me cativou.

Pois é.

30 de jul de 2012

Da leveza fingida

Fuja. Fuja mesmo. Eu não vou te segurar. Não sou de segurar os outros. Como seguraria você? Justo você? E... Para quê?

Não vou dizer que te entendo. Que te desvendei. Só acabei me desvendando. Olho a venda sobra a cadeira vazia. Então... Era isso? Todo o alarde da sua existência barulhenta para isso?

Porque a sua leveza é uma coisa fingida. A leveza que admirei. Seu sofrimento te corrói por dentro e você ostenta essa máscara do humor. Se esconde atrás do próprio riso. Já conheci dezenas de pessoas como você. O riso nervoso de não saber o que fazer. Rir para não chorar. Pode ser bonito isso, mas te falta a dignidade do choro. De se reconhecer falho e humano e cindido. Porque, afinal, é o que todos somos.

Mas você não brinca dessas coisas. Porque é mais legal parecer sempre bem. Você chora sozinho porque não sabe se dividir. Não sabe, não quer. Tanto faz. Também há certa dignidade em chorar sozinho. Mas você chora?

Eu me achava feia por levar tanto chumbo nas malas da vida. E ao pouco estou aprendendo a ir largado um punhadinhos pelo caminho. Outro tantos eu transformo em areia. Passa tempo pela ampulheta. E eu te vejo passar pela vida com as malas pesadas, tão pesadas quanto as minhas. Só que você tem mala de rodinha. Só que uma hora você vai ter levar no braço esse peso que parece inexistir. Só então acho que você vai cair na real. Aí eu quero ver. Nada. Não quero mais te ver. Ver para quê?

Eu admito que não te entendo, não te absorvo, não te leio. Especulo - você não deixa ningupem chegar perto. Justo para mim, justo para você. Não sei nada disso. E não quero saber - não mais. Mas eu sei rir dos seus ledos enganos ao achar que me entende, me absorve, me lê. É aquela coisa que achar que somos todos cem por cento transparentes. É isso que você deve achar.

Eu achava que nós apenas encarávamos a vida de modo diferente. Mas a sua leveza só sufoca o que te sufoca. Eu deixo fluir, transbordar, sangrar. Você ri. Mas a sua leveza só sufoca o que te sufoca. E todos acabam mortos.

Quero ver quando transbordar. Na verdade, não quero ver mais nada.


29 de jul de 2012

Como [não] conquistar uma garota [1]

Ele: - Você está diferente.

Ela: - Diferente como?

Ele: - Está bonita.

Ela: - Ah. Obrigada.

Ele: - Ai agora eu fiquei sem graça...

Ela: - Não fique: você não tem mais quinze anos.

28 de jul de 2012

Sob medida

Cazuza quer a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. Outros querem um amor sabor vinho - e que faça cócegas.


27 de jul de 2012

Amor à grega

Para o Felino


A: - É amor platônico. Um porre.

B: - Platônico? Pelo que você me contou, acho bem aristotélico.

A: - Por quê?

B: - Porque se concretiza: é empírico.

26 de jul de 2012

Speechless

São raras as vezes em que não quero falar. Se bem que já não são tão raras. Falar cansar. Falar as mesmas coisas cansa. Viver cansa - mas só quando são as mesmas coisas: você é outro, mas as situações são as mesmas.Você quer mudar a música, mas o resto do mundo parecer querer insistir na mesma partitura.

Mas raras mesmos são as vezes em que não sei o que dizer. Nem o que escrever. Nem nada. Se eu estivesse mais próxima, teria sido a primeira a te dar um abraço. Mas não estou. Então tento descobrir o que dizer para tentar chegar até você e mostrar que estou aqui, ainda que desajeitadamente.

25 de jul de 2012

Poder

 
A: - Esse lance de poder me fascina...

B: - Interessante. Poder dos outros ou...?

A: - O meu. Saber do que sou capaz, o que posso conseguir, até onde posso ir. Foi aí que entendi porque alguém compra um carro que chega a 320km/h quando sabe que não poderá correr tudo isso: é a possibilidade que importa, não necessariamente a concretização.

24 de jul de 2012

Dos quereres abafados

A: - Você quer e não quer.

B: - Eu quero, mas finjo que não quero.

A: - Por quê?!

B: - Porque assim eu me convenço que não quero. E vou ser mais feliz assim.

A: - Você complica demais.

23 de jul de 2012

O vilão de hoje é a vítima de amanhã. E vice-versa.



Das duas uma: ou você se vitimiza e todo mundo vira vilão de novela das nove ou você assume a responsabilidade/ culpa (sim, essa coisa amarga) de todo mundo. Eu prefiro a terceira alternativa: não um meio termo, mas ver as coisas como realmente são. Claro que esse "realmente" e esse "são" esbarram em duas coisas fundamentais: primeiro, estamos imersos em subjetividade e relativismo; segundo, as coisas nem sempre são o que parecem. De novo essa caquinha entre o ser e o parecer. Seja como for, não dá para ficar nos dois extremos: antes de sermos vítimas ou vilões, somos humanos - o que também não pode justificar todas as coisas tortas.

22 de jul de 2012

A arte de dizer não

Me perguntaram. E respondi gentilmente:

"Não, obrigada", como se tivessem me oferecido uma xícara de café.

Mas, na verdade, a pergunta era um pedido de oferta. E eu não ofertei nada. Não, não pode. Não, não gosto. Não, não dá.

Posso brincar de surpreender, porque esperavam que eu dissesse "sim". E ficam me olhando chocados. Entretanto, de qualquer modo, eu estava sempre me desdobrando para surpreender e agradar e não sei mais o quê. 

Mas aí percebi que cansei de surpreender: eu quero ser supreendida. E então percebo que as pessoas não fazemd ideia de como fazer isso. E é nesse tipo de momento que eu destilo o meu sereno e doce:

- Não, obrigada.

21 de jul de 2012

20 de jul de 2012

De dieta da vida

[Achei esse texto rabiscado numa agenda velha, em meio a desenhos e frases soltas]

Às vezes, a vida é tudo o que um copo de guaraná pode ser num dia quente. Com uma sede ancestral, tomei de uma vez um gole gordo que deveria ter me feito cócegas - mas não fez. Não era o sabor doce tão conhecido e festejado. Era fenilanina. Bebida de baixa caloria. Era isso? Meus lábios, boca, língua, alma carregavam agora - temporariamente - o gosto insólito da fenilanina.

19 de jul de 2012

Girl afraid

E aí será que ele me liga? Será que eu fiz tudo certinho? Acho que correu tudo bem. Mas que diacho de papo é esse de "certinho"? Uai, eu fui eu mesma. Quem me quiser vai que querer como eu quero ser - e como eu sou. Sem artifícios, sem goma, sem laquê. Não estou dizendo que sou intransigente, é só que... Será que ele me quer tanto quanto eu o quero?

[E será que eu realmente o quero tanto assim?]

Será que ele liga? Realmente se importa? Nem para dividir o guarda-chuva. Será que ele não percebeu que a chuva estava forte? O que foi aquilo? Distração? Ainda que não seja por maldade, é ruim, porque não percebeu nada além de si mesmo.

- Divide o guarda-chuva?

- Ah sim.

Um "ah sim" vazio de tudo. Porque ele não percebe as coisas. Não percebeu minha mão no seu ombro. Então eu lhe disse. Tinha lhe dito antes. E nem assim. Nem nada. Não que eu esperasse tudo, mas me surpreendi com a ausência de migalhas.

Será que ele não se liga?

E será que eu não me ligo?

O telefone tocou. Ela atendeu. Era ele. Então ela percebeu as coisas. E desligou. De vez.

18 de jul de 2012

Analfabetos emocionais ou A Comunicação a desserviço da humanidade

A: - Não sei se entendi o que você quis dizer.

B: - Eu não quis dizer nada, eu disse o que queria. É diferente.

A: - Bom, espero que você tenha entendido o que eu disse, afinal, "não sou responsável pelo que você entende, só pelo que eu digo".

B: - Viu isso onde? No Facebook? Como se o que você dissesse fosse algo totalmente neutro, sem camadas de intenções, sem nada nas entrelinhas.

A: - Se você entender assim...

B: - Não, não. Você não pode lidar com as pessoas assim. As coisas que você diz têm peso, sabe? Elas ocupam um espaço e um tempo. Não dá para fingir que não. Mas o que você diz mais complica do que esclarecem.

A: - Hermetismo. E não tenho que saber te ler, oras.

B: - Podia tentar. Ou será que eu sempre vou ter que falar o que sinto? Será que você não lê certas coisas na minha cara?

A: - Não sou me saio bem nessas coisas, você sabe. E mesmo que me saísse:  você também não se deixa ler fácil...

B: - Hermetismo. Mas ainda que você não me leia, eu te digo o que eu sinto, coisa que não funciona.Você não consegue perceber coisas básicas e isso me assusta. Mas me assusta mais ainda perceber como tolero essas coisas suas...

17 de jul de 2012

20 e poucos anos: Umidade

Fazia tempo que não almoçávamos juntos, mas conseguimos nos ver numa quarta qualquer. Lô me chamou para seu famoso risoto de camarão:

- É um dos poucos pratos que eu sei fazer bem - ela sorriu ao dizer.

Na verdade, era o único que sabia fazer bem. O resto de sua habilidade culinária se restringia a docinhos e bolos. Mas, ainda assim, era mais do que eu sabia fazer.

Começamos a conversar e seus olhos de encheram de água. Às vezes, ela era assim. Lô segurou os soluços, foi se acalmando. Eu não precisava acalmá-la.

- Acho que eu nunca fui tão infeliz, sabe? - ela sorriu - Mas tô buscando um caminho, uma solução.

Passou um guardanapo pelas bochechas molhadas. Fiquei olhando para ela e pensei em coisas que não pensava há tempos. Coisas que nunca tinha colocado para fora. Coisas que nunca tinham transbordado de mim, como as lágrimas haviam transbordado de Lô.

16 de jul de 2012

Saldo marítimo

Voltei de viagem ontem com o coração leve e a cabeça cheia de ideias novas. Algumas reformadas. Outras meio radicais.

Revirei o passado como o vento revirou a areia a praia - como sempre: como ele sempre faz e como eu sempre faço. E é engraçado como a gente vai vendo as mesmas situações de modos diferentes, conforme o tempo passa, conforme os sentimentos passam, conforme a gente passa, conforme a uva passa.

Pus o pé em casa e outras coisas surgiram. Coisas realmente grandes, mas grandes e agradáveis como um filhote de elefante. Ou vários filhotes de elefante. Só sei que a impressão ainda é a mesma: a gente não é o era há uma semana atrás. Se isso é bom ou mau, bom, não sei dizer.

Voltei até com marca de biquini, embora São Paulo me tenha recebido com um abraço gelado. E eu levando a mala quando ela deveria estar me levando, haja visto a nossa diferença de tamanho.

Voltei me achando uma expert em temakis, pensando nas conversas profundas que tive com duas amigas a beira-mar, em meio a sucos exóticos. Questões existenciais, profissionais, emocionais, pessoais, sentimentais... Porque os meus questionamentos continuam os mesmos, ainda que eu já tenha me contentado em não ter algumas respostas.

E como uma delas disse: "quando se tem amigas não se precisa de terapeutas".

Voltei com um vestido frente-única, desses que adoro - beeem verão mesmo. E com uma máscara do Spiderman do Burguer King para Charlie. Estou morrendo de saudade dela. E a saudade dói mais quando faz frio.

Sonhei que um turco me escrevia cartas de amor e me seguia pelas ruas. Isso depois de assistir "De volta para o futuro". Pode? Pode sim. Pode tudo. Foi o ar marítimo. E a boa companhia - naturalmente.

P.S. detesto me esquecer como amo o mar.

11 de jul de 2012

E era uma vez a demora para vencer os chefões...




A: - E você, tudo certo?

B: - Na verdade não estou bem não.

A: - Normal: ninguém pode ser feliz o tempo todo. Isso seria muito estranho. E muito chato também.

B: - Sim, essas coisas são fases, mas bem que algumas fases não precisavam ser tão longas.

7 de jul de 2012

All that stuff




- Então... Era isso? - ela perguntou olhando para o teto.

- Era - ele respondeu olhando para ela.

- Ah tá - disse ela, levantando-se, calçando os sapatos e indo embora.

5 de jul de 2012

Memória sonâmbula

Ele estava indo embora de Peruíbe. O frio e a chuva pareciam ter encurtado o feriado e decidira voltar para São Paulo. Tudo parecia vazio e ele seguia pela Mário Covas. Solitariamente. Não havia mais ninguém, a não ser as gaivotas, comendo restos de pizza de um quiosque.

Lá longe ele a viu.

Reconheceria aquelas pernas e aqueles cabelos em qualquer praia, em qualquer lugar. Era ela. O mesmo biquini vermelho dos velhos tempos. Mas um outro jeito de andar. Mas aquele corpo que ele trilhara e com o qual trilhara por tanto tempo ainda parecia o mesmo, mesmo depois de tanto tempo. E foi tomado por um não-sei-o-quê súbito, que o fez encostar o carro e descer com o casaco.

Ficou observando de longe.

Lembrou de várias coisas num turbilhão sufocante e quando a memória se aquietou, o que restou explícito na superfície, para quem quer que quisesse visse, foram as coisas boas. As melhores que ele tivera com ela - ou com qualquer outra mulher.

Não era romântico, não mais, mas algo o impelia a continuar ali. Mas mais perto. E foi caminhando.

Lá menos longe estava ela.Ventava muito e ela parecia estar dançando. Rodopiava. Sozinha. Queria ser visto, mas ao mesmo tempo não queria. Tinha sido tudo tão difícil para ambos que temeu que a tempestade que ensaiava solene sobre sua cabeça devorasse ambos e nada restasse.

Ela caminhava em direção ao mar e ele a acompanhava pela orla. Ela molhando os pés e ele sempre às margens. Por fim, ela mergulhou. Ele assistia de longe, sem ação.

Quantas vezes não tinham ido juntos para Peruíbe?

Ela saiu do mar, se enrolou numa canga, pegou a mochila e se despediu da praia com o aceno teatral. Ele continuava olhando... Até que ela viu que ele olhava. Endireitou-se e, inesperadamente, sorriu. Tanto tempo. E ele ficou lá, sem ação, seu pés criaram raízes e ela se aproxima, o passo firme e resoluto. E ela acena, com uma inexplicável satisfação. Tanto tempo.

Acordou com o corpo mole, amortecido. A garganta seca. Uma sensação estranha de formigamento. Conforto e angústia. Estava em sua cama, em seu apartamento, em sua cidade. Sozinho. E pensava se ela também tinha tido o mesmo sonho, onde quer que estivesse.

Em seus lábios, sentiu a areia trazida pelo vento. O cheiro fresco do mar tornava o quarto insuportável.

4 de jul de 2012

Boing!

Queda livre? Sem dúvida.

Na brincadeira de queda livre, se atirou no poço mais profundo e sombrio...

...mas só porque sabia haver uma providencial cama-elástica lá no fundo.

2 de jul de 2012

Fómulas

Eu: - Não sei mais o que pensar sobre isso. Sério.

Pausa.

Eu: - Acho melhor não pensar em mais nada e só viver a minha vida.

Ela: - Esse não seria o certo desde o início?

Eu: - Pois é.

1 de jul de 2012

Good bye to romance

Podava a roseira. Jogava os botões de rosas fora. As rosas murchas que ela comprara para si mesma. Ele nunca teria lhe dado rosas. Não que ela quisesse, não é mesmo? Rosas eram apenas mais um clichê. E toda a sua atitude anti-romântica apenas mais um outro clichê.

Foi nessa época que descobriu que clichês podiam ser um estilo de vida - ou mesmo de sobrevivência.