31 de ago de 2012

Franklin, o inseguro [1]

"Self portrait or The desperate man" (Gustave Coubert)

Corina suspira (pesar em sua voz?):

- Acabou.

Franklin a encara atônito. Quase vomita o coração.

Ela continua:

- Estamos sem açúcar.

30 de ago de 2012

Ímpar

Recusei a dança. Sim, eu sei dançar. Danço até que bem. Tenho ritmo, levo jeito, boa postura. E mais: vontade. Tinha, quer dizer. Tive, pode ser. É passado, seja como for: [im]perfeito em todas os seus modos. 

Não quero mais dançar. Quero descansar os pés e a cabeça - tonta de tanto rodopiar. Pouso meus sapatos debaixo da cadeira. Eles olham sem inveja os casais na pista. Os casais me olham com inveja: eu e o meu silêncio intenso. Essa minha cara livre de... Livre. Cara lavada, tão lavada que já perdeu a cor.

Não vou dançar só porque os outros querem. Pois é, agora estão sem par. Desam-par[ado]? Não é assim que vai ficar. Tudo bem, tudo bem. Me dou um tapinha nas costas. Te mando um sorriso sonolento. Os casais não invejam o seu silêncio intenso. Porque você não sabe.  E eles sabem de você.

Meus pés tinham uma saudade doente do chão. Beijam-no sofregamente [esmago uma formiga]. E se aconchega em mim um cansaço tão grande, mas tão grande... Bocejo de língua espichada. Dentes de morder. Lábios de beijar. A ousadia de um anel de cabelo. Me enrolo sobre duas cadeiras. Os cabelos bagunçados. O vestido amassado. O laço desfeito. Adormeço perdida entre o tímido tule rosa-chá, que insiste em aparecer.

27 de ago de 2012

O que me separa daquilo que eu quero?

Me perguntei isso uma noite dessas, matutando com meu sanduíche de presunto. Liguei o rádio, coloquei pra tocar o CD recém-gravado. O "pois é" tuntuntuava na minha cabeça - serenamente.

Há alguns anos, eu diria:

- Quem quer arranja um jeito. Quem não quer arranja uma desculpa.

[Frase cafona de caderno de versinhos cafona?]

Mas eu logo vi que isso é por demais radical: muitas das coisas fogem do nosso alcance. Pior do que ser radical é ser simplista, achar que a vida é tudo preto no branco, sem os zilhões de matizes de cinza. E todas as outras milhares de cores.

Devia fazer uns cinos anos que eu queria porque queria fazer algumas coisas. Mas e o tempo? Nem sempre dá para arranjar um tempo. Nem sempre dá pra dar um jeitinho. Somos humanos, não?

O sanduíche me encarava tranquilo e resignado. Ele compreendia.

E pior que muitas vezes a gente se cobra terrivelmente por não dar conta de tudo o que deveria. Ei! Quem disse que temos que dar conta de tudo? Tenho uma bronca danada do "deveria" e do "devia". O dedo em riste:

- Você deveria...

Há quem se zangue, há quem desligue quando certas coisas são cobradas, coisas que não poderiam, pedem, devem, deveriam... ser cobradas.

Mas o que nos separa daquilo que queremos? Tempo? Dinheiro? Real vontade? Medo? Alguém? Auto-sabotagem? Pode ter tanta coisa... Mas será que sabemos mesmo o que queremos? Saber o que se quer é o primeiro passo. Depois é correr atrás. E, pelo que tenho visto, o povo anda assim: ou não sabe o que quer, ou quer tudo. Tão ruim quanto. Dá na mesma.

26 de ago de 2012

Dos erros crassos




Numa cafeteria, os dois conversaram:

- Aposto que você é a princesinha do papai - ele sorriu confiante.

Ela também sorriu - amarelo.

22 de ago de 2012

[I do] care


Você acha que mudou. Nem para o bem, nem para o mal. Só mudou. Simples assim. Aí o tempo passa, a vida passa, passam as pessoas. E, de repente, você se depara com uma partezinha do seu antigo, do seu velho eu: um eu que adora cuidar dos outros. E também tem aquilo de compartilhar: melhor do que compartilhar é escolher com quem compartilhar. E eu não estou falando de pão: estou falando da vida.

20 de ago de 2012

Of soulmates

Ele foi abrindo o coração com tanta delicadeza. Uma gota que pinga na torneira na cozinha. Uma folha que cai no jardim selvagem. Uma bala que derrete na boca enquanto você olha as pessoas passando e pensa:

- O que será que estão pensando?

Ele me falou do que sentia, do que sente. E achei aquilo tão bonito... E real. Era de verdade e era bonito. Quando foi que vi isso pela última vez? 

Ele terminou e eu fiquei pensando nas palavras dele. E em como eu talvez estivesse errada a respeito das almas-gêmeas. Depois de hoje, percebi que realmente existem e não me importa o que os outros digam. Às vezes a vida é só uma questão de ter fé.

19 de ago de 2012

We should be dancing

Voltei para casa ouvindo o rapaz bonito de olhos tristes. No celular, ele desabafava com um amigo. Um coração partido. Engraçado como não havia pieguice nem nada no gênero, só doçura e tristeza. E lembrei de todas as histórias que ouvi e tenho ouvido desde sempre.

Tenho amigos que reclamam por não acharem garotas legais. Não conseguem achar pessoas que queiram a mesma coisa que eles, que estejam na mesma sintonia e que queiram alguém "pra valer". Tenho amigas que se queixam de não darem sorte com os caras. Não conseguem achar pessoas que queiram a mesma coisa que elas, que estejam na mesma vibe e que queiram alguém "pra valer". Com os meus amigos gays é a mesma coisa. E ouço cada causo que parece coisa tirada de livro - o que não é uma coisa boa, embora livros sejam bons (bom, nem todos, mas vocês entenderam).

Parece que estão todos perdidos, não? Eu poderia dizer que estão todos procurando nos lugares errados, mas não acho que seja por aí. Acho que não é essa a questão. Qual será então? Será que está se exigindo demais? Não, acho só que cada vez se sabe menos lidar com os outros. Será que não estão vendo que a pessoa que procuram podem estar bem na frente deles? Também acho que não. E acho que não sei de nada.

A impressão é a de estarem no mesmo barco à deriva, mas não no barco que afunda. Bom, quando se está à deriva, cedo ou tarde se chega a algum lugar.

Mas eu queria mesmo saber... O que fazer para que essas pessoas se encontrem? Todos parecem estar vendados num salão de baile, dançando sozinhos. E quem você gostaria que segurasse a sua mão?

18 de ago de 2012

Aquilo que [não] se vê

Entrei na sala com ele:

- Então, você é professora de quê? - ele me perguntou ajeitando a gola da camisa.

- De inglês - respondi me sentando com o livro na mão.

- É, bem se vê mesmo - ele sorriu.

Fingi entender. Não entendi e ele não falou mais nada. Só sorriu. Olhei para mim, minhas roupas, o Guimarães em minhas mãos. Nada, nenhuma pista. Fiquei sem entender, como em todas as vezes em que alguém julga que sejamos assim e assado - ficamos sem saber o porquê.

É engraçado como as pessoas vêem a gente. Ou elas vêem o que querem em nós? É preciso cuidado para não se perder no olhar alheio. Tanta coisa já nos desmancha e tanto temos que nos refazer que não é preciso atender e obedecer ao que espera o olhar do outro. Ou precisa? 

Olhar-se pelos olhos dos outros pode ser uma experiência assustadora, porque por mais que a gente seja verdadeiro, sincero e tudo mais, sempre será a nossa imagem para alguém e não nós mesmos. Sempre seremos interpretados por alguém, então não dá para esperar que saibam exatamente quem somos, o que sentimos ou o que quer que seja.

Sabe-se lá também quão errado eu não interpreto os outros. Mas será que a palavra "errado" está certa?

15 de ago de 2012

Sobre leis de atração, corpo fechado e expectativas concretizadas

Sempre acreditei nesse papo de a gente atrair o que mentaliza (isso muito antes de "O segredo"):

- Pensamento positivo!

O que não é sinônimo de muleta emocional nem nada do gênero, afinal, nosso esforço, nossa vontade e nossas atitudes são essenciais para qualquer conquista. Mas eu me surpreendi com o poder que tem o nosso pensamento.

Certas coisas que a princípio podem parecer difíceis, estressantes, agoniantes e todo aquele blá blá blá dramático podem simplesmente ser muito mais fáceis do que parecem. A vida pode ser muito mais simples do que parece.

Atraio aquilo que penso. E se eu escolher pensar diferente e dizer assim:

- Olha, eu acho que dá pé sim. Vou fazer o meu melhor e não tenho nada a perder.

?

Pode ser quase como ter o corpo fechado, igual aquele filme com o Bruce Willis. Você meio que se torna inabalável - digo "meio" porque ser inabalável requer que se seja outras coisas também. E aí você, que levava uma vida pacata, pode se deparar com uma conquista. Uma grande conquista.

Talvez seja uma certa despretensão misturada gentilmente com uma boa dose de auto-conhecimento e leveza (palavra de ordem) e BUM! Você se depara com um primeiro lugar, com uma promoção, com uma conversa inesperada ou com o reconhecimento do ano. E isso, é claro, movendo todas as palhas.

12 de ago de 2012

Timeproof

Não nos víamos há quanto tempo? Dez anos? Quase: são oito anos com cara de vinte, porque tanta coisa aconteceu na sua, na minha, na nossa vida... Não perdemos o contato, mas as coisas ficaram meio nebulosas e meio que nos perdemos por um tempo. Mas o modo como você me olha agora e o modo como te encaro feliz é simplesmente o mesmo de oito anos atrás. O modo como você me abraça e como eu rio de você ainda é o mesmo.

Tá aí uma coisa que não se vê nem se sente todo dia. 

11 de ago de 2012

Mãos ao alto!

Você sentado no balcão, com o seu café forte. Sem açúcar. Você me diz:

- Menina, levanta essa cabeça. A vida é dura!

- Mas eu não baixei a cabeça.

Eu sorrio e você não retribui. Quer bancar o forte, por confundir fraqueza com delicadeza - como tantas pessoas fazem. Mas quem você pensa que engana? É tudo uma questão de saber te conduzir.

- Te conheço, moço.

E você ainda sério. Tão frio e duro. Mas os ombros tensos se desmancham nas minhas mãos assim que brinco de Bebel Gilberto e cantarolo ao pé do seu ouvido. Aí sim você me olha como eu gosto que me olhe: desarmado.




8 de ago de 2012

Esvaziando as gavetas ou O que nunca deveria ter parado lá

Tem coisas que a gente nunca vai aprender. Outras, a gente finge que não sabe. Só que a vida cobra, os outros cobram e acabamos irremediavelmente nos cobrando. Seja como for, há nisso tudo muito potencial para auto-sabotagem.

Tranquei umas coisas sérias, muito minhas, na última gaveta de uma cômoda velha e empoeirada colocada no cantinho mais sombrio do porão. Deu pra sentir o drama? Por que fazemos isso com nossos sonhos? Principalmente os sonhos possíveis? Porque eu não estou falando de amores platônicos nem de sonhos com a mega sena.

Estou falando de coisas possíveis...

E o povo cobrando e eu me cobrando e não é que eu descubro os sonhos vivos? Gritam. Berram. Esperneiam.

- Me deixa viver.

- Preciso respirar.

- Quero luz.

É isso que eles me pedem, me imploram, me exigem. São os filhos cujo desejo precisa ser satisfeito (principalmente quando me dou conta de que o desejo deles nada mais é do que a minha vontade - abafada por N motivos que nem valem a pena enumerar).

Acho que temos que tomar cuidado com o que guardamos. Saí correndo, demorei a achar as chaves da gaveta, mas consegui... E os destranquei. E agora gritamos juntos, loucamente, como num ritual de libertação. 

Eles não merecem ter a existência negada. Nem eu. E só Deus sabe o que será de nós. Mas seremos e só isso importa.


6 de ago de 2012

Plunge

Sai correndo tira as sandálias saí correndo tirei os sapatos meias e o que mais estivesse entre meus pés e o chão e água e eu respiro. Profundamente. eles dizem se joga eu digo me solta me larga que eu quero chegar até aquela rocha lá longe até aquela nuvem lá embaixo eles gritam pula mas são tão cegos e céticos que nem percebem que já pulei faz tempo e ultrapassei a chuva e roubei um raio de sol só pra te fazer agrado e quero ainda fugir do seu alcance do seu olhar do seu abraço da sua palavra fingida de todas as coisas fingidas que me dizem e eu só sorrindo porque não há mais o que se fazer a não ser soltar o quadril pra dançar direito solta o ar solto os ombros os cabelos abra as janelas abre as cortinas abro os botões um a um mas os segredos ah esses ainda há - escorrendo pelas paredes e minando a sua vida e eu assistindo sem comoção as rachaduras se formarem na sua carapaça porque o meu corpo está sem escudo desnudo cheio de histórias e tatuagens e eu baforando na sua cara a minha fumaça imaginária do meu cigarrinho de chocolate tão sensual isso você me disse e eu ri porque não havia nada mais a se fazer a não ser rir das cócegas que ninguém sabe fazer mas eu sei tão poucas coisas nessa vida ai meu Deus... Deus existe e inventou a azeitona sem dúvida mas eu sei fazer meia dúzia de coisas nessa vida coisas sérias bem feitas da verdade mais fluida e cristalina e estridente olha sou eu com esse corpo de praia em pleno inverno porque o inverno estpa na cabeça das pessoas - minha pele é sempre verão.

5 de ago de 2012

Clara e o Jazz

Ouviam jazz à meia luz. Os garçons, as mesas, tudo parecia levemente enevoado. Mas os talheres, os copos e dos dois pareciam brilhar, cintilar.  Clara meneava a cabeça levemente conforme a música. O dedo deslizava pela borda do copo. A banda tocava enquanto ele ensaiava. Tinha medo de não estar pronto.

Rui a encarava fixamente. Clara tinha prendido os cabelos, mas alguns fios teimavam escorregar pelo seu pescoço e colo. Ele a olhava.

- Desde quando você tem permissão para me olhar assim? - ela disse, levantando os olhos de sua bebida.

Ela sorria, sorria aquele sorriso que o fazia tremer.

- E precisa de permissão? - ele sorriu, pegando sua mão.

- Do jeito que você me olha, sim, precisa - brincava com a mão dele.

- Ah não sabia disso, me desculpe. Vi como te olharam quando entramos... Achei que ninguém precisasse disso - brincava com a mão dela.

- Mas você nunca ouviu falar em espaço pessoal? Você pode até não estar muito próximo de alguém, mas o jeito como olha as pessoas diz muito. Talvez mais até do que palavras.

- E o que o meu olhar te diz? - ele arriscou.

Clara tomou um gole de sua bebida. Levantou o olhar e disse lentamente, em voz baixa:

- A mesma coisa que tem me dito há três semanas.

Rui baixou o olhar. Apertou-lhe a mão suavemente.

- Quer dançar? - a boca seca perguntou.

- Achei que nunca fosse perguntar - os lábios mornos (quem sabe viesse a saber) disseram.

Xeque-mate.

4 de ago de 2012

Visceral

Fascinante? Não, não encontrei palavras para descrever. Fiquei sem voz, como que em transe. Mas quem precisava de voz? Mergulhei no momento. Faltou ar, faltou voz. Mas meus sentidos nunca pareceram tão apurados. Era como nascer de verdade.

De acordo com Wittgenstein, a língua dá conta de tudo o que a gente precisa dizer. Se não encontro palavras, talvez eu simplesmente não precise dizer nada dessa vez. Só acho que não é nem que eu não precise: não quero mesmo. E é um não querer que eu não conhecia até então. É adocicado. 

Algumas pessoas são cheias de querer. Outras são cheias de não-querer.

Tem coisas que são tão nossas que não tem como dividir. Nem para que dividir. Como o segredo da mão escondida na luva. Da correntinha de ouro (presente da madrinha finada), levada junto ao peito. Da receita secreta da família, passada de geração em geração. Do poema favorito, recitado de trás para frente - sem espelhos. Do feijãozinho cultivado no algodão no copinho de danone.

É meu - e de mais ninguém.


3 de ago de 2012

Quem? Eu?

"Roman Holiday"
- Você está apaixonada... - ela sorriu baixinho.

Eu estava montando o datashow. Parei.

- Oi? - perguntei, querendo confirmação.

- Você está mais alegre, mais bonita, se arrumando mais. Só pode estar amando! - ela se derramou, romanticamente.

- Ah... - suspirei - Estou amando sim...

A classe parou.

-... Amando dar aula! - e sorri.

Todos riram. E fiquei curiosa com aquilo tudo. Porque eu não estou apaixonada e, ainda sim, segundo ela, manifesto todos os sinais. Sinais? Poxa, é simples: tô apaixonada pela vida, uai! E é nessas que é legal perceber que tem coisas de vêm de dentro, que simplesmente não dependem de mais ninguém. Estar bem consigo mesmo é uma delas.

2 de ago de 2012

Insensível demais

Charlie me mandou por skype um spoiler do seriado Sherlock Holmes, da BBC.

- Depois me diz o que você achou - ela disse.

[..]

- Assisti. Por que aquilo aconteceu? - comentei com ela.

- Você não ficou sensibilizada? Aquilo é muito triste! - disse ela, chocada.

- Ah... É triste - disse eu dando ombros.

- Insensível. Ah você é uma sociopata! - ela resmungou.

Antes eu não era assim. Acho que estou guardando meus sentimentos para outras coisas. Ou então seja um lance meio Rainha das Neves, vai saber. Coisa de inverno, talvez.

1 de ago de 2012

Do plástico sem emoções

Aquela que assume uma postura de mulher-objeto e permite que assim a tratem faz isso porque é a única coisa que ela tem a ofercer ou porque é a única coisa que ela acha que tem a oferecer?