30 de set de 2012

Wild garden





A: - Eu vi como ele te olhava...

B: - ...

A: - 'Cê tá fazendo o quê? Jogando verde? Amarelo?

B: - Tô deixando o jardim crescer para fora dos muros. Vou deixar os frutos caírem do pé.


29 de set de 2012

Diário: Diretamente de... São Paulo [1]

Na aula de pós-graduação:

- Como poderíamos traduzir para o inglês: "O bolo solou"? - perguntou a professora.

Solou? Entendi a ideia, mas não conhecia a palavra.

- Nunca tinha ouvido essa palavra... "Solou"... - comentei - Sempre usei "embatumar".

A professora arregalou os olhos:

- Nunca tinha ouvido essa palavra! Que interessante! Como se escreve?

Soletrei e ela foi escrevendo na lousa. Perguntou ainda aos outros sessenta alunos:

- Quem mais conhecia essa palavra?

Dois ou três levantaram a mão.

- Mas de onde você é? - ela me perguntou fascinada.

- De São Paulo.

[sem mais]

25 de set de 2012

É tudo culpa dessa geração perdida!

Falávamos sobre política:

- ... E o Collor ainda continua sendo reeleito, apesar de tudo o que já fez. Podemos dizer que o brasileiro tem memória muito curta para certas coisas - comento.

Ele, uns vinte anos mais velho do que eu, pergunta incisivo:

- Mas o brasileiro ou essa geração de brasileiros?

- Ah, acho que o brasileiro de modo geral.

Não sei se ele se referia à minha geração ou aos mais novos. Seja como for, não fomos responsáveis pelo Collor.

- Sabe.. É bom ter certeza dessas coisas - ele respondeu.

Senti a agressividade em sua voz. Senti seu desprezo pela minha pouca idade.

- Certeza mesmo só tenho da morte - sorri e virei as costas.

(Extremamente cômodo chamar a última geração de quadrada e/ou a próxima de perdida)

24 de set de 2012

My blueberry nights [1]

"I don't know how to begin/ Cause the story has been told before/ I will sing along I suppose/ I guess it's just how it goes"

Às vezes é preciso andar muito para se chegar onde se quer. A caminhada pode ser concreta. Ou metafórica. Nem sempre se sabe onde se quer chegar. Por vezes, isso é um mero detalhe: a necessidade é sair do lugar, seja para onde for.

Mas também tem aquela coisa: você precisa de um destino para saber que metrô tomar. Consolação ou Paraíso? Sei lá, pode-se arriscar, fechar os olhos e escolher ao acaso: vamos ver o que pode acontecer...

Quando me reencontro, volto ao eixo. Sem desleixo, você se recolhe, se remonta. E, não mais do que de repente, está pronto. De novo. Porque na vida a gente se perde e se encontra. Inúmeras vezes. E cruzamos com muitos outros na mesma situação que nós. Ocasionalmente, esbarramos com pessoas no mesmo momento do que nós, no mesmo timing.

Escolhemos a pessoa errada. Apostamos tudo num jogo e perdemos tudo. Nos apegamos ao que não nos trará nada, por acreditarmos, por exemplo, que o amor nos basta. Não, há outras coisas.

Sempre me peguei pensando:

- O que tenho a oferecer ao mundo? Às pessoas?

Não há nada de errado nisso, mas também é preciso se perguntar de vez em quando:

- O que o mundo e as pessoas têm a me oferecer?

Assim como também é preciso entender que não há nada de errado com a torta de blueberry.




21 de set de 2012

Não, o tempo não tem cheiro de mofo.

Não é de mofo. Talvez papel velho. Livro, carta, caderno. Eu tenho essa coisa com papel - caixas com cartas, desenhos, rabiscos. E, em último caso, o tédio sempre dá lugar ao desenho. Mas não é preciso de tédio para desenhar. Os desenhos têm cheiro: giz pastel, lápis, tinta.

O tempo tem o cheiro de coisas da infância de coisas infinitas. A sopa de ervilha na panela de pressão. O inverno. Sim, porque o inverno tem cheiro também. O tempo também tem cheiro das pessoas que passam pela nossa vida. O perfume de patchouli que minha professora de pré I usava (Tia Cris, por onde andará?). Loção pós-barba do meu avô. Erva-doce.

O tempo tem cheiro de chuva e há exatos três dias pus o nariz pra fora de casa:

- Vai chover - sentenciei solene.

Choveu na quarta. Vi o céu desabar do topo do prédio. Vi o cinza se despedaçando com as gotas gordas. E naqueles últimos dias o tempo, o clima, o vento me deram uma sensação de coisa já vivida. Alarme da memória ativado. O céu se desprendendo do teto e há muito tempo eu não ficava tão feliz. 

Junto com a sensação de coisa antiga, tempo passado, veio uma onda de novidade que quase me tirou do chão. É tanta coisa acontecendo que eu nem sei mais o que ainda pode acontecer. É um desassossego de xícara de chá quente que conforta. Chá diferente. Outro gosto. Outro aroma. É uma coisa mais de dentro do que de fora, mas também está por fora e outras coisas caíram fora de mim. 

Um desapego de Rapunzel sem trança.

20 de set de 2012

O vestido





Era um vestido verde, na altura dos joelhos. Um vestido comum. Sem decotes nem acanhamentos. Um vestido simples. A moça que o usava era igualmente comum. Bonita até, mas comum. Os sapatos eram baixos, os cabelos soltos. Sem maquiagem nem pretensões. Então por que a combinação do vestido comum com a moça comum fez todo mundo parar para vê-la passar?


19 de set de 2012

Incondicional


A sua lógica me faz cócegas e me coça as costas. Joga damas como um cavalheiro. Boceja e adormece no meu colo. Inventa palavras e feriados só seus. Tenho um mural só com seus desenhos e bilhetinhos. Brinca com canudinhos, tampinhas, moedas. Faz mágicas: moedas brotam de minhas orelhas. Os meus brincos de pérola você escondeu num baú de tesouro. 


- Onde? - pergunto.

Você ri e corre para debaixo da mesa. Arrisca "yellow submarine" e as palavrinhas em francês que te ensinei. Tem esse ar doce quando olha pela janela do carro e acompanha as gotas com o dedo no vidro. É mais doce ainda enquanto dorme: é aí que se permite admirar. 

Me espera acordado: beijo de "boa noite" e historinha. Sempre me serve umas histórias divertidas e vê coisas que eu não vejo. Vi um dia, mas o tempo as tirou de mim e me deu outras para olhar, coisas como você. Espero os brincos de volta, enquanto te vejo crescer. Mas, na verdade, não preciso deles: já tenho o meu tesouro. 

18 de set de 2012

aqui dentro

"Crossing the heath windy day" (Paul Falconer Poole)
Cocei a cabeça. Meus cabelos bagunçados. Pé de vento. Mas quem precisa de ordem externa quando tudo o que importa é o que se tem por dentro? É, só isso que importa. O resto vai embora com o tempo.

E por dentro é turbilhão. Mais até do que o vento que espalha as sementes, faz dançar as flores, bagunça o que está por fora. Por dentro é bagunça organizada - o que não quer dizer que sei bem onde está cada coisa, cada sentimento. E precisa? Precisa não, precisa nada. E o que não preciso, eu reciclo. Papel machê. Chocalho de arroz. Um sorriso.

É essa mania de reaproveitar o que não serve mais. Mas aprendi a reconhecer o que serve, o que se faz necessário. Se bem que estava precisando de óculos e não percebi: perceberam por mim. Só que os óculos não fazem com que eu veja nada que eu já não visse, do mesmo modo que o Mágico de Oz não deu ao Leão covarde nada que já não tivesse.

Olhei para um lado, para o outro. Sempre faço isso, mesmo quando é rua de mão única. Porque nunca se sabe quem vem guiando lá longe. E desse não se tem controle. Muito bem. Então olho para os dois lados antes de atravessar. Nada posso fazer sobre o outro nesse sentido e, de qualquer modo, não teria essa pretensão. Não mais, nunca mais.

Meu nariz desconfiado sente cheiro de chuva. Lembro de todas as coisas bonitas que venho ouvindo, percebido, visto. Pensei no que fazer com o cabelo, com a vida, com os sonhos - e com o vestido vermelho. E atravesso a rua. Ah como é bom estar viva...

17 de set de 2012

It's all about...



Ele liga de longe para ficar mais próximo. Mas estão próximos. A língua que falam é a mesma. Ele sabe ler: letrado, leitor, literato. Um simples agrado. Simples assim, simples como a vida deve ser.

16 de set de 2012

Ordenhando pedras

Quem não chora não mama, mas e quando você tem que tirar leite de pedra. Posso chorar sobre o leire derramado?

Água forte em pedra dura tanto bate até que fura. Okay. Funciona com leite? - é tão líquido quanto. Não acredito em milagres, mas tenho vista muita gente fazer mágica ultimamente. Fazem das tripas coração, tiram leite de pedra. Vejo sítios de pessoas especializadas em ordenhar pedras. O leite pode até ser ralo, mas mata a fome. E quem garante que não vai se encorpar com o tempo? Leite encorpa? Não, mas pessoas e ideias sim. Sempre vale, eu acho. Tudo vale, quase tudo. 

- A gente faz o que pode - sorri para uma amiga.

E acho que uma das maneiras de ser feliz é exatamente essa: você faz tudo o que estiver ao seu alcance, vai  até onde pode ir, de até onde vai o seu poder e as suas limitações. E, o mais importante, sem culpa. 

10 de set de 2012

Sobre véus, vendas e perguntas sem resposta ou Dias de grão de areia

Quanto mais o tempo passa, mais claras as coisas vão ficando. Carrego esse discurso há alguns anos já. E quando acho que estou totalmente lúcida e vendo tudo com absoluta clareza, me acontece alguma coisa e percebo como sou pequenininha, como não sei de nada, como não sou nada.

Mas é bom ser grão de areia...


Há algumas vendas que vamos desamarrando. Tinha uma caixa cheia delas, nem sei que fim levaram. Mas sei que ainda há várias e vários nós para serem desfeitos. Assim como vários laços.


Os véus parecem ir caindo conforme a gente vive certas coisas. Será que só é assim comigo? Eles vão caindo e eu ansiosa para saber o que vem depois. Sim, e o que vem depois? As descobertas, que parecem não ter fim, são um estímulo a quem quer esteja aberto para a vida. Vamos?  Conforme sente e  experimenta algumas realidades, sentimentos, temperos, a gente vai percebendo coisa curiosa: a vida é mais simples do que parece - mas também mais complexa. Incoerente isso? Não, não é. 

Porque algumas coisas vamos percebendo que são até que bem simples e elas ficam claras, já outras deixam claro que são complicadas mesmo. Entretanto, pelo menos assim você sabe por onde trilha: ovos, que seja. E como diz o ditado: se você tem os ovos, faça um omelete - acompanhamento para a limonada.

Mas tem coisas que são demais para um grão de areia...

Um amigo me fez uma pergunta ontem e eu não respondi na hora. Se a pergunta não é pronta, a resposta não vai ser pronta. E também não respondi depois. Comecei a especular uma resposta com ele. E nada. Uma pergunta pessoal e complexa. E eu, nada. A mesma pergunta que eu tinha feito para ele e ele na lata me responde. E a minha lata é ferrugem, porque eu não sei a resposta.

Procurei no batom que foi embora, nos olhos que deveriam ser pretos, no esmalte escuro que você adora... Procurei por fora, porque dentro de mim ela não mora.

Porque ainda estou pensando na pergunta e fui dormir pensando no que há de errado comigo, porque devia ser uma coisa simples de se responder. Mas se não há, deve ser um sinal. De...? Fim dos tempos, talvez, ando apocalíptica, é a vida. 

Tudo o que sei é que quando encontrá-la - é provável que a gente trombe na rua e se derrube, como de costume - vou trancá-la numa gaveta e pendurar a chave no pescoço: a resposta é só minha.

9 de set de 2012

Despise

A:- Sempre que nos vemos estou bonita e impecável.

B: - Você faz isso só para provocá-lo?

A: - Não, é porque eu me gosto mesmo. Ele não merece nem a minha provocação.

8 de set de 2012

Quinzinho and the darkness

- Eis aqui. Na ausência das estrelas vai este punhado de vagalumes mesmo - ela disse a Quinzinho.

Podia ser uma questão de escuridão interior. E era. Mas também o bairro estava sem luz. Difícil achar o caminho de volta quando não se sabe onde se está. Mas ela fez a oferta. Sempre fazia-lhe ofertas. Ofertas que ninguém mais fazia-faria. Por isso, era ela com ele, ambos perdidos. Ainda assim, ela insistia que sabia o caminho. Talvez soubesse - algumas pessoas se orientam pela bússola que levam no peito.

Era engraçado como sempre há alguma luzinha no sincero breu. Sempre havia uma mão no ombro ou uma mão que puxava Quinzinho para frente. Sentia um halo de ternura. Um cheiro de sabonete. No escuro, ia pelo tato. Mão com mão. Hálito. O som da sua voz.

Ela acendeu seu isqueiro BIC amarelo: a chama na altura dos olhos. Olhos em chama. Ela bufava sempre:

- Fala-se demais de paixão...

Quinzinho não respondia nada. Fechava os olhos naquela escuridão escolhida, a mão colhida em flor. Deixa-se levar, onde seus pés iam dar? Não era mais o cego em tiroteio. Nunca fora: alguém sempre o acompanhara na escuridão. Ele não conhecia a solidão. Agora menos ainda.

- Olha para mim - ela pediu.

Quinzinho abriu seus olhos grandes e escuros. Engolfavam. A chama do isqueiro aquecia menos do que as mãos dela. Então estava tudo bem. Continuaram pela noite adentro. As estrelas não davam as caras: tinham preguiça dos amantes contemporâneos, preferiam o ócio - as estrelas, os amantes.

Por fim, chegaram à casa de Quinzinho. A luz começou a piscar. Ela passou a mão suavemente pelo seu rosto e sorriu. Ele sorriu de volta. Desde quando...? As luzes piscavam e, num piscar de olhos, ela ganhou rua. E as luzes voltaram, só para que Quinzinho, atônito, pudesse vê-la desaparecer no ar. Ouro em pó.

Então a vida era assim?

Bom, pelo menos estava tudo claro outra vez.


5 de set de 2012

Falso acessório




Assim como há o falso brilhante, que parece ter valor e no fim não tem, há o falso acessório, que parece ser dispensável, mas não é. Isso pode valer para um simples par de óculos - ou para pessoas.

3 de set de 2012

Para seduzir, um belo buquê de palavras.


As palavras sustentam um poder de sedução sem igual. Vide a literatura, a política, a publicidade... E talvez [muito provavelmente] até algumas pessoas que você conheça. Há quem zombe de mim quando falo isso. Acreditem ou não, zombem ou não, o que digo é fato. E não entender isso, para mim, é deixar escapar parte importante da natureza humana - e uma das coisas que nos distingue dos demais animais: nossa capacidade de comunicação verbal e tudo o que isso acarreta.

2 de set de 2012

Dora, a vingativa [1]

E o que você vai fazer? - perguntei à ela.


- Nada - disse Dora, sem tirar os olhos do espelho.

- Mas... Você sempre faz alguma coisa - observei bebericando meu chá.

Ficamos em silêncio, ela acertava os últimos detalhes de sua maquiagem.

- É que ele...

- É casado. E? Você conhece a minha política de homens comprometidos.

- Mas você vai deixar assim barato? Quer dizer, ele te enganou, certo?

- Sim. E...?

- É que... Se fosse em outros tempos você...

- Não, não - ela me interrompeu sorrindo - Isso não vai ficar assim.

Sua maquiagem estava perfeita. Os cabelos, perfeitos.

- E o que você vai fazer? Contar para a esposa?

- Eu? Imagine! - ela riu e olhou para mim - Ele não é problema meu.

- Então...?

- Primeira coisa: eu não sou criança. Sou adulta e sei resolver meus problemas. Segunda coisa: não sou boba. Simplesmente já sei o que fazer. Vou sumir. Aliás, já sumi.

- E?

- Não existo mais. E depois disso ele passou a ligar com mais frequência, manda e-mails. Até flores.

- Por que isso? - olhei-a ressabiada.

- Ah, sei lá.... Tem gente que gosta de ser desprezada. Ou simplesmente quer ter aquilo que está fora de alcance. Deve ser pelo desafio.

- Nunca tinha pensado desse jeito, Dora.

Ele me olhou signitivamente.

- Às vezes, não fazer nada é fazer muito.