31 de out de 2012

É preciso coragem para se estar sozinho

É um tal de ostentar a aliança grossa e apertada. É um tal de exibir (todas as mudanças d)o status de relacionamento no Facebook - e depois espernear quando cuidam da sua vida. É um tal de achar bonito ter dono ou dona e andar por aí com coleiras invisíveis. É achar que os relacionamentos de  "O morro dos ventos uivantes" são saudáveis e ideais - que fiquem no mundo das ideias mesmo!

Em tais conjunturas, é preciso coragem para se estar e se declarar sozinho.

"A solidão é subestimada", diz Tom em 500 days of Summer e, embora ele não acredite nisso, eu acredito.

A cobrança social para estarmos acompanhados rola solta. Vivemos numa sociedade onde é feio estar sozinho: solteirice é sinal de fraqueza, falha, fracasso:

- Pelo jeito, você não tem nada a oferecer...

Por conta disso, algumas pessoas acabam se submetendo a relacionamentos vazios, nocivos ou, simplesmente, bobos. Ou ainda ficam anos com pessoas de quem [já] não gostam. Passo o tempo por passar.

Tão ruim quanto estar mal acompanhado é não saber ficar sozinho. E conheço várias pessoas que não conseguem ficar consigo mesmas. É medo de quê? De morrer sozinho? De se deparar e ter que lidar com quem se é de verdade? De não ter que "completar" ninguém? De não saber o que fazer ao perceber que já nascemos inteiros? Ou do que os outros vão pensar?

Às vezes é pura carência. Bom, acho que todo mundo tem seus momentos assim, mas vale se envolver pra valer com alguém só para não ficar só? Indo mais além: e se a pessoa não é "exatamente legal"? E quando digo "exatamente legal" me uso de eufemismo.

Com o passar do tempo, tendemos a ficar mais exigentes, fato no qual não vejo problema, desde que haja flexibilidade. Contudo, acredito que as pessoas tenham coisas que não negociáveis. Essas "coisas" podem ser crenças, hábitos, planos e assim por diante. 

Cada um sabe de si, sabe o que abala... Ou não? A listinha dos não-negociáveis nem sempre fica clara para cada um - principalmente quando não nos conhecemos direito. 

Estar acompanhado até é uma boa maneira de se conhecer, mas estar sozinho, com seus próprios pensamentos e experiências, ter o seu tempo e um tempo pra você são outras ótimas maneiras e aí você não depende do outro, porque rolos, namoros, cônjuges podem passar, mas você é a única constante na sua vida.

29 de out de 2012

Oh!

Não vou explicar. Nem ter a pretensão de tentar explicar. Também não vou racionalizar, nem montar mapas conceituais. Não vou perder noites de sono, nem noites de festa. Não vou planejar:

- Que seja o will  e não o going to.

Não vou escolher o melhor vestido, mas certamente o melhor sorriso - e a melhor careta, para fazer rir. Não vou expôr o que eu sou na vitrine, para quem quiser ver, mas também não vou me esconder embaixo da cama. Bicho-papão. E não vou ter medo do que está embaixo da cama. Bicho-papão.

Não vou perder a fome, nem me empanzinar com o que quer que seja. O segredo é o equilíbrio, não? Aconteça o que acontecer, a vida vai continuar e vou continuar tocando do meu jeito. Sem crises, sem ostentação, sem promessas (sejam verdadeiras ou não), sem muita preocupação... Vou rir com o inesperado, sem dele esperar muito mais. 

E não sei se dessa vez vou querer entender, talvez eu prefira só sentir...

... vou viver viva vivo.

27 de out de 2012

A cicatriz no joelho de Danuza Leão deixou uma marca em mim

"Para e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha"
(Paralamas do Sucesso)

Quando tinha uns doze anos, costumava ler o jornal aos domingos e me apaixonei pelos textos de Danuza Leão. Com o passar do tempo, suas palavras perderam a graça e o sentido para mim. Não digo que ela escreva mal: é só que simplesmente seus textos não exercem  mais nenhum encantamento, talvez porque eu esteja num outro momento ou porque achei autores que têm mais a ver comigo.

Entretanto, a cicatriz no joelho de Danuza Leão deixou uma marca em mim. Era um texto sobre como homens que reparam em pequenos detalhes (como uma cicatriz no joelho) acabam se destacando, como os homens que reparam e se interessam por você podem ser interessantes. Na verdade, são apontados como "irresistíveis". Eu não iria tão longe, mas é claro que a gente passa a olhar diferente para quem repara na gente - em vez de se colocar como centro do universo.

O olhar do outro confirma nossa existência: ser olhado pelo outro é ser reconhecido como um ser no mundo. E se esse outro repara em pequenos detalhes... Ah! Melhor ainda.

Pode ser uma pinta na nuca, unhas azuis, um canino ligeiramente torto, um trejeito, um vício de linguagem... Qualquer coisa que demonstre que o outro, de algum modo, acabou saindo do casulo, do próprio mundinho e resolveu olhar para o lado - ainda que temporariamente.

E não só olhou, como fez questão de pôr em palavras. Reparar e guardar para si é o mesmo que não reparar: não basta perceber, é preciso mostrar que percebeu, que de algum modo aquilo importa, ainda que seja uma bobagem qualquer. 

São as coisas pequenas, os detalhes que mais importam, pois saem do lugar-comum, do senso comum e exigem do outro um pouco mais do que um rápido exame: exigem atenção, um olhar mais cuidadoso, mais interessado.

E se quem te olha com esse interesse por fora ousar te olhar com esse mesmo interesse por dentro, melhor ainda.


26 de out de 2012

Esquecimento

Acordou - a luz ferindo suas pupilas dilatadas entrava através da cortina leve. Seu corpo estava dolorido e ela sem saber o porquê. Foi abrindo os olhos...

O que eram as marcas roxas no braços? Se encarou no espelho do quarto com apenas um olho, que viu o outro escuro e inchado. O rosto cheio de hematomas.  Inúmeros tons de rosa e vermelho sem o romantismo esperado.

Por dentro, o que sentia?

Três unhas quebradas. O corpo cheio de marcas e de resquícios de um alguém. Alguém tinha estado lá. Estremecimento. E nenhum flash de nada. Encolhimento. Sentia-se pequena, tão pequena. Insignificante.

E uma sensação de vazio tão, mas tão grande que...

Parou por ali e se arrastou para o chuveiro. Atordoada. Não conseguia lembrar, por mais que tentasse - quereria? Sua alma estava dolorida demais e ela sem entender o quê.

25 de out de 2012

Você pede a Deus os limões e Ele te manda um queijo

Pedi a Deus os limões para a melhor limonada. Ele não me atendeu e deve ter tido os Seus motivos, sempre tem. E sei que não sou ninguém para fazer esse tipo de questionamento. 

Em vez disso, Ele me mandou um daqueles queijos brancos e redondos, bem saborosos e, de minha parte, foi só tirar a faca da gaveta da cozinha.

Pronto: eu tinha a faca e o queijo na mão. E se fiquei sem a limonada, melhor assim. Nem sempre o nosso caminho é aquilo o que planejamos. Nem sempre as oportunidades que imaginamos são as melhores. Nem sempre nós temos o que pedimos, mas virão outras coisas que podem nos fazer igualmente felizes - ou ainda mais. 

E gosto muito de queijo...

24 de out de 2012

Mergulhando [ou não]

Era um dia de sol, muito sol.

Tavinho olhou de longe a piscina verde-água. Olhava desconfiado e foi se aproximando bem devagar, como se ela pudesse oferecer algum grande perigo. 

Foram uns dez minutos até chegar até a borda, mesmo não estando longe dela. Olhou mais um pouco e arriscou colocar o pé para ver a temperatura. 

O pé não: o dedão. O dedão do pé. Friiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia fria. A água estava fria. Talvez entrasse, talvez não. Talvez decidisse ainda naquele dia e enquanto pensava...

Joãozinho veio correndo e se lançou como uma bala, um tiro. Splash! Os respingos gelados assustaram Tavinho, mas o que mais o assustou foi o corpo de Joãozinho que logo apareceu boiando: ele não sabia nadar, tinha mergulhado sem saber nadar. 

Tavinho nunca mais quis entrar em piscina.

Era um dia de sol, muito sol.

22 de out de 2012

Versinho Comunicativo



Quem vê
Pensa
- Tanta coisa...

E não pergunta,
Mas se perguntar
Não respondo.

E seu eu desenhar,
Não entende.

21 de out de 2012

Solidão que nada!

Ela entrou no metrô e logo o viu sentado com seu cabelo bagunçado. My cup of tea. Foi se aproximando devagar para não cair e fazer feio. E estava tão bonita - e falante. Se ele sorrisse de volta, puxaria papo. Tirou os óculos escuros. Falaria sobre literatura. Ele também gosta de Proust, ela olhou indiscretamente dentro da sacola da Livraria Cultura que ele trazia entre os pés.

Começariam a conversar despretenciosamente sobre o clima - e sobre Proust, naturalmente. Eles perceberiam a química logo de cara e, estando os dois sem compromisso, iriam tomar um café. A conversa fluiria como acontece poucas vezes na vida, com direito aquela sensação engraçada de já conhecer a pessoa  há muito tempo.

Trocariam números de telefone - porque nenhum dos dois gosta de internet - e se falariam algumas vezes por semana. Sairiam mais outras vezes e continuaria a vontade de se verem. Em certo momento, decidiriam que aquilo valia a pena. Iriam morar juntos, tocar a vida juntos. Perceberiam-se diferentes, mas também que funcionavam bem quando estavam juntos. E fariam suas apostas nesse simples fato.

O metrô parou na estação Consolação e ela desceu tristonha do vagão: ele não a tinha visto, pois estivera ocupado demais com seu celular postando no facebook:

"Tão sozinho!"

Ouvindo "Solidão que nada" (Cazuza)

20 de out de 2012

Em seu devido lugar (e outras variações sobre o tema)

Vi a menininha dando cambalhotas e estrelas no tatame. Ela rodopia, estica, alonga. Já deu o horário, mas a aula não começou (a professora conversa com uma aluna) e eu esperando sem minhas sandálias.

O sol lá fora é morno e já é de tardezinha. A menininha se levanta - vai rodopiar em outra parte. De minha parte, tomo seu lugar e me deito no tatame. Estico, alongo - e penso. Não pensava nisso, não pensava assim, mas, mais do que nunca, penso sobre o lugar que ocupo no mundo.

Não, não é debaixo da escada esperando uma carta de Hogwarts chegar. Não, não é no fogão ou no tanque esperando o marido chegar. Não é esperando nada nem ninguém chegar. Não, não é no canto da sala esperando a poeira baixar. Não, não é com o grito morto a machadadas pelo silêncio. Nem com os álbuns antigos e essa nostalgia doente que anda assolando as pessoas. Nem entre as dez pessoas mais bondosas e justas. Nem entre as dez mais belas e famosas. Nem entre as dez mais inteligentes e influentes.

Na dúvida, sempre vou pelas negativas, por eliminação. Sei qual não é o meu lugar, mas creio que nem precisaria de tantas negativas para saber. Acho que todo mundo sabe lá no fundo, só que, muitas vezes, não se quer olhar.

Talvez um dos segredos da vida seja saber se colocar em seu devido lugar - e colocar os outros também, cada um em seu lugar. Pode ser feio isso de colocar as pessoas em seu devido lugar, mas é algo que por vezes é preciso fazer, já que elas não o fazem (ou não sabem fazê-lo?).

Também é feio porque é categorizar pessoas e eu disse a uma amigo que fazer isso é ser simplista e a vida e as pessoas são complexas. Olha, desconfio que nem todas e algumas só te oferecem as bordas. A gente vai até onde dá, não? 

Categorizar é errado, mas dá uma impressão de segurança, de você saber onde está pisando. "Impressão" porque por vezes é falsa e fim de papo. E quando é verdadeira? E quando você entendeu, ainda que superficialmente, como funciona determinada pessoa e viu que ela não deve nem precisa ocupar um lugar na sua vida? Nossa, isso soou pesado, acho, mas poderia poupar muita coisa, muita gente, muito tempo. Entretanto, talvez se perdesse muito em aprendizado de vida, não sei.

Algum fato ou acontecimento sempre me lembra do meu lugar no mundo. Fisicamente, ocupo pouco espaço. No fundo, bem sei o que me cabe nesse mundo (o que não impede que ele me peça outra coisa amanhã, pois já me pediu coisa que nem pede mais...). 

Notei a aranha no teto. Discreta e honesta. Quantas coisas não se deixa de ver por não se saber olhá-las? Se eu não estivesse deitada, olhando para o teto, nunca a teria notado. Aquela aranha discreta e honesta. Ela estava em seu devido lugar, junto à sua delicada teia.

Foi engraçado sentir que tudo estava em seu devido lugar: a menininha em frente ao espelho, a aranha em sua teia, a Terra em seu eixo. E eu estava exatamente onde deveria estar: deitada num tatame, os cabelos num desalinho só, esperando pela aula de dança numa tarde recheada de sol.


19 de out de 2012

Sobre cordas, terapia e coveiros.

A: - Eu não vou mentir: é despeito da minha parte.

B: - Sempre achei que a gente aprendesse a lidar com a rejeição com o passar do tempo, mas...

A: - Acho que é bem por aí, só que esse aprendizado talvez tome mais tempo do que a gente gostaria. Ao menos mais tempo do que eu gostaria. O ego humano é uma porcaria!

B: - Certas coisas não deveriam incomodar, mas incomodam. Também nunca sei o que fazer com elas e acabo me sentindo mal por me sentir mal...

A: - Nossa, melhor providenciar um terapeuta.

B: - Nada. Só preciso deixar a poeira baixar e guardar certas coisas na memória.

A: - Coisas como não dar corda para quem não sabe pular?

B: - E também que cada um faz o que quiser com a própria vida e isso não é problema meu.

A: - Cada um cava a sua própria cova.

Pausa.

A: - Que horror o que eu disse!

B: - Horror é entregar a pá para o outro e convidá-lo a cavar para você.


15 de out de 2012

Chorando sobre o milkshake derramado

Normalmente, não era bem assim se queria. Bem que se quis depois de tudo... Contudo não deu, não foi, já foi. E aí? Chorar sobre o leite derramado na promessa do milkshake? Lembrei de tudo o que li, ouvi, vivi. Torci o nariz porque o primeiro impulso é ficar chateado ou com raiva. Só que é um desperdício a energia gasta com chateação ou raiva. Então escolhi dar menos valor ainda para as coisas nas quais não ponho muita fé. Minimamente esperamos certas coisas, nem me diga que não. E, com o tempo, aprendemos a esperar menos. Todavia, ocasionalmente, apostamos as fichas em algumas coisas e, uma hora, a banca vai ficar com tudo.

Nem sempre as promessas de dias coloridos vingam, mas nem sempre é sobre promessas: as palavras, por si só, têm força, têm poder. Fazer o que se o rascunho de um singelo plano não saiu como planejado?

É um dar os ombros, limpar o estrago (pequeno, mas estrago) e pedir o próximo milkshake - só que de outro sabor e com outra companhia.



14 de out de 2012

Açúcar ou adoçante?

- Açúcar ou adoçante?

Açúcar, sempre açúcar. Sempre o real, o concreto, o possível. Adoçante é artificial, de mentirinha, aquilo com o que você se engana.

Pede-se a Coca diet para acompanhar o Big Tasty do McDonald's com fritas e um sundae de chocolate de sobremesa. É incoerente. Do mesmo modo que estrogonofe e salsicha de carne de soja são incoerentes: por que crio um produto que imita uma coisa que escolhi não comer?

Açúcar em excesso é ruim, mas adoçante em excesso é pior. A realidade às vezes incomoda, mas viver a artificialidade é pior, eu garanto. As relações puramente virtuais, a aparência sempre impecável, a maquiagem sempre retocada, o ambiente seguro e controlado, o ar-condicionado, os lencinhos umedecidos, a água engarrafada com gás, as palavras assépticas, os lençóis intactos, as batatinhas sabor churrasco, o beijo cronometrado e o adoçante no café descafeinado.

É essa mesmo a vida que você quer?

12 de out de 2012

Menina Fantástica e outras belezuras

- Escolha o seu sonho!

[ou é ele que escolhe você?]

Toda vez que vejo concursos de Misses ou outros como o Menina Fantástica, fico me perguntando se não há outras coisas com as quais se sonhar. Celebrar a beleza feminina padronizada me incomoda um bocado, mas cada um não tem  direito de sonhar com o que quiser?

Quando eu era pequena, o lance era ser Paquita, como se não houvesse mais nada no mundo. E havia. E há! Porque parece que não há mais nada a oferecer do que um corpo e um rosto bonitos. E há! Só que não fica na cara, é preciso atenção, às vezes tempo e mesmo talvez até um certo empenho para se descobrir o que podemos oferecer.

O potencial de uma vida pode acabar escorrendo pelo ralo no comodismo na aparência. Okay, dá trabalho cuidar da aparência, mas dá trabalho fazer outras coisas também. Porque não sonhar em ser médica, dentista, professora, publicitária, engenheira, advogada, jornalista, designer, veterinária, secretária, escritora, cozinheira, piloto, farmacêutica, química, musicista, bombeira, tradutora, arquiteta, estilista, policial, cineasta, editora, costureira, analista de marketing, economista, política, gerente financeira, física, cientista, bióloga, fotógrafa, veterinária, analista de sistemas, fisioterapeuta, psicóloga, psiquiatra... ou mesmo ter o seu próprio negócio?

Será que para ser alguém é preciso contar exclusivamente com a casca e não com o recheio?

11 de out de 2012

Desconfinado

Porque só acredito vendo (Silvio Santos)

...Então acredita em pouca coisa, pois muito que existe não se vê, embora se sinta, se pense e se discuta isso. Isso. Desconfio de tudo e de todos porque nada vale a minha confiança, um medo gigante de ser homericamente enganado, ludibriado, ridicularizado e outras coisitas mais. Pronto: ninguém entra na minha vida, ninguém tem acesso a ela. 

Nada daquele papo de selecionar as amizades, os amores ou quem mais estiver ao redor. Nada de laranjas selecionadas para o meu suco Del Valle: nada de suco nem de laranjas. É dançar gafieira com o pé atrás. Mas dá para dançar assim? Um pé atrás e duas pedras na mão? 

Quem desconfia, é prevenido e o seguro morreu de velho. Quem desconfia, acaba finado, morto-vivo rondando por aí a procura de mais coisa para desconfiar - ou desmascarar. Um chato. São todos uns fingidos isso sim! Quem desconfia, acaba confinado no senso comum e em seus próprios preconceitos e, sem perceber, muitas vezes medindo as ações alheias pelas suas próprias ações [tortas]. Preso no medo de se entregar e de decepcionar, mas pior, preso no medo de até ser feliz.

10 de out de 2012

Viu só? Vi sim!

La vie en rose. Agora passe para a negativa. Sei tão pouco de francês que é o mesmo que não saber: viveria de vinho, peixe e café, ou seja, não viveria por muito tempo. Sei que é preciso ne e pas e algo entre os dois. Só que não vejo o que deve haver entre eles.

Todavia vejo muitas outras coisas, dezenas delas, centenas delas. Coisas que nem sempre são percebidas pelos demais e isso não acontece porque eu seja alguém fora do comum ou porque minha percepção vá além do normal. Simplesmente acontece - e possivelmente porque sempre gostei de observar as coisas e pessoas e tentar adivinhar o que se agita nos arbustos das entrelinhas. E, talvez, de tanto treinar o meu olhar, eu tenha aprendido a ler o outro um pouco melhor. Ler o olhar do outro.

Será que às vezes o que eu vejo quase ninguém vê? Seja como for, sempre vão haver coisas que não vejo: embora minha visão seja boa,  não sou Deus. Deus vê tudo, mas outros aqui comigo também veem coisas que eu não vejo. E quem está vendo o que eu não vejo? O que estou perdendo? O que eles veem que eu não consigo ver?

6 de out de 2012

Mídias Sociais: ostentação, felicidade e intimidade

Já dizia Rebecca Black: Fun fun fun
Todo mundo é artista e filósofo e, acima de tudo, absolutamente interessante depois do advento de mídias sociais como o Facebook.

Toda foto fica cult com instagram e as pessoas tiram foto de toda e qualquer coisa que vejam - principalmente suas refeições e festas - party party! Uma caneta, drinks, um carimbo... O olhar do fotógrafo pouco conta, o negócio é o tratamento cool... E a motivação? O que se quer mostrar para o mundo? Sou feliz? Minha vida é cheia? (cheia de...?)

UHUUUUUUUU

Party party party! Me divertindo hor-ro-res! Esta sou eu na balada animadíssima! Uma fotonovela para provar que aconteceu. Provar para todos, para mim e registrar para a eternidade [?]. 

Por isso eu falo que cada um se expõe o quanto quer nas mídias sociais, nem vem me dizer o contrário.

Talvez uma das palavras-chave seja ostentação: ostento minhas refeições ma-ra-vi-lho-sas, meu corpo di-vi-no, meu namoro fantástico

Te amo mais do que bacon, chuchu

É muito mais uma questão de ostentar a "felicidade" do que de compartilhá-la. E compartilhar meu status de relacionamento também. Afinal, todo mundo precisa saber que estou noiva, que levei um fora ou que mulher não presta e homem é tudo igual. Oi?

Posso ainda ostentar minha sabedoria em frases suuuuper edificantes [?], além de mostrar, é claro, como a minha vida é emocionantemente emocionante. Ou então aquele climão passivo-agressivo, cheio de indiretas e frases do tipo:

"Sua inveja é o meu sucesso"

"Certas pessoas só valorizam quando perdem"

Ou ainda cita "O Pequeno Príncipe", Clarice Lispector ou Caio Fernando de Abreu sem fazer ideia do que está falando.

Okay. E é importante que todo mundo saiba a hora em que vou ao banco, tomar banho, comer e ir dormir. Porque ninguém pode dormir sem saber que eu vou dormir ou que mudei o esmalte e agora só uso Colorama. Além de acompanharem todos os meus looks mais modernos, meus dramas pessoais (detalhados, é claro) e correntes e mais correntes...

Porque a minha vida é muito interessante, naturalmente. Todo mundo quer saber o que acontece comigo - uma novela da vida real a minha vida, cero?

Complicado mesmo é reclamar de gente fuçando a sua vida quando você não só se abriu a porta, mas também convidou para um cafezinho - ou para uma birita.

5 de out de 2012

Dever

- Você não me deve nada - ela sorriu olhando pela janela do carro - Mesmo.

O "mesmo" foi olho no olho e ele ficou sem ação. Eram quase onze horas e eles estavam em frente à casa dela, dentro do carro. Os últimos cinco minutos tinham se passado em total silêncio. Fora ela que o rompera, como que adivinhado os pensamentos dele: 

- Você não me deve nada.

E aquilo doeu, porque era um como não se importar. Para ela, tanto fazia o que tinha acontecido, o que ele tinha feito. Está feito, ele leu nos gestos dela. Ele sabia que não devia nada. Naturalmente. Então porque parecia natural que sentisse que devia alguma explicação para suas ações? Era a vida ele, oras. As coisas eram bem mais simples daquele jeito: ela dizendo que não ele não lhe devia satisfação e ele concordando com ela. A vida era simples, muito simples...

- Espera... - ele diz quando ela abre a porta do carro.

3 de out de 2012

Sobre achismos, pronomes oblíquos e comunicação


A: - Mas eu achei que você...

B: - Que eu o quê?

A: - Ah, não sei... É só que... Pelo que você deu a entender, achei...


B: - Pelo que você dizia eu achei também que...

A: - Acho que me enganei...

B: - Você acha que eu te enganei?

A: - Acho que entendi tudo errado...

B: - Acho que eu entendi tudo errado...

A: - Acho que não sei mais o que achar...

B: - Mas afinal o que você acha?

Ouvindo Lupado (Gram)

1 de out de 2012

Sobre experiências químicas, Monet e coisas incompreensíveis

Impression du Soleil Levant (1873) de Monet
Tem coisas que nem adianta olhar de perto e de lupa. Ficar esmiuçando, com pinça, microscópio e paciência. 

E pode até ficar parecendo falta do que fazer, mas pode ser só vontade de tentar entender. Got it? Claro que não estou falando daquilo que eu e você nunca vamos entender: estou falando do que pode ser entendido, mas que por alguma razão (desconhecida, naturalmente) não se entende.

Você usa os reagentes químicos certos e nada. No alarms, no surprises. Escreve relatórios, levanta hipóteses, faz cálculos... E nada! Pede a opinião dos ditos "especialistas" que nada acabam fazendo por você. Não há teoria que explique ou conceito que dê conta. O empirismo falhou. E você ainda lá, precisando entender.

Talvez se você se distanciar um pouco... Não, mais um pouco. Mais um pouquinho ainda, dois passinhos para trás, por favor [...] Pronto, agora sim! Tente olhar agora para aquilo que você olhava antes, há uns cinco minutos atrás, mas dessa nova distância. Porque algumas muitas coisas só dá para entendermos quando olhamos de fora, de longe, de outro ponto de vista.

Certas coisas são como pinturas impressionistas: fazem sentido quando olhadas de longe. Quanto às pessoas, acho que o mesmo não se aplica à elas.