31 de dez de 2012

Feliiiiiiiiiiz Ano Novoooooo


Receita de ano novo 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

29 de dez de 2012

Moving on

A: - Já passa da hora de seguir em frente.

B: - E o que você vai fazer?

A: - Seguir em frente, oras.

B: - Hum. E precisa mesmo?

A: - Bom, acho que é o que manda a natureza: é a lei do progresso.

B: - E você vai progredir se seguir em frente e deixar o passado para trás? Tem certeza?

A: - Bom, certeza certeza não, né? Mas é uma tentativa válida.

B: - Acho que você está fugindo.

A: - De quê?

B: - ...

A: - Acho que você está fugindo.

B: - ...

A: - Não é que eu ache que vou ser melhor seguindo em frente: só preciso tentar algo novo.

B: - Por quê? O que você tem não está bom?

A: - Ah, você sabe.

B: - Sei. Sei?

A: - ...

B: - E se você esperasse?

A: - O quê?

B: - As coisas mudarem.

A: - E se não mudarem?

B: - ...

A: - ...

B: - Não merecem uma chance?

A: - Você quer que eu espere no mesmo lugar?

B: - Por que não tentar?

A: - Aí eu espero. E o que vem depois?

28 de dez de 2012

Felícia, espartilhos e ideologia.

Antes de experimentá-lo, ela se olhou desconfiada:

- Acho que isso vai contra muitas coisas que eu acredito...

Sim, era uma bobagem, mas as bobagens constantemente a levavam a coisas um pouco maiores - como se seguisse uma abelha até chegar a colmeia. Enfim. 

Experimentou o espartilho preto de renda e couro. A moça da loja ajudou-a a apertá-lo. Sempre tinha achado bonita aquela coisa de cintura fina. E espartilho era uma coisa sensual, muito sensual. A moça da loja continuava apertando. Lembrou-se da sua infância assistindo Looney Tunes: Felícia. Felícia que abraçava tanto seus bichinhos amados que os deixava sem ar.

A moça da loja não a abraçava, mas sim o espartilho. E não a amava. Deve haver um modo mais agradável de ficar sem ar, mais válido. Será que para ser amada, notada preciso disso?

Finalmente, se viu pronta junto ao espelho: estava sem ar, mas tão bonita! A cintura marcada como ela tinha imaginado. E, de fato, sensual, muito sensual. E, de fato, desconfortável, muito desconfortável. Deveras desconfortável.

Pois é. O espartilho se revelava uma questão ideológica. Do que ela estaria disposta a abrir mão pela dita beleza, pela dita sedução? A mulher que se submete a tudo pelas aparências e nega a natureza de seu corpo?

Balançou a cabeça, olhando-se no espelho:

- Deve haver um modo mais simples - ela murmurou para si, enquanto tirava o espartilho e colocava de volta seu vestidinho leve e solto.

O céu se riscava de gotas como o giz risca uma lousa. Ela saiu da loja e parou no ponto de ônibus. Seu Terminal logo chegou e ela embarcou. Estava tão concentrada em suas mais recentes divagações que acabou não notando o olhar do bonito moço, insistente e cobiçoso a acompanhá-la em seu caminhar.

25 de dez de 2012

Já dizia Simone: "Então é Natal..."

O Natal é um dia de celebração, uma data especial. Ele serve para nos lembrarmos de uma série de coisas sobre olhar para o próximo e fazer o bem aos demais. Entretanto, não precisamos esperar o ano todo pelo dia 25 a fim de sermos bons. Podemos ser bons em todos os outros 364 dias do ano e é exatamente isso o que eu vi em 2012: pessoas dando o seu melhor em tudo o que fizeram, cuidando umas das outras, sendo caridosas, colocando amor nos mínimos gestos. E tenham certeza que é isso o que faz o meu Natal valer a pena: as ações dessas pessoas fantásticas que entendem que o Natal é todo dia. Desejo a todos vocês um Natal cheio de muito amor, luz e realizações! E que possamos ser cada vez pessoas melhores!

24 de dez de 2012

Ligeirinhos: Filtros

A: - Você tem a mente aberta?

B: - Tenho sim.

A: - Então vou te contar...

Cinco minutos depois:

A: - Aonde você vai com tanta pressa?

23 de dez de 2012

Capitão Óbvio, Frank Sinatra e o mundo empírico

Existe um bom motivo para não comer enroladinho de presunto deitado. Deitado você - e não o enroladinho. É o mesmo motivo de não se beber groselha estando deitado - mesmo com canudinho. 

Existe também um motivo para não dormir com o cabelo molhado. Para não sair com o carro na reserva. Para não mascar Ping-Pong de tutti fruti quando se usa aparelho fixo. Para não deixar de beber bastante água durante o dia. Para não entrar em pânico toda vez que algo escapa ao seu controle. Para não mandar cartas que nem deveriam ter sido escritas.

Existe motivo para não dar satisfação a quem não te satisfaz. Para não dar mais uma chance a quem te decepcionou pela enésima vez. Para não emprestar seu livro preferido. Para não deixar tudo para a última hora. Para não cortar o açúcar porque você cismou que está gordo. Para não sair de moto sem capacete. Para não chorar por dor de cotovelo. Para não usar chantagem emocional para conseguir alguma coisa. Para não deixar que um não-cabeleireiro corte o seu cabelo.

Existe sempre um bom motivo para não se apegar ao passado. Para não confiar em quem tem a fala muito mansa. Para não levar a sério o que dizem Frank Sinatra e Chico Buarque - e, numa instância mais pop, Michael Bublé. Para não guardar mágoa. Para não ignorar o que o médico falou sobre a sua úlcera. Para não sair no sol se não for para se queimar. Para não sair no sol sem protetor solar. Para não sair pela vida desarmado. Para não ficar tão preocupado com o que dizem de você. Para não sair sem guarda-chuva quando a chuva é certeza. Para não encanar com a chuva quando o refresco é certeiro. Para não sair de vestido curtinho quando o vento é matreiro. 

Existe sempre um bom motivo para tudo isso. E, numa tarde de domingo bem quente, bato papo com o Capitão Óbvio num bar qualquer em Pinheiros. Ele está irritado e perplexo:

- Não entendo vocês: estou sempre por aí, entregando quase tudo de bandeja, mas vocês insistem em fazer diferente!

- Ah - suspiro - Nem sempre é fácil, simples assim. Há coisas pelas quais temos que passar. Acho que a experiência é necessária e, muitas vezes, mais válida do que seguir a sua cartilha.

- Então é uma questão de escolhas?

- Nem sempre. Nem sei.

- Então você leva Frank Sinatra a sério?

- Ainda sim. Às vezes. Ai ai.

- Olha, não entendo mesmo porque vocês escolhem me ignorar - ele dá uma pausa e suspira -, mas entendo porque você leva o Frank a sério...

21 de dez de 2012

Sinais: you're doing it wrong

Não vi sinais do fim do mundo: o que está errado está errado e não é de hoje não. Por isso, dormi tranquila sabendo que as coisas continuariam como sempre. Tranquila não é bem a palavra: a constância, a mesmice e o comodismo têm um preço. 

De repente os sinais de Deus, de qualquer outra entidade superior ou da vida estão bem na sua frente, mas será que você está realmente atento? A pedrinha de brilhante piscando aqui no chão e o sujeito buscando a estrela lá longe - inatingível. Assim como há pessoas que buscam amor, felicidade e realizações nos lugares errados, há quem também erre ao procurar os tais sinais. Digo "lugares errados" não por moral ou juízo de valor, apenas porque muita gente não sabe o que realmente precisa. 

(Se alguém achar isso normal, me chame de chata)

Sempre sei quando vai chover, sei ler os sinais do ar e dos pássaros, muito além do senso-comum das nuvens. Isso não quer dizer que eu sempre saia de guarda-chuva. Por isso, não basta saber ler os sinais, mas é preciso fazer algo a respeito. Do contrário, é como se eles não estivessem lá: de que serve se perceber que algo vai acontecer e não fazer nada?

Deve ser a minha mania de condenar a omissão...

Vai chegando o fim do ano e é impossível não ir fazendo uma retrospectiva de 2012, com todos os erros e acertos, com todos os sinais que eu li e os que não percebi. E os que deixei passar porque estava preocupada com qualquer coisa nada importante, algum cisco de pão na sua gravata, alguma formiguinha no açucareiro de aço inox riscado. 

20 de dez de 2012

Ligeirinhos: Justifique sua resposta no more.

A: - Me disseram que eu me justifico demais.

B: - Também sou assim...

A: - É complicado.

B: - É mesmo.

Pausa.

B: - Mas é que eu...

A: - Ei! Você 'tá fazendo de novo.

19 de dez de 2012

Da dança à sedução

Da primeira vez que comentei que queria aprender dança do ventre, um amigo me perguntou:

- E quem você quer seduzir?

Eu sorri e respondi "ninguém", porque é uma coisa que eu queria fazer por mim - e não pelos outros. No último fim de semana, depois de meses de aula, tive minha primeira apresentação. E foi simplesmente fantástico! 

A dança ventre é mais uma daquelas centenas de coisas que pode parecer ser para os outros, mas deve ser para quem dança. Quer dizer: você até pode dançar para seduzir alguém, mas fazer desse o único motivo me parece algo um tanto falho. É fazer a coisa certa pelo motivo errado.

Durante os ensaios, não pensava em impressionar fulano ou ciclano: pensava unicamente em mim. Era o meu momento. Momento de deixar o outro de fora, em silêncio. É o diálogo da mulher com o seu corpo (seja ele como for, pois acaba sempre sendo belo), com a sua feminilidade, consigo mesma. 

Por que o meu cabelo - curtíssimo agora, a la Ginnifer Goodwin -, o meu tom de esmalte, o meu jeito de falar precisam atender ou agradar alguém? Então, a verdade é que não precisam e toda vez que me deparo com alguma "reportagem" no melhor estilo "se enquadre", eu acho triste, porque quem vai se construindo com base em parâmetros de aceitação alheia complica a própria existência. Já falei disso várias vezes e insisto por a achar ser uma questão importante.

- Você deveria ser...

Dançamos porque nos faz bem, porque relaxamos, porque desinibe, porque soltamos o corpo e aprendemos a aceitá-lo, amá-lo - sem que o olhar do outro se faça necessário. Claro que se a sedução der as caras no meio desse caminho mal não vai fazer.

15 de dez de 2012

Ligeirinhos: Intragável

A: - Seu café.

B: - 'Brigado.

Gole.

Careta.

B: - Faltou açúcar.

A: - Não, é só ressentimento.

14 de dez de 2012

Gato mia

Porque decidiram brincar de gato mia e o gato miou, se não tudo, um pouco, alguma coisa, muita coisa. Muito miou. Só que o meu jogo é outro:

- Atirei o pau no ga-to to...

[mas o ga-to to não morreu-reu-reu] a história da minha vida.

Não era medo: era só o desconforto causado por estar no escuro, sem saber quem estava comigo - alguém contra mim? Hoje, nem o desconforto: um escuro honesto, sem farolete. Luz interna? Intuição. O sexto sentido apurado, mas sem ver gente morta, só as coisas vivas. E, ainda que estivesse tudo claro, eu fecharia meus olhos para seguir assim.

Entretanto, as flores eu deixo morrer:

- Você precisa cuidar das flores que ganhou.

- É.

- É assim que você vai cuidar dos seus filhos?

- Não, não vou precisar regá-los.

É tempo de cirandar por outras bandas, plantar em outros campos. E já colho alguns bons frutos, expressos em palavras e abraços. Afeto.

- Você plantou uma semente de amor em cada um de nós.

Tateio no escuro em busca do gatos danados, mas me escapam - obviamente. Então esbarro comigo mesma, essa cara que me dificulta a vida, os óculos, o cabelo ansioso por mudança. Bom, vir ela veio, a galope, fazendo malabarismo com objetos em chamas.

Ui! 

Radical?

Abri uma trégua: sai para o quintal, coloquei um pires de leite. Os gatos foram se aproximando. Vieram pelo leite ou para rir de mim? Nada. Me olham simpáticos, compreensivos. Meu cafuné logo virou um ronronado suave e terno:

- Está tudo bem - eles me dizem.

Aí eu olho para o céu, para eles, para os rumos que a minha vida está tomando, bonitos e diferentes desenhos ganhando forma a partir de um esboço. E repito:

- Está tudo bem.

Sorrio. Welcome brave new world.

Família

A: - Quero um desses!

B: - Espero que  você esteja se referindo ao chocalho.

12 de dez de 2012

Saia já daqui pra casa e outras coisas.

Nada como comprar a saia que você mesma mandou para o bazar beneficente há um ano atrás. Não é falta de desapego: é dar uma segunda chance a saia. De bônus, ganho o riso coletivo dos colegas e aqueles olhares:

- Como você é esquisita!

E o que o meu devolve:

- You haven't seen anything yet...

Hoje, enquanto eu voltava para casa, presenciei aquele pé de vento. Bagunçou uma árvore, levando suas flores brancas embora. Chegarão em outros lugares, sem dúvida. Partidas e chegadas. Venta lá fora e venta aqui dentro. Winds of change e dos fortes, enquanto assobio por dentro, feliz.

A saia é a mesma, a vida é outra - e eu também [multiplicado por três].



Ligeirinhos: Tudo errado

A: - O que deu errado?

B: - Chorava todas as noites e me pedia perdão por não corresponder às expectativas.

A: - Nossa! Tá na hora de você procurar um cara mais forte.

11 de dez de 2012

De estimação

A: - Acho que não dá mais...

B: - O quê?

A: - Isso.

B: - Isso?

A: - Olha como ele está!

B: - Ah! Mal assim?

A: - Olha!

B: - É, ele está meio... diferente.

A: - Diferente? É só olhar para ele: está tão gordo que mal consegue andar!

B: - E o que houve de errado?

A: - Acho que alimentei demais o seu ego.

10 de dez de 2012

Sessão da Tarde

Voltava para casa não lembro de onde. Comecinho da tarde, só uns cachorros junto ao ponto de ônibus, o motorista bebendo uma cerveja gelada junto ao volante. Antes assim do que tomá-la no café da manhã como costumava fazer, logo cedinho, só para me levar para o trabalho.

Um calor de dezembro que valia por todos os meus vinte e cinco dezembros. Vou me aproximando de casa e vejo longe dois homens sentados na ilha da agora pacata avenida. Todos dormem? Sesta? Menos os dois homens e eu. 

Vestem uniformes e se distraem com alguma coisa. Hora do almoço. Estão sentados de um de frente para o outro e olham para algo entre ambos. O que seria? Meu passo, sempre apressado, mas sem engasgos, curioso. O que seria? Não deve ser filhote,  nem sobremesa, mas o que quer que seja, estão concentradíssimos.

Vou me achegando, chegando olhando engolindo absorvendo...

Sentados sobre a boca de lobo, os dois trabalhadores e o tabuleiro jogam xadrez durante sua hora de almoço.

8 de dez de 2012

Ligeirinhos: Bolha

A: - Para onde você tá me levando?

B: - Surpresa. Pronto, chegamos.

A: - Onde?

B: - Para fora da sua zona de conforto.

7 de dez de 2012

Ligeirinhos: Quem?

A: - Não é você: sou eu.

B: - Sim, é você mesmo.

A: - Você acha mesmo?! Falei por desencargo de consciência...

6 de dez de 2012

Radical

A: - Vários caras me disseram que eu era como um porto seguro. E todos eles escolheram ir embora, cedo ou tarde.

B: - Os homens não gostam dessa calmaria, dessa segurança: precisam de emoção, não podem ter certeza que você está lá com eles, que você os apoia. Devem achar que você pode mudar de ideia a qualquer momento: é um estímulo. 

A: - Sério?

B: - Você tem que ser misteriosa e essas coisas chatas todas. Cansativo. Do contrário, para eles, o jogo da conquista perde a graça.

A: - É sério isso? Tem certeza mesmo? Acho que você está enganada...

B: - Bem, foi o que li por aí. 

A [suspiro]: - Bom, se for isso mesmo, talvez então seja hora de passar de "porto seguro" para "rafting nas corredeiras"

5 de dez de 2012

Ligeirinhos: Amor

A: - O que foi?

B: - Acho que estou apaixonado.

A: - Então se dê o benefício da dúvida.

4 de dez de 2012

Fora da zona de conforto - de novo.


Engraçado como a gente muda. Até alguns anos atrás, eu daria qualquer coisa no mundo para que as coisas não mudassem. Talvez isso acontecesse porque eu estava na minha zona de conforto. Só que desde que me formei na faculdade, não sei mais o que é isso. E, estranhamente, só notei tal fato há alguns meses. E, estranhamente, isso não me encana - só me encanta.

E me perguntei por esses dias: se estou tão fora, por que não ir um pouco além e sair um pouco mais da minha zona de conforto?

Quando dei por mim, tinha escolhido fazer uma coisa totalmente nova em 2013, algo que sempre tive vontade, mas nunca a oportunidade. E, uma vez que me foi dada, a agarrei com toda a paixão e dedicação que tenho. Será um grande desafio, mas, estranhamente, não tenho medo. É como se eu finalmente tivesse entendido que não há nada a perder. E nesses momentos de conquista íntima, percebo como andei me preocupando com coisas tão pequenas...

Mudar é bom - e fim de papo. Não digo que a mudança é sempre feliz, mas ela te força a ir além, a se adaptar, a buscar novos caminhos. A minha vida não é nadinha do que eu esperava há alguns anos atrás e, hoje, não consigo imaginá-la diferente do que foi, do que tem sido. Porque eu tenho prazer em tudo o que faço e tenho visto do que sou capaz. Isso dá uma sensação de algodão-doce no parque.

Talvez eu nem queira voltar para a tal da zona de conforto: é muito mais emocionante viver fora da bolha, sabe? Arriscar, falhar e acertar - sou muito mais isso do que comer, rezar e amar.

Publicado originalmente em 30/11/12 em Meninas Improváveis.

3 de dez de 2012

Ligeirinhos: Mal-entendido [1]

A: - Isso deve ser por causa da minha postura.

B: - Mas é claro! Você não sabe se posicionar na vida!

A: - Eu estava falando do modo como me sento na cadeira.

1 de dez de 2012

Coisas que você não diz só de olhar para ela

Para meu amigo Corintiano, que me acusa de radicalismo ao falar sobre forma e conteúdo

Ela era pequena e frágil e tinha uma cara sonsa de donzela indefesa. Aquelas coisinhas delicadas e insignificantes que vivem precisando ser salvas. O que a gente não sabia é que ela era faixa preta em karatê e já tinha dado surra em muito marmanjo. E, para sua sorte [ou azar], o seu discurso - duro por trás do adoçante - botava medo em muita gente. Quem olhava, nunca imaginaria.

A sua beleza era aquela coisinha da Namorada de João Gilberto, poucos sabiam da enorme tatuagem de dragão nas costas, escondida sempre por baixo das roupas bem comportadas, embora levemente transparentes.

Quem a via, pensava naquelas mocinhas de novela da seis: nem desconfiavam do seu divórcio turbulento, dos inúmeros amantes, dos casos tórridos. Nada. Nem do filho natimorto. Nem do romantismo perdido. Nem da sua estadia na África do Sul por três anos.

Tinha uma moto na garagem e andava por aí sem carta, mas escrevia cartas para rádios. Andava a 120 km/hora ao som de Bush, porque Born to be wild era para amadores. E tirava racha aos fins de semana: um prazer transbordando por velocidade. Amava a velocidade, o vento, as vias, as veias, a vida.

Já tinha experimentado muita coisa e vivido muita coisa nessa vida. A cicatriz perto da orelha esquerda. Entretanto, era discreta. E a sua discrição se estendia para os sérios problemas domésticos enfrentados desde a infância. Sempre a cabeça erguida, solícita, determinada, suave. E forte.

Ela passava seus dias sendo subestimada pelo que parecia ser, já que o de fora não combinava com o de dentro. Só que o tempo foi passando e ela passou a ter prazer em surpreender os outros:

- Como você pôde?!

Sorria - e piscava o olho para a câmera imaginária. O filme de sua vida. E não só encontrou prazer em brincar com as pessoas, mas passou a tirar proveito da situação. Se dissessem alguma coisa, ela dava ombros e olhava com aquela sua meiguice. O casaquinho cor-de-rosa.