30 de jan de 2013

Piiii... Piiii... Piii...

Ele olha o número chamando em seu celular: número restrito. Não atendo. Número desconhecido. Não atende. Número conhecido. Não atendo. Não atende porque não está a fim. Não atendo porque simplesmente não quero. Não estou em lugar adequado para falar sobre o que quer que seja - ou quem. O que é urgente não pode esperar, mas quantas são as coisas urgentes nas ligações que fazem em seu celular? Nem se lembrava de tão poucas. Só que as pessoas não sabem esperar. Achava engraçado quem dizia que o celular permite que os outros fiquem sempre atrás de nós e que não temos mais liberdade. Bom, ele exercia a sua liberdade de não atender.

Ou, melhor ainda, se reserva o direito de desligá-lo. O direito do silêncio sem destino, sem rumo, sem satisfação. Antes, vivia-se sem celular, então hoje se pode viver também.

[Magoado, rabisca num banco de ônibus:

Quem precisa de comunicação quando tudo o que se tem é monólogo?]

29 de jan de 2013

Perdição

Ele: - Qual andar?

Eu: - Não sei, não memorizei.

Ele: - Hum. Onde você quer ir?

Eu: - No estacionamento.

Ele: - Ah, então é no primeiro subsolo.

Ele aperta o botão do elevador.

Eu: - Obrigada, não conheço tudo por aqui ainda.

Ele: -No começo é assim mesmo.

Eu: - Acho que estou um pouco perdida.

Pausa.

Eu: - Geograficamente.

28 de jan de 2013

Domingo

Me dá sua mão pois quero ler a linha da sua vida. Passado, presente, futuro. Brincar do jogo do sério só para poder te olhar sem pudores, sem explicações, sem a lenga-lenga que nós dois já bem conhecemos. Precisa de permissão agora? Me dá sua mão, pois quero te levar por todos os caminhos. Conhecidos, desconhecidos, imaginários. Nem que seja para te levar até a nova padaria, onde os sonhos são divinos e o café bem forte, como você bem gosta. Olha, pode pegar a cruzadinha do jornal. Toma a caneta. Você me sorri com esse sorriso de domingo, mesmo que seja uma segunda-feira chuvosa. E, no seu rosto, leio a minha total inabilidade de entender a vida. E nem por isso isso me atrai menos. Te sigo sem fazer perguntas na fila do pão, enquanto pensa em voz alta:

- O contrário de guerra... Paz.

O que me você me traz.

27 de jan de 2013

Como gerenciar conflitos [isso soou tão corporativo]

Um dia lhe disseram:

- Bater de frente de nada adianta.

Era um bom moço, então acatou aquilo: a melhor coisa a se fazer era evitar os conflitos. Ele também logo percebeu que nem tudo se resolvia com conversa:

- Não adianta falar se o outro não está disposto a ouvir 

Ele poderia ter dito a qualquer um, mas quem o ouvia? Também não fez drama, alarde ou salseiro. Simplesmente baixou a cabeça e seguiu o que lhe propuseram.

Logo viu que aquela história de causa e consequência, ação e reação, era tudo balela. Ba-le-la. Porque ele via pessoas que não assumiam as consequências do que faziam: havia quem abafasse as consequências  porque não era bom bater de frente ou entrar em conflito. Muito bem.

Então, um dia, decidiu que não bateria de frente. Ponderou bem. E começou a contornar a situação. Seguia, com segurança, a linha pontilhada no chão. A receita pronta. A solução para os problemas. Contornava com canetinha, na esperança de que tudo ficasse bem e ele avançasse três casas. Sua recompensa. 

Satisfeito, terminou o contorno - e  percebeu estar de volta ao ponto de partida, de onde havia saído.

23 de jan de 2013

Meninos e Meninas [3]

[...]

Ele: - Mas e aí? O que aconteceu?

Ela: - Ele fugiu.

Ele: - Bom, mas isso não deve ser comum pra você, né?

Ela alça as sobrancelhas.

Ele: - Você é culta. Tem cara que tem medo de mulher culta...

Ela alça as sobrancelhas.

22 de jan de 2013

Ligeirinhos: Embalagens

Chegou em casa cabisbaixo. A tristeza escorria de seus cabelos e pingava em seus ombros, encharcando a camiseta. Tomou banho e vestiu o pijama, embora ainda fossem duas da tarde, pois era um daqueles dias de pijama, nos quais nem vale a pena sair de casa - mas só soube depois.  Pensava na vida, pensou nas coisas, nos bichos, nas pessoas. Diluiu leite no chá preto. Sem açúcar, sem afeto. Terminado o seu chá, ajoelhou-se diante do armário da cozinha e, calma e metodicamente, começou a tirar as latarias e a despi-las.

Conseguiria[mos] viver sem rótulos?

17 de jan de 2013

Ligeirinhos: Culinários

A: - Você já se sentiu cru?

B: - Hein? Cru?

A: - É, como se fosse folha em branco, não soubesse nada da vida... Essas coisas.

B: - Poutz! O tempo todo!

A: - E não te incomoda?

B: - Só um pouco, mas sabe como é, né? Antes estar cru do que estar frito.

16 de jan de 2013

Bulletproof


- É a vida.

Dói ouvir, dói falar. Ouvi uma gravação minha lendo um trechinho de "O beijo não vem da boca" no qual Luciana pede seu final feliz. "É a vida" é uma faca de dois gumes: o consolo e o fracasso. O consolo que vem com o fracasso?

- É só uma fase.

Sei que é, mas também sei como é bom ouvir isso. Ainda mais vindo de você. Sei que o final vai ser feliz, mas a gente galga um bocado até chegar lá, não? Muitos dragões, muitos mistérios, muito de um tudo que me cansa e deixa perplexa. E é bom ter o seu colo, seu cobertor de palavras, suas broncas.

- É a vida.

Você me diz num suspiro, afastando a piedade do seu olhar e me encarando firme, sabendo que sou capaz de encarar o que vier. O que tiver que vir. O que já veio e o que virá. E tudo isso me faz mais forte, como se eu fosse a prova de bala, de água, de vento. A força que você vê em mim é a força que me mantém de pé. Talvez sua fé em mim defina muito mais do que imagina.  

14 de jan de 2013

As 6 primeiras lições de 2013

1) As furadeiras elétricas foram uma grande invenção. 

Eu já tinha brincado com uma furadeira elétrica antes numa super loja da Polishop, onde me senti uma estrela - sério! É o poder de uma boa iluminação, boa decoração e boa bancada de marcenaria. Ontem, tive a chance de operar uma furadeira manual. É uma ferramenta muito bonita - é estranho achar ferramentas bonitas? -, mas você tem que estar com tempo para utilizá-la, me explico: para você fazer um furo é uma eternidade! Peguei um pedaço de madeira e comecei a furá-la - logo perdi a paciência e fui fazer alguma coisa mais útil. Ah! Esse sábio ensinamento me lembrou de outros dois, relacionados ao mesmo episódio: desencapar fios é para os profissionais e trenas podem ser ardilosas.

2) Esse papo de memória seletiva é um engodo.

Cresci ouvindo e acreditando cegamente nisso, mas é um grande de um engodo. Ba-le-la. Digo isso porque eu lembro de milhares de coisas sem propósito. Não deveria haver uma razão para eu lembrar das coisas? Pois bem, acontece que eu lembro de vários acontecimentos, a meu ver, desnecessários, que não causaram nenhum impacto na minha formação enquanto ser humano etc. Já devo ter escrito sobre isso aqui no blog, mas insisto que a lição só foi totalmente apre[e]ndida agora, no comecinho do ano. Sempre achei que só lembrássemos daquilo que é importante e lembro de cenas, lugares, cheiros, conversas, pessoas com uma exatidão muito grande. Será que tudo e todos que me lembro seriam então importantes? Será que as coisas das quais me lembro têm um propósito e eu só não sei qual?

3) As coisas podem ser exatamente como parecem.

Pode soar às vezes até meio paranoico a velha história do "nem tudo é o que parece". Soa paranoico porque pode sim se tornar paranoico. O que [pres]sinto é que, muitas vezes, as coisas são exatamente como parecem. O que há de errado então? Nós, que somos míopes ou escolhemos  e insistimos em ver - conscientemente ou não - tudo com lentes tortas e daí estragamos o que está lá posto, simples e claro. Não estou falando de neutralidade - não acredito muito nisso -, estou falando que nosso modo de encarar a vida, nosso estado de espírito em determinado momento, nossos preconceitos etc. podem fazer com que vejamos as coisas de um modo totalmente equivocado. Em caso de dúvida atroz, vale sempre consultar uma segunda opinião. Nem sempre estamos prontos para ver o óbvio. Nem sempre o outro finge ou quer nos enganar. 

4) Andar de patins não é exatamente andar de patins (e varrer o quintal de patins é treino de hockey)

Andar de patins, na verdade, é deslizar de patins. E, mesmo assim, não é deslizar de qualquer jeito, é uma coisa muito específica, sabe? [sim, estou aprendendo a andar de patins depois de velha]. Se não tomar cuidado, fica parecendo um boneco de Olinda e não queremos isso, certo? Não digo que precise de molejo, mas é necessário algum balanço, acho. E, com o intento de tornar o trabalho doméstico mais lúdico, sempre vale tentar uma coisa alternativa do tipo varrer o quintal com patins [vai que eu descubro uma vocação secreta para hockey].

5) Lava-roupas Brilhante tira até as suas digitais.

Quem saiba agora eu possa pensar em CSI, Boston Legal, Bones, Castle e similares de um outro modo.

6) Uma piscina de mil litros ainda é uma piscina.

Não ligo para o glamour, nunca liguei. Liguei o ventilador, isso sim. E nada. Que calor era aquele? Talvez eu nem saiba mais nadar, talvez eu me afogasse se jogada fosse ao mar. Não sei, só sei do calor que nos fazia desmanchar. I'll stop the world and melt with you. Oh really? Sure? Nessas horas alguém lembra da simpática e nostálgica piscina de mil litros. Sem cerimônia, sem pegar as boinhas de braço, sem o bote inflável, sem pegar toalha. Mas também não é "se joga!", afinal, é uma piscina de mil litros, certo? Engraçado como o tamanho da piscina não é proporcional ao alívio e ao refresco por ela trazidos. 


12 de jan de 2013

Era uma vez o sujo e o mal lavado

Ela: - Você está sempre fugindo.

Ele: - Ué, você também.

Ela: - Eu não fujo: eu vou embora.

Ele: - Ah! Como se não fosse a mesma coisa...

9 de jan de 2013

Ligeirinhos: Síndromes modernas

A: - E aí?

B: - Não deu certo.

A: - Por quê? Ele não é legal?

B: - Sim, ele é legal, mas também é E. I.

A: - E. I.?

B: - Emocionalmente indisponível.

8 de jan de 2013

Três versões de "Sea of Love"

Sou chatíssima com versões de música (o Corintiano que o diga), mas gostei mesmo das três versões de Sea of Love. É legal que elas mantêm a essência, embora haja mudanças, naturalmente. E sempre dá pra dançar junto.

Phil Phillips (1959)



The Honeydrippers (1984) [banda do Robert Plant, ex-Led Zeppelin!]



Cat Power (2000)







7 de jan de 2013

Ligeirinhos: Cafona

A: - Tó, pra você.

A entrega pequeno embrulho.

B joga o embrulho longe.

A: - Por que você fez isso?

B: - Porque sim.

A: - Mas era a chave pro o meu coração!

B: - Por isso mesmo.

Ouvindo Local boy in the photograph (Stereophonics)

6 de jan de 2013

E voltamos ao drama do BBB

Já é o 13º Big Brother Brasil e estamos prestes a começar um novo drama. O drama dos que amam e dos que odeiam - e no meio de campo aqueles que não dão a mínima *levanto a mão*.

Há os que adoram e acompanham, os que detestam e acompanham e os que detestam e ficam reclamando do programa - principalmente nas redes sociais, então prepare-se para o festival de resmungos e "protestos", que frequentemente se mostram [muito] mais chatos do que os elogios ao programa.

Como Charlie bem observou ontem, quando eu disse que faria um post a respeito, às vezes quem não gosta de BBB é aquele que mais fala sobre o assunto - não é estranho? E é chato, bom, pelo menos para mim. Faço parte do grupo que não se importa e fico totalmente por fora:

- Você precisa assistir para se manter atualizada!

Mesmo? Ah! Então vou pagar de alienada assumidamente, porque eu simplesmente... não me importo. E, por não me importar, eu simplesmente não assisto! E, se a pessoa não curte ou não liga, acho que é a coisa mais inteligente a se fazer, não?

Não é como se houvesse apenas um canal na tevê. Não é como se não houvesse mais nada para fazer. Mude de canal. Vá ler um livro. Saia para fotografar, dançar, namorar, caminhar. Vá para a academia. Visite um amigo, um museu, uma praça. Desenhe, borde, costure, cozinhe. Vamos pintar o sete? 

O BBB aparentemente funciona porque há muitas pessoas que são curiosas/ gostam de bisbilhotar/ cuidar da vida dos outros - digo "aparentemente" porque não fiz nenhuma pesquisa e isso é um achismo meu: não tenho dados empíricos. O fato é que eu não vejo muita diferença entre o cara que assiste e o cidadão fica reclamando o tempo todo sobre o BBB, como se não tivesse mais nada interessante para dizer/ fazer/ viver. 

5 de jan de 2013

Early morning

São aquelas coisas que acontecem. E a gente fica sem saber o porquê ou o por onde ou o como: apenas o o quê está lá para dar conta das pequenas surpresas. E, se você for honesto e justo consigo mesmo, não vai procurar nada disso: apenas se contentará com o o quê.

Deitou-se no colo dela e se cobriu. Já era tarde - ou cedo - e alguma luz fraca vinha de fora. Amanhecia. Ele tinha apagado as luzes, ambos queriam tirar um cochilo. Queriam? Falavam sobre a vida. Na verdade, ela mais falava e ele mais ouvia - e brincava com sua mão, observando as unhas e a ausência de anéis. O que diriam as linhas da sua mão? O que diriam as linhas da mão dele? Talvez dissessem mais do que eles mesmos diziam. 

O ser humano é um mistério indesvendável. Entretanto, liam-se com relativo sucesso, comunicavam-se com relativa clareza, entendiam-se com absoluta certeza. Certamente. Mesmo nos silêncios da penumbra em que olhavam para dentro de si mesmos e depois um para o outro. O que pensariam?

Como se preenche os silêncios? E precisa? Precisa despejar palavras aleatórias só porque não se sabe o que fazer com ele? Ela ia falando aos goles gordos, já ele permanecia tranquilo, sempre segurando sua mão. Tinham sono, mas não queriam dormir. A vida era um mar de possibilidades - dormir para quê? Pareciam concordar nisso, conforme a conversa seguia, corria, fluía cristalina, preenchendo os espaços da sala.

Todavia, em algum momento, ela pareceu discordar: disse que precisava ir. Pegou as sandálias, a bolsa, a si mesma. Despediu-se sem cerimônia. Ele permaneceu lá, deitado, pensando? Não saberiam.

Ela [só] saiu quando já estava tudo claro, tudo às claras.


Ouvindo Sa garota (Clave de Clóvis)

4 de jan de 2013

Precisamos conversar... Mesmo?

Embora nunca tenha acontecido comigo, sei bem que toda vez que uma conversa começa com "precisamos conversar..." não soa bem - não soa bem porque em 99,9 %* dos casos não vem coisa boa.

E será que sempre mesmo essas conversas são necessárias? Será que precisamos mesmo conversar?

Às vezes muita coisa é dita e tal. E..? Reconheço que a comunicação é algo importante, mas também que a saliva é uma coisa preciosa e deve ser preservada quando possível. Sem contar que tais conversas são desgastantes por se tratarem de coisas sérias em 95%* dos casos. Aquilo o que segue o "precisamos conversar" é aquilo que deveria e/ou poderia ser dito sem tanta formalidade, seriedade, tensão. 

Será que o outro precisa mesmo saber o que a gente sente - ou que precisamos saber como ele se sente? Até que ponto "isso" vai se transformar em ações?

Porque eu tenho visto vários "precisamos conversar" nos quais as pessoas colocam seus sentimentos e nada muda. Então vale brincar assim?

Entretanto, sempre se pode puxar um "precisamos conversar" sem se abrir at all. Justo?

Já fui a favor de "boletins informativos": você chega, fala [informa] e não espera nada em resposta - e, se puder, vai embora assim que termina. Soa um pouco como desabafo, mas também bem covarde: você não cobra uma resposta do outro não porque seja legal, mas porque não quer uma resposta, sim?

E tem ainda a velha história de sempre: o que o outro faz com as suas palavras foge totalmente da sua alçada. Não é que eu não acredite na comunicação entre as pessoas: sou bastante clara e honesta, só acho os diálogos no melhor estilo "precisamos conversar" têm que se converter em ações.

* Desconsiderar porcentagem fictícia.

3 de jan de 2013

Sinceramante

Sinceramente, amanteigado sem manteiga é uma coisa sem propósito e sem gosto. Becel pode fazer bem para meu coração, mas não para o meu paladar. Eu só precisava dizer, já que isso não preciso omitir.

Não é que eu normalmente minta - você sabe que eu não sou de mentir. Sabe? É só uma questão de acertar na escolha de palavras e dar a cara a tapa. E isso eu sempre faço, você sabe - que estou mentindo: sempre é tempo demais, é muita pretensão. Normalmente é mais seguro e mais ... honesto.

A gente omite porque nem sempre dá pra dizer a verdade. Por que não dá? Nem sempre precisa dizer a verdade. Mesmo? 

Sinceramente, não durmo mais. Também não sonho mais. Não é uma música do Chico? E, pra ser sincero, café não me mantém acordado quando preciso estar acordado. São outras as coisas que me deixam acordado e tornam a tentativa de dormir um tédio.

Pra ser honesto, quero mostrar que você merece a minha sinceridade, os meus pingos nos Is, a clareza das coisas mais óbvias.

Sinceramente, não vai dar pé: a piscina é funda demais para você, mas se você quer ir, vai - eu não vou segurar, 'cê sabe. Faça e aconteça, vá onde quiser, mas saiba que na verdade...

Honestamente, não dá para se esconder atrás das mídias sociais para sempre; você vai ter que [se] superar; a vida não dá prêmio de consolação; a gente planta o que colhe blá blá blá - nada que você não saiba, mas tudo o que faço questão de dizer com sinceridade - antes você ouvir de alguém que se importa.

Sinceramente, você mente muito - e não sabe mentir [a veia gorda pulsa nervosa na sua testa]. Seu coração bate descompassadamente enquanto você fala com toda a calma do mundo - e acha que convence sua platéia com deleite.

Para ser sincero, alguém que não tem as perguntas não merece as minhas perguntas - muito menos as minhas respostas. Bem, talvez você apenas omita as suas perguntas e eu esteja apenas mentindo sobre isso tudo.


2 de jan de 2013

Desire

Sempre fervia a água para o seu café. Chafé. Ficava sempre uma coisa meio assim, meio pela metade, meio incompleta - faltava. Faltava café[?]. Um dia, esqueceu-se do café, da vida, do dia. A água fervia. E fervia. Transbordava e evaporava. Mas nunca, nunca secava, acabava, se extinguia.

Ele tinha se esquecido da água e se surpreendeu ao ver tudo aquilo intensamente insolente, borbulhante, que transbordava e se esparramava pelo fogão e escorria - e não o fazia correr. Ele ficou olhando sua cozinha inundando. Aquela água que fervia, transbordava, não acabava, que espirrava nas paredes e escorria por baixo da porta da cozinha e inundava outros cômodos.

Olhava impressionado, atônito. O peito molhado. Os olhos úmidos. Sem desligar o fogão, serviu-se da água que brotava incontrolavelmente. Preparou seu café enquanto sentia seu corpo amolecer. E, de algum estranho modo, aquela água parecia diferente - ou foi a quantidade de café?

Alguma coisa parecia certa, totalmente completa, nada mais faltava. Era no café ou em si mesmo? Não pensou muito: foi bebendo a goles gordos. Uma sede daquilo que não se conhecia, mas desde sempre se sente falta. O melhor café que já tinha preparado.