24 de fev de 2013

No trespassing

Ele: - Não acredito em amizade entre homens e mulheres.

Ela: - Ah, eu acredito sim.

Pausa.

Ela: - Mas sempre se corre o risco de um dos dois se confundir...

"Já vi muito isso acontecer".

21 de fev de 2013

Luminescente

O calor já a tinha incomodado mais, muito mais. A rejeição já a incomodara mais também. Assim como o lanche esquecido em casa sobre a mesa. O guarda-chuva que insistia em quebrar. A sua dificuldade de abrir portas - literalmente. O peso desnecessário carregado pra lá e pra cá - literalmente. A falta de sono e o excesso de sonhos. A falta de jeito para certas coisas, condizente com a idade.

Tudo isso já incomodara bastante.

Mas aí, de algum modo estranho, essas pequenas coisas simplesmente deixaram de importar. Eram tão... pequenas. Pequenas comparada ao quê?

A moça no café sorria, com seus pés e joelhos à mostra. Definitivamente, paixão. Uma daquelas coisas grandes que fazia o mundo girar o rio fluir um rio no qual mergulhava inexplicavelmente corajosa. Paixão, pura e simples, na sua essência mais incandescente e luminosa. 

Paixão pela vida. Impetuosa[mente]. Era preciso escolher o que se levava até o fim. Aquilo que seria o seu fim. Final feliz? O que se vivia com intensidade.



17 de fev de 2013

Pequenas grandes coisas

Era pequena, muito pequena.

Não entendeu seu vestido preto. Não entendeu as lágrimas do pai. Não entendeu a reunião de família sem graça e sem riso. Não entendeu a ausência repentina da mãe. Mas ficou triste, muito triste. Não é preciso entender nada quando se tem o que sentir. E ela tinha.

Voltaram cabisbaixos para casa. Uma casa agora vazia e mais fria. O pirulito amarelo era seu prêmio de consolação. Uma tentativa amorosa e ingênua de fazer com que se sentisse melhor. O pai sentou-se no sofá, as luzes fracas. E ela sentada na poltrona, olhando-o. Profundamente.

Ele se levantou, acendeu as luzes. Seguiu até a vitrola e coloca um disco. Delicadamente. O som, de um chiado suave e delicioso, começava a vazar pela sala e logo ela estava cheia. Ela se lembrava de já ter ouvido aquilo antes, muitas vezes. 


O pai fez um gesto com a mão, para que ela se levantasse. Ela se aproximou e ele pegou sua mãozinha frágil e morna. Ela pisou em seus sapatos, equilibrando-se. Ele pegou sua outra mãozinha. E agora está tudo bem.

Eles dançam, suavemente. Sorrisos tristes ousam apareder. E ela se lembra de já ter ouvido aquela melodia muitas outras vezes.

E, de repente, a vida era grande, muito grande.

16 de fev de 2013

[Des]construção

cimento argamassa tijolo por tijolo por tijolo cal alguma força alguma mágoa algum senso de realidade porque a fantasia qualquer que fosse caso existisse não mais está lá nem nunca esteve cimento argamassa tijolo por tijolo por tijolo cal alguma sensibilidade muita clareza algum cansaço algum descaso com as flores do canteiro cobertas por cimento argamassa tijolo por tijolo por tijolo cal nenhuma nostalgia alguma ousadia alguma rebeldia muito cansaço quem está debaixo do cimento argamassa tijolo por tijolo por tijolo cal ergue-se imponente duro sólido insensível frio navalha indelével.

mais um muro era construído. imponente.

15 de fev de 2013

Provas de amor, Yakult e afins


Eu poderia citar aqui mil e uma maneiras de demonstrar afeto, mas de nada adiantaria se você não quisesse ver. Há gente que espera um buquê de rosas vermelhas todo dia, mas é incapaz de dividir um guarda-chuva quando a chuva aperta. E quando o peito aperta e você quer bem alguém, vem aquela coisa das comédias românticas e a fórmula perfeita:

- Tem que ser assim.

Pode ser muito difícil reconhecer o sentimento alheio, pois ele nem sempre se manifesta como achamos que deve. Sim, porque o outro tem que demonstrar o que sente o tempo todo e as provas de amor têm que ser a medida da paixão. Mesmo? A necessidade de arroubos é constante. A rotina é feia e condenável. É isso o que dizem. Só que no mundo real, longe das luzes de Hollywood, é no cotidiano, na rotina, no dia-a-dia que o amor é construído, ganha corpo e peso e passa a ocupar espaço - primeiro em forma de papel de bombom, depois em conversa paciente sobre como resolver o problema das contas que não se consegue pagar.

Sou a favor do Yakult partilhado de bom grado: dividir o Yakult é dividir o pouco que se tem, um pouquinho do próprio mundo.

Esquecemos que estamos lidando com seres humanos - e também que nós somos seres humanos. Esquecemos também que o charme pode estar na falha, no erro, na imperfeição. E há quem passa a vida inteira perseguindo aquilo que ninguém poderá trazer: satisfação total - como se isso fosse condição para a felicidade...

14 de fev de 2013

Pela metade

A: - Ele perguntou de você.

B: - De mim?!

Depois de todo aquele tempo? Depois de tanta coisa? Mesmo estando com mais uma namorada? Bom, devia haver alguma coisa errada, só podia. Alguma coisa errada, bem errada - desde sempre.

13 de fev de 2013

Platônicos

Flap flap flap. Lá vinha ela com suas havaianas amarelas e os dedos preguiçosos. Entrou com um sorriso de orelha e orelha e estendeu a mão para Zeca:

- Adivinha?

E era uma vez uma aliança dourada no dedo.

- Noiva?

Primeiro, ele quis torcer o nariz. Depois, torcer o pescoço dela. Ela que tinha dito que nunca que ia casar! Devia só estar esperando para dar o bote, isso sim. O primeiro a lhe pedir a mão e ela foi logo aceitando. Anda para lá e para cá. Quase rodopia de tão feliz. Tão infantil. Tão careta. Uma felicidade tão pequena que me dói. Ou é dor de ciúmes? Ou é dor da inveja da sua felicidade?


- Poxa, que... legal.

Sorriu amarelo-ovo e sentiu-se enjoado. Abriu as janelas para o ar entrar - e por que ela não podia sair agora? Pela janela mesmo?


Devia só estar esperando... A pessoa certa - porque as erradas ela tinha conhecido todas. E ele? Teria ela realmente conhecido Zeca? De verdade? Ela se sentou perto dele:

- Obrigada por tudo!

Pegou-lhe a mão esquiva, o olhar esquivo que nela se fixava agora:

- Você foi um grande amigo.

Amigo. E quis ser mais? Ô se quis! Primeiro, fantasiava com aquelas sandálias de tiras vermelhas. Mas ela foi ganhando peso e espaço em sua vida. Ganhou estatuto de realidade. Aquela concretude das unhas azuis, das pulseiras barulhentas, do perfume que ele aprendera a gostar, do seu sopro de alívio, sossego. O barulho dos chinelos.

Quem a olhasse uma vez, a veria insignificante  Era preciso olhar mais de uma vez. E isso ele tinha sabido fazer, como poucos. E passava tardes olhando-a, dividindo as coisas pequenas, já que as grandes nunca teriam. Mesmo?

Devia só estar esperando. Quem sabe até por ele? Mas ele sempre perdia o horário dos vôos. Perdia sempre a hora. Olhou no relógio porque ela também olhou. Pensou no cretino com quem ela ia se casar. Bom, não era mau sujeito, pensando bem, e talvez dessa a ela o que tanto passou a vida querendo:

- Consistência.

Disse ela certa vez. E Zeca era aquela gelatina que nunca ganharia forma - eternamente líquido escorria agora pela cadeira. Ela ainda segurava sua mão. Ela foi o lenço que o recompôs de volta à cadeira. Aquele seu olhar. E ele a olhou, com uma ternura que fluía dela. E foi felicidade o que sentiu, pois não parecia ser possível sentir mais nada. Uma felicidade mista e, como toda casquinha mista, uma coisa meio descontente. Mas entendeu.

Já não queria mais jogá-la da janela, mas não se importaria de pular. Esperou que ela saísse, não sem antes pedir que não desaparecesse - fato que considerou ser inútil - e ponderou, enquanto Godofredo pulava no sofá e o olhava compreensivo.

- Bom, talvez eu ainda tenha algo a oferecer.

Zeca acarinhou o gato, que ronronou.



12 de fev de 2013

Jogos de poder

Ele: - Estou te manipulando.

Ela: - Quem garante que eu não estou te manipulando?

Ele: - Confio em você.

E, mais uma vez, os dois permaneceriam na mesa de pôquer até o fim.


8 de fev de 2013

Ficção científica

- Que papinho mais espiritual o seu, hein?

As duas riam na cozinha. Ela contava a amiga suas últimas tentativas - e fracassos.

- Carma - só pode ser, disse, dando um baforada de cigarro - É como se tudo fosse ficção, sabe?

- No estilo folhetim?

- Antes fosse: é ficção científica.

- Antes fosse nada: folhetim é deprimente. Ficção científica sempre pode sair uma coisa Barbarella e aí a coisa muda de figura.

- Ou a coisa sai da sua barriga!

- Você tá grávida?!

- Não, mas pensei no Alien e em toda aquela sujeira e bagunça.

Ela lembrou, enquanto lavava a louça lentamente. Por quê? O urso panda de pelúcia - panda não é urso - com o post-it cor-de-rosa na barriga:

"Não-confiável!", dizia solene - ou diziam aquilo sobre ele?

Bem que devia ter desconfiado. Observou o resto de polpa de mamão, boiando dentro da pia entupida. A água escoava lentamente, mas tão lentamente que era quase imperceptível. Talvez não estivesse escoando de fato, mas ela não deu importância: lavou bem as mãos e deixou a pia como estava. Não deixou de notar as sementes escuras, que se emaranhavam estranhamente com fibras e fruta ainda macia. Pensou ver naquilo uma pequena criatura marinha, uma dessas só encontradas há muitos metros de profundidade. Mas boiava em sua pia, então não podia ser. E mesmo que afundasse, ainda não poderia ser.

- E este é o meu quarto - ela tinha dito, sabendo ser óbvio o que dizia e sabendo no que aquilo ia implicar.

O urso panda de lembrete. Começou a cortar cebola e nada das lágrimas virem.

- No more tears,

tinha cantado Ozzy em algum momento. Era a mesma história do shampoo infantil, mas ela estava crescidinha já para aquilo, embora nunca para Ozzy. Seu urso de chamava Ozzy - e ele não era confiável. Ouviu um barulho vindo da pia: algo parecia ter borbulhado. Um barulho alto. Ela abandonou as cebolas sentimentais sobre o balcão: não viu nada na pia. Mas... Não pode deixar de cismar que o emaranhado de sementes e fibras e polpa parecia ligeiramente maior. Seus olhos, seu olhar. Distorcido e

"Não-confiável!"

Voltou para as cebolas, solenemente. Um pernilongo gordo pousou em seu ombro descoberto.

ZAP!

Um pequeno ponto vermelho... sangue. E os restos do inseto, esmagado contra o ombro moreno. Vai até o banheiro, pensando na conversa que tivera com a amiga, na cozinha. No espelho, só vê os grandes olhos escuros, de uma ansiedade tão contida que ela poderia explodir a qualquer momento. Lava o rosto, o braço.

Há quanto tempo...

Do banheiro, ouve outro borbulho, mas dessa vez, mais forte. Ela não se importa: agora são seus ouvidos que a enganam. Volta para as cebolas, não sem antes voltar o olhar para a pia entupida: a água não tinha escoado, mas nem sinal do emaranhado de sementes. Ela dá costas para a pia, vai cortando as cebolas, solenemente. E ouve mais um barulho, um último, um zunido alto, muito alto.

Era noite quando voltei para casa. Entrei pela janela dela. Uma faca no chão - sinais de luta? Me aproximei lentamente, atento a qualquer sinal de perigo, pronto para qualquer coisa. Mas tudo estava em silêncio. Tudo morto. Corri ao ver o corpo dela caído no chão, meio comido. Lambi-lhe os dedos, como se pudesse ressuscitá-la - tinha assistido o segundo Batman no dia anterior. Sobre o balcão, as cebolas choravam.



5 de fev de 2013

Roles

A: - É o seu comportamento, o jeito como se veste, o modo como você fala.

B: - É mesmo?

A: - É, acho que é por isso.

B: - Só estou cumprindo um mero papel social.

4 de fev de 2013

Ligeirinhos: Do que é feita a sua vida?

A: - Nossa! Que bonito isso que você disse!

B: - É.

A: - Anda lendo muito?

B: - Não.

A: - Escrevendo?

B: - Não, vivendo.