22 de abr de 2013

Dos meninos discretos

Ele: - A terceira melhor coisa do mundo é Coca-cola!

Eu: - Mesmo? Ah, eu não acho não. E qual é a primeira?

Ele sorri: - Há coisas que a gente não comenta...

Eu: - Certo, e a segunda?

Ele sorri novamente: - Há coisas que a gente não comenta.

19 de abr de 2013

'destino' com D de 'desperdício'

"Aquilo soou quase como uma daquelas declarações dos oráculos gregos", pensava ela pensando nas palavras dele. Teve uma sensação de cartomante que lia seu futuro, as linhas de sua mão pequena e unhas azuis. Um tom de oráculo, do destino mais do que previsto e revisto ante os imprevistos da vida.

Fatídico. 

Um destino escrito, mas escrito em garrancho de letra de médico numa vida sem remédio!

Cuida? Cuido nada, cuido não!

O que não tem remédio remediado está.

Palavras dele e um bocejo dela. Ronronou no seu silêncio de leite morno com canela. Passeava os dedos pela própria nuca. Que raios era aquilo? Ai que preguiça de pensar e sentir qualquer coisa! Que preguiça de  precisar sentir alguma coisa! Não sentia nada, apenas uma alegria plena em si mesma.

A primeira vez em quanto tempo? Tanto...

"Aquilo soou quase como uma daquelas declarações dos oráculos gregos", pensava ela pensando nas palavras dele, enquanto folheava, desinteressadamente, a Cláudia do mês de março.

Mas aquilo não era nada. Levantou-se, balançou a juba selvagem e tirou os chinelos. As peças de roupa foram ficando no caminho até o banheiro. Nada que uma boa ducha e um óleo de baunilha não resolvessem. Foi se livrar de qualquer resquício de pó de fantasia que pudesse ter ficado de suas vidas passadas.

Ouvindo Baby (Os mutantes)


17 de abr de 2013

Eita mania besta dos prazos impossíveis!

É quase masoquismo, mas sem prazer. Vai mais pela necessidade do que pelo desafio - embora adore desafios. E vai apontando prazos impossíveis, como se não se conhecesse - ou como se não soubesse calcular o tempo.

Bom, conhecia as duas coisas muito bem: a si mesmo e o tempo.

A coleção de relógios. O almoço de dez minutos. A solitária (mas nem por isso triste) torta holandesa.

É quase auto-sabotagem, porque só faz isso consigo mesmo e é consciente. Sempre acha que vai dar um jeitinho. Bom, normalmente dá, mas a que preço?

É a mania das responsabilidades em excesso. Era velho para sua idade? Sai correndo atrás da bola que vai para a rua. A bola pula o muro. Ele pula o muro, vai atrás. Faz isso quando tem tempo, mas já não tem muito - tempo e o resto.

Um contentamento descontente. 

É a ansiedade que o consome. Vela que queima lentamente. Medo da juventude estar se esvaindo a areia da ampulheta que por vezes ele quer desesperadamente quebrar porque a cabeça por vezes pesa os olhos pesam está preso sem saber onde só sabe que está  e ponto e fim.

Mais um dia começa:

- Bom dia, mundo.

P.S. Voltara a ser o Coelho da Alice, embora nunca se atrasasse. Antes fosse ele a própria Alice.

13 de abr de 2013

"Save me!" (só que não)

Freddy Mercury e os Hanson que me desculpem, mas:

- Save me!

Não é um pedido lá muito válido. E isso acontece simplesmente porque eu não tenho o poder de salvar ninguém - do mesmo que ninguém pode nem vai poder me salvar (embora eu já tenha querido isso tantas e tantas vezes...)

Você pode ter a sua família, seus amigos, sua fé - mas, no fim das contas, só você mesmo pode se salvar. Só a sua vontade de sair de onde se está. Podem até jogar a corda ou a boia pra você, homem ao mar, mas se você não se esforçar... Pode estar a maior calmaria e você vai se afogar.

Que movam céus e terras, mas se você não quiser... Ah. É o livre-arbítrio, né? Por isso, é preciso saber nadar todas as modalidades e estar com os cinco sentidos apurados quando o dia for da caça - e você for o alvo. Porque, às vezes, somos a caça e não vai haver milagre para nos salvar a pele.

É, você que vai ter que a superar seja lá o que for, a lidar com seus problemas e com as pessoas difíceis que existem na sua e na minha vida, aprender a cozinhar e a trocar a lâmpada sem ajuda, conhecer os seus limites, em vez se esperar que alguém os aponte. 

É você que escolhe o que fazer com o seu leão diário: domesticá-lo, espantá-lo ou matá-lo - salvá-lo?! - talvez eu o salvasse, caso pudesse. Mas só dou conta de mim e, ainda assim, daquele jeito.

Posso ser toda ouvidos, te estender a mão, te entregar o mundo, te oferecer muitas tardes, te falar o que você precisa ouvir... Mas não te salvar. Do mesmo modo,  você não pode me salvar - e isso não é ruim.

10 de abr de 2013

20 e poucos anos: Um outro dia qualquer

Podia usar uma arminha d'água para se defender das bruxas que apareciam em seu caminho. Podia estar aos prantos porque, mais uma vez, as coisas não saíram como ela queria. Podia passar mal de novo, ir parar no pronto-socorro e ouvir aquilo que já sabia. Podia ter um ataque histérico quando lhe dissessem que estava sendo histérica - quando, na verdade, não estava (bom, antes não, né?). Podia ficar matutando sobre as grandes questões existenciais que a afligiam desde o início dos tempos. Podia continuar procurando uma lógica no amor e no modo como as pessoas lidavam com os sentimentos alheios. Podia tanta coisa, tudo e tanto... Que a consumiam e ela queimava rápido rápido rápido.

Isso, num outro dia qualquer. Amanhã, quem sabe.

pois

HOJE 

era dia de Lô comprar lingerie.

9 de abr de 2013

Das flores que recebeu

As bonitas flores entregues - e ela, a costumeira desconfiança. Olhou com alguma frieza e todo o ceticismo que cabia em si. Felizmente, era pequena. Mas a descrença transbordava pelos seus poros, digitais, olhos. Escorria pelo seu nariz, aquela sua gripe.

Olhou as flores novamente. Estaria sendo muito dura com elas? As pessoas estavam sempre falando de sua dureza. 

 Ah!

Resolveu dar uma segunda chance para elas - sempre mais fácil dar segunda chance a flores do que a gente. 

Tirou-as dos papéis e laços, colocou-as num vaso com água.

Ah.

As flores eram de plástico.

4 de abr de 2013

O engodo da neutralidade ou A raposa é uma tola


Ele, adorável e afetuoso e com o dom de encher linguiça, me perguntou diretamente:


- Professora, você acredita em neutralidade?

- Sinceramente? Não. Nunca.

Ele sorriu satisfeito - não sei com o que, mas satisfeito. Acho que comigo, só isso.

O meu plano ser o mais neutra possível, manifestar minha opinião o mínimo possível. Não ser tendenciosa e simplesmente apresentar fatos e deixar que eles decidissem o que é melhor, em que acreditar. Pois bem, mas percebi que posso deixar que eles escolham - afinal, livre arbítrio impera* - sem, nem por isso, me eximir da responsabilidade de expressar o que penso acerca de certos assuntos.

Expressar e expor não são o mesmo que impor. 

E, inexplicavelmente, eles me ouvem.

Falei para o mesmo rapaz adorável:

- Você se liga em narrativa, né? Procura um cara chamado Propp: ele trabalha com a estrutura da narrativa. É fantástico! E tem muito material dele e sobre ele na internet!

No dia seguinte, ele vem me dizer que foi atrás e adorou o Propp.

Poxa, sou ouvida, de verdade - ainda estou me acostumando com a ideia

* Isso me lembra de uma coisa importante: Estou começando um movimento de dosar a responsabilidade/ culpa. Ter claro pelo que se é responsável é fundamental para não assumir aquilo que está além das nossas possibilidades. E, cá para nós, até que ponto sou responsável por aquilo que cativo? Suspeito que a raposa do Pequeno Príncipe não estivesse com nada - ou quase nada.

2 de abr de 2013

Veredas férteis ou Umbilical

Você pode dar luz a boas ideias, mas quando fala em parir ideias a coisa muda de figura. Deve ser porque 'parir' é um verbo forte e creio que dá muito mais conta da coisa concreta que é trazer alguém ao mundo. Se bem que tem essa coisa do bebê ver a luz e tal. Dar a luz a um bebê: entregar-lhe uma lanterninha de bolso.

- O que ando parindo? O que tenho trazido ao mundo?

me perguntei, provavelmente enquanto dirigia de um lado para outro ou enquanto almoçava sozinha. Devo ter me perdido na folhagem selvagem do prato ou na floresta dos seus cabelos? Ah! O que tenho trazido ao mundo? Não são crianças, nem beleza, nem obras de arte, nem ideias para curar as mazelas do mundo. Então...?

Ah!

As histórias que me contam são para sonhar ou para dormir?

Tem problema de plantar as sementes de ideia nos vasinhos singelos e modestos e humildes na ridícula varanda do meu apê? Aguar um pouco todo dia, a homeopatia. E torcer para que brote forte, rebento novo,  daquela beleza selvagem e petulante.

Vai crescer e dela vão de nascer os mais doces e deliciosos frutos. Ou vai destruir tudo? Um baobá cruel e avassalador. O cacto de Bandeira: belo, áspero e intratável.

Seja como for, vai dar em alguma coisa. Podem ser girassóis ou tomates ou simplesmente lavanda.

E você, anda parindo o quê?


1 de abr de 2013

20 e poucos anos: Papo sóbrio de boteco (porque nenhum dos dois bebe)

Para o Fã de Clube de Esquina

Ele: - Não acredito em relacionamentos...

Ela: - Também não ponho muita fé.

Ele: - Relacionamentos dificilmente valem a pena...

Ela: - É.

Pausa.

Ela: - Talvez seja uma questão de achar alguém que faça a bagunça valer a pena.

Pausa.

Ela: - Ei! A gente não é meio que jovem demais para pensar assim? Será que já vivemos tanto assim para concluir as coisas desse jeito?

[...]

P.S. Menti. Em parte. Sem perceber. Mas você nunca vai saber exatamente o quê.