30 de mai de 2013

Ah!

Não era por descaso, desprezo, desespero. Maldade? Simplesmente não se impressionava. Não é que se colocasse acima do resto da humanidade. Simplesmente sabia muito bem o queria. E era tudo muito simples.

- Sou jovem, mas não bocó - ela sorria, desviando o olhar para a janela.

Para que olhar nos olhos de quem não me olha de verdade? De quem escolheu ver só parte de mim.

Conhecia. Sabia. As mesmas história, os mesmos sorrisos, a mesma conversinha sem vergonha do chove-não-molha. Será que ninguém lia que aquilo não colava? E, ainda assim, o discurso colava, pegajoso, 

Ele chegou com um papo sobre a falta que ela fez.

- Ah, é mesmo?

Ela teria acendido um cigarro, caso fumasse. O olhou sem grande interesse, sem comoção, sem emoção. Sem fome, nem sede. Folheou uma revista enquanto ele vinha com as palavras que usara com tantas outras e que nem mais precisava ensaiar. Discurso pronto no homem nunca pronto.

E sem medo, nem susto, com serenidade, disse "não".

E a sua crença ficara guardada sei lá para quem.

12 de mai de 2013

Clássicos mimimis ou Coletânea

Ele: - Não gosto de ideia de rejeição, sabe?

Ela: - Bom, não conheço ninguém que goste...

Ele: - Mas você não entende: tenho muito medo de me relacionar com os outros... blá blá blá... Já fui muito usado, já sofri demais por amor.... blá blá blá... Meus últimos relacionamentos foram horríveis, terminaram muito mal e não deixaram nada de bom... blá blá blá... Para que se envolver com alguém? Compromisso é sempre cobrança e essas coisas todas Um saco isso, sabe?... blá blá blá... Sexo me basta, não preciso de mais nada: me viro bem sem afeto, sem alguém para me acompanhar,  sem ninguém me ligando para saber como estou... blá blá blá... Porque sou um cara muito vivido, muito experiente e tal... blá blá blá... E a minha experiência me diz que... Ei! Onde você vai?

A moça de vestido vermelho e unhas azuis pega o primeiro trem que passa. Em seu rosto, a resposta era óbvia.

7 de mai de 2013

Pílulas: A Partilha


Compartilharam tanto e tudo. O relógio deu a última balada. Balaio de gato. O relógio deu a última hora. Hora de partir. Hora de fazer a partilha. Cada um para um lado, seu canto, seu umbigo solitário. A solidão inconsolável do café frio. Do umbigo frio. Umbigo e pés. Sempre os pés que nem sempre sabem onde tudo começa nem onde tudo acaba. Mas, hoje, pareciam saber. Uma valsa de despedida. Sem o derramamento de sangue nem de lágrimas. Eram crescidos e fortes e brilhavam ao sol, com uma juventude bonita e desmedida. Eram outras as coisas com medida. Prazo? Talvez. Suspiro. Hora da partilha. Quem partilha uma vida esbarrando com a partilha. Ah! Ele: rádio, vinis, fitas K7. Ela: livros, quadros, tintas. Ambos 


param 



e olham as memórias que se ofertam belas e coloridas na fruteira, bem no centro da mesa da sala de jantar.

Com quem ficam elas?

4 de mai de 2013

Sem mais

- Não estou pedindo reciprocidade - ela disse.

Ele olhou desconcertado para ela. O que não tem conserto, desconcertado está. Depois, sem dizer nada, voltou-se novamente para seu miojo. Engraçado como ele perdera a graça.

***

A: - O sonhou acabou.

B: - Por quê?

A: - Virou realidade.

***

A minha arma é a vulnerabilidade.