30 de jul de 2013

Dente-de-leão voa loooooooooonge

Da árvore que existe em mim, colho frutos redondos e maduros. Deles, tiro a polpa com a qual faço desenhos e escrevo cartas, bilhetes, cartões... A palavra que adoça, conforta, aquece e se espalha aonde quer que você vá. Mas se o gosto é doce como fruta, ela tem a pretensão da semente: dar frutos, muitos frutos! 

Talvez ainda flores na sua sala e raízes na sua vida.

P.S. espalhar minhas palavras por aí é como espalhar um pouco de mim pelo mundo.


29 de jul de 2013

Os três momentos

Para  Gata de Chapéu

Num primeiro momento, a ficha cai e você fica sabendo de fato quem é a pessoa. Todas as ilusões que você tinha, todos os achismos que você alimentou.... Tudo cai por terra. E aí você perde o chão. O outro não segue manual de instrução ou qualquer coisa que se considere coerente ou lógica.

Num segundo momento, você se revolta: o outro não é como você queria e não há como mudar isso. Já passou a fase do choque e você está na fase da raiva e da frustração. Você está desapontado, decepcionado (e culpa o outro, na maioria das vezes). O outro não segue o roteirinho que você traçou nem as falas que você tinha em mente.

Num terceiro momento, você aceita. E, sim, isso pode levar muito tempo. Aceita e entende o outro. Aceita que outro é daquele jeito mesmo e que não há nada de errado nisso. Relacionar-se com ele esperando que um dia mude ou fazendo com que seja outro a todo custo não funciona e, talvez, o grande desafio seja justamente saber até onde interferir sem desrespeitá-lo, sem invadir seu espaço. Entrar nesse espaço só quando convidado, sem querer colocar as portas e muros abaixo.

E, um dia, se percebe que é possível amar o outro mesmo quando ele não se encaixa naquilo que a gente queria.

P.S. E quantas vezes não somos esse outro?

27 de jul de 2013

Síndrome de Wendy

Esta síndrome pode ser definida pelo interesse ou envolvimento de jovens mulheres com rapazes que se recusam a crescer (muitos sofrendo de Síndrome de Peter Pan). Tais rapazes têm dificuldade de estabelecer um foco para suas vidas e parecem precisar de direcionamento. Equivocadamente, 'Wendy' acaba assumindo o papel de mãe do 'menino perdido', sem entender que não tem qualquer poder de interferir em sua vida.

26 de jul de 2013

E há quem acredite ainda na lenda da família tradicional...

[...]

A, a divorciada: - Não é que eu tenha algo contra os gays... É só que não gosto da ideia de ter que aceitá-los. Eles são como uma ameaça a família tradicional!

B, a irritada: - Família tradicional?!? Então, né... Isso não existe há muito tempo e também não é garantia de nada. Existem vários tipos de família que funcionam muito bem. Conheço mães solteiras e casais gays que funcionam muito bem e vivem em harmonia com o resto do mundo.

A, a divorciada: - Não tenho nada contra, não! Não não acho certo a gente ter que engolir essas coisas. Acho importante você buscar uma família que tenha pai mãe e filhos, sabe? Ter marido e essas coisas é importante. Eu mesma me sinto chateada de ver que não consegui ficar casada 25 anos casada, como todas as minhas amigas.

[...]

B pensava em como era feliz por A não ser sua mãe - nem sua sogra -, mas triste por perceber como algumas pessoas ainda pensavam. 

25 de jul de 2013

Síndrome do Lambari

Para o Professor Universitário

Você chama a pessoa para sair e ela não "pode", sempre tem uma boa justificativa. Você pergunta algo mais sério para a pessoa e ela sai à francesa, sempre consegue mudar de assunto ou fica enrolando e não responde sua pergunta. Em suma, você nunca consegue realmente se aproximar dela porque, de um jeitinho ou outro, ela sempre tem uma maneira de simplesmente... fugir!

Essa pessoa, mXX amigX, sofre da Síndrome do Lambari.

Os portadores dessa síndrome são "escorregadios" ou, como diz meu amigo Professor Universitário, são "lisos", ariscos. Claro que cada um vai ter os seus motivos para se comportar assim: falta de vontade ou tempo de sair, falta de interesse em travar diálogos mais sérios e de resolver certas questões (ele canta cantigas de ninar a fim de fazer seus problemas adormecerem, de modo que ele só tenha que resolvê-los daqui a um tempo) etc. 

Mas o que não falta ao portador da Síndrome do Lambari - também conhecida como Síndrome do Porco Ensaboado (tente agarrar um porco ensaboado pra você ver...) - são as explicações e o ânimo para se desfazer dos mais variados tipos de situações e convites.

Ele sempre ganha no futebol de sabão, pois sabe que caminhos percorrer para marcar o gol - ou simplesmente para se misturar a torcida e aí você nunca mais mais vê-lo!

Puristas

A: - Qual seu gênero de música preferido?

B: - Romântico.

A: - Romântico? Isso não é gênero...

24 de jul de 2013

In a lifetime

Ele esperou a sua vez na fila. Pacientemente. Serviu-se do arroz com feijão e da mistura. Mas ansiava mesmo pelas porções de felicidade, leve e colorida. Pegou três, que vinham em potinhos transparentes (todo mundo podia ver), e foi se sentar para sua refeição, muito satisfeito. Deixou-as por último e fez muito bem em assim fazer.

Uma semana depois, voltou e se deparou com o restaurante fechado. A princípio, ficou confuso, pensando sobre como as coisas iam ser daquele dia em diante. Como ser feliz de novo?

E então entendeu que já tinha tido a sua porção de felicidade pelo resto da vida.

23 de jul de 2013

Matutações [1]

I

Eu erro erro erro erro
Tu erras erras erras
Ele erra erra erra
Nós erramos erramos erramos
Vós errais errais errais
Eles erram erram erram

E só por isso ninguém merece um final feliz?


II

Queria saber como você se lembra daquilo que estou me lembrando agora...


III

Ele estão esperando o trem chegar. Os estômagos roncam, hora do almoço. Ele mexe no cabelo dela, fala alguma coisa bonitinha. Os dois sorriem - sempre sempre quando estão juntos. Ele hesita, mas arrisca:

- Me passa seu msn?

Ela sorri contidamente e escreve-o num pedaço de papel, não sem algum embaraço pelo ridículo do endereço.
Já por dentro, grita: ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!


IV

Fim de semana. Avenida Paulista. Uns oito ou nove anos:

- Mãe, esse cara nem parece o Elvis: olha o cabelo!

E dançava lek lek lek.

Humores

A: - Qual o seu tipo sanguíneo?

B: - Sanguíneo? Sou fleumático.

22 de jul de 2013

Aquilo que fica quando tudo vai embora

Guarde minhas palavras no bolso do paletó com as chaves do carro no buraco do furo da sua orelha nos seus ouvidos nunca atentos naquele camafeu de 1900 e Noé no vão da gaveta de meias debaixo dos cobertores entre seus dedos magros na sua barba bagunçada entre os álbuns de foto pelas ruas em pleno ar livre deixe-as ventar correr nos barquinhos de papel que soltamos anteontem (lembra?) que uma hora voltam tão tuas quanto minhas. Guarde na sua memória (mas não naquela que já se esqueceu do meu rosto, minha boca, meus olhos), guarde naquele cantinho onde você guarda o que há de mais preciso e precioso. Quando precisar, se precisar (tanto faz), já sabe onde estarão.

Guarde-as lá sim, é importante. Não porque fui eu quem as disse, mas porque foram ditas para você.


21 de jul de 2013

Platão, moço, o que faço com você?

A pergunta vinha quando não sabia o que fazer consigo mesma. Na verdade, sabia bem. Sabia o que tinha que ser feito. Sabia e fazia. Disseram-lhe que era hora de refletir. Bom, ela sempre refletia e decidia... Deixar no campo das ideias, porque trazer para o mundo real... Ah, meu bem.

Então...

A pergunta vinha quando ela não sabia o que fazer com você, Platão, que lhe falou do mundo das ideias e da idealização. Ora, o seu problema não era com a idealização, mas simplesmente com tudo aquilo que ficava tão melhor quando não posto em prática, quando não era transformado em ação.

Ela bolava o plano. Ela tinha a ideia, a vontade, o insight. Aí ponderava, analisava, pensava no depois, na consequência, tinha juízo, bom-senso... Ela era racional, pé no chão, a menina Terra do Caetano e tudo isso para...

Um dia lhe disseram que a gente precisava sempre ser o par maduro. Disseram-lhe isso em relação ao trabalho, mas e quando assumiu isso para vida? Ela torce o nariz, mas internamente já deu o veredicto. E olha com pesar...

Não é que aquilo tirasse a graça da vida...

É só que...

Nem sempre era fácil fazer o que era certo. Aquilo que precisava ser feito. 

15 de jul de 2013

10 coisas que eu já sabia, mas é sempre bom lembrar

1) Vontade: Vontade dá e passa. O mesmo para a saudade. Quando dá vontade de matar a saudade então, poutz, complicado. Mas, no fim, tudo passa - sem que muitas vezes você tenha que mover uma palha. A gente sempre vai ter vontades (somos seres humanos, não?), só não dá para atender a todas, por isso, eu escolho, escolho quais atender, quais guardar na gaveta e quais engolir em seco - não poderão ser atendidas por causa de X, Y e Z. Mas, quer saber, ninguém morre por passar vontade. Então, o negócio é deixar que elas passem por nós.

2) Vitimização: Um dia a ficha caiu e eu percebi que não era vítima coisa nenhuma de nadinha desse mundo. Faz alguns anos e nem preciso dizer como foi um dia feliz! Mas, mais feliz ainda eu fiquei ao me dar conta de que algumas pessoas, que antes eu julgava vítimas de certas situações, não eram vítimas de nada também. Afinal, estamos todos bem grandinho e aguentamos ficar sem o sucrilhos de chocolate, não? Principalmente, quando foi você quem esqueceu de comprá-lo - o que me leva ao...

3) Livre-arbítrio: Cada um decide o que fazer da própria vida. Cada um decide estragar a própria vida - e ninguém tem nada com isso. Posso até tentar ajudar, oferecer um ombro, um outro ponto de vista, meu coração numa caixinha de presente com fitilho, mas, como não está nas nossas mãos decidir a vida alheia. Uma vez me disseram que "cada um é problema seu" e não gostei, mas acho que entendi: o meu poder perante o outro é limitado e é essencial respeitar o espaço e as vontades do outro.

4) Sinceridade: Parte da população não sabe o que é e outra pensa que sabe. Uma minoria já entendeu. Sinceridade não é grosseria, não é bancar o bipolar, não é despejar no outro aquilo o que te incomoda em você mesmo. E dificilmente sabe-se lidar com gente sincera. Exemplos mil:  Logo de cara, o outro te conta como é e não entende porque você vai embora; o outro te pergunta como você se sente sobre determinado aspecto e, quando você diz, o outro perde o chão etc. Penso muito que o que pode machucar mais é como se diz as coisas, afinal, as palavras têm força. Contudo, também penso que ficar 'protegendo' as pessoas do que elas precisam saber e ouvir, usando palavras adocicadas e desculpas esfarrapadas não ajuda não.

5) Resignação: Olha, é um alívio. Um dos maiores alívios que um ser humano pode ter, ouso dizer. Não é o nó na garganta, o choro preso, as insônias persistentes, as lágrimas que desidratam, o drama inconformado das frases passivo-agressivas postadas no Facebook. Resignação é libertação, quando você reconhece: "Tentei e tentei, mas não deu. Tudo bem", mas é um "tudo bem" sincero - e te faz perder dez os quilos invisíveis que estiveram nas suas costas nos últimos anos.

6) Laços: Se um não quer, dois não atam. E sempre tem um espírito de porco para errar no verbo e atear fogo em tudo, só para ver o circo pegar fogo. O fato é que as pessoas temem se relacionar umas com as outras - e não estou só falando da relação homem-mulher. É individualismo demais e um medo absurdo de criar e aprofundar laços. Medo ou desinteresse, não sei, mas acho que é problema de qualquer modo. Tudo descartável e simples assim. Ninguém quer mais se doar. Não quer ou não sabe - o que é pior? Um amigo me disse que tudo isso 'dá trabalho'. Pois é, boas coisas da vida dão trabalho. Pessoas, por exemplo, e tudo aquilo que elas podem representar em nossas vidas. Mas... Livre-arbítrio alheio. Uma pena. Cada um se fechando no seu casulo, sem saber que nunca vai virar borboleta assim.

7) Silêncio: É uma benção, para todos os momentos, sabe? Vontade de falar o que vem na telha porque tá fulo fulo da vida! Mas 'cê sabe que não vai resolver, que de cabeça quente as coisas se complicam... Silêncio. Vontade de se despejar, abrir o coração, baixar a guarda, falar o que pensou, sonhou, planejou, fantasiou... Enquanto o outro tá preocupado com o jogo do Vasco e a breja gelada? Silêncio. Uma das maiores lições essa a do silêncio...

8) Especulação sobre a vida alheia: Na verdade, é muito simples: quanto mais você abre a sua vida para as pessoas, mais 'autorização' você está dando para que elas especulem sobre a sua vida. Logo, escolher com que se abrir é sempre uma boa pedida. Em contrapartida, há aquelas pessoas para quem você não se abriu, não escancarou a vida, não falou do seu mapa astral e, ainda assim, insistem em especular sobre a sua vida, sobre quem você é e tudo mais. Sabe aquela figura que acha que te lê bem? Pois é. Não contente em especular, verbaliza - para você, é claro. E, por ser educado, você não responde. Sorri internamente: Mais um que erra feio, tão feio. Nos enganamos facilmente em relação aos outros, um pouco pelo que o outro parece ser e um pouco por aquilo que nós projetamos nos noutros - nossas próprias fantasias.

9) Limites: Cerca elétrica nem sempre é necessária. São nossas ações e palavras, quando não a falta delas, que os definem. Isso pode parecer contraditório, mas, às vezes, é justamente a apatia e o silêncio que funcionam como limite. Seja como for, eu não usaria marcador permanente para estabelecer meus limites - a vida é imprevisível demais para taxarmos coisas como 'permanentes' -, eu usaria giz (colorido, naturalmente).

10) Data de validade: Acabou. Seja lá o que for. Sobremesa. Emprego. Casamento. Amizade. Bom, o fato é que acabou. E por que raios tem que durar para sempre? Lavagem cerebral desde a mais tenra idade. Chora chora chora até desidratar.

Aí, você pega o lencinho. E se enche de água de coco. E, um dia, fica tudo bem.

Nem todo mundo que é especial tem que ficar na nossa vida para sempre. A vida é passageira e, muitas vezes, são também as pessoas em nossas vidas. Em vez de maldizer o outro, por que não ver o que ficou de bom? É... Olhar o que ficou de bom... E seguir a vida, porque a vida é passageira e o negócio é passar por ela... dançando. O ritmo, você escolhe.

11 de jul de 2013

Parece ressentimento...

... mas não é!

Juro pra você! É só olhar pra essa minha cara de santa e ouvir o meu discursos sem os jogos costumeiros:

- Quer sinceridade mesmo? Aguenta o tranco?

Todo mundo diz que sim, mas é só conversa...

Sonhei que fumava um cigarro imaginário e que estávamos bebendo alguma coisa num café chique. Viu? Sou tão certinha (careta? bah!) que nem em sonho fumo pra valer... Então me ouça quando digo que não tenho ressentimento: o que sobrou é outra coisa. Olhei pra você com a cara que ainda não conhece e tentei me explicar:

- Não é ressentimento: a gente vive algumas coisas com as pessoas e gosta ou não delas (das pessoas e das coisas). Certas experiências ninguém vai querer repetir, né? Pois é... A gente não aprende com os erros? E quando certas situações e pessoas são erros?

[dói isso? bom, devo ser o erro de algumas pessoas, se serve de consolo...]

No meu lugar, você faria a mesma coisa. Se você aprende a lição, por que insistir no erro?


10 de jul de 2013

O que eu faço com você?!

Separando muita coisa antiga e alguma coisa nova, achei dezenas de coisas que não sei que fim dar. Não sei se me desfaço delas. Não sei se as coloco em uso. Tudo o que sei é que não faço a mínima ideia do que fazer com elas e que deixá-las nesta simpática caixa de papelão é um conforto, enquanto me decido.

Pena não haver coisa parecida para lidar com as pessoas com as quais não sabemos o que fazer...


9 de jul de 2013

Querido diário ou Era uma vez quando eu tinha [dezes]seis anos

Arrumando minhas coisas, me deparei com uns muitos antigos diários. Sete ou oito. O último datava de 2003 - eu com meus dezesseis anos. Olhei a caixa:

- Vou jogar tudo fora - exclamei descontente.

- Ah não! Isso é a sua história! - respondeu minha mãe, mais descontente.

Me deixei sentar no sofá, tomei a caixa e escolhi um para ver se valiam a pena. Ora. As memórias sempre valem a pena:

09/09/1997

"Oi, tudo bem?

Eu estou ótima, hoje eu aprendi [em vermelho] multiplicação de números decimais. Quando você não sabe de certas matérias você fica nervoso e tenso! Mas eu já sei!"

Erros de ortografia razoáveis. Mau uso das aspas. Mas, às vezes, bem que acertava:

10/09/1997

"[...] Hoje, meu dente caiu, ele já estava mole à (sic) um tempo, eu estava tomando o meu lanche e eu esqueci que o lado direito da minha boca tinha um dente mole, então eu mordi uma bolacha wayffe (sic) e senti algo na minha boca e senti um sangue na minha boca. Então eu fui com duas amigas, Tamyris e Clarissa, lá na secretaria me deram um algodão e eu coloquei este algodão no dente e quando voltei pra casa eu tirei o algodão e lavei o meu dente e guardei numa caixinha e pronto. Eu tenho uma 'nova janelinha'"

Eu me apresentando (?) para um dos meus diários:

Sou de "peixes"

Oi?

Minhas pequenas preocupações:

22/09/1997

"Olá, desculpe, eu não tenho escrito, eu ando cheia de problemas, como a escola causa problemas!"

E relatos bastante jornalísticos e imparciais:

28/02/1998

"[...] Ontem minha irmã derramou sorvete na roupa. Ela levou uma bronca"

Isso antes dos intermináveis capítulos de drama adolescente. Li algumas coisas para Charlie:

- Daria um bom seriado adolescente! - ela me disse.

Achei tudo muito bobo, na verdade, mas acho que é normal olhar para trás e ver como alguns dramas eram bobos mesmo - o que me faz pensar que daqui a algum tempo, vou olhar pra trás e achar várias coisas atuais bem bobas.... É, a vida é assim mesmo. Pelo menos assim espero.

Encontrei listas do que queria ser quando crescesse, causos sentimentais, desenhos, adesivos, canetas coloridas, broncas, mágoas e as pequenas grande vitórias... E, engraçado, eu falava com os diários como se falasse com mais alguém e não comigo mesma - o que me fez pensar se as outras pessoas que escrevem diários o fazem como eu fazia.

Não sou muito de nostalgia, mas valorizo muito a memória - afinal, ela faz de nós aquilo que somos hoje, certo? Sou quem sou e conquistei tudo o que tenho hoje pelas coisas que vivi, pelas minhas experiências. Estou sempre reclamando sobre a supervalorização da experiência, mas, na verdade, no fundo, ela me é essencial mesmo.

Engraçado, entretanto, perceber o que não mudou: meu gosto pela escrita; a necessidade de registrar o que é vivido, sonhado, pensado; a mania de ficar rabiscando, desenhando não sei o quê; e, talvez acima de tudo, meu prazer em contar histórias.

P.S. Resolvi não jogar nenhum diário fora (talvez um dia até leia para os meus filhos, caso os tenha)

8 de jul de 2013

Metamorfose ronronante

Eram pintas novas surgindo todos os dias. Ela só demorou para se dar conta. Na pálpebra esquerda, na orelha direita, no lábio superior. Ao redor do umbigo e do seio direito. Nas costas, ombros, mãos, joelhos. Nuca.

Pintas, não sardas.

Era aquilo sendo fomentado todo dia. Ela só se deu conta quando um dia acordou e, esfomeada, devorou Marquinhos, lado direito da cama. Tinha virado bicho. Garras e presas e uma pele toda pintada, que parecia ter sempre sido sua, só sua.

Nenhum desconforto, nenhum estranhamento: era como se voltasse a ser quem era de verdade. Onde aquele seu eu tão único tinha ficado por todos aqueles anos?

3 de jul de 2013

Laços, tesouras e papel de presente.

Para a moça de Limeira.

A: - Não.

B: - Não o quê?

A: - Não quero.

B: - Não quer o quê?

A esconde suas mãos nos bolsos.

B: - Ah.. Isso? Por quê?

A: - Já prevejo as algemas e a sucessão de aprisionamentos.

B: - Algemas? Algemas onde, meu Deus?

A: - Aí, dá pra ver pendente do seu bolso.

B olha o próprio bolso - sabendo não haver nada - e não vê nada.

B: - Devem ser algemas imaginárias, só você vê. Sem gaiolas, sem algemas, sem contrato assinado e carimbado em três vias.

A se esconde atrás dos óculos escuros.

A: - Não sei não. Você vai acabar podando a minha liberdade, tenho certeza. E isso eu não permito.

B: - Mas é você quem está falando de algemas, não eu. Se você topasse se arriscar, eu poderia te mostrar como as coisas funcionam pra mim. Já expliquei, mas explicar é diferente de viver.

A: - Melhor não. Sou ainda jovem demais e não quero em apegar a nada nem a ninguém.

B: - Ah. Entendo. E respeito isso.

Silêncio.

B: - Bom, se você pensa assim não tem nada que eu possa fazer. Sei da minha capacidade de persuasão, mas também sei que ninguém muda ninguém. A vida é muito simples. Não sei se o seu negócio é medo, neura ou desinteresse mesmo.

B sorri, triste. Tesoura em mãos.

B: - Mas, seja como for, não me serve.

A: - Ei! O que você fez?!

B: - Cortei o laço frouxo que juntava a gente.