29 de ago de 2013

O ponto fraco de Branca Neves

Podia até parecer cristal - porque todo mundo confunde delicadeza com fragilidade -, mas não era. Mas também não se sabia do que era feita. E ela mesma só se conhecia como gente: carne e ossos. Nada de sangue. 

Cortou o dedo com papel e não sangrou. Teve namorado vampiro e nada tinha a oferecer - além de se entediar. Largou a carreira de pintora porque não tinha vermelho para pintar com sua orelha. E era de uma frieza ímpar. 

No verão e na primavera, as coisas melhoravam um pouco e ela abria uma fresta da porta, da cortina. De resto, não sorria, nem dançava, não tocava. Sem manifestação de afeto, mas sempre polida e agradável. Mas, de repente, agradável não era bom, não bastava para o mundo. E ela olhava para tudo isso com uma indiferença livre de arrogância.

No inverno, era insuportável, porque quem ficava por perto acabava congelado. Passou a colecionar estátuas de quem se aproximava e acabava picolé. Em seu castelinho, patinava por entre pinguins igualmente insensíveis. Rainha das Neves.

O seu olhar até podia ter nascido na primeira noite depois da Criação, mas que noite fria aquela! Dureza de aço que fatia o presunto, defunto amor de nós dois.

Os buquês que recebia, quando não congelavam, acabavam murchando - como o amor alheio. E seguia, assim, uma vida solitária e satisfatória.

Entretanto, satisfatório parecia pouco para a sua existência ártica...

E, quando se sentia assim, seu pinguim predileto parecia adivinhar seus pensamentos e lhe trazia o Vinícius:

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado...

Era então que derretiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaa, vazava, transbordava do vestido (vermelho!?) e - ainda que por um breve momento - seu corpo era fluido e se esparrava pela sala, invadindo os outros cômodos, as casas vizinhas, os hospitais, supermercados... a cidade toda.

De repente, ela não era nem agradável nem sua vida satisfatória. Era completa e o excesso que escorria era porque suas mãos não sabiam (e queriam?) reter deter manter o que quer que fervilhasse dentro dela.

Todavia

uma vez que terminasse sua leitura

voltava o inverno 

mais frio

mais duro

mais distante de qualquer coisa... viva.

[aridez de deserto no coração dos homens]

28 de ago de 2013

Não é porque a gente não se fala sempre...

Para Arteira

Porque pensei em você. Doídamente. Doidamente. Pensei porque ouvi "Oração" e lembrei da sua voz resmungando:

- Detesto essa música: odeio gente feliz.

E a gente riu. Não, você não odiava gente feliz: era só seu jeito de dizer que aquela música não te descia. O que eu entendo, apesar de gostar da música.

Você casou, mudou de emprego, de casa. Muita coisa, né? Mas aposto que ainda usa os vestidos da Hering e tem aqueles ataques de riso quando a pressão é muito grande. Fazer o quê? Ano passado foi difícil, mas, no fundo, acho que tiramos de letra.

E a gente não se viu mais. A vida - fazer o quê? A gente se entende mesmo quando não se conversa. E silêncio preenchido com saudade tem gosto bom.

Porque pensei tão forte que acho que você ouviu e me mandou mensagem carinhosa, só para mostrar que, para você, funciona tudo do mesmo jeito.

27 de ago de 2013

Diário: Sobre o ofício de professor [1]

Pense numa criança de seis anos, uma criança difícil. Briga com os coleguinhas, xinga, chuta, bate, mata aula (sim) e mente - demais da conta.

Minha atenção, afeto, jogos, canções e histórias... Tudo ele rejeita. É arisco, rápido, escorregadio. Sempre correndo, asas nos pés. Quando viu, já foi. Oi?

Ele vem chegando e a gente já fica com um pé atrás.

Ontem ficou de castigo. Hoje ele vem para minha aula com seu ar malandrinho e seu olhar esperto - ele é esperto, muito esperto - se senta numa das mesas redondas com os colegas. Explico para a turma que em duplas, vão ler "A Cartilha do amigo". A ideia é um ajudar o outro, por isso se sentam em duplas - uns já estão lendo, outros têm mais dificuldades.

Ele se senta com um colega igualmente peralta. A princípio, os dois disputam o livro:

- Mas eu não disse que era para dividir? Pra ler junto?

Eles resmungam, mas obedecem - será que por causa dos combinados que fizemos há pouco? Circulo pela sabe e percebo uma certa agitação na mesa deles. Me aproximo:

- Lê pra mim? - peço com carinho.

Ele se arruma na cadeira, faz uma careta, toma o livro nas mãos e começa, lentamente:

- O... a... que letra é essa?

- 'M, de Maria. Depois vem o 'i'. 'M' com 'i' dá...

- 'Mi'.

- Isso.

- O... ami...go ilu... mi... na nos...sa... vi... é um 'a'?

- Não, o 'a' não tem essa perna esticada lá em cima. Isso é um 'd' minúsculo.

- Mas depois vem um 'a', né?

- Aham.

- Hum... O... ami... go... ilu... mi... na nossa... vi...da.

- Muito bom! Estou orgulhosa de você!

Minha alegria é tão genuína quanto a dele. É uma alegria diferente e partilhada, que faz com que ele se acalme ma cadeira e comece a tentar decifrar os enigmas que seguem nas páginas seguintes. E o seu rosto ganha uma expressão que eu nunca tinha visto.

De cinco em cinco minutos, vem falar comigo.

- Posso ler pra você? - pede.

- Pode!

E então começa sua leitura, muito lenta e cuidadosa. Às vezes, me pede ajuda com alguma letra misteriosa, noutras, eu mesma ofereço ajuda:

- É a letra 'q'.

Passa o resto da aula assim: encantado - com o livro, com a sua capacidade. E eu, igualmente encantada, só observando do outro lado da sala.

Quer levar o livro para a sala de aula:

- Você vai fazer outra atividade na sala de aula. Amanhã você continua lendo para mim, certo? - proponho.

Ele sorri e aceita. Seus olhos brilham. Como se um mundo novo de descortinasse diante de seus olhos. O sinal bate, as crianças fazem fila e logo vão embora.

Mas ele não. Ele se deixa ficar. Me ajuda a arrumar a sala. Se permite um cafuné.

 Seu olhar sobre si é outro. Seu olhar é outro. E o meu também.

Amanhã, vai continuar a ler pra mim.

E que outras histórias será que o estão aguardando?

P.S. o olhar dele é mais um para a minha coleção de olhares. ele vem chegando e, agora, dou um passo a frente.


23 de ago de 2013

Sobre o passado, o futuro e aquilo que tá no meio dos dois

Batidas na porta de casa. Cada fibra de madeira reconheceu aquele toque. Reconheceu a cadência, mas fingiu que não. Não queria abrir. Sua surpresa fingida ao constatar ele junto à porta. Cada fibra se arrepiou ao pensar o que viria pela frente. O velho senhor de outros tempos. 

Ela hesitou, olhando pela fresta da janela: "Bem que podia ir embora". Mas ele insistia, batendo suave e firmemente na porta. Os mesmos cabelos brancos, a barba longa e emaranhada, o olhar afetuoso e tranquilo. Não tinha envelhecido mais nenhum dia, como se tivesse parado no tempo. Pode o Passado parar no tempo? Parar o tempo?

Atendeu à porta. Ele sabia que assim ela o faria, pois era o passado, mas conhecia o futuro também. Lera qualquer coisa no restinho de chá da xícara dela  no último encontro, mas ela não quis ouvir. Era a teimosia de 'minha história faço eu'.

Ela sorriu educada, ofereceu-lhe a melhor poltrona e um café forte.

- Minha menina, te trago meus três filhos.

Olhou pela janela.

- Por quê? - desconfiança felina.

- Presente do Passado.

- E isso existe? Já vivi pretérito perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito. O que vem agora? Não existe presente perfeito...

- Mas, minha menina, só pode ser perfeito quando for pretérito. Enquanto se vive não se vê.

- Não é a minha miopia que atrapalha.

Ele sorriu, paciente e paternal.

- É assim que você trata quem te traz presentes?

- Talvez não sirvam. Talvez não caiba em mim, talvez precise de barra, talvez precise de mais, talvez sobre muito, talvez não combine, talvez não agrade, talvez o gosto, talvez o susto, talvez a história...

- Então faça o ajustes necessários, mas são seus presentes - sorriu - confio na sua habilidade de consertar o que precisa de conserto.

Ela tomou um lento longo lindo gole de chá preto.

- E se...  E se não houver nada para ser consertado? Aí...

- Aí?

- Aí é que começa a aventura - ela esboçou um sorriso - talvez...

Pelas janelas abertas, entrava vento. Vento de coisa antiga com um quê de novo. Um quê de esperança.

19 de ago de 2013

Tá aqui dentro, pow!

Dividir uma casa não quer dizer ser dependente do outro, do mesmo modo que morar em casas separadas não quer dizer ser independente. É tudo coisa interna, sabe?

18 de ago de 2013

Conhece-te a ti mesmo e outras coisas

É batata: quando a gente diz que perdeu a crença em algo, acontece uma reviravolta e temos a crença reforçada com cola araldite. Também já não me importava muito com a crença quebrada, mas é susto na certa perceber que ainda há quem. É uma espécie de tapa na cara com luva de veludo: é macio, mas incômodo.

*****

A cobrança pela saída que não foi possível não soaria cobrança caso se dissesse:

- Tô com saudade.

ou

- Quero te ver.

Mas a ideia é ser chato mesmo e cobrar por algo a que não se tem direito - como se o chato fosse você.

*****

Você acha que sabe o que quer até conseguir. Aí você vira para o lado e murmura:

- Então, acho que não era bem isso...

Ora, o caminho para se saber o que quer às vezes passa justamente pela exclusão:

- Não sei o que quero, só o que não quero...

E muitas vezes você só sabe o que não quer quando consegue:

- Mulher é bicho complicado!

Não: o ser humano é bicho complicado.

*****

O tempo tira a graça de certas coisas - ou é a gente que vê a graça escorrer pelo ralo? Eu era muito mais..., só que não mais agora. Vi a moça no espelho olhar com indiferença. Uma indiferença educada e ponderada, mas ainda assim indiferença.

*****

O chato do momento é aquele que acha que te conhece como a palma da própria mão, mas mal se enxerga no espelho. Ele é sazonal: de tempos em tempos aparece um.

*****

Estão me mandando sinais: tomo lista e vão tomando corpo em forma de ação e mudança.

*****

Não tenho mais problema com coisas quebradas, principalmente porque não sou jogá-las fora. Gosto do conserto do que tem conserto.

- Ei! Tá me chamando de sujeito cindido?

E nada descartável. Nem copos de plásticos.