31 de jan de 2014

O amor supera o autismo. Oi?


Sou leiga, mas não tão leiga a ponto de me deixar levar pela novela das 9h.

- Ai bobinha, mas isso é ficção! Então encare como tal!

Possivelmente, estou sendo uma grande chata, mas sempre que a televisão retrata algo cujo conhecimento foge do grande público - clonagem, cultura oriental e autismo, por exemplo - assume uma responsabilidade maior ainda por aquilo que veicula. Ou não? 

Ora, o que a tevê retratar sobre esses assuntos será a única referência que muitas pessoas terão sobre o autismo, ao contar a história de Linda, sua família e seu marido (!)

Não estou dizendo que tudo tem que ser didático, gosh!, mas verossimilhança e bom senso teriam caído bem, não?


Acompanhei alguns poucos episódios, mas foram o suficiente para perceber que houve uma preocupação mínima em criar uma personagem coerente com o autismo.


A impressão que ficou (principalmente neste último episódio) é a de que

O AMOR SUPEROU O AUTISMO.

já que Linda conseguiu vencer vários obstáculos!

Ah... Mas é claro!

Me esqueci:

O AMOR SUPERA TODAS AS BARREIRAS [sono]

Há duas fontes bem mais confiáveis (dado objetivo) e muuuuito mais interessantes (dado subjetivo) para leigos como nós terem uma noção de como o barco toca para os autistas: o romance "O estranho caso do cachorro morto" e o filme "Rain man".

Ambas servem de alguma referência para ter uma noção mais real sobre o mundo dos autistas, esclarecendo fatos importantes e nos colocando um pouco a par de como as coisas funcionam para quem sofre desse transtorno. E essas fontes, sim, mostram amor e autismo, mas um amor muuuuuuuuuuuuuuito longe de qualquer coisa que vocês tenham visto em "Amor à vida".

Mas acho que a melhor coisa que já vi sobre o autismo foi o vídeo real sobre uma jovem autista canadense, chamada Carly. Obviamente, ela e a personagem Linda têm graus diferentes de autismo, mas isso não justifica a inconsistência da personagem.



Acho que se você se propõe a escrever algo, deve fazê-lo direito - ou não fazê-lo.

29 de jan de 2014

Cuidado, garoto apaixonado!

Não é nas suas entrelinhas que se vê o que se passa: é nas linhas do seu rosto quando você sorri.

É  a sua falta de jeito, de malícia de traquejo de vida mesmo. É porque o seu olhar brilha e você fica sem jeito quando falam em amor platônico. É porque você ri diferente, mostra os dentes. E fica quieto, tentando absorver tudo o que puder: perfume, palavra, promessa. É o seu jeito de olhar, incerto no meio de tanta certeza que transborda - os dedos tamborilando na mesa e todas as maneiras inimagináveis de chamar a atenção. Então faz graça. Quer fazer rir - quer e faz. E é tudo o que pode compartilhar agora. É o seu sossego costumeiro e sua inquietação repentina. E você acha que ninguém vê. Não sabe como chamar, como pedir, como ficar por perto. 

É porque os meninos também se apaixonam.



28 de jan de 2014

Sim, isso é a vida real [1]

De repente, despertou-lhe ternura. Coisa fina, coisa rara. Coisa que não se via desde a construção da arca de Noé - os bichos inocentes. Não era inocência, pois ela não existia mais. Eram jovens calejados na sua juventude de jovens adultos. E o mundo ainda guardava algum encantamento, oriundo, talvez, das primeiras esperanças perdidas.

Tinha uns dentes pequenos e branquinhos. E era emoção em estado puro - fosse para o bem, fosse para o mal. Mal? As sobrancelhas discretas e tinha uma coisa de abraçar as pessoas. Daí a ternura? Talvez. Talvez a gente absorva aquilo que o outro transborda.

A vida podia ser simples. E as coisas boas nem sempre dependiam de se correr atrás do que se queria: às vezes, era só uma questão de olhar o que estava debaixo do nariz, como cantava Itamar Assumpção - ou de, simplesmente, olhar quem estava sentado ao seu lado.

25 de jan de 2014

Brinde de copos plásticos

A: - Tá bom que não tem que durar pra sempre, mas tem que ser tão descartável?

B: - Do que você 'tá falando?

A: - Amor.

B: - Ah!

A: - Quê?

B: - Se é descartável você acha mesmo que é amor?

A: - Sei lá!

B: - Você é chata.

A - Ah! Você também.

E se dão as mãos.

Ouvindo Enquanto eu passar na sua rua (Selvagens à procura de lei)

24 de jan de 2014

Quem escreve quer ser lido (e eu sou!)

Quem escreve quer ser lido. E saber que alguém não só me leu, mas também se inspirou para escrever um texto é tudo o que se pode querer. E, nessa brincadeira, um amigo me fez um poema, inspirado num texto que fiz ano passado. Um texto que adoro de paixão. É legal ver que ele significou algo não só para mim, mas para outras pessoas também. 

Poxa, sou lida. E, em certa instância, levada à sério. Tem coisa melhor do que as pessoas te levarem à sério quando devem, na hora certa?

Ah!

Eis o poema que ganhei:

Ponha as palavras no gelo

(L.G. Prates) Para conservar o que foi dito Ponha as palavras no gelo Mesmo as quentes Congeladas Duram anos Guarde-as onde se guarda As lembranças mais incríveis Aquelas que não se esquecem E que quando precisar Se precisar Você saberá onde estão E abrigue-as em forminhas de gelo Separadas uma a uma Porque é no vão de algumas palavras Que estão algumas revelações.

22 de jan de 2014

A outra companhia do nariz - além do bigode


Era o medo.

E se o que eu quero está bem na minha frente? Bem debaixo do meu nariz? 

Era o medo.

A felicidade é uma criança que passa voando numa monark azul. Uma criança que não olha para trás.

Era o medo.

Mas a vontade de ser feliz era maior.

Ele deu meia volta e tomou aquele caminho.

Ouvindo:

14 de jan de 2014

LOOOOOOOOOOOOSEEEEEEEER!

"Elizabethtown", 2005
- É acontece... Com todo mundo, pelo menos uma vez na vida.

(isso não deveria ser segredo para ninguém...)

E muito me preocupa quem luta desesperadamente para sair ileso e quem surta e perde o rumo a cada fracasso com o qual se depara.

Não é que eu seja masoquista e adore fracassar (dã)l: o fato é que todo mundo fracassa. 

Fracasso tem a ver com tentativa:

- Só fracassa quem tenta.

Porque até posso viver a minha vida praticamente sem fracassos, mas isso só se eu não fizer muita coisa, não tentar muita coisa. A apatia pode ser bem confortável. Da zona de conforto a gente nem fala nada, né? 

Também não é que eu lide ultra bem com o fracasso, mas a gente faz o que pode, né? A gente aceita que não deu certo fica chateado - há vários níveis de chateação, é claro - e a vida continua. 


NÃO, o fracasso NÃO é o fim do mundo. O fim do mundo deveria ter sido na virada de 1999 para 2000 e depois em 2012 - e não aconteceu, então não vai acontecer agora só porque não atingi meu(s) objetivo(s). 

Claro que dói, bem sei disso, mas a gente pode aprender muito com o fracasso. E acho que dói muito mais quando você deu o sangue e... 

Me esforcei TANTO, como não deu certo?

No meu primeiro semestre de faculdade, me saí muito mal num trabalho final. Não foi nem tanto pela nota (baixa), mas foi pela crítica feita pela professora. Ela  foi dura e isso mexeu comigo: eu tinha me esforçado tanto e tinha gostado tanto do resultado do meu trabalho... E tinha feito tudo errado. O meu fracasso e a crítica dela me fizeram crescer muito. Muito mesmo.

Me esforcei TANTO, como não deu certo?

Pessoas, empregos, planos... Nem sempre o nosso esforço é o bastante para fazer algo dar certo - isso não quer dizer que eu vou deixar de me esforçar tsc tsc tsc. Nem tudo está na nossa mão, nem tudo depende de nós. Além disso, nem sempre estamos prontos para aquilo que queremos...

Cada vez mais, vejo pais que não preparam seus filhos para o fracasso. É como se, ao longo da vida, tudo sempre fosse sair conforme planejado, como se bastasse ter vontade, como se bastasse se esforçar.

- Eu me esforcei, como não consegui o que eu queria?

Esses pais, querendo proteger seus filhos, estão criando futuros adultos despreparados para lidar com o fracasso e para entender que ele nos faz crescer e amadurecer - e muito! No futuro, esses jovens possivelmente serão adultos para os quais o mundo vai se despedaçar na primeira coisa que fizerem e não der certo - e não tiver nem pai nem mãe para resolver.

Imagine que eu tivesse surtado com minha nota baixa e mobilizado meus pais? Poxa, eu já tinha os meus 17 anos, imagine o papelão! 

E sabe o trabalho do qual falei? Guardei até hoje: ele faz com que eu me lembre de várias coisas:

Comer uva passa faz bem!

1) Dias melhores virão. A vida continua. Tudo passa, até a uva passa

2) Todo mundo passa por isso. Não preciso me vitimizar (aaaaaaaaaaah que horror!) e achar que sou a última taça de cristal (tão frágil!);

3) Todo fracasso deve ser o ponto de partida para uma análise do que foi feito: tenho que melhorar na próxima vez? Meu caso com o trabalho, por exemplo;

4) Nem tudo está nas nossas mãos, então que eu me dedique sempre ao máximo, para garantir que a minha parte seja feita;

5) Não se torne um amargo mal-resolvido porque aí ninguém vai ter aguentar e, possivelmente, você não vai se aguentar;

6) Fracasso também tem a ver com a expectativa que colocamos nas coisas. Então, bom senso com as expectativas - não que isso seja uma coisa fácil...

E se tem um filme que fala sobre fracassos de uma maneira bonita e muito interessante é "Elizabethtown" (2005):




Não é porque é um dos meus filmes preferidos nem porque a trilha sonora é linda, mas porque ele traz uma reflexão profunda sobre fracasso, quais são as coisas (realmente) importantes e, acima de tudo, sobre a vida.

E, além de tudo isso, bom, é sempre tempo de recomeçarmos...

Ouvindo (naturalmente):




13 de jan de 2014

Impressionistas nada impressionados

Monet, 1879

- Nós não podemos ser amigos?


Eu devia ter peguntado antes de perceber quais eram as suas intenções, porque depois tudo se perdeu assim. .

Assim.

Mas como eu ia saber, principalmente quando era uma época em que eu estava buscando o meu lugar no mundo? Como ia ter ideia de que lugar ocupar na vida dos outros? Sempre os lugares errados - a insistência na primeira fileira - sempre o tempo errado - é cedo.

Às vezes, parece que faz muitos anos que nos conhecemos. E mais tempo ainda que não nos falamos.

Mas até que ponto falávamos mesmo um com outro e não com a imagem que criei para você e você para mim?

Tenho a impressão de que você foi embora com a sua impressão de mim. Mas também, o que mais eu poderia querer? Que você tivesse a minha impressão sobre mim? Não dá. Mas precisava deturpar tanto assim as coisas que você não entende?

Bom, mas acho que você entendeu que somos comuns, bem comuns mesmo.

No fundo, não somos extraordinários, a despeito do que nossa fachada ostente. Temos até nossos momentos de brilho e magia, como aquela vez em Belize, mas, na maior parte do tempo, somos tão comuns quanto o arroz com feijão daquele boteco no centro, lembra?

E, sabe, acho que ser comum pode ter o seu encanto. Ou talvez seja só a minha impressão sobre as coisas. E, mais uma vez, me vejo navegando, flutuando em impressões imprecisas sobre mim, sobre você, sobre o mundo.

Da sua parte, acho que leva impressões equivocadas de tudo o que vive, de todos a quem toca. Bom, talvez seja muita pretensão minha pensar que são equivocadas só porque não condizem com o que penso. Deve ser a minha maneira de lidar com o diferente ou...

De lidar com você?

De longe, todo mundo se entende. Agora experimente se aproximar e tentar perceber os detalhes dos outros. Os detalhes não existem. Ou, caso estejam lá, dissolveram-se espontaneamente. Sempre tem alguém que não sabe usar terebentina e estraga tudo. É tudo borrão. Ou talvez se crie uma nova forma de ver e pensar e sentir.

Bem...

Eu erro muito, sabe? Você também. Acho que estamos quites, certo? Talvez você erre mais do que eu, mas o fato de eu errar menos não me faz mais certa. Na verdade, acho que não faz muita diferença em quem está mais certo ou errado. Somos todos pó das mesmas estrelas.

E, ainda assim, tão comuns e com essa ocasional cara de tédio adolescente - queremos que algo aconteça. Bem no fundo, acho que queremos algo que nos tire da situação confortável na qual nos instalamos com o passar do tempo. Algo que desafie aquilo que nos tornamos - adultos?

Bom, é isso o que sinto, o que fica suspenso de tudo o que a gente viveu. Ou a impressão que tenho daquilo que vivemos.

Ouvindo:


12 de jan de 2014

O que te compõe?

Olhou para sua fruteira:

- Pequenos ovos de páscoa;

- Cebolas roxas;

- Ameixas;

- Um pão de mel;

E achou que, no fundo, aquilo deveria querer dizer algo sobre si.

Só não sabia o quê.

11 de jan de 2014

Sinceridade em papel toalha

A: - Estou namorando.

B: - Bom pra você.

A: - Nossa! Você não está feliz por mim?

B: - Não.

A: - Mas você não acha que eu mereço ser feliz?

B: - Não.

10 de jan de 2014

Qual foi a maior mentira que já te contaram?


Todo mundo mente. Ponto. Nem que seja mentirinha branca, mentirinha "social".

Não sei o porquê, mas me peguei pensando nisso hoje. E, com alguma alegria, constatei que nunca me contaram grandes mentiras. Entretanto, foram muitas as verdades omitidas.

E o que será pior: uma mentira ou uma verdade omitida?

E aí pensei outra coisa: Qual foi a maior mentira que eu contei?

Não soube dizer.

9 de jan de 2014

Morangos existencialistas


O morango era tão bonito que não teve coragem: deixou-o de lado para fotografá-lo e comê-lo separado dos outros e bateu os demais morangos com iogurte.


Pousou o mais belo morango sobre a bancada da cozinha e foi lavar a louça.

Foi voltando da lavanderia que sentiu  ter pisado numa coisa macia: levantou o chinelo e o viu esmagado.

Guardou o melhor pra depois.

8 de jan de 2014

"É como andar de bicicleta: a gente nunca esquece" - MENTIRA!


Todo mundo fala que a gente nunca esquece como andar de bicicleta depois que aprende. Okay.

Fazia mais de dez anos que eu não andava de bike e decidi andar pelo centro histórico de Sampa numa excursão. 

Nem preciso dizer a tragédia que foi, principalmente quando a bicicleta era grande demais para o meus humildes 1,62.

Saber andar de bicicleta eu sabia - mas naquelas. Tão mal que nem sei se a palavra "andar" caberia, acho-a muito forte, sabe? Nos primeiros quinze minutos, eu soube cair de bicicleta, mas... quem não sabe? Assim, não fiz nada de especial, então por que o incômodo?

Bom, alguém mentiu...

De repente, minha alegre infância da bicicleta branca e lilás sem rodinhas foi em vão! Porque eu tinha esquecido sim como andar de bicicleta.

Isso deve fazer uns dois anos. Ontem tive outra experiência parecida.

Resolvi voltar a nadar. E um dia me disseram que a gente nunca esquece como se nada.

Alguém mentiu de novo...

Cara... Eu não sei respirar. Mesmo. Dificílimo coordenar braçadas e respiração. Falta de coordenação geral e que pressa era aquela? Onde eu queria chegar? À borda, do outro lado da piscina? What for?

Com o tempo passando, fui melhorando, o professor dando dicas e tal. Eu nunca me afogaria, mas as coisas não eram como antes. E, mais uma vez, a ferrugem ataca:

- Nadar nadar mesmo? Eu tinha uns doze anos.

Pois é.

Então é isso: a gente aprende e esquece, sim! É a ferrugem, meus caros, nos sabotando. Mas quem esquece, pode se lembrar. Porque esquecer não é desprender, não é perder. É como quando você aprende uma língua e fica muito tempo sem usá-la: volta-se a ter contato com ela e as palavras vão voltando.

E foi assim que fui lembrando aos poucos, bem aos poucos mesmo (e no meio do trânsito da alameda Porto Geral), como se anda de bicicleta. E foi assim também que saí semi-satisfeita da piscina, depois de mais de dez anos sem a toca  e óculos de natação.

7 de jan de 2014

Ter atitude é...

Digitei "garota de atitude" no Google e essa foi a
primeira imagem que apareceu
Para o Felino (mil saudades)

O que é ter atitude?

E depois de perguntar isso, acrescento:

Atitude do quê?

A pergunta acima tem duas origens:

1) Uma antiga discussão com meu amigo Felino;

2) A recente visita a um site que tinha como categoria de artigos a palavra atitude.

Tudo começou sabe-lá Deus quando. Em algum momento, possivelmente mais de uma vez, o Felino expressou seu descontentamento:

- Detesto quando falam que fulano tem atitude. Atitude do quê? Isso me irrita!

Eu entendi o que disse. E sempre que vejo coisas como "garotas de atitude", penso num esterótipo. Chegar num cara. Ser cool e descolada. Ter estilo. Saber se impor. É isso? Não sei, sempre fica uma coisa muito superficial, muito no campo da aparência, da fachada. É muito fácil parecer o que não se é, se vender como uma coisa diferente do que se é. Também é fácil ser verdadeiro e sincero sobre si mesmo. É tudo questão de escolha.

Ter atitude pode ser sinônimo de fazer alguma coisa. E é aí que vem a questão (que pode vir a ser um problema):

- Fazer o quê

Qualquer coisa? O que der na telha? É meter os pés pelas mãos porque é preciso fazer algo, não importa o que seja? Ou quando alguém diz, pensando-se sábio(a):

- Homem tem que ter atitude.

Okay. Atitude de quê? De boçal? De poeta francês? Adestrador de cães? Fotógrafo pervertido? Astronauta egocêntrico? Músico hedonista?

Ou ter atitude é saber chegar numa mulher? E o que raios é isso? Vem na mesma linha de "ter pegada"?

Pois é.

Várias pessoas já me disseram que tenho atitude. Engraçado como isso me é vazio, não me diz nada.

Mais triste do que quem cria os rótulos é quem só é feliz adotando-os.

5 de jan de 2014

Ripley e Shaw: as sobreviventes de Ridley Scott

Foto de perfil
As férias são o momento ideal de correr atrás do tempo perdido quando o assunto é cinema. Não, não estou falando necessariamente nos últimos lançamentos, mas sim dos clássicos que, por 'n' razões, nunca consegui ver.

Sim, eu vou à videolocadora. E simplesmente adoro. Não vejo o mesmo encanto em baixar filmes, embora, é claro, muita coisa eu não encontre na minha videolocadora e tenha que baixar, mas não é a mesma coisa - nem de longe.

E um dos filmes que estava na minha listinha de must-see era "Alien" (1979) de Ridley Scott.

Eu já tinha visto o seu "Blade Runner" (1982) e confesso que não gostei muito não - inclusive escrevi um post sobre isso na época. Não é que eu ache o filme ruim. Longe de mim! Já estou grandinha para saber separar "o que não gosto" de "é ruim" e reconheço a qualidade da obra e como ela (ainda) é um marco no cinema e na sci-fi. Maaaaaaaaaaaaaas... Não gosto - e não me perguntem o porquê.
Ripley
Assisti "Prometheus" (2012) no ano passado e achei bem interessante. Gostei muito da história e achei um começo legal para a série Alien.

* Contém spoilers!

Gosto muito do modo como os dois filmes - "Alien" e "Prometheus" trabalham a questão do silêncio. Tem filmes em que  música te sufoca e não deixa que você recorra aos outros sentidos envolvidos em assistir um filme, ou seja, a visão - normalmente é visão e audição, certo? Ou então a música é tanta que acaba atrapalhando e não deixa que você realmente deguste o filme.

Charlie, que estudou e manja dos paranauês de cinema, me disse que o silêncio é subestimado. Concordo e a acrescento que ele é subestimado também no mundo não-ficcional - mas isso é assunto para outro post.

Quero mesmo é falar sobre as duas heroínas e protagonistas.
Shaw

Ripley e Elizabeth Shaw são sobreviventes. São fortes. Eu poderia dizer que são mulheres fortes, mas as vejo antes como seres humanos fortes. Entretanto, uma coisa que me fez gostar muito dos filmes é justamente o fato de que são mulheres e dão conta do recado. 

Elas não têm poderes especiais, nem manjam de estratégias de guerras nem dispõem de super armas. Elas são de um "carne-e-osso ficcional". Dá pra entender?

A palavra é verossímil (se bem que a cena do "parto" de Shaw é meio assim, sabe?)

E algo que me atrai nas personagens: elas têm medo. E são duronas. E brigam. E lutam. O medo não as impede de lutar. É humano. E gosto disso.

Elas se adaptam e passam a desempenhar funções que não estavam no contrato, digamos assim. É interessante ver como as personagens são construidas. E aí me pergunto: será que esse lado "forte" de ambas já existia antes e só estava adormecido ou surgiu em decorrência do meio no qual estavam inseridas?

Shaw é ainda mais durona, se a gente pensar no lance com seu marido, no episódio da "gravidez" e tudo mais - o que não tira, de modo algum, o valor de Ripley que, mesmo diante da adversidade (que atendia pelo nome de "Alien"), fez questão de salvar o gato Jones.

Vale a pena ver tanto "Alien" quanto "Prometheus", não só por Ripley e Shaw, mas pelo enredo, pelo silêncio e pelo modo do Ridley Scott trabalha com a luz (indispensável na construção das tensão, assim como o som). Enfim, eu recomendo!


3 de jan de 2014

(Un)puzzle me


Ela estava deitada no sofá, lendo qualquer coisa. Ele estava sentado no tapete, montando o quebra-cabeças. Bom, tentando montar o quebra-cabeças. 

A luz amarela dourava os olhos dele e as pernas dela. Vestido azul - sem mangas e cheio de vontades. 

Os olhos dele querendo simplesmente entender. Tentando encaixar as peças, fazer a cena fazer sentido. Muito pouco, quase nada.


Ouviam música. Cícero tocava suavemente só para eles.

Quando a quinta música começou a tocar, ela baixou o livro e se levantou.

Rodopiando pela sala, ela cantarolava com doçura. Ele a acompanhava com o olhar, que dançava. Flutuavam. Como balões. Devia ser o ar quente que vinha de dentro

Com leveza, deixou-se cair no tapete, ao lado dele e do quebra-cabeças. Olharam-se sem meios termos, cheios de promessas, palavras, partidos, peças perfeitas - pieguice?

- Gosto de você.

Ela riu e apontou uma peça. Queria ajudar, sempre solícita. Entretanto, algumas peças temos que encontrar sozinhos. Dentro de uma gaveta, debaixo do sofá, dentro da jarra de chá gelado, no café fumegante, nos elefantes na parede, escondidas num livro, no sorveteiro que passa na rua, por entre as folhas do chapéu-de-sol. Mas elas estão lá: as peças estão sempre lá, em algum lugar.

Seu olhar era o de entrega. A peça que faltava? Não, a peça que faltava era a o olhar dele - o olhar com o qual ele a coroava soberana enquanto dançava pela sala.

- Gosto de você.


2 de jan de 2014

Memory in box

Collocations encontradas numa agenda velha e colocadas na geladeira
Faxina de fim de ano. Caixas ainda para serem abertas, desmontadas, descobertas. Foram todas. Mas abri-las é o mesmo que abrir um livro de memórias, memórias de dez anos atrás, cinco, três. Esse é um dos meus motivos para colecionar elefantes.

Diários, fotografias, meus pensamentos bobos:

Onde uma bicicleta ergométrica pode nos levar?

 Bilhetes, cartas, citações dos outros:

Escreve-se muita abobrinha sobre o nhame
(Heitor Megale, meu querido professor de Filologia, falando sobre as raízes da palavra "nhame")

"Citações" minhas:

O poema lírico é um delicado móbile indiferente à brisa

Citações de Drummond:

Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
Mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata

Citações de Hemingway, autor com o qual não simpatizo:

O homem nunca deve ser por em posição em que perca o que não pode se dar ao luxo de perder

Brincadeiras com versos e meus "poemas":

Vacante


Vazam de veias e vasos

Vagarosos. Em vão
Vago nas vagas vazias
Valso na vasta vasa
E como sou vago
E vago vou
Vem o vazio dos olhos:
Vazam águias doces
Em vazantes velozes e voláteis


22/04/05


Época em que simpatizava com o Simbolismo e me apaixonava por aliteração - embora essa não fosse minha figura de linguagem favorita.

Aula magna-trote do meu primeiro dia da faculdade de Letras:

Como discutir as relações hipostáticas quando o simbolon tos písteos, que nada mais é do que um símbolo ton aspostolon, pode ser discutido apenas no plano teologúmeno onde os pontos de vista deste ou daquele pardre aparentemente contrastantes, não discordam entre si? Como discutir a unicidade (no plano estilístico)?

Achei também minha senha do ICQ...

E piadas de humor duvidoso: 

Qual é o nome do homem que faz presépios?
Armando Nascimento de Jesus.

Qual o nome do taxista?
Paço Dias Aguiar

É  graças a memória, suas pequenas, fortes e delicadas peças que a gente se constitui como é, a experiência, o olhar sobre o mundo e sobre o outro: tudo praticamente se constrói tendo-a como ponto de partida. Exemplo disso é a tradição - nem que seja para se romper com ela (ainda assim, a memória será necessária).

E valorizar a memória não quer dizer ser nostálgica ou viver no passado. A vida é curta demais para isso, entretanto, também é curta demais para não aprendermos com aquilo que vivemos, cometendo os mesmos erros sempre sempre.