26 de fev de 2014

Fluidos

Ele derretia. Gelo no verão de Cuiabá. E não quis permanecer nas mãos dela, em concha para mantê-lo próximo. Preferiu escorrer pelo chão da sala, escapando por debaixo da porta. Silenciosamente. Mas esfriou de novo e voltou a ser sólido. Agora era verão de Cuiabá no mundo dela. E ele quis mantê-la em suas mãos, em concha, como ela havia tentado com ele. Mas não dessa vez e ela se desfez em gotas gotas gotas pingou pingou pingou inundou e derrubou a porta. A intensidade vazou e ele não teve a chance de tê-la nas mãos.


Ela fluiu para o mar. Aberto.


23 de fev de 2014

Morfologia à dois

Transformei o seu nome em prefixo para os radicais dos meus dias. À essência da minha vida acrescenta-se a ideia do que é ser você - coisa que venho descobrindo pouco a pouco. Assim, o prefixo que se tornou seu nome, a cada dia, vai ganhando novos significados e mudando um pouquinho minhas segundas, terças, quartas e demais dias.

Seu nome-prefixo mexe na estrutura da vida cotidiana, no cinza da cidade, no voo circular das pombas sem acento circunflexo. Sinceramente, nem sempre muda tão pouco. Muda sempre alguma coisa, mas nada que latinos, gregos, árabes ou demais povos expliquem com seus afixos por nós herdados.

Seu nome-prefixo nem sei se tem a ver com língua e linguagem, porque Wittgenstein um dia disse que a língua dá conta de tudo aquilo que precisamos expressar, logo, não precisaríamos criar palavras novas Mas ele era muito radical, não? Porque não havia na língua portuguesa nome-prefixo que desse conta de você e expressar o que é ser seu nome-prefixo é fundamental, ainda que eu não dê conta da sua totalidade - e talvez nem mesmo você dê.

E nada vai arquitetando seu nome-prefixo, embora construa palavras novas e bonitas - algumas até engraçadas. É porque falta a ele a pretensão de fazer algo monumental e sobra o talento para as palavras novas de café-com-leite, ruas, vento, chuva, saudade, bossa nova, pão-de-queijo.

E enquanto Guimarães dizia que "a infelicidade é questão de prefixo", tento entender qual é o mistério desvendado do seu nome-prefixo.

Por ora, só sei que transformei o seu nome em prefixo para os radicais dos meus dias.

21 de fev de 2014

Prefixos perversos

A: - Tudo bem com você?

B: - Não, não está, mas tudo bem.

Olham o mar.

A: - O que aconteceu?

B: - Nada.

A: - Você parece tão.. Infeliz.

B: - A infelicidade é só um detalhe.

17 de fev de 2014

Diário: Personificando

- "As meias sentiram saudade" e "Os brincos ficariam inconsoláveis" são dois exemplos de personificação: a gente dá características humanas a seres inanimados. Provavelmente, quem sentiu saudade foi o dono ou a dona das meias. O mesmo vale para o dono ou a dona dos brincos.

- Okay, professora, mas quem usa isso?

- Ah... Eu uso. Usei ontem mesmo.

A pergunta é: Por que não usar? Por que restringir aos textos literários? 

Sempre melhor personificar do que objetificar.

16 de fev de 2014

Acalanto

Você mora no omelete e no pão de queijo de café-da-manhã - quase almoço, visto ser quase meio-dia. Aquelas coisas simples da vida, sabe? E também posso te encontrar em Caetano, Jorge Ben, Tim Maia, Coltrane, George Harrison, Gilberto Gil, João Gilberto, qualquer blues, funk, soul, jazz, chorinho, bossa nova... Qualquer canção cantor cantoria que te ilumine o olhar e te aqueça o coração. E você fala de amor, da vida, das pessoas, das coisas. Seu jeito de transbordar quando se anima, sua gentileza com estranhos e com conhecidos. Você mora na minha paz. Você mora no meu afago tranquilo morno sereno honesto. Você mora no meu riso quando fala de crianças e de sua falta de jeito para certas coisas. Você mora na minha vontade de te ver, te falar, te ouvir, rir junto. E você mora, acima de tudo, na simplicidade que a vida pode ter. 

E eu? Onde moro? Moraria fácil fácil no seu abraço - o melhor lugar do mundo para se estar.

13 de fev de 2014

Diário: Pluvibenção


Eu estava subindo as escadas e ela, descendo. Arregalei os olhos quando senti aquele saudoso cheiro de chuva chegando:

- Dona Sônia, vai chover! Graças a Deus!

- Ah minha menina - disse ela daquele jeito tão seu - Já está chovendo! - e riu gostosamente.

Apressei o passo entrei na minha sala correndo larguei as sapatilhas subi numa bancada de mármore coloquei os olhos e nariz na janela...

Chuva

[respira fundo]

Sorri contente: que o meu olhar carinhoso recebesse aquela benção de quinta-feira. E que fosse benção mais frequente.

- Fica, por favor? - pedi com doçura.

12 de fev de 2014

Pega mal? ou Afetofobia


Pega mal...  Dizer que a gente se importa? Porque... bom... Essa é a verdade, mas, às vezes, ela soa tão inconveniente e eu só imagino o porquê... Pega mal dizer que sinto saudade? Que é legal estar junto? Que eu quero ler meus poemas inéditos só para você? Pega mal ser afetivo? Oferecer o ombro pro amigo que precisa? Abrir o coração quando a tristeza aperta? Se mostrar frágil quando se está frágil e ser a fortaleza quando se estiver forte? Pega mal topar ser o porto seguro de quem te quer assim? E dizer 


EBAAAAAAAAAAAAAAAA

para quem te faz bem e vai te ver? Pega mal ajudar porque deu vontade? Ou perguntar tá tudo bem? quando o outro me chega tristonho, com cara de quem quer colo? Pega mal dar colo, pão de queijo, cafuné? E as melhores palavras que você puder encontrar? Pega mal você lembrar que sua amiga gosta de Zaz e avisar que a Zaz vai fazer show em São Paulo? Pega mal você virar para um amigo seu e dizer pow, você é minha alma-gêmea? E mandar um chamego, chocolate, bilhete? Pega mal mandar um postal para um amigo que você não vê há anos (recebi um postal desses)? E respirar fundo e buscar paciência quando a vontade de falar palavras de chumbo é grande? Pega mal elogiar e puxar a orelha de quem te dá liberdade? Pega mal dar liberdade e balas e risadas? Pega mal sonhar acordado? Pega mal dar presente fora de data comemorativa? Pega mal se importar?

Ah... Eu acho que não.

10 de fev de 2014

Angústia

As coisas vêm não se sabe de onde. E nem sempre se sabe explicá-las. Mas nada disso faz com quem  doam menos, com que incomodem perturbem enlouqueçam menos.

Não tinha mais vontade de viver, mas não queria morrer. Daria para ele ficar assim? Flutuaria entre céu e inferno, alheio a tudo aquilo pelo qual havia lutado a vida inteira. E a vida, ah essa menina batendo na mesma tecla triste e grave e lenta:

tum 

tum 

tum

- Socorro não estou sentindo nada....

Mentia. Engole o choro que homem  não chora. Mas chorava compulsivamente quando cantava Elvis no carro. Sem qualquer motivo. Não é porque não tem motivo que não está ali, que não dói.

Dói ouvir a mesma tecla sem se chegar a lugar nenhum. Sim, ele se perdeu e, estranhamente, não estava desesperado porque os sentimentos ruins consomem a gente, sabe? Era preciso e precioso se focar nos bons, mas... pra quê?

tum

tum

tum

Dobrara-se em mil. E nada. Um desânimo. Assolador. Nem ânimo para reclamar, declarar, declamar. Nada. Era todo vazio e silêncio. Silencioso, bebericava seu café sem que ninguém o notasse. Mas notavam e notaram. Sem perspectivas, sem planos, sem sentir que podia de fato fazer algo de bom pelo mundo e por si.

E não gostava de confete. Passou a evitar o contato social. Mas queria mesmo era evitar a si mesmo todos os dias no espelho do banheiro.

No verão, as noites deveriam ser mais curtas. Mas as dele não eram.

7 de fev de 2014

A senhora das moscas

Ela bonitinha. Sempre de rosa a saçaricar pelos corredores. Era a menininha do Vinícius e do Toquinho, só que um pouco maior: dez anos.

Uma boneca, era o que diziam. Uma senhorinha: sempre obedeci[d]a, sempre maviosa. Uma dessas crianças encantadoras.

Ficava no seu mundo de contos de fadas com bonecas e unicórnios brancos. Uma princesa.

Mas uma tarde, a mãe saiu para falar com a vizinha e a deixou sozinha em casa. Fazia muito calor e algumas muitas moscas tinham entrado pela janela da cozinha.

A princesa olhava com atenção as moscas que entravam, mas que não conseguiam sair: amontoavam-se desesperadamente na tela da grande janela da sala. Sem pestanejar, a princesa pegou o mata moscas e, uma a uma, foi matando os insetos com eficiência e frieza. Sorriu satisfeita.

As bonecas e unicórnios tinham perdido a graça: nunca tinha se divertido tanto na vida. Recolheu as moscas delicadamente, segurando-as pelas asinhas e jogando-as na lixeira do banheiro. Sorria radiante. Plena e contente.

Ela arruma o laçarote cor-de-rosa

3 de fev de 2014

Das coisas que brilham


Parecia ter quinze anos de novo: chegava em casa, largava a bolsa, tirava as sandálias e corria pra cama. Ficava lá deitada, pensando, sonhando, querendo, filosofando, tramando. E tinha voltado a rir sozinha.


O pote de sorvete gritava da cozinha:

- Me guarde!

Mas ela lá ia querer saber de sorvete? 

E se não guardava nem a si mesma, ia querer guardar sorvete?

Ele derretia na cozinha, ela, no quarto. Janela aberta e os pensamentos e fantasias contaminavam a cidade. Acordaria cor de rosa? Talvez. Queria expandir, voar, fluir pelo fio de água que escorria da pia do banheiro - os dois escovam os dentes.

Ela tinha olhado para ele assim, meio de lado, meio rindo:

- Me aguarde.

Uma promessa. Uma provocação. Um pacto. Era o que ele quisesse que fosse. Foram-se unindo as lacunas entre ambos, até não sobrar lacuna. E num jogo de ligue os pontos, as pintas foram sendo ligadas e no rosto dele se viu a constelação de libra. Ela riu, ainda segurando a caneta BIC numa mão e o rosto dele na outra.

Eram deuses, nada mais.