31 de mar de 2014

Lázaro, o sentimenal

Luiza.

Olha...

Luiza.

Estava pensando aqui em você, Luiza, muito, e lembrei muito de um texto do Ivan Angelo chamado "Vai":

Quer ir? Vai. Eu não vou segurar. Uma coisa que não dá certo é segurar uma pessoa contra a vontade, apelar pro lado emocional.

E eu não sou disso - talvez você não soubesse e agora sabe - não sou de segurar. Foi por isso que você fugiu? Foi algo que eu disse? Ou que eu não disse?

Mulher é tudo complicado, mas você é mais Luiza, porque eu não faço ideia do que se passa com você. Nem vou saber, pelo rumo que as coisas tomaram, ou melhor, pela ausência de rumo - e tudo em você é ausência. Ausência perene. Porque dói, Luiza, de verdade. Você já devia desconfiar que eu sou um sentimental. Pronto, agora pode ter certeza. Te dou a certeza embrulhada em papel celofane vermelho:

- Olha, ela é sua. 

Ela e todas as outras certezas que já te sussurrei, te servi no jantar, te levei em forma de flor.

Não me importo, de verdade. Me chame de cafona, você sabe que eu não ligo para o que os outros pensam. Me chame de cafona, mas me ajude com a minha gravata, sim? Que ela não é mais a mesma desde que você...

Ela me olha pensativa e me pergunta:

- E Luiza?

E eu olho para ela com meu ar grave e passo a mão pelo meu bigode melancólico. Balanço a cabeça, dramático. Não me importo.

É medo? Nunca fui violento, ciumento nem falei de casamento.

Não me importo com seu medo, me importo em não ter merecido nem ao menos o seu "não" e agora fico aqui choramingando. Estou um chato - e ainda, de quebra, um triste.

Você dançava entre o "sim" e o "não" e nem o "talvez" você me deu. Eu poderia ouvir qualquer coisa, qualquer som de seus lábios. Mas qualquer coisa não é o mesmo que nada. E o silêncio impera e afasta mais nós dois, que tanto já estamos afastados. 

Só posso dizer que tudo isso me dá pena, tudo isso é triste e nós somos tristes. Triste como "Luz Antiga" do seu amado Nando Reis. Triste como ela cai como uma luva - e quem sofre é a minha gravata.

E, embora triste, ainda sou o mesmo, meu amor. Algumas coisas ainda são as mesmas. Mas espero que, um dia, você não seja mais a mesma, espero que passe a dar uma chance para as pessoas, para a vida e para as coisas que te fazem bem. Espero, de coração, Luiza, porque me importo com você de verdade.

E verdade foi tudo o que te mostrei até agora, desde o começo, desde o primeiro gole de sonho.


Ouvindo Milágrimas (Itamar Assumpção)

28 de mar de 2014

Tive meu dia de Cinderela

Tive meu dia de Cinderela: saí correndo, atravessando a rua e minha sapatilha ficou para trás. Olhei perplexa, mas não tive medo de voltar para buscá-la. 

Não tive medo de ser abóbora, de'le me ver abóbora (porque também sou abóbora) e nunca vou esquecer do modo como o olhar dele atravessou a rua e me acertou em cheio, quando já estava novamente com a sapatilha, já do outro lado.

Tentou hesitar, mas sem êxito: quis atravessar e me alcançar. 

Eu via como os homens  me olhavam com um encantamento espantado e temeroso - e eu sempre dava ombros porque aquilo não era problema meu, porque não somos responsáveis por aquilo que despertamos nos outros.

Dei ombros novamente: tendo a sapatilha em mãos, depois no pé, podia ir embora. Era hora de voltar às origens, à cozinha, ao mundo real. Eu não precisava de fantasia. Nem princesa, nem rainha, nem nada. Sonhos? Nem os de padaria. Passei a gostar do borralho, porque era aquilo que fazia com que me sentisse real, viva, de verdade, sabe?

O brilho do vestido foi ficando para trás, ia esmorecendo, assim como parte de mim - não nego. Todavia, meus olhos ainda brilhavam quando entrei em casa pela porta dos fundos.




27 de mar de 2014

Dias de pudim de leite

Cozinhou tanto em banho-maria que toda a água secou, evaporou, foi chover em outro lugar. Era muita água, era sempre muita água. E o pudim se leite foi escurecendo, amargando. Alguém chorou sobre o leite derramado (o que um dia fora leite, o que um dia fora água - veja bem que as coisas mudam...) que agora era lembrança de pudim. Mas pudim sem doçura, sem consistência, sem nada que lembrasse o que um dia tinha sido. E o choro que um dia havia se esparramado sobre o leite esparramado no chão aguou, enquanto o torrão amargo minguava e a fumaça fétida se espalhava pela cozinha.

26 de mar de 2014

Onde foi parar o medo?

Não sabia se era pior ter se metido com um dono de boca de fumo ou com um ex-dono de boca de fumo. O fato é que o tinha feito (segundo caso) e não pensara duas vezes. Bom, talvez se soubesse não teria feito nada, certo? E teria deixado o tal ex-dono aprontar com todo mundo como aprontava, certo?

Nada.

E ele era amigo no mais novo L.A. Legal, né? O rapaz gostou de saber, porque disso ele também não sabia, só sabia que os caras eram complicados e andavam mexendo com um amigo e todo o resto do pessoal. Não gostou. Aguardou. Conheceu os tais.

Havia certos momentos na vida em que era preciso levantar a voz, bater o pé. Em inglês, se diz "make a stand" e isso soa bonito. E o que ele, franzino, podia fazer?

Podia usar a voz firme, as mãos e o resto do corpo para dizer:

- Aqui não!

Só depois ficou sabendo do L.A. Só depois ficou sabendo do ex-dono da boca de fumo. Tarde demais? Ah, não tinha medo. Onde foi o medo? Que medo? Não houvera antes e não havia agora.

Estava resolvido. O rapaz franzino simplesmente riu e até agora espera, com muito pouco caso, o momento em que o medo volte para visitá-lo.

23 de mar de 2014

Incoerências [1]

A: - A vida é muito curta para se usar calcinha bege!

Silêncio.

B: - Ah, eu uso calcinha bege...

A: - Ah, eu também.

18 de mar de 2014

Diagnóstico: afetofobia

No consultório médico:

- Então, doutor, qual é o meu problema? Por que eu me sinto vazio? Por que não sinto mais nada? - pergunta o paciente.

- Você sofre de um mal moderno: a afetofobia - diz o médico sem dar importância.

- E é sério? - preocupado.

- Muito - diz tranquilamente, limpando os óculos.

- E tem cura? - ansioso.

- Não sei, eu é que pergunto: tem cura?

16 de mar de 2014

Entrelinhas de neon

Amanhecia. Os dois estavam olhando o sol nascer pela janela do quarto, deitados na cama. 

- Nós últimos anos, venho colecionando olhares. Olhares masculinos - disse ela, arrumando o travesseiro.

- Isso soa tão esnobe! - ele riu  - Então você acha que conhece bem assim a natureza humana?

- Ah. Acho que sei ver o outro, de verdade. Ler nos olhos as intenções, sabe?

- Sei - arrumou uma madeixa de cabelo dela.

- Quanto mais velho a gente fica, mais a gente aprende a esconder as nossas intenções, o nosso olhar. Mas conheço caras que olham para mim como se fossem adolescentes.

- E o que isso quer dizer? Que são indecentes? - ele riu.

- Ah! Nem tudo na adolescência é sobre isso - ela sorriu - A adolescência transborda, mesmo quando não quer. Não tem filtro. Mas tem gente mais velha que não tem filtro e aí fica ridículo - sentenciou.

- Você é muito dura. Porque alguém mais velho teria que viver nesse clima de continência e moderação? Por que a gente não pode ser passional?

- E quem quer ser passional? Dá muito na vista...

- O olhar de alguém também pode dar na vista, ora.

- Mas quem sabe ler? Quem quer ler? Está todo mundo muito ocupado com seu próprio umbigo, sua própria vidinha.

- Você é muito dura.

- Eu poderia passar a vida apaixonada por você e você podia nem reparar, por estar ocupado com seu mundo.

- Se você fosse passional e jogasse tudo abertamente eu ia reparar - ele considerou.

- Mas aí ia incomodar. Te incomodar. Me incomodar. É preciso ler nas entrelinhas e, às vezes, o que está nas entrelinhas brilha em neon.

- Olhar também incomoda - refletiu ele.

- E a ausência do olhar mais ainda - ela sorriu triste, se levantando - Vou fazer café. Quer chá?

- Mate.

- Ah! Acho que o olhar sempre entrega, mesmo quando você sabe mentir bem - ele ponderou.

- Não estou nem pensando em saber mentir, penso em esconder mesmo. Você diz uma coisa, seu olhar diz outra. Você diz uma coisa, seu olhar diz nada. Você fecha os olhos pra sonhar ou sonha no trânsito de São Paulo de olhos abertos e fica tudo na sua cara.

E foi para a cozinha.

O sol tinha terminado de nascer e iluminava tudo lá fora, assim como dentro da cabeça dele. Todavia, de um estranho modo, ele permanecia no escuro: não ousou perguntar a ela o que ela via em seu olhar. Havia o risco de ela acertar e ele não perceber.

14 de mar de 2014

Só alguém com que eu saí...

Quem era ele? Só alguém com quem ela saiu.

Quem era ela? Só alguém com quem ele saiu.

As pessoas estavam sempre de saída. À francesa.

E ele ficou triste.

13 de mar de 2014

Pudor adolescente

Ele: - Por que você riu?

Eu: - Seu pudor.

Ele: - Que pudor?

Eu: - Em vez de escrever o palavrão, você colocou aqueles símbolos dos quadrinhos.

12 de mar de 2014

Óculos multifocal - e lentes cor-de-rosa. Pode?

Hoje, um amigo, ao receber um abraço meu, disse:

- Você parece personagem de comédia-romântica...

Respondi brincando que tomava aquilo como uma ofensa. Ele riu e pediu desculpas. Pensei.

Pensei que se a gente fosse ou quisesse dar conta de tudo aquilo que as pessoas pensam, dizem e acham de nós, não nos sobraria tempo para nos redescobrirmos todos os dias. Porque sim, estamos sempre descobrindo coisas novas sobre nós mesmos. Acabo de descobrir, por exemplo, que bolacha de água e sal com maionese é gostoso.

É engraçado como algumas pessoas podem conviver por anos com você e nunca perceberem quem você é de verdade. Já outras, te leem fácil, tão fácil que você até se assusta. Acho que a percepção em relação ao outro funciona quando a gente evita uma interferência exagerada dos nossos achismos e tenta ver no outro quem ele é - e não a imagem que fazemos dele.

Todo mundo me fala que pareço ser mais jovem do que sou - o que é verdade. Mas também já me disseram, pelas coisas que eu falava, que parecia que eu tinhas uns trinta e oito anos. Não sei o que isso quer dizer, só imagino. Entretanto, penso que incoerentes que somos, quando não conciliamos aparência, idade cronológica e o resto.

Talvez ter trinta e oito anos indicasse maturidade. Eu não sei mais definir o que é ser madura ou ser adulta. Mas sei que sou as duas coisas porque a vida assim me exige. E também não estou preocupada em definir muita coisa. Antes eu achava que ser adulto era pagar as próprias contas. Depois, achei que era assumir as consequências das suas escolhas. Hoje, só sei que não sei. E isso não é ruim. Não saber não é ruim. E ser adulto vai além de contas e decisões. Além de autonomia também. Talvez seja a maneira de ver o mundo. Não sei.

Hoje falei mal da minha geração ao meu chefe:

- Ninguém faz escolhas. Não é questão de escolher mal, mas sim de não escolher nada - e consertei - Se bem que ao não escolher, você acaba fazendo uma escolha.

Ele me olhou muito sério. Ele me leva muito a sério... Claro que fui muito dura, às vezes sou. Acontece. Porque tomar decisões não faz ninguém mais maduro ou algo que o valha e, ainda por cima, dá a falsa impressão de que temos todo o controle sobre nossas vidas.

E o fato é que não temos. E não precisamos ter pressa, sabe?

Uma das melhores coisas que ouvi em relação ao que estou falando foi:

- Você tem a experiência de vida que uma pessoa de vinte sete anos pode ter. Ponto.

Um alívio pensar assim. O que pode parecer óbvio, mas nem sempre é.

O modo como vemos a vida diz muito sobre nós. O modo como julgamos as pessoas diz muito sobre quem nós somos. O modo como lidamos com os outros diz muito sobre o que merecemos.

E, neste exato momento, se me perguntassem como vejo a vida, diria que é com lentes cor de rosa e lentes multifocais: enxergo bem de longe, enxergo a meia distância e enxergo bem de perto e as lentes são cor-de-rosa, o que me faz ver o melhor - e não me iludir com palavras baratas e fáceis. Não é porque não expresso ou ostento minha tristeza e outros sentimentos negativos que não os tenha, apenas deixo o pacotinho pra lá. Porque a vida é curta para se cultivar ervas daninha

Não preciso de mais, nem de menos. Sou exatamente o que posso ser nesse exato momento e o melhor que já fui até o presente. Rumo aos trinta - e feliz. Porque se chove, é claro que uma hora para.

7 de mar de 2014

Com licença, vou lá fora sonhar.

Gosto de dizer seu nome composto saboreando cada letra, embora só te chame pelo apelido.

- Com licença, vou lá fora sonhar...

Alguns saem para fumar. Eu, para sonhar. Digo isso saindo, enquanto o discurso dos amargos da vida começa. A vida é curta demais para certas coisas. E te explico:

- É que aqui dentro já não cabe. É preciso sair para sonhar, porque é coisa demais por dentro que insiste. E insiste.

Olho as flores de fumaça dos fumantes que me acompanham do lado de fora. Flores que se dissolvem e espalham, como os sonhos que me tiram o sono. E ando por aí com essa cara pálida, olheiras fundas, mas um sorriso diferente. Estão até percebendo e me enrolo e enrolo e sorrio sincera. A vida é boa.

Você se emociona tão bonito e bagunça o meu cabelo já bagunçado. Olha para mim e faz com que eu me sinta a mais bonita, ainda que de cara (literalmente) lavada pela chuva. Chuva, vento e demais intempéries... O que mais faltou naquela tarde?

2 de mar de 2014

Clariciando


- Você não me quis. Eu entendo e respeito isso.

Ela quis dizer, mas não disse: qualquer coisa que pensasse, dissesse ou sentisse soava por demais dramática. E ela já estava longe dos palcos há algum tempo - e assim queria permanecer.

Naquela mesma semana, tinha se perdido à noite, num bairro perto de casa. Estava a pé e tinha seguido na direção oposta a qual queria ir. Pensou que aquilo deveria ser um sinal. Os sinais brotavam. Eram frutos que caíam doces e apodreciam dolorosos nas calçadas.

Viu as pitangueiras vomitarem pitangas - era a vida que se entregava, se oferecia e a ofendia asperamente. Pensou em qualquer coisa que tinha lido de Clarice há alguns anos. Flashback literário. E sensorial. Sentira-se mal quando lera o texto. Sentia-se mal anos depois, agora, olhando as pitangas doces e podres. Azedume da vida. Cheiro de fim de feira. Cheiro de fim. Fim.

Seus vermes internos lhe faziam companhia. Cantavam-lhe qualquer coisa doce que agora ela não podia ouvir. Também não tinha fome. A fome ela via nas pessoas simples sentadas nos bancos e no olhar de alguns homens que a encaravam. A mocinha de vestido azul e batom vermelho que passeava de pernas de fora e olhar triste triste atrás dos óculos escuros. Para ela, não fazia sentido despertar desejo em meio mundo se o dono do seu nada sentia...

[borboletas de abóbora se chocam contra folhas ásperas e duras - a harmonia da natureza]

Tudo Parque da Luz, com sua luz branca fria difusa. Com seus coretos encantadores e silenciosos. Com Diana semi-despida e pombas negras pousadas nas árvores. Trilhas de grama e lama. Pensou na flor-de-lótus. É, talvez houvesse solução para a vida.

A jovem coreana com um lindo bebê a olhava desconfiada.

- Que perigo eu poderia oferecer?

Perigo. Ameaça. Medo.

- Você 'tá com medo de mim? - e o seu olhar era de uma ternura ímpar.

Cazuza tinha fugido. Era mais do mesmo. Ela era outra, mas a história se repetia. Uma repetição que tinha ido além, bem além dos intermináveis solos de guitarra. E, em seu caminho, a natureza se repetia e agora via sementes abertas, espalhadas pelo caminho, ostentando suas vísceras. Pareciam cérebros. As ideias vazando? Não, não havia seiva nem secreção de qualquer tipo. Eram cérebros esmagados: os passantes cumpriam seu papel e passavam por cima das sementes.

Sem frutos.

E a mesma sensação de Clarice, a mesma das pitangas, as sementes sem pensamentos.

E ela, sem alumbramento, sem encantamento, sem assombramento. Sem.