29 de abr de 2014

In bloom

Tuas flores de pétala e folha me conferem carne e osso e me dão um senso de simples realidade e plenitude e sei que sou de verdade - sendo isso o que quer que seja.

24 de abr de 2014

Diário: Desmistificação

Dois alunos conversam e um deles solta um palavrão.

- Como você fala palavrão, menino! - comento e me aproximo.

- Ah professora! - ele resmunga sem graça.

- Você sabe o que é porr*? - pergunto.

- Sei sim: é aquele negócio do café... - ele explica.

- Não, isso é borra. Porr* é esperma - explico

Pausa dramática.

- Você sabe o que é esperma? - pergunto.

- Sei.

Silêncio. 

22 de abr de 2014

Universo, fala comigo, por favor!



O universo deve ter ficado cansado de mim:

- De novo essa moça querendo um sinal? Afeeeeeeeee!

Ah, Sr. Universo! Não me leve a mal: dessa vez, eu nem queria mais todas as respostas, só precisava saber se eu estava no caminho certo, sabe? Tenho não trilha de farelos como João e Maria, nem tijolos amarelos como a dona do Totó. Sou reles mortal, veja bem. Pó de estrela como todos os outros reles mortais.

E por ser reles mortal, sei que não perderia seu tempo se chateando comigo, não tenho essa importância. Todavia, acredito que você é generoso o bastante para me mandar os sinais que tanto pedi - secretamente.

Pedi - e não perdi. Nunca perco, quase nunca, vai... Medo grande de "sempre" e "nunca". O fato é que eu tenho visto os sinais que tem me mandado e os recebo como quem recebe um velho amigo ou o filho pródigo que a antiga casa retorna.

E, tão feliz quanto receber os sinais que tanto pedi - secretamente, entre travesseiros, orações e sono - é saber vê-los com clareza, calma e a certeza:

- Sim, você está no caminho certo.

21 de abr de 2014

Medo de quem?

Eu: - Ei! Você tem medo de mim?

Ele: - Eu tenho.

Eu: - Uai!

Ele: - Tenho sim, mas só um pouquinho. E o medo que tenho de você me causa curiosidade. Muita curiosidade.

[...]

17 de abr de 2014

Das coisas que acontecem sem querer [1]

Ela estava brincando com a escaleta. Não que não tivesse nada mais para fazer, mas escolheu, naquele breve momento, fazer exatamente o que tinha vontade. Repassava diversas memórias, conversas recentes, decisões impensadas:

- Acho que deixei uma marca nele... - pensou sem jeito.

E, não sabendo se aquilo era bom ou não, simplesmente continuou brincando com a escaleta.

14 de abr de 2014

As pessoas boas a gente mantém por perto [1]

Tô escrevendo porque deu vontade e certas coisas em mim correm impulsivas num pulso só, numa única batida do coração - e por isso te escrevo.

Acho você um ser humano lindo. De verdade. Você tem uma delicadeza tão sua e uma maneira tão doce e concreta e - ainda assim - lírica de ver o mundo! Vejo algumas citações, livros, vestidos, docinhos que me lembram instantaneamente você, porque eles são muito... Claudia!

A palavra é... Encantadora. Você é encantadora. Acho que essa palavra dá conta de você: suas palavras,  seus gestos, seus modos, suas fotos, suas ideias. É simples, é isso.

Só queria deixar registrado aqui que você é tudo isso mesmo e que precisamos sim tomar um café para colocar a vida em dia.

Gosto muito de você...


13 de abr de 2014

A louça lavada tirou a minha cor


Quando ela fez a sua revelação, bem, eu vi a sua cara, a sua expressão enquanto lavava a louça. Ela desconversou, cantarolou qualquer coisa que não entendi. 

- Como é que é?

Continuou cantarolando com a mesma cara e eu ia me perdendo no meio da espuma e dos pensamentos.

- É sério?!

- Vai dizer que você nunca percebeu?!

- Não, não é assim.... É? Você acha? Eu sou tapada assim?

- Olha, a minha vontade é a de jogar essa panela na sua cabeça - ela disse sorrindo e completou - ou de esfregar o lado verde da esponja na sua cara.

- Esfoliante?

- É sim!

- Hum... Puxa...

- A melhor coisa foi a cara que você fez com o que eu disse.

- Não, foi a sua.

E estou matutando até agora sobre o que ela disse. E, possivelmente, estou até agora com a mesma cara.



12 de abr de 2014

Gosto de homens covardes

- Gosto de homens covardes - ela declarou secamente, antes de um gole do seu cappuccino quente.

Não entendi e ela percebeu pela minha expressão. Não foi a brisa da janela do Fran's café que me roubou qualquer reação: foi o que ela tinha acabado de dizer.

- Oi? - insisti.

Ela vez um gesto com as mãos de quem não sabe se explicar.

A conversa tinha começado:

- Melhor? - perguntei, passando o sache de açúcar com mensagem açucarada.

- Não - ela respondeu séria, o rosto sombrio.

- Deixa eu adivinhar: pessoas covardes.

Ela concordou com a cabeça e aí me veio com a pérola:

- Gosto de homens covardes.

Longa pausa. E eu, mais do que nunca, aprendendo a respeitar seus silêncios e lacunas e vazios.

- Não que eu procure pessoas assim: simplesmente acontece. Gosto de homens que se revelam covardes. Quando descubro que são covardes, já é tarde demais...

- Ah - respondi aliviada.

- E isso é tão... sei lá - disse fazendo uma careta.

- Sei lá?

- É, sei lá...

- Hum. Então talvez seja hora de você se interessar por homens que revelem outras coisas.

- Eu poderia me interessar por um homem que se revele... péssimo leitor.

- Mesmo? Você?

Ela me olhou pensativa:

- De que adianta sensibilidade com palavras se falta a sensibilidade para lidar com as pessoas?

- É - concordei, mascando o meu coração.


Tânato doméstico

Tinha umas violetas na janela da cozinha. Sabia que elas precisavam ser regadas a cada dois dias. Mas não as regava: ficava olhando-as murchar. As folhas caídas imploravam um olhar. E ele nada. Nada. 

Ele gostava de vê-las murchar, implorar, para depois renascerem água fonte de vida eterna. As violetas não eram eternas. Apenas sua vontade imperiosa.

Ele gostava de devolver-lhes a vida, regando-as com polida bondade. E elas, a semelhança de Estocolmo, agradeciam efusivamente ao seu algoz.

Aquela sensação de poder sobre a vida, a vida alheia, sobre a vida. Vida. Tirar as violetas da linha tênue e tenaz que as separava do sono sem sonhos, tendo ele mesmo as colocado lá.

Era boa sensação, sim, aquela de ter poder sobre a vida alheia - era como brincar de Deus. E ele achava  tudo aquilo justo e bom, já que Deus brincava com a vida dele.

6 de abr de 2014

Amor aos pedaços


Ele era um bom homem. E discreto. E silencioso.

Observou com uma preocupação tímida os pedaços esparramados pela casa. E ficou sem saber o que fazer. Não que não tivesse acontecido antes: era só que os pedaços nunca eram os mesmos e ele não sabia o que fazer dessa vez, como resolver.

Ele era um homem bem resolvido e, certamente, haveria de achar uma solução. Ponderou. Ouviu música. Saiu para andar. Alimentou os pombos no parque. Tomou banho de chuva. Fez a barba. Tirou no violão a nova do Apanhador.

E foi apanhando os pedaços pela casa, afinal, aquilo que já é morto começa a feder quando não enterrado - e ele já ouvia os abutres batendo com os bicos na janela de seu quarto:

- Viemos buscar o que é nosso por direito!

Então era preciso fazer algo. Terminou de recolher seus pedaços. A vida continuava. E ele continuava. Sempre gentil, mesmo quando triste, mesmo bicho ferido - no seu orgulho, no seu amor, na sua carne, no seu desejo. 

Respirou fundo. Arranjou cimento e disposição. Precisava de reforma. Juntados os pedaços, os caquinhos cobriram carinhosamente o quintal dos fundos. Sim, ele ganhou piso novo e agora já não havia mal cheiro. E quando um abutre veio lhe perguntar sobre o porquê de não ter enterrado os tais pedaços, ele respondeu:

- A memória é coisa viva e faz a gente ser quem é. Para que esquecer?

O abutre, que entendia de coisas mortas, entendeu e deixou o homem em paz. Foi embora pensativo. Quem ficou por ali foi o homem, também pensativo. E, de vez em quando, contemplava satisfeito a obra no quintal dos fundos. Dos caquinhos, conseguira fazer algo útil. Não um monumento à memória, mas...

- A memória é uma coisa bonita.

Ele era um bom homem. E um bom construtor. E mais do que um sobrevivente: ele era um ser vivente. 

2 de abr de 2014

Sujo ou encardido?

O fato é que jogou-se na máquina de lavar: quis testar na própria pele o poder de Ariel e dos amaciantes, sim, os amaciantes, pois era preciso amaciar a sua alma de brim.

Um dia fora tule, mas veja bem: tule é coisa delicada que deve ser lavada à mão. Não havia quem o quisesse nas mãos, não havia quem o tratasse com delicadeza. E, um dia, acordou brim, que guardava um encardido da vida. Ou era sujeira mesmo?

O balanço da máquina parecia uma canção de ninar e quase pegava no sono. Pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Ficava de molho um pouquinho e logo voltava pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Passados os dias de banho-maria, o molho da máquina não era nada. E logo voltava a ser ninado pelo modo "lavar" da máquina.

Enxague. Enxaguou. Desaguou. E a água não parecia acabar nunca. Deus meu! D'onde vem tanta água? Escoou finalmente toda a água: hora de centrifugar. Sensação ruim. Girava rápido e mais rápido. Enjoo. Barco viking. Sensação ruim.

Ufa! Fim de ciclo! Saiu e foi se ver no espelho...

Que surpresa a sua perceber que ainda estava um tanto quanto encardido (ou sujo?)... Cansado das promessas que não eram cumpridas - a do sabão em pó, no caso - não teve dúvidas: aconchegou-se numa bacia e foi quarar ao sol.