26 de jul de 2015

Sobre despedidas incompletas

Ela tem uns quarenta e poucos anos. É casada e tem dois filhos já criados. Veio de Minas assim que casou e, depois, acabou voltando poucas vezes para ver a família. Poucas vezes. Os filhos, o marido, o trabalho, a vida. Tudo chama. Criou raízes em São Paulo e voltou poucas vezes para casa. Casa? Sua casa agora era São Paulo, zona sul da cidade, numa casinha simples, bonita e aconchegante na periferia.

Foi um baque quando recebeu a notícia da morte do pai, em 26 de dezembro. Logo após o Natal. A mãe tinha vindo à São Paulo, então ele tinha morrido sozinho. Ia voltar para Minas. Fizeram as malas e foram s'imbora.

Ela não chorou no enterro, mas ficou impressionada como o pai tinha a cabeça branquinha. Não tinha visto seus cabelos ficarem brancos. Não chorou. Voltou para São Paulo. A vida continua, não? A vida seguia, implacável. os filhos, o marido, o trabalho, a vida. As raízes fincadas em outro lugar.

Um dia, ela subia a Brigadeiro, a caminho do serviço, dentro de um ônibus. E um outro ônibus parou ao lado. Lá, ela avistou um senhorzinho de cabelos brancos. Então, chorou.

Ouvindo Once upon a time (Air)


15 de jul de 2015

Wonderland é aqui ao lado

Tudo começou quando ela viajou para o interior, onde o pai de seu namorado tinha uma bela chácara. Lá, plantavam café e produziam mel e era um lugar realmente adorável. Sempre que ia pra lá, ela levava sua câmera fotográfica para registrar plantas, insetos e demais coisas interessantes que pudesse encontrar.

Acontece que, dessa vez, o sogro lhe disse que havia um coelho branco circulando por entre os pés de café. Um coelho branco! Ele tinha fugido do terreno do vizinho e agora corria pela propriedade. 

Aquilo deixou a jovem extremamente empolgada: imagine tirar uma foto do tal coelho branco! Assim, munida de sua máquina Nikon, seguiu andando calmamente por entre os pés de café. Engraçado como agora eles pareciam em quantidade muito maior do que ela tinha percebido e, quando se deu conta, estava perdida: não conseguia encontrar o caminho de volta ao seu ponto de partida.

"Bem, vou continuar atrás do coelho e uma hora encontro de novo o caminho que me trouxe até aqui", pensou ela com seu vestido azul. 

Não se sabe se a jovem encontrou o coelho branco, porque ela simplesmente nunca mais foi vista. Apenas encontraram sua máquina fotográfica, caída, ao lado de um montinho de cogumelos.