22 de dez de 2015

Sobre o retorno dos platônicos

Não foi culpa dela. A menos que ela fosse culpada por existir. É que existir às vezes bastava, às vezes era o suficiente. E era o caso. Mas não era culpa dela. Era culpa sim de uma certa luz por entre nuvens num fim de tarde, dessas que insistem em estar lá mesmo com chuva.

E ela também estava lá, mesmo com chuva. Guarda-chuva na mão, oferecendo uma carona. Mas por que falar de culpa? Ele se sentia tão... Leve. A vida fluía quando estavam juntos. Aquela mulher pequena e forte e leve e suave e intensa e... Cintilante. O esmalte de suas unhas, as palavras de sua boca, seus lábios.

E ele se viu como um colegial: o mesmo olhar, a mesma falta de jeito. Aquela idealização... Mas colegial na casa dos trinta? Complicado. Mas havia coisas mais complicadas. Mesmo porque todos sabemos que certas pessoas terão esse efeito sobre nós, não importa a idade - a nossa e a delas.

Queria passar o máximo de tempo possível ao seu lado, ouvindo sua voz e suas ideias e suas piadas terrivelmente sem graça.

Ela era tudo o que sua esposa não era.

21 de dez de 2015

Sobre a cova dos leões

Sonhei que havia caído na cova dos leões. Tentei escalar as paredes, mas nada. Muitos tentaram me resgatar com cordas e afins. Gritavam, tentando me motivar a, mais uma vez, tentar sair dali. Mas, depois de certo tempo, vi que não adiantava mais tentar.

E foi então que percebi que não me restava outra coisa se não ensinar os leões a rezar.

13 de dez de 2015

Sobre polarização, sapatos e livros

Faz um tempo que circula do Facebook a seguinte frase:





Achei interessante até perceber que este não passa de mais um exemplo de polarização.

Como assim?

A primeira acepção do Google é esta aqui:

polarização
substantivo feminino
  1. 1.
    ação de polarizar ou estado daí resultante.
  2. 2.
    concentração em extremos opostos (de grupos, interesses, atividades etc. antes alinhados entre si).


A garota que gosta de livros é colocada num polo e a que gosta de sapatos, no outro. Mas e se a tal garota gostar das duas coisas? Quem gosta de sapato é fútil? Quem gosta de livros é cult, inteligente e interessante? Desde quando preferências como livros ou sapatos são garantia de que a tal garota é um "bom partido", vale a pena e coisas do gênero? Não posso gostar de livros E de sapatos? Gostar de livros me faz uma pessoa melhor do que aquela que prefere sapatos?

Sei lá. Não vejo porque polarizar esse tipo de coisa quando as pessoas são tão mais complexas do que livros e sapatos e conselhos bobos como o sugerido acima.