27 de out de 2013

Onde mora o desejo

Ela parecia interessante. Os cabelos (longos?) presos num coque bem no alto da cabeça. A nuca ficava à mostra. Belo pescoço. O pescoço e todo o resto. A moça tinha um corpo bonito, arredondado e de pele (macia?) morena jambo.

Zeca olhava a moça de lingerie preta com grande atenção.

E ficou preocupado com aquela ousadia de ela estar ali assim, só de lingerie preta. De renda ainda! Ai ai ai... Mil coisas de passaram por sua cabeça, coisas que não comentaria com sua mãe ou com sua irmã. Era ousadia mesmo uma moça tão bonita numa lingerie tão rendada ficar desse jeito, se exibindo, como se ninguém estivesse olhando.

E Zeca olhava, que mais poderia fazer se não olhar o que estava ali, bem na sua frente, como se ele não estivesse lá?

Talvez devesse chamar a polícia para prendê-la por atentado ao pudor. Afinal, onde ela achava que estava? Tão a vontade, tão leve, tão ensimesmada, como se ninguém a estivesse olhando...

Divagava... O olhar perdido na moça bonita.

De repente, o telefone toca. Zeca larga os binóculos e vai atender. Com pesar, deixa a vizinha com sua lingerie preta no apartamento ao lado, para que ela possa continuar a ignorar aquela existência doída, pequena e abafada

Era no apartamento ao lado ou dentro de Zeca que o desejo morava?

25 de out de 2013

A hipocrisia está no besouro desesperado da sua sala.


Sou uma pessoa totalmente pró-insetos e não é que me peguei com pensamentos homicidas em relação ao inseto que invadiu minha sala ontem à noite?


Quase um OVNI! Era grande, dourado e barulhento. Zumbiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaa ao redor da lâmpada de luz quente da sala:

- Ô meu bem, quer se aquecer com esse calor todo?

Fazia um calor miserável e eu tinha deixado as janelas abertas, ainda sem telas:

- Tela é para os fracos. E pintores! - pensei durante o dia.

As únicas telas que tinha são as de pintura e de nada me valiam.

Não, eu não ia matar o que quer que fosse - "o que quer que fosse" não me soava bem. Podia ser uma sonda alienígena ou apenas o começo de um terrível filme de terror, no qual a pacata professora tem seu apartamento invadido por insetos que entram pelos seus ouvidos! Argh!

Pensando bem...

Naaaaaaaaaah. Minha vida seria outro tipo de filme.

Sei lá, às vezes a gente acaba sendo incoerente no que diz, faz e acredita, né? Defendo os mocinhos de seis patas e aí quando eles se aproximam - literalmente - eu mudo meu discurso?

Aí eu olhei com carinho para o pobre coitado que rodava loucamente na sala e fui fazer meu chá. 

Quando voltei, ele não estava mais lá. Deixei o abajur aceso para ele e fui dormir. Pela manhã, ele estava deitado, de barriga para cima, no chão da cozinha. Esperneava, cansado. Não zumbia, cansado. Também, imagina a sensação das mariposas, besouros e demais insetos que ficam rodeando lâmpadas e afins, sem saber que nunca vão conseguir nada?

Pow, isso é triste...

Olhei mais uma vez com carinho para o meu colega estirado no chão frio, peguei-o delicadamente com um papel de papel toalha e levei- até a janela. De lá, ele voou para fora.

É... Coerência nos cai bem.

22 de out de 2013

Quinzinho e os ritmos

Ele falava rápido como um locutor esportivo, mas sempre respeitava a fala alheia. E sua caminhada acompanhava a fala: sempre rápida. Também não dirigia, voava. Todavia, as ultrapassagens nunca eram perigosas e nunca recebeu multa de trânsito.

Durante a semana, engolia a comida depressa. Jantava de pé. Mas fazia questão de saborear a sobremesa com toda a calma no mundo e, nos finais de semana, jantava com os amigos como se fosse um príncipe. Até ignorava o relógio - um segundo coração? - pulsando no seu pulso.

Pensava rápido, mas as decisões demoravam um bom tempo para serem tomadas: tudo meticuloso, tudo bem planejado. No amor, também era lento - quase parando para quem olhasse de fora. Era um tempo todo seu, como se as palavras e ações passassem por estágios de maturação e despertassem aos poucos, depois de um longo inverno. Ou saíssem voando do casulo.

Pois é. Os seus abraços eram demorados, mas as conversas ao telefone, breves: não gostava de falar ao telefone. Gostava de olhar para as pessoas com calma, mas tirava conclusões rápido demais. E nunca, nunca, cantava no ritmo certo - também dançava mal, fazer o quê?

Diferentes ritmos pulsavam dentro dele. Diferentes relógios? O relógio biológico já anunciava o primeiro fio de cabelo branco:

- Novo assim?





17 de out de 2013

Diário: Sobre o ofício de professor [3]

Ela tem seis anos e é a menor da turma. E, por isso, sempre a primeira da fila - ordem de tamanho. teve tanta coisa na escola que fazia muito tempo que a gente não se via. Quando me viu, ela saiu correndo, contente: me abraçou apertado, mas com sua costumeira delicadeza.

Sorriu.

- Senti sua falta, professora. Sinto falta de você como sinto da minha mãe.

Assim essas crianças me desmontam, pô!

O tipo de coisa que garante o dia, a semana, o ano, a vida.

16 de out de 2013

Diário: Sobre o ofício de professor [2]

Foi aos catorze que bati o martelo: vou ser professora. E assim foi feito.

Muitas coisas mudaram, muitas águas rolaram desde então. Trabalhei em diversos lugares, conheci muita gente e, acima de tudo, aprendi muito. Muito mesmo.

E, a cada dia que passa, a despeito das dificuldades (que, diga-se de passagem, existem em qualquer profissão), tenho certeza de ter feito a escolha correta.

"Nina,
Para uma menina com uma flor"

Foi o bilhetinho que acompanhou a rosa vermelha que ganhei de um grupo de alunos queridos. Eu tinha comentado sobre esse texto de Vinícius de Moraes e sobre como achava uma das coisas mais lindas e delicadas. É, eles lembraram - então sou ouvida de verdade! E toda vez que alguém se lembra de algo que eu disse em aula (e comenta comigo), fico feliz ao perceber que devem ser coisas importantes, porque eles se lembram  associam ao seu mundo.

E eu fico emotiva mesmo. A combinação pessoas + afeto mexe comigo, principalmente porque acredito que o afeto e a delicadeza são dois elementos importantes na docência. Acredito na importância dos vínculos e das trocas e valorizo bastante essas coisas.

E foi isso o que presenciei ontem, no dia dos professores: ex-alunos, que não vejo mais, me mandaram mensagens carinhosas. Atuais alunos com abraços apertados e palavras gentis. Até encontrei, no centro da cidade, uma ex-aluna de supletivo. Na verdade, foi ela quem me achou: reconheceu minha voz e lembrou de mim. E eu lembrei do nome dela. Agora... puxa vida... Isso faz três anos... Como pode? É porque foi importante, de um modo ou de outro. Importante para ela e importante para mim.

E, agora que vocês, meus alunos, descobriram o meu blog (!), só posso agradecer (aqui também!) por tudo, por fazerem parte da minha vida e fazerem da docência uma experiência tão única e especial.