22 de dez de 2015

Sobre o retorno dos platônicos

Não foi culpa dela. A menos que ela fosse culpada por existir. É que existir às vezes bastava, às vezes era o suficiente. E era o caso. Mas não era culpa dela. Era culpa sim de uma certa luz por entre nuvens num fim de tarde, dessas que insistem em estar lá mesmo com chuva.

E ela também estava lá, mesmo com chuva. Guarda-chuva na mão, oferecendo uma carona. Mas por que falar de culpa? Ele se sentia tão... Leve. A vida fluía quando estavam juntos. Aquela mulher pequena e forte e leve e suave e intensa e... Cintilante. O esmalte de suas unhas, as palavras de sua boca, seus lábios.

E ele se viu como um colegial: o mesmo olhar, a mesma falta de jeito. Aquela idealização... Mas colegial na casa dos trinta? Complicado. Mas havia coisas mais complicadas. Mesmo porque todos sabemos que certas pessoas terão esse efeito sobre nós, não importa a idade - a nossa e a delas.

Queria passar o máximo de tempo possível ao seu lado, ouvindo sua voz e suas ideias e suas piadas terrivelmente sem graça.

Ela era tudo o que sua esposa não era.

21 de dez de 2015

Sobre a cova dos leões

Sonhei que havia caído na cova dos leões. Tentei escalar as paredes, mas nada. Muitos tentaram me resgatar com cordas e afins. Gritavam, tentando me motivar a, mais uma vez, tentar sair dali. Mas, depois de certo tempo, vi que não adiantava mais tentar.

E foi então que percebi que não me restava outra coisa se não ensinar os leões a rezar.

13 de dez de 2015

Sobre polarização, sapatos e livros

Faz um tempo que circula do Facebook a seguinte frase:





Achei interessante até perceber que este não passa de mais um exemplo de polarização.

Como assim?

A primeira acepção do Google é esta aqui:

polarização
substantivo feminino
  1. 1.
    ação de polarizar ou estado daí resultante.
  2. 2.
    concentração em extremos opostos (de grupos, interesses, atividades etc. antes alinhados entre si).


A garota que gosta de livros é colocada num polo e a que gosta de sapatos, no outro. Mas e se a tal garota gostar das duas coisas? Quem gosta de sapato é fútil? Quem gosta de livros é cult, inteligente e interessante? Desde quando preferências como livros ou sapatos são garantia de que a tal garota é um "bom partido", vale a pena e coisas do gênero? Não posso gostar de livros E de sapatos? Gostar de livros me faz uma pessoa melhor do que aquela que prefere sapatos?

Sei lá. Não vejo porque polarizar esse tipo de coisa quando as pessoas são tão mais complexas do que livros e sapatos e conselhos bobos como o sugerido acima.

15 de nov de 2015

Sobre a nova moda do "amiga, não se apega!"

Então é essa a nova moda, a nova tendência: você se desfaz de quem vai embora porque é preciso desapegar. Nada de ter o seu tempo para digerir o fim, viver seu luto, fazer um balanço (não só do fim da relação, mas da própria relação em si): o negócio é deixar o outro para trás, como se ele não tivesse feito parte de nada, da sua vida, da sua história, de quem você foi, mesmo que por um breve espaço de tempo.

Se apegar é brega? Feio? Old fashioned? Deve-se ter vergonha de não superar tudo na velocidade da luz? Parece que é mais uma coisa que alguém de fora, que nada sabe sobre nós, impõe para a vida de dentro, a nossa vida.

Aprendi muito com meus términos e eu não seria quem sou hoje se não tivesse passado por essas experiências, tendo tirado o melhor que pude delas. Podemos aprender muito com a frustração, com o sofrimento, com aquela coisa de tudo ter saído muito diferente do que tínhamos planejado. Não somos deuses, não controlamos os sentimentos dos outros - e, muitas vezes, nem os nossos

Não é necessário ostentá-los, mas fingir que não estão lá, escondê-los debaixo do tapete de um sorriso para quem. E a aí você quer mostrar que estar bem ou quer ficar bem? para ficar bem, é preciso tempo, agora, qualquer pode mostrar do Facebook o quão feliz depois do fim de um casamento de 20 anos.

Não sou psicóloga, terapeuta nem nada assim, mas imagino que passar por cima de coisas em vez de tentar digeri-las pode nos fazer arrastar alguns cadáveres indefinidamente. São os negócios pendentes. Aí a pessoa nunca mais consegue se relacionar bem com os outros 

A vida segue, é claro, mas cada um de nós sabe o seu tempo, o seu ritmo, o seu passo - com o sapato que for, mas de preferência um que não machuque os calos.

Eu nunca deixaria que alguém me forçasse a superar um término antes do meu tempo. E agradeço a todos que sempre respeitaram isso

P.S. Pantera, lembrei tanto das nossas conversas! =)

Ouvindo "Lost stars" (Keira Knightley)

27 de out de 2015

Sobre o mundo dos adultos e outras coisas I

Nunca tive problema com o mundo dos adultos, aquela parte das responsabilidades, das contas e tudo isso que assusta tanta gente. Talvez em parte por conta do meu temperamento, em parte por conta da criação que tive. Os meus medos sempre foram outros...

Às vezes, esbarro com um ou outro pela rua. Mas peço desculpas (outra coisa de minha criação) e ambos seguimos nossos caminhos. Por vezes, precisamos sentar, tomar um café e discutir a relação. Contudo, ultimamente, eles devem estar andando por outras bandas, pois raramente nos vemos. No momento, os problemas são outros...

Falar em problema é meio pesado, mas são coisas que realmente incomodam. Uma coisa pode incomodar em vários níveis e o nível do dia é:

COISAS QUE SÃO NATURALIZADAS EMBORA NÃO SEJAM NATURAIS

Na verdade, pensando bem, existe uma lista disso para a vida, mas meu objetivo é só o de pensar nas coisas do mundo adulto. E uma que me assusta um pouco é o trabalho. Ou melhor, o modo como as pessoas lidam com o trabalho.

A maioria das pessoas com quem convivo trabalha demais. Mas quando eu digo demais, é demais mesmo. E aí fica naturalizado que tudo bem você varar madrugadas trabalhando em casa ou na empresa. Tudo bem deixar de almoçar e de se voltar a outras necessidades, tudo por conta do trabalho.

E tudo isso feito com frequência.

E é gente organizada, muito organizada mesmo - então, não, o problema não é organização.

Amo meu trabalho, quem me conhece sabe disso, mas fazer da vida o trabalho é... simplesmente... complicado. E se falo dessas pessoas que exageram quando o assunto é trabalho é porque estou tentando não enveredar por esse caminho. Na verdade, já enveredei e meu esforço é o de cair fora na próxima saída ou retorno. Já até liguei a seta! E ela grita:

CHEEEGAAAAA

(com todas as duas vogais que a palavra possui)

Mas, sabe como é, digamos que estou na Marginal Tietê e conseguir uma saída assim, fácil, não é exatamente, digamos, fácil. Mas a seta já está piscando e isso é um sinal - muito mais para mim do que para os outros.

Pensando bem, essa história toda piora ainda mais quando passam a celebrar esse excesso de trabalho. Não que haja uma competição para ver quem perde mais noites de sono preparando reuniões ou coisas assim, mas vejo as pessoas falando com um certo orgulho de quanto tempo se dedicaram a essa ou àquela atividade em detrimento de coisas essenciais.

E, assim, vão perdendo tudo: de dentes de leite do primogênito a shows incríveis do U2 (porque é preciso preparar a prova para dia X) e assim por diante.

Achei, primeiro, que isso fosse coisa da minha geração, mas desconfio que é coisa do nosso tempo mesmo. Seja como for, é bom mergulhar no trabalho e fazer cinco chegadas do nado medley, mas a vida não é só isso: a vida é também toboágua e pedalinho.

Sobre gente dita sensível

De que adianta a pessoa ter sensibilidade para escrever se não a tem para lidar com pessoas? Que seja um autor distante e não um conhecido querido.

26 de ago de 2015

Sobre galãzinhos da auto-ajuda

Devo estar ficando chata, porque ando desconfiando de todo mundo que me aparece com receita pronta, resposta certa, solução 100% garantida. Principalmente quando a receita, a resposta e a solução se referem à aprendizagem e, consequentemente, ao ser humano.

Por isso, quando o vi, tão bonito no palco, com seu cabelo milimetricamente arrumado, torci o nariz.

Eu já sabia bem quem ele era. Vê-lo ao vivo, com suas palavras sedutoras, seu discurso de auto-ajuda, seu sentimentalismo barato, sua auto-promoção cansativa, sua voz doce e mansa,  sua cara sem barba de bom moço, o modo como falava de grande escritores como se tivesse intimidade, a rasgação de seda... Sério. 

E a plateia ia ao delírio:

- Queria pelo menos uma noite com ele - ouvi uma moça dizer.

Mesmo?

Acho que quase ninguém se deu conta dos desserviços que ele vem prestando. Um picareta é sempre um picareta, mas um picareta que ocupa cargo político me incomoda mais, pois ele está me representando, ainda que mal e porcamente. Quem me representa é alguém que escreve livros fazendo pastiche com as ideias dos grandes educadores e filósofos, dizendo serem suas.

Só não sei o que é pior: aquele que engana ou o que se deixa enganar. Ou, olhando por outro ângulo: parece haver mais preocupação em tirar fotos com ele e examinar com cuidado o quão justa sua calça  é do que em ver o que ele realmente tem feito.

21 de ago de 2015

Sobre o garçom mais simpático do mundo

Mais uma vez cá estou eu falando sobre despedidas... Será que isso é um sinal? Possivelmente, só não sei ainda de quê...

Acontece que eu e B. costumamos frequentar uma pizzaria perto de casa. Gostamos muito de lá: a pizza é boa, assim como o preço. E o atendimento é, sem dúvida, um diferencial - por isso mesmo escolhi escrever uma frase só para ele, para destacá-lo.

A equipe de garçons é muito boa e um deles, desde o começo, chamou minha atenção: Joaquim. Outro motivo que me faz gostar desse lugar é o fato dos garçons usarem crachás e eu saber seus nomes. Gosto dessa humanização, sabe? Antes de ser funcionário, é ser humano e tem nome, então por que não ter um crachá para que todos saibam quem é aquela pessoa? E eu sempre fico imaginando que história de vida esses homens trazem por trás do

"Calabresa"

"Perperoni"

"Palmito"

O fato é que Joaquim (afinal, a história hoje é sobre ele...) é um dos garçons das pizzas doces - que, diga-se de passagem, são excelentes - e é o garçom mais alegre que eu conheço. Extremamente simpático e de sorriso sincero, ele era conhecido como "o garçon das pizzas doces".

Digo isso porque, certa vez, senti sua falta e vi um novo rapazinho (que parecia a personagem Tintin de Hergè) trabalhando como garçom. Conclusão? Perguntei a um dos garçons sobre Joaquim. Ele suspirou e disse que Joaquim estava de aviso prévio, que estava cansado de lá e que ninguém servia pizza doce como ele.

Fiquei feliz por saber que todos reconheciam seu trabalho, mas muito triste em saber sobre o aviso prévio. Temi nunca mais vê-lo nem poder dizer:

- Olha, eu gosto mesmo do seu trabalho!

Fui para casa pensativa. Como as pessoas podem fazer a diferença em nossas vidas e não se darem conta disso? Eu não podia pensar que Joaquim iria embora sem saber que ele fazia a diferença no mundo, colocando amor no seu trabalho, na função que exercia.

Essas coisas são importantes, sabe? As pessoas são importantes e devem ser reconhecidas, assim como sua dedicação e seu trabalho. E tenho para mim muito essa coisa de gratidão, agradecer ao outro pelas coisas que faz, bem feitas, mesmo que isso, em tese, não passe de sua "obrigação".

Lembrei daquela frase: "O trabalho dignifica o homem" e Joaquim me passou essa coisa de dignidade em todas as vezes que o encontramos na pizzaria. E eu não podia deixar que ele fosse embora sem que soubesse disso.

Na vez seguinte que fomos à pizzaria, antes de ir embora, resolvi falar com ele. Fui sem graça, mas resolvida, sem querer atrapalhá-lo em seu horário de serviço:

- Com licença... Percebemos sua ausência na última vez que viemos aqui e perguntamos sobre você a um colega. Ele disse que você está de partida. Espero que você seja feliz nessa nova fase da sua vida e saiba que ninguém serve pizzas doces como você.

Ele me sorriu feliz, com uma pizza em cada mão, e agradeceu.

E foi assim que eu disse adeus a Joaquim.


26 de jul de 2015

Sobre despedidas incompletas

Ela tem uns quarenta e poucos anos. É casada e tem dois filhos já criados. Veio de Minas assim que casou e, depois, acabou voltando poucas vezes para ver a família. Poucas vezes. Os filhos, o marido, o trabalho, a vida. Tudo chama. Criou raízes em São Paulo e voltou poucas vezes para casa. Casa? Sua casa agora era São Paulo, zona sul da cidade, numa casinha simples, bonita e aconchegante na periferia.

Foi um baque quando recebeu a notícia da morte do pai, em 26 de dezembro. Logo após o Natal. A mãe tinha vindo à São Paulo, então ele tinha morrido sozinho. Ia voltar para Minas. Fizeram as malas e foram s'imbora.

Ela não chorou no enterro, mas ficou impressionada como o pai tinha a cabeça branquinha. Não tinha visto seus cabelos ficarem brancos. Não chorou. Voltou para São Paulo. A vida continua, não? A vida seguia, implacável. os filhos, o marido, o trabalho, a vida. As raízes fincadas em outro lugar.

Um dia, ela subia a Brigadeiro, a caminho do serviço, dentro de um ônibus. E um outro ônibus parou ao lado. Lá, ela avistou um senhorzinho de cabelos brancos. Então, chorou.

Ouvindo Once upon a time (Air)


15 de jul de 2015

Wonderland é aqui ao lado

Tudo começou quando ela viajou para o interior, onde o pai de seu namorado tinha uma bela chácara. Lá, plantavam café e produziam mel e era um lugar realmente adorável. Sempre que ia pra lá, ela levava sua câmera fotográfica para registrar plantas, insetos e demais coisas interessantes que pudesse encontrar.

Acontece que, dessa vez, o sogro lhe disse que havia um coelho branco circulando por entre os pés de café. Um coelho branco! Ele tinha fugido do terreno do vizinho e agora corria pela propriedade. 

Aquilo deixou a jovem extremamente empolgada: imagine tirar uma foto do tal coelho branco! Assim, munida de sua máquina Nikon, seguiu andando calmamente por entre os pés de café. Engraçado como agora eles pareciam em quantidade muito maior do que ela tinha percebido e, quando se deu conta, estava perdida: não conseguia encontrar o caminho de volta ao seu ponto de partida.

"Bem, vou continuar atrás do coelho e uma hora encontro de novo o caminho que me trouxe até aqui", pensou ela com seu vestido azul. 

Não se sabe se a jovem encontrou o coelho branco, porque ela simplesmente nunca mais foi vista. Apenas encontraram sua máquina fotográfica, caída, ao lado de um montinho de cogumelos.

14 de jun de 2015

Sobre a criança como um fim para um mundo melhor

A discussão era a questão dos direitos da criança e do adolescente. ECA e afins. E fui tomada por uma sensação grande de desconforto. Me explico.

O clichê que não saía da boca das pessoas era o de que a criança e o jovem são o futuro da nação, logo deve-se cuidar deles e protegê-lo. Ora, isso está certo, mas por que não se pensa em cuidar de ambos pelo simples cuidado? Por que preciso pensar nesse cuidado visando um favorecimento futuro, uma melhor sociedade? Não posso pensar em cuidar de ambos por serem seres humanos mais frágeis e em formação?

Penso que tudo aquilo que diz respeito a um olhar diferenciado para eles deva ser levado em conta independentemente de futuro. O futuro não deve ser um fim para que haja uma preocupação em garantir os direitos da criança e do adolescente.

A criança não vale pela criança? O jovem não vale pelo jovem?

29 de mai de 2015

Sobre valores, livros e roupas de marca

Estamos sentados os dois, esperando o pessoal sentar e pegar os livros.

- Professora, você gosta de ler?

- Muito, muito mesmo. E você?

- Mais ou menos - ele torce o nariz e continua - Livro é caro, né?

- No Brasil, sim, por 'n' motivos, mas tem umas possibilidades pra se comprar livros mais em conta.

- Ah. E qual foi o livro mais caro que você comprou?

Parei para pensar.

- Hum... Semana passada, gastei R$ 40 num livro e não me arrependo. O livro é excelente!

- Tudo isso você pagou, professora?

- É, ué?

Olhei para suas roupas. Sei que são de marca e sei que são originais.

- Desculpa a minha curiosidade, mas quando você pagou nessa sua camiseta da Hollister?

- R$ 120.

- Ah.

14 de mai de 2015

Dos incêndios que nem todo mundo vê

Não precisa ter super-visão ou super-percepção. Está tudo ali, bem debaixo do nosso nariz. Eu e mais meia dúzia de pessoas, enquanto a multidão aplaude calorosamente.

Muito, muito me espanta mesmo que gente tão estudada e tão experiente não veja o que eu e a meia dúzia estejamos vendo. Nós que somos iniciantes, que apenas começamos. Mas vemos. Ouvimos. Batemos o pé - às vezes de paquiderme, às vezes de bailarina. Mas batemos o pé.

E todos aplaudem o circo pegar fogo (é a platéia que aplaude, de dentro do circo). Nosso pequeno grupo, com suas mangueiras de jardim, com aquilo que temos, lançamos mão de toda água que temos. E os bombeiros chegam com suas grandes mangueiras de diesel e gasolina, para alegria da plateia, alimentando ainda mais o fogo.

Sem dúvida, um belo espetáculo.

4 de mai de 2015

Sobre primeiras impressões (e como podem ser na mosca!)

Não sei se a questão aqui é envelhecer. Talvez seja apenas algum calejamento. Ou talvez seja apenas uma coisa de bater o olho na pessoa e lê-la bem. E não gostar. Ponto. Mas, se me perguntassem o porquê, eu explicaria exatamente e me sentiria mal e culpada por me deixar levar por primeiras impressões. É feio isso, sabe? Nem conhecer e já ir julgando... Aliás, julgar em si já é um problema e evito, mas sou humana... E  falta de profissionalismo nível advanced me incomoda. Mas isso tudo é feio e, como gosto de coisas bonitas, resolvi deixar minhas primeiras impressões: paguei pra ver. E vi. Vi hoje. E vi que era muito, mas muito pior do que eu tinha imaginado. Muito pior do que as minhas primeiras impressões. O que podemos tirar disso? Bom, eu saio no lucro: minhas primeiras impressões pegaram leve, mas fizeram o seu papel (por que não?) de me deixarem alerta. 


26 de fev de 2015

Sobre como eu sei...























Só sei que sei. Percebi isso sozinha no carro, indo ao trabalho, ou olhando para você dormindo? Não sei. Tudo o que sei é que sei.


Nós.

Um nós delicado, um nó delicado. Forte em sua delicadeza. Delicado em sua força.

E eu que não sou muito dessas coisas, posso dizer que você tem sido um marco em minha vida, por uma simples razão:

Você redesenhou as constelações do meu universo.




4 de fev de 2015

Sobre seres (que se acham) superiores (por motivos banais)


Há quem se ache superior aos demais. Se acha porque é a sua opinião, algo incontestável talvez. Não estou falando quando o cara é inegavelmente o melhor do time de futebol, estou falando de quando achamos que somos melhores do que os outros por causa de nossos gostos e "talentos" por nós julgados como "especiais".


Mas mais triste do que se achar superior, é se achar superior por coisas bobas. Há quem se ache melhor do que os outros porque torce para esse ou aquele time - e ostenta isso com convicção e firmeza, como a Cafu, segurando a taça em 1994.

Tem um pessoal da esquerda que se acha melhor do que o povo da direita. E vice-versa. Acho que vale muito mais alguém que realmente se mobilize em prol do outro do alguém apegado a um rótulo, uma camiseta do Che ou coisas tão importantes quanto.

Há quem se ache superior por se dizer "autêntico", alguém que "fala o que pensa" e toda essa ladainha que todos conhecemos. Quanta energia não se gasta com isso, não? Sem contar que de uns tempos pra cá, "ser autêntico" virou sinônimo de gente grossa e sem filtro. Não se preocupar com o que os outros vão sentir e com as consequências não é ser autêntico: isso é ser insensível e imprudente.

Ouvir rock, sertanejo ou funk não faz ninguém melhor ou pior do que ninguém. Sério. E se fosse para eu julgar alguém, certamente eu não o faria porque a pessoa gosta de Luan Santana. Aliás, curtir filmes e músicas alternativas não deveria ser algo para as pessoas de vangloriarem: uma pessoa não é melhor do que outra só porque viu aquele filme fora do circuito comercial e sobre o qual não tem nem com quem conversar. Isso só quer dizer que ela gosta de coisas que a maioria das pessoas não conhecem/ gostam. Estar fora da cultura de massa não é estar acima dela: é simplesmente ter escolhido um outro caminho e não deveria haver um juízo de valor sobre isso.

Também não acho que uma garota que tem mais livros na estante do que sapatos no armário é melhor escolha para um cara. Achar que tudo se resume a isso é pensar muito pequeno. É ser ingênuo. E inguenidade deixa de combinar com a gente depois de uma certa idade. Poxa, entendo toda a simbologia, mas não posso ter livros E sapatos? Não posso não ter nada e significar ainda algo para alguém? Ter livros não quer dizer que foram lidos, não quer dizer que sou inteligente, criativa, imaginativa etc. Ter muitos sapatos não quer dizer que eu seja fútil e materialista.

Há quem se ache melhor do que o brasileiro médio porque manja de ortografia. Mesmo? Engraçado, eu que sou professora de língua portuguesa não saio condenando pessoas à cadeira elétrica pelas coisas que leio em sala e na vida. Sei que há níveis e níveis de erro gramatical e tal, mas quem nunca trocou "ç" por "ss" que atire a primeira crase. É uma febre de todo mundo se achar Pasquale que é de amargar.

No fundo, somos todos farinha do mesmo saco e o que realmente vai nos diferenciar - integral, de milho, de trigo, de centeio etc. - são as nossas ações e nossas palavras. É isso que realmente importa. Prefiro mil vezes ser julgada (e condenada, se necessário) por más atitudes e más escolhas de palavras do que por gostar ou não de um time, um gênero musical, ser dessa ou daquela religião... E por aí vai.

E para fechar, acho que quem é realmente superior não se dá conta disso, pois a humildade o cega para sua própria superioridade.

21 de jan de 2015

Sobre tomar cuidado com o que se defende ou 'je ne suis pas Charlie'


Com essa onda do Charlie Hebdo e inúmeras manifestações a favor do jornal, me veio uma pergunta:

- Será que as pessoas realmente sabem o que estão defendendo?

Digo isso porque vi inúmeras manifestações do tipo 'Je suis Charlie' e eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar no jornal (ok, me julguem se quiserem...) e acho bem difícil que todo mundo que se declarou defensor do jornal tenha noção ou um conhecimento mais profundo do que ele trata.

Se colocar a favor da liberdade de expressão, ok, nada mais justo, mas eu não ousaria defender algo que mal conheço (no caso, o jornal) e vi e vejo as pessoas vestindo a camisa sem saber exatamente qual é a do time em questão. 

Acho que ao mesmo tempo que devemos preservar e defender a liberdade de expressão, temos que ver o que fazer com essa liberdade. Ou será que posso falar o que quiser? De modo algum defendo os atentados terroristas ou qualquer tipo de violência, mas ridicularizar a crença alheia e coias do gênero não me parece algo de bom senso.

Fui atrás das charges e pelo que andei tentando entender delas (já que meu francês sofrível) falta muito bom senso em muitas delas, mas, como dizia meu querido ex-chefe:

- O que é bom senso para você pode não ser para o outro.

As medidas são diferentes, pois há subjetividade então se não posso esperar o bom senso do outro (que pode muito bem ser diferente do meu e precisarei aprender a lidar com isso - e vice versa), que eu pelo menos conheça aquilo que defendo, a fim de fazer um julgamento condizente com as minhas próprias crenças - de modo que eu tenha certeza daquilo que estou defendendo.

P.S. Vale a pena dar uma lida no artigo de Emerson Luiz.

20 de jan de 2015

Sobre a lógica do trânsito (e um bilhetinho jeitoso)

"Moço, eu não deixei você passar porque você está vindo à direita desde lá de trás e você vai furar a fila, bem na minha frente e a gente não precisa disso, né? Apesar dessa minha cara, percebi que você poderia muito bem ter dado seta antes e ir entrando na esquerda, em vez de furar todo mundo da direita pra esquerda, de uma vez só. É simples, não é pessoal. Eu sempre deixo as pessoas passarem na minha frente, mesmo os folgados. Mas, hoje, moço, resolvi resistir. E, de qualquer maneira, você conseguiu entrar atrás de mim, não? Eu achava que estava tudo bem, até o sinal abrir e você acelerar e sair em disparada com seu peugeotzinho, só para ter o prazer (?) de tirar uma fina de mim e me fechar com muito gosto. Sabe, moço, a gente não precisava de começar o dia nem a semana assim: você podia ter sido bem menos folgado. Acho engraçado isso: eu faço a coisa certa e você me acha a errada. Bom, moço, o errado é você e uma hora você aprende - talvez não pelas mãos de alguém como eu."

19 de jan de 2015

Sobre "Não, eu não recebi o e-mail"



A: - Mas a gente não voltava a trabalhar hoje? Saímos dia 19/12 e voltamos dia 19/01, não? - no celular, falando com uma colega e esperando os demais chegarem ao local de trabalho.

B: - Voltamos amanhã. A Fulana mandou um e-mail na sexta, avisando que a volta era dia 20/01.

A: - Não recebi o tal e-mail.

Volta para casa e, chegando lá, olha a caixa de entrada e o spam de seus dois e-mails. É. Não tinha recebido nada mesmo.

(e assim começava a semana)

15 de jan de 2015

Sobre a falta de borboleticidiade do nado borboleta


Antes da minha aula começar ontem, observei alguns alunos nadando. Crawl, costas, peito e... O que era aquilo? Aquilo, meus caros, era nado borboleta!

Saí da escolinha de natação quando estava começando o nado borboleta, de modo que nunca me dediquei muito a isso. Bom, saí da escolinha há mais de dez anos e não acompanho muito os esportes, daí o meu susto ao ver aquelas pessoas nadando o que se chama "borboleta".

Eu me lembrava mais ou menos do movimento dos braços e lembrava também que cansava muito mais do que os outras modalidades de nado. O que eu não me lembrava era de como esse nado não tinha a borboleticidade da borboleta.

Borboleticidade? Oi?

Okay, okay... O movimento dos braços que se assemelham a "asas de borboleta", entendi. Mas borboletas costumam ser associadas a graça, leveza e delicadeza e não se vê nadinha disso! - bom, isso na minha opinião de leiga.  Acho um nado até que bonito, mas o nadador para mim, se assemelha muito mais a alguma criatura mitológica marinha do que uma singela borboleta.

Se alguém viesse nadando borboleta na minha direção, eu gritaria:

SOCORRO!!!

Na certeza de ser atacada pela criatura, digo, nadador.

Não podiam ter dado a essa modalidade o nome de alguma outra criatura alada?


13 de jan de 2015

Sobre lindos bebês, suas mães exemplares e... o Facebook.

E eis que a mudança drástica obrigou-a a postar em seu status no Facebook:

"Gravidíssima #mãesolteira #guerreira #mãedemenina"

Uns meses depois, exibia e ostentava milhares de fotos daquela criaturinha linda, de nome lindo e com as mais bonitas roupinhas. Muitos "inhos e inhas".

Milhares de fotos nas quais mostrava como era uma mãe presente, sempre fazendo gracinhas com a sua filhinha. Milhares de "curtidas" e comentários do tipo:

"Que coisa mais fofa!"
"Linda sua menina!"
"Super mãe!"
"Nossa! Você está se saindo uma ótima mãe!!!"

Quando ficava com a filhinha, gostava de registrar tudo para poder compartilhar com seus muitos seguidores e fãs e super amigos.

Nos outros 90% do tempo - enquanto estava na faculdade, na balada, na yoga, na aula de zumba, no bar, no clube, no shopping, na aulinha de inglês - quem cuidava daquela linda criaturinha de nome lindo era sua mãe, que não postava nada no Facebook, mas que viu os primeiros dentinhos nascerem e, depois, caírem.

8 de jan de 2015

Sobre chuááá, tchibum e outras onomatopeias aquáticas

Eu, no meu primeiro retorno à natação, em janeiro de 2013
Da última vez que tentei voltar a nadar (o que foi há aproximadamente um ano), me senti um peixe fora d´água - tum nu num nu pish - : por muito pouco não tive um ataque cardíaco por forçar demais meu coração exagero, além de não saber mais que é preciso coordenar braços e pernas e não saber mais respirar.

Conclusão: desisti na terceira aula. Bom, me achei péssima (e fui mesmo), mas também, fazia o quê, mais de dez anos que não nadava...

Mas aí como os azulejos da piscina tinham um "T" de "teimosia", eu sabia que, cedo ou tarde, voltaria a nadar. Além do "T", tinha o lance de atividade física: quando se é sedentário e não se é fã de musculação, é preciso buscar outras possibilidades. No meu caso (e no de muitas pessoas, tenho certeza) um problema é a questão dos horários: eu adoraria fazer dança, por exemplo, mas meus horários nunca batiam com os horários das escolas e academias. 

Que fazer?
A disposição de azulejos formando um "T" de "teimosia" foi a única
responsável pelo meu retorno glorioso ao mundo da natação

Eu sempre tinha gostado de nadar e se meu primeiro retorno não havia sido de glória e louros (ou algas?), mas eu tentaria de novo.

Aprendi a nadar com 11 ou 12 anos e enquanto a maioria das garotas de 15 anos esperava festa de debutante, eu esperava me transformar em sereia a voltar para o mar. Quando isso não ocorreu, foram anos de terapia até eu compreender que:

1) Sereias eram seres mitológicos;
2) Eu nunca seria uma sereia (que sonoro!);
3) Se eu fosse um ser mitológico seria alguma outra coisa menos graciosa (às vezes penso ter um potencial reprimido para Minotauro)

Enfim...

"Aproveite, Mike: esta é a sua última medalha"
Tudo isso para dizer que criei coragem, vergonha, disposição etc. e voltei a nadar. Depois de um ano, me inscrevi numa academia e comecei as aulas e, curiosamente, me saí muito melhor do que na tentativa anterior. Creio que isso tenha ocorrido por eu ter mais conhecimento do que preciso fazer, pois acho que quando eu nadava aos 11 anos, não refletia muito: simplesmente nadava e pronto. Todavia, como estava enferrujada, foi necessário reconhecer respiração, braços, pernas, ritmo e essas coisas todas sobre as quais nem me toquei em 2013.

A experiência do primeiro fracasso aquático me preparou para um retorno mais legal e satisfatório =)

E Michael Phelps que me aguarde! 




7 de jan de 2015

Quando desistir?

Parece meio deprê esse papo de desistir - e isso logo no segundo post do ano! Mas prefiro pensar que saber a hora certa de desistir é uma necessidade humana, necessidade esta que me traz uma certa palavra-chave: "dignidade".

Pode ser uma grande oportunidade profissional, uma antiga amizade ou o sonho de uma vida... Aí você insiste, persiste, teima, dá tudo de si e... Não vai mais. Não vai. Ou nunca foi mesmo. E então vem a dúvida se é o momento certo.

Sinceramente, não costumo ter problemas em saber a hora certa. Já fiz muito estardalhaço nessas de tirar o time de campo, mas nos últimos anos, aprendi a sair com sutileza - e dignidade. 

Quando é coisa pequena, tudo bem: sempre desisto de usar franja, mas sempre volto atrás.

Só que nem sempre a coisa é simples como um corte de cabelo e nem sempre a gente tem a resposta assim pronta.

6 de jan de 2015

Sobre pássaros e 2015...

Esse foi um dos quadros que eu NÃO comprei, embora quisesse muito. Problemas de molduras esfolada ¬ ¬

Faz um bom tempo que não escrevo nada por aqui - não, não abandonei o blog - porque a vida lá fora nos chama e eu não quis deixá-la pra lá. Não, não pode e percebo como esse mundo virtual pode nos engolir fácil fácil. 

Pois bem: cá estou eu de volta  e de volta da Leroy Merlin com meia dúzia de quadrinhos, pois se eu começo 2015 diferente, a casa vai começar diferente que essas paredes sem quadros começam a me incomodar depois e um ano e pouco.

Se bem que esse papo de ano novo é bem delicado e já devo ter escrito sobre isso:

O ano de 2014 foi um bom ano, embora com suas inevitáveis perdas e algum muito mertiolate, mas, sei lá, estou tão tranquila com 2015 que até me estranho, sabe? Pensei em algumas coisas que quero fazer e só: sem grandes ambições, sem esperar uma enxurrada de felicidade e blá blá blá. 

E como diz o ditado: "só tem chance de ganhar na loteria quem aposta" Está aí um bom ditado pra seguir em 2015.

P.S. 1) 
Há um bebê passarinho piando na árvore debaixo da minha janela. Me diz se isso não é benção? =)

P.S. 2) 
10 coisas que aprendi em 2014:

1) Cola branca cola TU-DI-NHO;
2) Formigas adoram café;
3) Má administração (seja lá do que for) é uma coisa realmente terrível;
4) Reclamar gasta energia demais e deixa a gente cansado, por isso, se se puder evitar, é uma boa;
5) Nem sempre boas pessoas são bons profissionais e vice-versa;
6) A distância entre um crítico e um chato é ínfima;
7) O que não tem remédio remediado está;
8) Cansaço pode ser facilmente confundido com tristeza e vice-versa;
9) Negociar é uma das coisas mais difíceis do mundo;
10) Estou na profissão certa.

P.S. 3) Quem me inspirou a escrever foi a Silvia, que lê/ lia meu blog e disse estar com saudades dos meus textos =)