4 de fev de 2015

Sobre seres (que se acham) superiores (por motivos banais)


Há quem se ache superior aos demais. Se acha porque é a sua opinião, algo incontestável talvez. Não estou falando quando o cara é inegavelmente o melhor do time de futebol, estou falando de quando achamos que somos melhores do que os outros por causa de nossos gostos e "talentos" por nós julgados como "especiais".


Mas mais triste do que se achar superior, é se achar superior por coisas bobas. Há quem se ache melhor do que os outros porque torce para esse ou aquele time - e ostenta isso com convicção e firmeza, como a Cafu, segurando a taça em 1994.

Tem um pessoal da esquerda que se acha melhor do que o povo da direita. E vice-versa. Acho que vale muito mais alguém que realmente se mobilize em prol do outro do alguém apegado a um rótulo, uma camiseta do Che ou coisas tão importantes quanto.

Há quem se ache superior por se dizer "autêntico", alguém que "fala o que pensa" e toda essa ladainha que todos conhecemos. Quanta energia não se gasta com isso, não? Sem contar que de uns tempos pra cá, "ser autêntico" virou sinônimo de gente grossa e sem filtro. Não se preocupar com o que os outros vão sentir e com as consequências não é ser autêntico: isso é ser insensível e imprudente.

Ouvir rock, sertanejo ou funk não faz ninguém melhor ou pior do que ninguém. Sério. E se fosse para eu julgar alguém, certamente eu não o faria porque a pessoa gosta de Luan Santana. Aliás, curtir filmes e músicas alternativas não deveria ser algo para as pessoas de vangloriarem: uma pessoa não é melhor do que outra só porque viu aquele filme fora do circuito comercial e sobre o qual não tem nem com quem conversar. Isso só quer dizer que ela gosta de coisas que a maioria das pessoas não conhecem/ gostam. Estar fora da cultura de massa não é estar acima dela: é simplesmente ter escolhido um outro caminho e não deveria haver um juízo de valor sobre isso.

Também não acho que uma garota que tem mais livros na estante do que sapatos no armário é melhor escolha para um cara. Achar que tudo se resume a isso é pensar muito pequeno. É ser ingênuo. E inguenidade deixa de combinar com a gente depois de uma certa idade. Poxa, entendo toda a simbologia, mas não posso ter livros E sapatos? Não posso não ter nada e significar ainda algo para alguém? Ter livros não quer dizer que foram lidos, não quer dizer que sou inteligente, criativa, imaginativa etc. Ter muitos sapatos não quer dizer que eu seja fútil e materialista.

Há quem se ache melhor do que o brasileiro médio porque manja de ortografia. Mesmo? Engraçado, eu que sou professora de língua portuguesa não saio condenando pessoas à cadeira elétrica pelas coisas que leio em sala e na vida. Sei que há níveis e níveis de erro gramatical e tal, mas quem nunca trocou "ç" por "ss" que atire a primeira crase. É uma febre de todo mundo se achar Pasquale que é de amargar.

No fundo, somos todos farinha do mesmo saco e o que realmente vai nos diferenciar - integral, de milho, de trigo, de centeio etc. - são as nossas ações e nossas palavras. É isso que realmente importa. Prefiro mil vezes ser julgada (e condenada, se necessário) por más atitudes e más escolhas de palavras do que por gostar ou não de um time, um gênero musical, ser dessa ou daquela religião... E por aí vai.

E para fechar, acho que quem é realmente superior não se dá conta disso, pois a humildade o cega para sua própria superioridade.

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