29 de dez de 2011

Maurício+Malu: Lógica feminina

Bastava esfriar um pouquinho e Malu mudava a regulagem do chuveiro para inverno. Quando ela brincava de sauna russa, Maurício faltava-lhe como companhia: faltava-lhe ar. 

Ele não podia com ambientes abafados, então ia fazer alguma outra coisa. Normalmente, sentava-se na banqueta de vinil e conversavam. Rádio ligado. Mas não quando Malu cismava de ser cozida a vapor. Aquilo lhe lembrava uma música do Skank, mas o contexto de ambos estava livre de qualquer sensualidade - ou possibilidade de sobrevivência diante do vapor.

- Ai como você é frescurento! - ela dizia displicente.

E passava, nua e ligeira, pelo corredor. Trancava-se no banheiro, ligava o chuveiro e cantava junto com o rádio. Feliz. Banhos para ela eram sempre rituais de purificação. Para Maurício os banhos também serviam como ritual de purificação, mas banhos frios. E ele gostava de verão. E que friozinho chato era aquele de fim de ano? Servia bem para ficar agarradinho com Malu, porque no verão a frescurenta era ela:

- Ai como você é grudento! - ela dizia fazendo careta.

Fazia charme, isso sim. Era mulher, o que poderia esperar?, pensava Maurício.

Malu saía do banheiro agora, enrolada numa toalha de banho amarela. "Escondida" seria a palavra certa, porque a toalha era absurdamente grande.

- Presente da sua mãe, ué? - alfinetou ele.

Ela torceu o nariz e foi até o quarto. Maurício lia tranquilamente uma revista de variedades na sala, minúscula. Malu logo passou de volta, apressada com potes e mais potes. Era hora de outro ritual, de outro banho: o de hidratantes. 

Maurício não entendia qual era a ideia de Malu: ela tomava banhos escaldantes que faziam mal para a pele (a tevê estava sempre falando sobre a pele, principalmente agora no verão bah) e depois tomava mais banhos e banhos de hidratante. 

Malu saiu do banheiro, alguns potes quase vazios.

- Não entendo a sua lógica: para que banho quente se você vai se encher de creme depois? - sorriu Maurício.

Ela se sentou na poltrona, ficou alguns instantes pensativa e, como uma criança que partilha um segredo, abaixou a voz, se aproximou e respondeu:

- Porque são dois prazeres conciliáveis e particulares.

E foi então que Maurício percebeu que não tinha nada do gênero. Crise instaurada e nova promessa para 2012.

28 de dez de 2011

Jogo da vida: sua vez.

- Ué, mas não era isso o que você queria? - perguntei à ela.

Aquela frase não nascia de mim, mas brotara de um texto alheio. Já fazia tanto tempo...

- Sim, era isso - ela me respondeu.

- Então? - disse eu dando ombros.

- Não sei - disse ela dando ombros.

Ela ficou me olhando. Tão bonita e tão certa. Continuou:

- Eu coloquei o feitiço, eu tiro o feitiço - ela me olhou com firmeza.

- E deu certo, bruxinha. E agora? O que te falta?

- Nada - ela sorriu, tentando se entender.

- Então? - perguntei, tentando entendê-la - Por que parece que tem algo errado?

- Tomar a decisão mais acertada e sensata faz com que eu me sinta estranha.

- Mas será que foi certa mesmo?

- Nah. Não sei. E tem coisas acontecendo completamente fora do meu controle.

- Ou da sua compreensão, suponho - tomei um trago - Estou só especulando...

- Eu não tenho a mínima ideia do que fazer, de verdade. Não sei como cheguei até aqui, não sei como sair e pior: estou me divertindo.

- Claro que está! É bom estar do outro lado para variar... Cansa demais ter sempre o mesmo papel. Então você está gostando dele?

- Dele quem? - ela me olhou furtiva.

- Do seu novo papel, oras - torci o nariz.

- Estou. Estou... tentando entender.

- Quem?

- O quê. Meu novo papel.

- Não dá para racionalizar menos e sentir mais? - arrisquei.

- Não - ela respondeu categórica.

- Entendo - menti.

- E o feitiço não foi desfeito... - ela olhou com pesar.

 - Parece que você não tem tanto poder quanto imaginava - especulei.

- Coisas além da minha compreensão... ou do meu domínio. Para todas as outras, meu jogo, minhas regras.

- O problema é quando o jogo envolve duas ou mais pessoas. Aí não é mais tão simples assim: uma vez que o jogo é partilhado, as regras também são.

Ouvindo Disparada (Jair Rodrigues)

27 de dez de 2011

Sobre os buquês de promessas.

Cada rosa do buquê era uma promessa, ele tinha explicado.

Ele: - Promete ficar bem?

Ela: - Como posso prometer uma coisa dessas?

Ele: - Prometo nunca te deixar....

Ela: - Por favor, não faça nem diga isso.

Ele: - ... E prometo te amar para sempre.

Ela: - Mas isso é muito tempo.

Ele: - Prometo te amar na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. 

Ela: - Ah!

Ele: - E você? O que me promete em troca?

Ela: - Eu? Hum. Prometo sempre ser sincera?

Ele: - E eu prometo nunca te decepcionar e sempre te fazer feliz. Ei! Aonde você vai com tanta pressa?


26 de dez de 2011

Manual de instruções [1]: Quatro observações sobre autores

1) Não pedir para que o autor explique seu texto. O texto é construído por quem escreve e por quem lê. Ponto.

2) Tudo o que jaz no papel tem algum pé na realidade, mas é sempre uma roupagem ficcional. Eu pego a realidade e faço dela o que bem entendo. Construo, reconstruo, brinco, brigo.

3) Favor separar a pessoa do autor. Sempre. (sou alérgica e gente não que não faz isso)

4) Neutralidade é uma ilusão, renda-se e assuma um lado, qualquer que seja.

24 de dez de 2011

Feliz Natal [3]: A ceia

Para A. P.

Ela ficou olhando a mesa cheia de comida.

Nem só de comida vive o ser humano. Mas é a comida que enche barriga, pensou e sorriu, pegando um acolher de arroz branco.

Nozes! Era alérgica. Pousou o prato sobre a mesa, pois estava sem paciência (e sem jeito) de separá-las num cantinho. Sentia-se entorpecida pela nostalgia e ligeiramente só. Porque estar numa sala cheia de gente não queria dizer estar acompanhada. Poderia ter sido nocauteada pela tristeza, mas mantinha aquilo o que Cortazar dissera sobre literatura: o conto nos vence pelo nocaute, o romance nos vence pelos pontos. E sua vida era um romance - não um conto.

Rodeava a mesa. Comida enchia a barriga. E o que alimentava a alma? O que mantinha as pessoas de pé, a despeito da comida. Comida era sobrevivência. Mas e se quiséssemos vivência? Não podia escapar da retrospectiva 2011... Cheia dos seus altos e baixos... E cheia de tanta gente!
Olhou os sapatos novos e vermelhos, tão cheios de promessas quanto o final de ano. Sempre misturava o Natal com o ano novo. E sempre pensava em todos aqueles que tinham feito parte de sua vida. E, embora poucos estivessem presentes naquela ceia, pôde desejar, de coração, sem mágoa, pó acentado, o melhor. O melhor para cada um. O que quer que aquilo fosse, porque para cada um era uma coisa.

E com o que andara alimentado àqueles a sua volta? Não sabia cozinhar, nem ser literal. Com o que mantinha as pessoas à sua volta? A pão e água? Ou com banquetes? Longe de metáforas culinárias, ia tecendo, tecendo mantos de palavras mornas e afagos e acertos e erros. Ia cuidando, como podia, com o seu melhor, cultivando o que tinha de mais belo que, embora pudesse ser pouco, era o que tinha a oferecer: seu afeto, seu cuidado.

Queria nutrir a alma de quem a acompanhava. E, quem sabe um dia, encher a barriga daqueles que com ela dividissem a mesa - mas aprender a cozinhar era promessa para ano novo...

P.S. Um Feliz Natal a todos!

22 de dez de 2011

Sentimental Meaninglessness

Ele: - Eu gosto de você.

Ela: - Também gosto de você.

Pausa.

Ele: - Não, eu gosto de você de verdade.

Ela: - Por que seria de mentira?

Ele: - Gosto de você como um homem gosta de uma mulher.

Pausa.

Ela: - Por quê?

Ele: - Por que o quê?

Ela: - Por que você gosta de mim?! Como assim?

Pausa. Ela estava inconformada.

Ele: - Que raios de pergunta é essa sua?

Ouvindo Shadowboxer (Fiona Apple)

21 de dez de 2011

Porque Hegel e eu não temos química (e era uma vez Fiona Apple)

Hegel
Hegel, cansei de você e de seu hermetismo. Será que eu sou muito burra ou é você que fala muito difícil? Ou as duas coisas? Não importa! Está tudo acabado entre nós! Tudo? Nada! Um flerte interessado somente da minha parte - é claro, o que você veria em mim? Essa francesinha geniosa?

Seja como for, não nascemos um para o outro. O Jornalista diria que não somos alma-gêmeas e não somos mesmo. Pensei que precisava de um tempo e que esse tempo me faria crescer e te entender. Eu achei que só precisasse ficar pronta para você, mas não foi assim. 

Desde 2005, seu livro na minha estante. E nada de te absorver: poros, língua, toque. Nada! E fico nos dando segundas chances ao quadrado, para ver se damos certos. Estava exausta quando conheci Schopenhauer e ele me tem feito ver as coisas sob outro ângulo: não sou eu, é você mesmo, talvez seja você mesmo, Hegel!

Mas não sou rancorosa:
 Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
("Olhos nos olhos", Chico Buarque)

Mas esbarrei com Fiona Apple ontem à noite. Nós duas estávamos num bar. Eu na platéia, ela no palco - naturalmente. E foi então que percebi: as segundas chances que guardara para Hegel deveria usar com ela. Me explico: ouvi "Criminal" pela primeira vez há uns doze anos atrás e não gostei. Nem da voz de Fiona, nem da música, nem do videoclipe. 


Quando a vi novamente, tanto tempo depois, percebi que não estava no momento certo quando nos conhecemos. Eu não havia estado pronta para Fiona Apple. E, de algum modo, não guardei a indiferença - acho que a jogo pela janela a cada virada de mês, como para espantar meus fantasmas e deixar arejar a cabeça. E valeu lhe dar as segundas chances - guardadas a sete chaves, afinal as nossas chances não podem ser despejadas por aí, como se fossem santinho em época de eleição - ou podem?

Fiona Apple foi uma "supresa" de 2011 para mim e gostei de tudo o que pude absorver ouvir degustar de seu trabalho. Gostei da voz de Fiona, das canções e dos videoclipes. Gostei mesmo.

Fiona Apple
Fico pensando se reencontros como esses são possíveis na vida real: você reencontra pessoas quando fica pronta para elas. Às vezes conhecemos pessoas fantásticas que parecem estar em outro tempo, outro universo. Eu já falei sobre isso aqui, sobre esperar esbarrar um dia e perceber que o tempo agora é o mesmo, é o mesmo fluxo temporal, é a mesma sintonia, a mesma língua.

Fiona Apple fala a minha língua - o que quer que isso signifique. O mesmo não se pode dizer de Hegel, mas Schopenhauer me entende. Alguém sempre me entende - ainda que um filósofo falecido.

You'll never touch these things that I hold
The skin of my emotions lies beneath my own
You'll never feel the heat of this soul
My fever burns me deeper than I've ever shown to you

("Never is a promisse", Fiona Apple)

20 de dez de 2011

Feliz Natal [2]: Os cartões

Ela sorriu para a sacolinha da papelaria. Seus cartões de natal tão desejados. Olhou a listinha com os nomes para quem os mandaria. Os envelopes vermelhos seriam os primeiros a saudar, contentes, os seus destinatários. E quem seriam? Aqueles que faziam parte de sua história. Ela torceu os dedos e torceu para que os cartões chegassem antes do natal.

Disseram-lhe que ninguém mais enviava cartões de natal.

- Eu sei - ela sorriu - Mas não é por isso que vou deixar de mandar.

As pessoas mandavam e-mails e mensagens natalinas por meio de mídias sociais. E era válido. Mas, para ela, os cartões eram sagrados. E ela prezava as mensagens individuais com sua letra cursiva e redonda. O carinho pausado e pensado em cada palavra. O pessoal não-partilhado.

Era o seu amor expresso não em prosa ou verso, mas em cartão - ou risada de Papai Noel.

19 de dez de 2011

Sejamos irresistíveis... ou não!

Eu sempre me lembro daquele clichê do Pequeno Príncipe sobre sermos responsáveis por aquilo (aqueles) que cativamos. Mas será que somos mesmo? Será que somos responsáveis pela imagem que as pessoas têm de nós? Pelas expectativas e ilusões que os outros possam construir sobre nós? Qual é a nossa participação na brincadeira?

E, uma vez que o feitiço foi lançado, podemos nós mesmos desfazê-lo?

- Eu coloquei o feitiço, eu tiro o feitiço.

Acho que nem sempre temos a dimensão daquilo que despertamos - seja pouco, seja muito. Por vezes, achamos que estamos abafando, quando na verdade aquele miau não foi para nós. Já outras vezes, acabamos nos surpreendendo com o efeito de nosso... charme? Não sei... Tem tanta coisa que pode atrair alguém...

Estava com dois amigos no domingo:

- [...] E tem coisas que eu sempre reparo num homem, logo de cara - disse eu.

- É mesmo? Como o quê? - perguntou o Grego.

- Por exemplo? - quis saber S. Santos.

- E você acham que eu diria? - sorri.

 E, afinal, o que é ser irresistível? O que torna uma pessoa irresistível? Não tem receita, regra ou cartilha - nem dispositivo para disso escapar. Uma pena. Ou não.

18 de dez de 2011

Pinóquio fazendo escola





- Não sou romântica - mentiu ela.

- Sou cafajeste - mentiu ele.

Mentiam um para o outro. Pior: mentiam para si mesmos.


16 de dez de 2011

Sejamos flexíveis... Ou não!

Toda vez que alguém me cobra leveza, eu me pergunto o quão emocionalmente envolvida a pessoa está na situação que supostamente me causa tensão. Resposta: ela não está envolvida, por isso não sabe do que eu estou falando.

Acho engraçado quando nos pedem para ser flexíveis. Protestei e me responderam:

- Mas ser flexível não é dizer amém para tudo o que o outro diz...

(não, não é mesmo)

... mas aceitar que o outro é diferente e respeitá-lo.

Eu poderia ter aplaudido minha amiga de pé, mas estava cansada demais para sarcasmo. Preferi continuar largada na cadeira, porque ia acabar entrando numa discussão ideológica e, de acordo com as minhas regras, nada de DRs nem discussões ideológicas depois das dez - e já deixem que quebrassem essa regra tantas vezes.

Acho bobagem falar disso como se fosse a coisa mais fácil e banal do mundo, porque não é.

Aceitar a gente aceita. Mas nem sempre: há coisas que estão além do tragável. Isso varia de pessoa para pessoa. E olha que eu já ouvi e aceitei cada coisa que eu me pergunto: de onde veio essa tranquilidade e confiança diante de certas declarações? Sem crise, sem drama, sem salseiro. Então, tenho que ser mais flexível? Até o bambu arrebenta uma hora. Por que comigo seria diferente?

Respeitar? Eu respeito. Nem sempre, confesso. Respeitar eu respeito. Quando dá. É respeitar ou sair da sala - da vida.

15 de dez de 2011

Duelo

No ar, o cheiro de pólvora. Nos ouvidos, o eco do tiro. Cada um deles segurava um revólver. Observavam agora o pequeno ser, que mal nascera, estebuchando. No ar, pairava a pergunta: quem tinha matado o amor de ambos?

14 de dez de 2011

Sete abordagens masculinas duvidosas ou Como se pode afastar uma garota


1) Egocentrismo (ou Eu sou o centro do Universo): Se uma pessoa está interessada em você, ela normalmente quer saber coisas sobre você, não? Pode parecer óbvio, mas não é tão claro assim para algumas pessoas. Você troca e-mails com a pessoa e ela é incapaz  se responder as suas perguntas ou de querer saber algo sobre você - mesmo estando interessada. Ela escolhe monologar. 

Ora raios, para que precisa de mim? Porque o egocêntrico precisa sempre de alguém para ouvi-lo falar de si mesmo. E pior ainda quando esse falar de si mesmo é igual a se fazer de coitadinho: porque meu emprego é ruim, porque ninguém me quer, porque eu eu eu eu eu. Aí a minha cara de ponto de exclamação. Tudo acaba o levando a falar de si mesmo, como se não houvesse outra referência  ou outras pessoas na face da Terra. Já aconteceu até de surtarem comigo:

- Aquele texto no seu blog era sobre mim, é?
E eu nem lembrando qual era o texto. Em inglês, tem-se uma ótima palavra para isso: self-importance.

É problema quando você não sabe se te querem porque gostam de você ou porque você acabou se tornando um desafio, prêmio, troféu ou algo do gênero. Conheci um Galãzinho Malhação certa vez, por quem todas as meninas suspiravam ardentemente. Só que um dia ele conheceu uma menina que não dava a mínima para ele. Claro que seu desinteresse foi tomado como "charme" ou traduzido como a clássica frase "ela está se fazendo de difícil", mas ela simplesmente não estava nem aí. E isso foi tido como crime... e afronta.

O egocentrico pode ser mais discreto também e achar que te conhece muitíssimo bem, como a palma de sua mão.. ah! E achar que sabe o que é melhor para você e que sabe sempre como te agradar. E achar que você é dele, baseado em... quê? E aquele ar paternalista no melhor estilo "vou te mostrar as coisas do mundo e te ensinar tudo o que você precisa saber" é mais triste ainda.

É sempre bom ficar esperto com quem vai querer se auto-afirmar às suas custas. Nesse caso, é melhor sair da sala e deixá-lo sozinho confabulando com o ego dele. Serão mais felizes. E você também. Deixar que ele massageie o próprio ego é mais acertado.

2) Falta de filtro (ou Porque eu tenho prisão de ventre): Me fala o que alguém ganha ao dizer que tem sudorese, prisão de ventre ou excesso de pêlos para uma pessoa que se está conhecendo, a não ser que seja seu médico. Eu acho, no mínimo, desnecessário. Pelo menos eu não me interesso por questões fisiológicas, principalmente quando se está conhecendo alguém. E não é só isso: quem não tem filtro, se derrama e escancara coisas que seria melhor que você nem soubesse. Mesmo. Penso sempre assim: o que ele ganha (ou eu ganho) ao saber disso disso e disso?

A vantagem disso tudo é que você logo perceber qual é a a pessoa e cai fora o quanto antes - caso ela seja assustadora, o que frequentemente ocorre. Porque se tornar mãe ou psicóloga não é uma opção válida. Digo, pode-se até bancar a mãe, mas o desejo é o de ser outra coisa, não? E quanto a psicóloga... Eu não entendo porque há gente que despeja suas neuras, logo de cara - e quer que você ouça ouça ouça ouça sempre a mesma coisa. Olha, todo mundo tem problema, vai de como se encara.

E quem garante que a garota vai querer saber da vida sexual dele ou de seus hábitos entre quatro paredes? Seja para falar de suas carências e/ou frustrações, seja para se gabar, seria melhor sondar se vale a pena mesmo entrar em detalhes pessoais acerca do assunto logo de cara

3) Perfeitinha (ou Everything she does is beautiful/ Everything she does is right): Não há nada pior do que um cara que acha que tudo o que você faz é perfeito. Okay, há coisas muito piores, mas não dá simplesmente para confiar em alguém assim, porque você pede a opinião sobre uma coisa que você fez e está tudo sempre lindo, maravilhoso... perfeito! 

E aí é dois palitos para se acomodar, é claro, o que significa um grande atraso. Eu entendo gente que queira agradar sempre, seja para evitar conflitos, seja por insegurança... Mas perde-se muitas chances de dar o apoio necessário ao dizer: Olha, eu acho que isso não está legal. A gente não vai agradar sempre e vai ter uma hora que o outro vai sentir a necessidade de falar que não somos lá tudo isso. Uma hora a máscara cai - ou ele vai conseguir manter as aparências para sempre? O oposto também é duvidoso: sei do caso de um rapaz que interessado na menina, disse que o rosto dela é bonito, mas o nariz é meio esquisito e fica estranho. Pergunta de um milhão: a troco de quê se faz um comentário desses? O que me leva de volta ao item 2.

4) Incoerência (ou Oi?): Eu sei que o ser humano pode ser incoerente, mas, sinceramente, qual é a lógica de um rapaz dizer que acha que você não gostaria de ser chamada de "gostosa", por exemplo, e te chamar assim? Ele diz que acha que determinada abordagem não funcionaria com você, mas é essa abordagem que usa para tentar ficar com você. E não fica, é claro, porque a abordagem se revela o fiasco que ele julgou que fosse ser. Perdi alguma coisa?

5) Fofoca (ou Você viu quem está namorando?): Pior do que briga de homem é briga de mulher. Pior do que mulher fofoqueira é homem fofoqueiro. Ele vem e começa a falar da vida das pessoas que ambos conhecem. E claro, o faz ocasionalmente com uma pontinha de maldade. Precisa disso? Não tem assunto melhor? Caras assim podem gostar de uma boa intriga e quem garante que ele não vai falar de você para os amiguinhos em comum?

6) Mulher não presta (ou Vadia!): Desconfie sempre de quem fala mal da ex-namorada, principalmente se calhou de todas as ex-namoradas dele serem categorizadas como "vadias". A vida não é preto no branco com algumas pessoas sendo as mocinhas e outras as vilãs. Se fazer de vítima torna tudo mais confortável, mas impede que se veja as coisas como realmente são. E culpar as ex-namoradas (todas vadias?), não me parece muito sensato. É cômodo, só isso. É a mesma coisa da entrevista de emprego: não fale mal do ex-chefe, porque um dia o a atual um dia pode se tornar ex-chefe e aí é mais um para você falar mal.

7)  O garanhão (ou E sua amiga também): Nem sempre interessa para a garota que o cara pegou a Shakira ou quem quer que seja. Mesmo. De repente, também nem interessa saber que ele já ficou com amigas suas e com a moça da cantina e com a prima dele e com a Beyonce.

Não tenho aqui a pretensão de dizer que são todas estratégias furadas, porque muitas das historinhas são de rapazes que já estiveram ou ainda estão acompanhados. Afinal, tem gosto para tudo.e não acredito em verdades absolutas. Mas resolvi escrever e falar por muitas pessoas que eu conheço, pelas coisas que tenho visto e ouvido. Porque eu acho sim que são estratégiass tortas, se não para todo mundo, para um grupo que pensa como eu. E acho que, no fim das contas, o que realmente falta é bom senso e se colocar do lugar do outro. Ou ainda, às vezes simplesmente não dizer nada.

13 de dez de 2011

Dos clichês que abarrotam nossas vidas

Porque eu sou muito cismada sim com clichês: afinal, eles são uma fórmula pronta... Mas para quê? Para o suposto sucesso, para quando não sabemos o que dizer ou não queremos dizer alguma coisa?

Quem usa muleta é gente que manca...

Os clichês matam certas verdades. Eu, pelo menos, já estive em situações em que o discurso "não é você, sou eu" era sincero, mas não pôde ser usado porque seria tomado como desculpa esfarrapada das mais terríveis. E o que fazer se a pessoa era legal, mas eu não estava interessada? Não sou eu, é você. Ninguém tem obrigação de gostar do outro só porque o outro é legal também, né?

Cabelos compridos são um clichê que eu deixei para trás vai fazer um ano. Aquele papo que eu ouvi a vida inteira de que cabelo comprido é feminino blá blá blá os rapazes preferem cabelos compridos blá blá blá mulheres ficam mais bonitas de cabelo comprido blá blá blá. Dureza isso. De verdade. Deixar o cabelo curtinho foi uma das coisas mais libertadoras que já fiz. E já devo ter escrito sobre isso aqui.

Alguém me disse que certos clichês são obrigatórios, como beijo no happy ending. Dispenso o beijo e o happy ending, mas não a torta na cara da comédia pastelão. Nem sempre o óbvio é livre de encanto. Talvez um dos desafios da vida seja justamente encontrar encanto no vulgar, cotidiano, óbvio. E acho que talvez muitos clichês tenham um fundo de verdade. Talvez mesmo o lance dos cabelos compridos - mas, sinceramente, quem se importa? De repente eu posso até inventar novos clichês, mas que não podem ser só meus. Clichês são culturalmente partilhados por um grupo, não?

Mas acho que o problema dos clichês é que quando os usamos, ligamos no piloto automático e nem pensamos direito naquilo que fazemos ou falamos. Porque mancamos - ou escolhemos mancar? - e andar de muletas (emocionais?) é mais fácil do que tocar com as próprias pernas.

12 de dez de 2011

Fala que eu te escuto - sem te julgar

Porque ele me disse que se abre assim com pouquíssimas pessoas. Arregalei os olhos. Não é todo dia que ouço isso. Porque ele me disse que não fala sobre sua vida sentimental com qualquer um. Me senti honrada e me lembrei que não era a primeira vez que ouvia aquilo. E não tinha sido dele, mas de outra pessoa.

Bom, eu devo estar fazendo alguma coisa certa, não?

Ele me disse que não se sente julgado nem exposto. Sim, eu sou importante para ele. E a recíproca é verdadeira. E eu fico pensando em como todos os sentimentos são cultiváveis e como as pessoas podem ficar o quanto quisermos, o quanto deixarmos, o quanto sentirmos. Aqueles que valem a pena termos em nossas vidas.

Essas coisas que só a gente sabe e sente...

11 de dez de 2011

Porque eu adoro oxigênio e outras coisas, como o Natal

Ufa! Quantos dedos? Cinco. Muito bem, muito bem. Porque eu adoro respirar de novo, sair dos escombros - metafóricos, naturalmente. Fim de ano é ver a casa decorada - e acordar com um Papai Noel cantando no corredor. Oh my. E lembrar do episódio deprê de Ally McBeal. E das inúmeras versões de All I want for Christmas is you - não, azeitonas da minha empada, eu não gosto da Mariah Carey.

O fato é que eu gosto muito dessa época do ano, a despeito da inegável e dolorida nostalgia que passeia por mim ocasionalmente. Cócegas e formigamento. Bom, a retrospectiva sentimental 2011 já foi feita ontem com a Ninfa, entre risos, causos e Scott Pilgrim - que nem achei lá essas coisas. Não compro a ideia dos que esperam o Natal para serem bons, como se fosse necessário separar uma data para isso, mas pelo menos as pessoas ficam mais abertas e sensibilizadas nessa época... Já é alguma coisa, não?

E escrever cartões de Natal. Como gosto de fazer isso!

E descobri como desobedecer é bom. E como é bom obedecer. E achei uma foto sua, inesperada e risonha entre os álbuns que mostrava a Ninfa. Saudade feliz. Queria te olhar nos olhos e dizer:

- Feliz Natal, meu bem.

Entrei em outro turbilhão de sábado para domingo. Sábado de manhã, ele me abraçou e ainda perguntou:

- Você está doente? Tão quietinha.

Nada. Meu cansaço escancarado. Ufa! Saindo do turbilhão trabalho, pós, trabalho, pós. Tão bom isso. O turbilhão agora é aquele das resoluções, balanço e expectativas. Deveras agradável, na verdade. Melhor do que 2010, de qualquer modo.

E vou subvertendo o discurso e a linguagem - o quanto der, o quanto puder. E pensando no cuidado no uso do verbo "perder", porque as pessoas o usam sem pensar - como tantas outras palavras.

Olhei para o verde-água nas minhas unhas e pensei: agora sou eu de novo. E fico criando umas frases de impacto bobas . Mas fui presenteada com uma pérola do Felino:

- Você quer que a pessoa te reconheça quando te vê, e não se reconheça quando te vê.

E dele eu ganhei um dos melhores adjetivos que poderia ganhar. Sim, quem nos conhece que sabe. Para o resto do mundo, eu sou essa menininha. Que seja assim então. Não vou implicar, me importar, encanar. Afinal, as férias estão a caminho. Como sempre, eu sobrevivi ao fim de ano. Só de teimosia mesmo - e pelo prazer em ver as luzinhas de Natal.

8 de dez de 2011

A arte de... abafar a fadiga

Porque as pessoas confundem cansaço com tristeza. Fato. E ao resmungar ontem que queria dormir, Charlie exclamou não-enfática:

- Foi você quem escolheu isso.

Sim, ela tinha razão. Eu escolhi minha profissão e escolhi meus cursos extra. Mas não escolhi certas coisas que os acompanham. Mas elas vêm com as nossas escolhas. Tipo um combo do Burguer King, se bem que até eles devem ser mais flexíveis do que a minha atual condição.

Consigo esconder a raiva, a tristeza e a alegria - a duras penas -, mas não o cansaço, estampado literalmente na minha cara. Também não faço alarde: fico no meu canto com minhas atividades. Mas aí me perguntam se estou bem, porque fico diferente. Todo mundo fica, na verdade.

O que dá para fazer é abafá-lo e deixar para vivê-lo quando tiver tempo para ficar cansada. Mesmo porque, não sou só eu, pelo contrário: a maioria das pessoas que conheço está implorando por férias. Estamos todos no mesmo barco.

E faço da atividade de abafar a fadiga uma arte e começo a série "A arte de...", para fingir que levo jeito para a área de auto-ajuda - e que posso ficar milionária com ela um dia. HÁ. Mas antes de ajudar os outros, tenho que me ajudar e serei capaz de começar a fazer isso quando terminar minhas obrigações e, de consciência tranquila, ir à festa de encerramento do trabalho - salto alto, quem diria - na semana que vem.

Contagem regressiva.



7 de dez de 2011

Feliz Natal [1]: Os presentes

Ela olhou desconsertada para sua cama. Calhou de tudo estar lá: as velas aromáticas, a lingerie nova, o perfume. Presentes de Natal que ela abrira antes da hora. Mas ainda faltava alguma coisa. E não era sua disposição - ou predisposição.

Já tinham lhe dito para sair por aí e arriscar. Mas o seu modo de arriscar era outro, bem diferente do que lhe ditavam. Seu modo de sentir era outro. Nem melhor nem pior, só diferente. Ficou entre guardar tudo e experimentar tudo - só para si. Não adiantava se compartilhar quando não havia ninguém que despertasse tal vontade ou desejo, não importava o que dissessem.

E, pela primeira vez em tempos, hesitava, sem saber o que fazer com os presentes sobre sua cama. O presente que queria era outro.  E tudo aquilo provava que ela era humana afinal.

6 de dez de 2011

Caindo na real (4): Nem todo homem é desligado

Sim, isso é muito feio, mas tem coisas que eu acabo generalizando mesmo. Homem tapado desligado é uma delas, porque era essa a impressão que eu tinha até a semana passada quando...

Várias pessoas sexo masculino  (cinco para ser exata) repararam a aliança de noivado na minha mão direita. Não minha gente: não estou noiva, mas foi esse o boato que correu solto. Um anel é apenas um anel - ou o que os outros imaginarem? Seja como for, o engano veio a calhar. Assim, como o anel.

Se os homens não são tão desligados, o que foi a minha convivência com eles durante os últimos anos? Ou o que são dois dos meus colegas de trabalho, incapazes de escolher um par de brincos para as esposas por não saberem do que elas gostam? Ou será que é tudo uma questão de fazer-se de desligado mesmo, só reparando quando interessa? E depois as mulheres são complicadas...

... Convenhamos: o ser humano é complicado.

5 de dez de 2011

O Homem-Banana e as bolhas de sabão

Para o Felino, conforme prometido.

A Mulher Sabão de Coco era dura e inflexível. E, pior ainda, escorregadia. Missa do Galo às avessas, rodopiando para longe dele. Escorregava pelos dias e mãos e vontades do Homem-Banana, que ficava a ver navios. Entretanto, o seu encanto por ela e suas bolhas de sabão vinham na mesma medida do seu embaraço e falta de jeito. Afinal, ele era o Homem-Banana e cabia a ele, e somente a ele, deixar que ela escapasse por entre seus dedos débeis. E ela era Mulher Sabão de Coco e não o era por maldade, apenas por instinto de sobrevivência. Porque as suas marcas não tinha sabão de coco que tirasse. Não, dizer aquilo era ser dramático. Ela era Mulher Sabão de Coco porque era isso agora o que ditava a sua natureza. Nem mais, nem menos

1 de dez de 2011

Caindo na real (3): O problema é você - e não a mídia social!



Gata molhada
Se eu posto uma foto minha no melhor estilo gata molhada do Gugu, estou querendo exatamente o quê? No mínimo, chamar a atenção. Ok, é um dirieito. Acho válido. Por esses dias, uma conhecida colocou uma foto de calcinha no facebook. E me veio a ideia para o post.

E aí?  Longe de ser moralista, o que eu queria que as pessoas entendessem é que cada um escolhe se expor como quiser. O fato é que fotos, textos e palavras que disponibilizamos na internet não ficam restritas a quatro parede (não mesmo), mas sim escancaradas para as pessoas, para o mundo - por mais recursos de privacidade que existam. E palavra escrita gravada na pedra lançada mundo a fora faz como para reter, voltar atrás? 

Este blog mesmo. Eu tenho noção da exposição que ele pode proporcionar - como proporciona às vezes, mas isso é uma coisa que eu assumo.  E também sei que várias pessoas de quem não gosto o conhecem e têm acesso a ele. Espero que não tenham interesse - e assumo o risco.

Se eu xingo meu chefe, meu ex, meu cachorro, meu cunhado... Se eu faço piadas racistas ou machistas... Se eu coloco fotos minhas pichando a suástica num muro do meu bairro... Bom, estou fazendo isso para que o mundo veja quem eu sou. Ou o que aparento ser. Ser e parecer. E de quem é a responsabilidade pela minha imagem?

Ou seja, o problema não é facebook, twitter, tumblr, orkut ou similares, mas sim o que raios as pessoas colocam, o modo como se expõem. Estamos cansados de ver casos de pessoas que decidem expor seus preconceitos, ideias tortas e afins e acabam perdendo chances de emprego, de novas amizades e de ficarem quietas. E o povo não entende mais que a chance de ficar quieto deve sempre ser considerada... Liberdade de expressão virou licença para babaquice.

E outra coisa: falar o que se pensa virou palhaçada, porque as pessoas perderam o filtro. Eu ouço cada coisa que fico besta e aí eu matuto que eram coisas que as pessoas abafavam antes. Se por um lado é bom, porque aí a gente vê quem é quem (adeus hipocrisia?), por outro, é preocupante, porque as pessoas não tem mais vergonha nem se intimidam de dizer certas coisas. E aí?

Salvo exceções, cada um faz a sua exposição nas mídias sociais pelas quais passeia. O resto é falta de sensatez -  coisa que atualmente se deveria vender em farmácia, como pílula.

30 de nov de 2011

Ah esses Anônimos incorrigíveis...

Para os Anônimos nossos de cada dia

Comentou o Anônimo (é claro) sobre um post qualquer aqui do meu blog:

- Esse blog está cada vez mais chato...

Pois é meu querido(a), super respeito a sua opinião. Não dá para agradar gregos e troianos - e que chata a vida se assim fosse. Fica aqui a minha sugestão para seus próximos passos: não visite nem leia mais o blog (mesmo, não se maltrate assim, para que essa auto-flagelação? sado-masoquismo?), vá ler um  livro e faça uso do seu livre arbítrio. Aposto que vai aproveitar melhor o seu tempo.

A vida é curta demais para desperdiçá-la com certas coisas que desgostamos.

Fica a dica ;D

29 de nov de 2011

Conversando com o Jornalista [4]: Transparente como vidro fosco

O boi
A ideia secundária era "transparente como um poço de piche", mas matutei sobre duas coisas:

A) Existem poços de piche? (perdoem a minha ignorância)
B) Dariam conta do lirismo que anda me rondando - a despeito do improvável?

O que me dei conta é que não sou transparente como pensava até ontem. Sim, mais uma vez o Jornalista me fez reconsiderar certas coisas. E olha que de repente não é ruim reconsiderar ou mesmo voltar um passo atrás, olhar na direção oposta! Deixar o orgulho de lado - difícil isso. E considerar a possibilidade do erro. E, melhor ainda, celebrar o erro - porque eu não quero estar sempre certa! Aliás, nunca fiquei tão feliz por estar errada.

 Mas sobre todas essas coisas... Choque. Ainda estou digerindo. Um boi inteiro.

Eu acho que, na verdade, ninguém é totalmente transparente... Do mesmo modo como eu já disse que somos todos personagens esféricas, mas por superficial que possamos parecer. Superficial só os espinhos - ou as espinhas. Eu aqui me julgando transparente e escrevendo sobre (e defendendo) o uso das máscaras...

O Jornalista me perguntou se podia haver algo transparente num primeiro momento, mas profundo num segundo olhar. Bom, respondendo à sua pergunta (que não respondi porque fiquei a pensar): sim. Certas águas parecem tranquilas, mas podem se revelar turbulentas. Certas poças d'água podem parecer rasas e esconder mil mistérios. Águas e olhos escuros às vezes fazem isso. Mas, para qualquer mal-entendido entre ser e parecer, há sempre as palavras - que por vezes mais confundem do que esclarecerem. 



Octógono Semiótico

Me vi mais complicada e complexa depois de uma conversa deliciosa com a Pisciana agora à noite. Mas isso não é uma coisa só minha: no fundo, todos somos complexos e complicados - só que às vezes não nos damos conta. Ou não? A arte de especular.


28 de nov de 2011

Caindo na real (2): Esquece o carimbinho no seu caderno

Tenho visto com muita frequencia pessoas reclamando que não têm seu trabalho reconhecido. Sim, meus docinhos, sei como isso faz bem e como isso é importante, mas... A gente precisa esperar os outros notarem o que fazemos para fazermos as coisas?

Pergunto isso porque tem coisas que faço e as pessoas não reconhecem. Devo parar de fazê-las, seguindo o preceito birrento do agora vão sentir falta? Ah! Se eu for esperar as pessoas notarem e/ou valorizarem o que eu faço, gente, aí eu paro tudo e acabo não fazendo nada! E se todo mundo for pensar assim, o que aconterceria com o mundo?

É uma questão de motivação interna. A minha área, por exemplo, é desvalorizada. Imagina se eu for esperar alguém valorizá-la ou me valorizar para ser uma boa profissional? Vou esperar sentada. Talvez nem sentada na verdade.

Sou muito mais fazer o que tem que ser feito e saber que eu fiz a minha parte. Quanto ao resto, tomara que façam a deles - sem esperar confete ou estrelinha na testa.

26 de nov de 2011

Of epiphanies and phrasal verbs

"I'm fine", says Drew. So I am.
I asked her to lend me her book. She told me it wasn't the proper moment 'cause I was bouncing back and her book was only for those sad moments in which you decide to plunge. 

I couldn't remember the meaning of that phrasal verb so she gently explained it. And then there was the epiphany: I've realized that I've been sad for so long and struggling to be happy again.

I have been hiding my true feelings, overworking, being always busy. Well, I've been really busy, but my tasks and activities may have been the perfect excuse not to think about what I feel. Or maybe to make me deal with pain in a different way. 

And were my feelings worthy? Not really. I do believe it's better to work and to be useful. It's more interesting to make things happen than to cry... Over the spilt milk? Not really.  I did what I could - as usual. I think I've only choosen a differente way to deal with all these things that hurt me so deeply.

All of a sudden, I've realized the sorrow and pain swept under the carpet. My carpet. My calm despair. My blind rationality. My raw sefl-control. Little by little, I've been facing them, trying not to believe that some things will be like this forever. 'Cause life changes, right? And I've been changing with life, right? So I am fine.

'Cause this time I haven't exposed the ugliness I've faced. This time, I decided to be happy. Happiness is a matter of choice. Now I can say and see what I do want - so badly. What I wish the most - and what I just can't share with anyone else but myself. That's life. That's how it goes.

The best part is getting to know a little bit more of me and knowing that I'm bouncing back, instead of trying to control everything which is beyond my control. I just need to give me more chances.


Pelo direito de envelhecer

Quero ter o direito de usar roupas condizentes com a minha idade, quando ela for avançando. Não vou precisar sair de mini-saia para me sentir bonita. Quero ter o direto de me achar bonita com a idade que tiver e não com aquilo que deveria (?) aparentar. O tempo pesa não só na alma, mas no corpo também. E acho bonito quem se cuida e se aceita a cada nova etapa da vida. Sem desespero. Se amando acima de tudo.

Quero ter o direito de ser feliz com toda a história que as minhas mãos calejadas e rosto marcado vão contar: velhice não é doença e lutar contra ela é uma perda do tempo precioso que ainda resta.

25 de nov de 2011

Firegirl & Thumbelina: Queda livre



T: - Estou sem chão.

F: - Perdeu os super-poderes?

T: - Nada. É o de sempre, o que me faz sempre perder o chão.


F: - Ah. E o que significa perder o chão?

T: - Hum. Não sei.

F: - Quem perde o chão ganha mar?

T: - Não se afogando tá ótimo.

F: - Por que não aprender a nadar?

24 de nov de 2011

Racionalizando o irracionalizável (1)

Ela: - Você não lembrou.

Ele: - Me desculpa.

Ela: - Tudo bem. Não era importante.

Ele: - Claro que era!

Ela: - Não, não era. E, pensando bem, eu não poderia te cobrar nada...

Ele: - Por quê?

Ela: - Porque não somos nada.

23 de nov de 2011

Caindo na real (1): Ele nunca vai olhar para você

Eu devia estar no auge dos meus treze anos quando a ficha caiu:

- Caio Blat nunca vai olhar para você, não importa o que as revistinhas teens digam.

Caio *suspiro* Blat
Okay. Não foi um choque e eu já estava velha para esse tipo de leitura. Decidi, então, me aventurar por um caminho alternativo e apaixonante: o da literatura. Quando ao Caio, desencanei na ideia de um dia conhecê-lo e já estava tentando tornar concretos outros planos mais paupáveis - e abraçáveis.

 Confie no seu taco era um dos clichês motivacionais de Capricho & Cia, não sendo válido quando o quesito é Caio Blat ou qualquer outra celebridade que nos interesse. Óbvio, eu sei, meus caros.

Tacos
Um dia, a gente cresce um poquinho e começa a cair na real com os caras reais. Ou sonhar com eles? Bom, mais próximos devem estar - embora haja aqueles que se coloquem em pedestais. Mas esses precisam de servas/ adoradoras e não namoradas.

Nem sempre tem alguém para nos puxar a orelha, então é sempre bom ter estômago, boa visão e coragem para dizer:

- Ele nunca vai olhar para você.

Afinal, por que a rejeição não poderia partir de caras reais também? Aliás, isso me lembra um filme interessante que trata de um assunto próximo: "Ele não está tão a fim de você" (2009). Creio que toda mulher acaba passando por isso pelo menos uma vez  na vida. E bola para frente que eu quero fazer gols.

É uma verdade doída - ego e coração (às vezes mais um do que o outro) - mas necessária, caso a gente queira mesmo fazer as coisas acontecerem de verdade - e correr atrás de que interessa, a quem sejamos interessantes e que possa dar certo.

Não adianta desperdiçar a existência esperando (hoping/ waiting) alguém que nunca vai olhar para você, quando sempre vai haver outra pessoa para saber qual o seu sorvete preferido. A Danusa Leão, de quem não gosto, falava que um cara que pergunta da sua cicatriz no joelho é irresistível, porque, de algum modo, ele reparou em você. Concordo. O mesmo ocorre com um cara que saber qual o seu sorvete preferido, mesmo sendo uma coisa tão banal.

22 de nov de 2011

Verdades leitosas

A: - Eu quero a verdade!

B: - Mesmo?

A: - Sim. Pura! Como um copo de leite!

B: - Certeza?

A: - Talvez com uma colherinha de açúcar.

B: - Só isso?

A: - Ah! Leite desnatado.

21 de nov de 2011

Maurício+Malu: Decepção

Maurício chegou encharcado em casa.

- O que aconteceu? - preocupou-se Malu.

- Mais um balde água fria. Com a quantidade que ando levando, terei sorte se não pegar uma pneumonia.

- Nada que uma toalha limpinha e cheirosa não resolva - sorriu ela.

20 de nov de 2011

Clara vai ao hospital

Às vezes era melhor não dizer muito, melhor dizer pouco, não explicar muito: as palavras eram como cadarços desamarrados, nos fazendo tropeçar por aí. Clara olhava o Pico do Jaraguá da janela do seu apartamento. Manhã natimorta e ela foi se vestir. Pêlo em arrepio frio. Um pio lá fora. Quem era? Não saberia dizer. 

O coração pesado. Por que escorregava? Escapulia? Um amigo costumava dizer: Você está sempre escapulindo como um um leitãozinho ensaboado. Ela rira na época, mas não ria agora. Não, não agora. Era pressão demais, expectativa demais - bom demais? De onde vinha o peso - e a falsa calma em seu sorriso?

Franziu a testa. O corpo pesado quis deixar-se afundar na poltrona da sala. Aquela com a mancha de café deixada por ele. Algumas pessoas nos deixavam marcas. Não se contentando com isso, ele deixara a mancha no meu sofá. Agora eu sorria, mas não quando aconteceu.

Sábado era dia de queimar a língua com o café da padaria. Mas hoje não quis, apesar de ser sábado. A tristeza - por um triz. Ou era ela por um triz. Ele. Ficara seis meses fora do país para voltar e descobrir um recado afoito na secretária eletrônica. Recado sobre ele: estava no hospital.

E lá foi colhendo cultivando fazendo a coragem brotar - não sabia de onde. Como encará-lo numa cama de hospital? Como estaria? Como  manteria um sorriso de apoio quando suas pernas estavam bambas só de pensar na cena?

Mas não podia mais fugir. Mas bem que queria. E tanto e tanto.  Com toda a sua intensidade, a intensidade de seus  quase trinta anos. Nunca como quisera fugir de Louis. Aquilo era diferente. E era dia de visita. Equilibrou-se nas botas pretas. Voltar a vê-lo era voltar a ver a si mesma, mas não era dali que provinha o seu medo. Teve medo de não mais ter futuras chances de vê-lo - vivo.

Voltou para janela, como se o ar matinal lhe fosse trazer qualquer resposta. Seu Anísio passou com seu blusão do Taz e as meias paisley:

- Bom dia, Clarinha! - gritou efusivo da calçada, jornal a mão, dia de jogo.

Clara sorriu o seu sorriso de falsidade polida, mas gentil. Acenou com a mão trêmula. E com a mesma mão, pegou a bolsa e saiu. Ardia dentro dela uma raiva da fragilidade da vida - e de sua covardia.

Dualidade

Nunca subestime meu poder de abstração. Ou o de concretizar coisas.

19 de nov de 2011

Sem fantasia




Por mais que passasse horas brincando com os infinitos tons de azul, verde e rosa da sua caixinha de maquiagem, o seu maior prazer era o de sair por aí de cara limpa.

18 de nov de 2011

Pérolas linguísticas

Ela: - Passei mal ontem.

Ele: - O que você tinha?

Ela: - Tontura. Achei que fosse desmaiar. Pressão baixa, acho.

Ele: - Mas você desmaiou afinal?

Ela: - Não, não. Comi uma bala.

Ele: - Mas açúcar não ajuda com pressão baixa. Para pressão baixa, é sal.

Ela: - ...


Pausa.

Ela: - Vai ver que era era baixo índice glicêmico.

17 de nov de 2011

Quinzinho e o encontro marcado

Quando pequeno, Quinzinho tocava a campainha e saía correndo. Era rápido. Mas, um dia, alguém foi mais rápido: abriram a porta. Seu dedo mal tocara o botão dourado e a porta

NHÉÉÉÉÉÉÉÉ

(rangido dengoso)

O seu choque não foi ter sido pêgo, mas sim o fato de ter sido convidado para entrar - para uma limonada. Estavam esperando por ele.

16 de nov de 2011

Questões banhistas

Para todos aqueles que gostam de banho escaldante

Já ouvi que não é bom tomar banho com água muito quente, porque ela leva embora toda a oleosidade natural da pele. Sendo assim, a pele ficaria seca. Também já ouvi que a mesma água quente estimula a produção das glândulas sebáceas. Sendo assim, a pele ficaria oleosa.

E aí? Qual delas é a correta? Ou a água quente acabaria por me garantir uma pele mista?

14 de nov de 2011

Questões sanduichiais

Ele: - Como você está?

Ela: - Bem e você?

Ele: - Misto.

Ela: - Presunto e queijo?

Ele: - Bauru.

13 de nov de 2011

Maurício+Malu: Introspecção

Malu brincava distraída com a alface no prato: enrolava as folhas úmidas e as mordia. Charuto. 

- A verdade me embrulha o estômago - disse Maurício.

- A verdade do almoço pesado? - quis saber Malu.

- Não, outras coisas - ele respondeu, olhando através dela.

Ele passava o indicador pela borda do copo. Será que queria tirar algum som do copo meio vazio? Nada. O copo era mudo, como a sala sem som.

- Não sei o que fazer com as coisas que morrem em mim. As coisas que as pessoas matam em mim.

- Enterrar?

- Achei que pudesse ressussitá-las... Mas não. Algumas coisas são irrecuperáveis. E sabe o que é pior? Não me ressinto disso.

- Então qual é o problema?

- É que estive me enganando e enganando aos outros, pensando ser uma coisa que não sou mais. Nem nunca vou ser - ela olha pela janela.

- E a verdade te embrulha o estômago?

- É.

- Estamos no mesmo barco então.

Maurício sorri pesaroso e serve groselha aos dois, na esperança de adoçar um pouco da vida.

11 de nov de 2011

Abre a porta Mariquinha!

Ela: - Você não pode entrar.

Ele: - Por que não? Fui embora porque eu quis, não porque você me mandou. Por que não posso voltar?

Ela: - Justamente porque você foi porque quis eu não quero mais.

Ele: - Nem espiar pela janela?


Ela: - Nem buraco da fechadura.

Ele: - Abre a porta Mariquinha!

Ela: - O único mariquinha aqui é você!

10 de nov de 2011

Eterno retorno


Olhei pela janela do trem lento. O tempo estava quente, mas não abafado como antes. Eu já não era uma flor de estufa, nem sua borboleta de insetário – exposta e exibida para todos. Não, nem todas as mulheres jogam jogos mentais. Acho que eu era a única que logo de cara se entregava completamente.

            - Sou teimossísima.

E só fui entender o problema daquela confissão gratuita mais tarde. “Avistei o mercado da Lapa e pensei em você”, eu quis te escrever. Amarelo com portas grandes, frutas à vista, perto da estação de trem. Quis te mandar um bilhete. Você sabe como gosto de bilhetes. No começo, isso te encantava. Depois eu já não sei.

Para que escrever? Era um daqueles muitos lugares em que tínhamos planejado ir juntos, mas não contamos com um pequeno imprevisto. Mas também, uma coisa sobre nós era certa: vivíamos sem prazo de validade, como se nunca fosse acabar. Talvez fosse ingenuidade nossa, mas duvido que qualquer um de nós aceitasse viver de modo diferente.

A hora passa arrastada de volta para casa. Nem me lembro de onde estou voltando, só sei que vou para casa.

9 de nov de 2011

Aula de francês

A: - Ça va bien. Vous?


B: - Bien. Vous? Tu.

A: - Je t'aime.

B: - Hã?

A: - É só isso o que sei dizer.

8 de nov de 2011

Diário: Sobre pares perfeitos


** Falávamos sobre the perfect partner e os adjetivos para descrevê-lo. Por fim, perguntei:

- Quem aqui acredita em par perfeito?

Dois garotos levantam a mão (!)


** Claro que ia sobrar pra mim:

- E você professora, como seria o seu par perfeito?

- Nah. Mas eu não acredito nisso...

 
** Laura insiste:

- Mas como seria o cara ideal?


A classe se silencia imediatamente logo que começo a falar. Um silêncio que me assusta.

7 de nov de 2011

Sonhadores

Me pegou pela mão:

- Vamos?

Olhei a corda que me prendia ao chão e os balões de gás hélio que segurava numa das mãos. Hesitei, mas engoli meu medo do possível em seco. Com destreza, desamarrei o pé. 

Livre, sobrevoei com ele os reles mortais terrenos, tão presos quanto eu fora por séculos. Foi preciso  coragem da minha parte para deixar amarras - e coragem dele para me convidar para acompanhá-lo.

Ouvindo Eu só sei dançar com você (Tiê)

6 de nov de 2011

O menino do meu abraço

Todo dia ele vinha e me dava um abraço. Desajeitado, se derramava sobre mim. E eu tentando não deixá-lo cair. Devia ser um pouco maior do que eu, mas era apenas uma criança. Vontade de pegá-lo no colo e lhe dizer que tudo ficaria bem, fosse o que fosse. Medo de machucá-lo, mesmo ele já não sendo tão frágil.

Ele ria gostosamente. E me abraçava mais forte.

Fui percebendo que a cada dia o seu peso ficava mais leve. Não se notava nada em seu rostinho redondo, mas quando eu o abraçava, percebia que pesava cada vez menos.

Era como se alguém estivesse tirando alguma coisa dele. E veio vindo a tristeza.

Logo reconheci que cedo ou tarde, seus pés já não mais tocariam o chão: ele perderia o chão. Flutuaria por aí sem rumo. Sem destino. Sem mais ter a quem abraçar ou a quem se apegar. Vi desapego em seus olhos.

Era frágil sim.

Ouvindo Like spinning plates (Radiohead)

5 de nov de 2011

Conversando com o Jornalista [3]: Porque as almas-gêmeas estão por aí

O beijo (Rodin, 1888)
Falei ao Jornalista do meu choque ao constatar que dois adolescentes que conheço acreditam e alma-gêmea. Choque principalmente porque são rapazes - parte do meu choque foi por causa disso. Semprei achei que mulheres sonhavam mais e - para mim - alma-gêmea é coisa de gente que sonha. Bom, eu sonho, mas nem tanto, nunca tanto. O ascendente em áries - para aqueles que acreditam - sempre me manteve com um pé na terra.

Foi aí que o Jornalista comentou - com ou sem embaraço - que acreditava em alma-gêmea. Ah! De novo, supreendida. Lembrei então de um primo muito querido, um pouco mais velho do que eu, tentando me convencer que existem sim almas-gêmeas. Sim, ele também acredita piamente nelas. 

(e eu - com claro embaraço - tratei de logo explicar ao Jornalista o meu ponto de vista)

E aí eu pergunto: onde estão as mulheres que acreditam nisso? Não conheço nenhuma: descrença geral - o que é sintomático. E quando vou ouvindo as histórias... Bom, faz sentido. Penso. Sinto. Acho.

E pergunto ao Jornalista:

- Tá bom. Você acha a sua alma-gêmea... E a perde, seja por morte para outro mundo seja por morte do amor que se foi. O que se faz?

Aí o Jornalista veio com uma tese interessante: a de que teríamos almas-gêmeas para diferentes épocas de nossas vidas, para diferentes momentos. O que é bastante confortante, porque o que me mata desse discuros de alma-gêmea é que é algo muito definitivo - é uma vez e nunca mais?

Se você amou intensamente uma vez e acabou... Quer dizer que você nunca mais vai amar de novo? Uai! Isso não me parece razoável. Quer dizer que a gente vai passar o resto da vida sozinho? Nah. Suspeito de tudo que seja radical assim, permanente assim, taxativo assim, drástico assim. Não só suspeito: simplesmente não aceito.

Agora eu consigo até simpatizar - veja bem, simpatizar - com a teoria do agradabilíssimo Jornalista segundo a qual você poder ter várias almas-gêmeas alo longo de sua vida. Claro que eu não fiz uma pergunta óbvia:

- O que você entende exatamente por alma-gêmea?

Alguém com quem você tem química? Afinidade? Uma ligação espiritual? Leitura de pensamento? Ambições em comum? Alguém que te compreende? Uma pessoa que você parece conhecer desde sempre? Um amor que nunca acaba? Panco - dedicação total a você?

Brian Molko canta tão bonito soulmates never die e talvez, caso existam, não morram mesmo: primeiro porque todas aquelas que fazem parte de nossa vida e de nossa história acabam fazendo parte de quem nos tornamos, de quem somos; segundo porque se a vida se renova, nós nos renovamos com ela e assim também o fazem as almas-gêmeas. Seria isso?

Ouvindo Vermelho (Marcelo Camelo)

4 de nov de 2011

Ô benhê!




Porque só chamava de "amor" quem lhe inspirava o sentimento. O resto era perfumaria.

3 de nov de 2011

Conversando com o Jornalista [2]: Porque sempre fica mágoa

O que eu gostaria de ter dito ao Jornalista (ou como eu gostaria que a conversa tivesse terminado)

A: - Não sobrou mágoa.

B: - Sempre sobra mágoa.

A: - Afoguei a mágoa.

B: - Na bebida?

A: - Não, na banheira lá de casa mesmo: era ou ela ou eu.

2 de nov de 2011

Mosaico humano



A: - Você viu uma orelha por aí?

B: - Van Gogh?

A: - Não, não sou artista.

B: - Mas é sensível?

A: - Isso.

B: - Então o que está fazendo?

A: - Juntando os pedaços.

1 de nov de 2011

Fora do tempo [2]

A: - Onde foi que nos perdemos?

B: - Dobrando a esquina?

A: - É como se estivéssemos nos perdido no tempo...

B: - Então é o tempo e não o espaço?

A: - É.

B: - Hum. Mas eu gosto de você.

A: - Mas estamos em tempos diferentes. Tô no Iluminismo.

B: - E eu?

A: - Sei lá onde você está: se soubesse, provavelmente ainda estaríamos juntos. Ou não. Mas eu saberia ao menos onde te encontrar.

B: - Hum. É. Faz sentido. Alguma idéia?

A: - As ideias são sempre minhas. Hoje, você pensa em alguma coisa, caso interesse.

Coça a cabeça:

B: - E se a gente se encontrasse no futuro?

A: - Futuro? Sei sei. Não temos futuro, você sabe...

B: - Não! E se a gente esperasse nosso tempo se alinhar de novo?

A: - Mas nunca esteve alinhado! Estivemos vivendo em tempos distintos durante tanto tempo!

B: - E se então esperássemos que nosso tempo de alinhasse pela primeira vez?

A: - Me encontra daqui a cinco, dez anos pra ver se dá certo: é isso o que você está me pedindo?

Ouvindo In a sentimental mood (Coltrane)

31 de out de 2011

Adeus unha da minha carne ou Sobre a valorização na partida

Ficou hesitante e eu esperando sua decisão. Decidiu finalmente e foi embora - definitivamente. Fiquei olhando a lacuna deixada pela sua ausência. E foi aí que percebi como era importante, como sentiria a sua falta. Pois é, caríssimos, hoje perdi uma unha. Nosso rompimento se deu há mais de dois meses, num acidente com uma pesada porta de ferro e, desde então, tenho esperado a nossa separação definitiva.

Não é poético como quando uma criança perde um dente. E, definitivamente, eu não poderia ser uma das heroínas de Alencar. Mas quem quer ser uma heroína dele? Ah, eu quis. Aurélia. Mas faz tanto tempo que eu já nem sei. Minha aspiração hoje talvez fosse ser um rebento de Machado ou Lygia Fagundes Telles ou do meu Ignácio. Quero pouco, né? 

Só percebi como as minhas unhas são importantes agora que uma se foi. E não é porque o meu indicador fica feio, mas porque fica desprotegido. Batman, Pucca e demais personagens hão de animar meu dedo, enquanto ele fica soliário, sem a unha de sua carne. Porque as unhas podem ser substituíveis - embora tenha tido medo de ficar sem para sempre.

Unhas são substituíveis. Pessoas não. Mas, se por um lado, quanto à unha, dei pouco valor e só reconheci a importância na ausência, por outro, nunca fiz tal coisa com pessoas. Sempre reconheci o valor de quem já passou e quem anda passando pela minha vida. Cada um com o seu valor, com a sua importância.

Mas assim como unhas podem partir, mediante choques literais, pessoas também podem ir embora. E aí a vida continua (hoje ouvi e gostei: A minha vida continua/ Mas é certo que eu seria sempre sua). Seja sem a unha, seja sem certas pessoas. Aparecerá outra unha, aparecerão outras pessoas. Serão unhas e pessoas diferentes: nem melhores nem piores, só diferentes.

E únicas.

30 de out de 2011

Conversando com o Jornalista [1]: Porque as experiências deveriam ser sagradas

Falávamos de cinema e lhe fiz uma indicação. Voltei atrás:

- Acho que você não vai gostar. Melhor nem procurar o filme.

(um filme que eu adoro e que julguei  ele não fosse gostar)

Foi então que ele levantou uma questão fundamental: sim, ele podia sim gostar do filme, mas, pior do que isso, eu o estava impedindo de viver sua própria experiência, tirar suas próprias conclusões, ter suas próprias impressões.

Sim, o que tentei fazer foi quase criminoso, apesar de não constar na legislação brasileira, porque privar as pessoas de terem suas próprias experiências é algo condenável, por melhor que sejam as intenções - e eram as minhas.

E quantas vezes não poupamos os outros, protegendo-os do que achamos que devem ser protegidos, sem parar para pensar que muito provavelmente precisam daquele experiência?

Porque elas são únicas. E deveriam ser sagradas.

29 de out de 2011

Trashgirl conhece Zeca

Aconteceu um pouco antes de tudo acontecer: o surto, o manicômio, o primo. Estava saindo com Zeca, um cara legal. A princípio. Um pouco mais e ele era precipício. Mas quem ia pular?

- Não vai mais dar pra gente se ver, Zeca - começou ela, certa noite, entre uma bebida e outra.

- Por quê? Fiz alguma coisa errada? - perguntou ele, surpreso.

- Bom, não é que você tenha feito algo, mas que você seja algo.

- Não entendi, Trashgirl.

- Então eu vou explicar melhor: não sou eu, é você

- Como? 

Zeca nunca tinha ouvido aquilo antes. Ficou confuso.

- Gosto de conversar com você, você é interessante e tudo mais, mas é muito pesado. Estar com você é tudo sempre muito pesado.

- É por que eu sou sério demais? É isso? - perguntou ele, já prevendo debandada.

- Não, pesado é o modo como você encara a vida. Seu jeito de ver o mundo.

- É porque eu sou dramático. Cheiro à tragédia, é isso?

- Não, Zeca. É que, para você, viver é um fardo que tem sido arrastado, entende? Você tinha que achar alguém que te tirasse dessa, mas você parece satisfeito assim. Eu, por minha vez, estou procurando outra coisa. Não temos nada  oferecer um ao outro.

- Mas eu gosto de você, não basta?

- Não, infelizmente, "gostar" é um detalhe.

Silêncio.

Depois de abraçá-lo ternamente e de um "sinto muito" bastante sincero, Trashgirl arrumou as plumas de suas asas (ainda intactas naquela época) e saiu voando barzinho a fora. Zeca, por sua vez, matutou descontente sobre as justificativas dela, enquanto admirava e polia as correntes que o prendiam junto à terra.

Ouvindo The park (Feist)