21 de dez de 2011

Porque Hegel e eu não temos química (e era uma vez Fiona Apple)

Hegel
Hegel, cansei de você e de seu hermetismo. Será que eu sou muito burra ou é você que fala muito difícil? Ou as duas coisas? Não importa! Está tudo acabado entre nós! Tudo? Nada! Um flerte interessado somente da minha parte - é claro, o que você veria em mim? Essa francesinha geniosa?

Seja como for, não nascemos um para o outro. O Jornalista diria que não somos alma-gêmeas e não somos mesmo. Pensei que precisava de um tempo e que esse tempo me faria crescer e te entender. Eu achei que só precisasse ficar pronta para você, mas não foi assim. 

Desde 2005, seu livro na minha estante. E nada de te absorver: poros, língua, toque. Nada! E fico nos dando segundas chances ao quadrado, para ver se damos certos. Estava exausta quando conheci Schopenhauer e ele me tem feito ver as coisas sob outro ângulo: não sou eu, é você mesmo, talvez seja você mesmo, Hegel!

Mas não sou rancorosa:
 Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
("Olhos nos olhos", Chico Buarque)

Mas esbarrei com Fiona Apple ontem à noite. Nós duas estávamos num bar. Eu na platéia, ela no palco - naturalmente. E foi então que percebi: as segundas chances que guardara para Hegel deveria usar com ela. Me explico: ouvi "Criminal" pela primeira vez há uns doze anos atrás e não gostei. Nem da voz de Fiona, nem da música, nem do videoclipe. 


Quando a vi novamente, tanto tempo depois, percebi que não estava no momento certo quando nos conhecemos. Eu não havia estado pronta para Fiona Apple. E, de algum modo, não guardei a indiferença - acho que a jogo pela janela a cada virada de mês, como para espantar meus fantasmas e deixar arejar a cabeça. E valeu lhe dar as segundas chances - guardadas a sete chaves, afinal as nossas chances não podem ser despejadas por aí, como se fossem santinho em época de eleição - ou podem?

Fiona Apple foi uma "supresa" de 2011 para mim e gostei de tudo o que pude absorver ouvir degustar de seu trabalho. Gostei da voz de Fiona, das canções e dos videoclipes. Gostei mesmo.

Fiona Apple
Fico pensando se reencontros como esses são possíveis na vida real: você reencontra pessoas quando fica pronta para elas. Às vezes conhecemos pessoas fantásticas que parecem estar em outro tempo, outro universo. Eu já falei sobre isso aqui, sobre esperar esbarrar um dia e perceber que o tempo agora é o mesmo, é o mesmo fluxo temporal, é a mesma sintonia, a mesma língua.

Fiona Apple fala a minha língua - o que quer que isso signifique. O mesmo não se pode dizer de Hegel, mas Schopenhauer me entende. Alguém sempre me entende - ainda que um filósofo falecido.

You'll never touch these things that I hold
The skin of my emotions lies beneath my own
You'll never feel the heat of this soul
My fever burns me deeper than I've ever shown to you

("Never is a promisse", Fiona Apple)

3 comentários:

Tatiana Machado disse...

WOW Que idéia (com acento!) interessante :) De fato, se reencontramos pessoas com quem tivemos muito em comum e não achamos mais pó desse relacionamento de anos atrás, porque o contrário não seria possível? Também não gostava do trabalho de Fiona Apple que me lembra tardes intensas de MTV seguindo boy bands e sua colocação no top 20 e Disk MTV. Será que hoje gostaria dela? Você me instigou. POr onde começo? Beijos,

Rafael disse...

Hegel tinha aquela magnanimidade do século XIX que julgava ser capaz de produzir um "mundo filosófico", quase um monumentum. Totalmente avesso a nós, filhos deste tempo. É legal, é bacana, acho até belo como ele encara a arte clássica e romântica, mas o tempo e a filologia já mostraram que ele estava enganado em algumas coisas.

Já ouvi dizer que a tradução dele da Estética, esta recente da EDUSP, embora precisa, se perde numa linguagem bem complexa, e que a tradução portuguesa é mais agradável, embora peque na terminologia. Vai saber?

E Fiona Apple eu não conheço...

renatocinema disse...

O que você comenta sobre Hegel falo, infelizmente sobre Dante.....Tento faz tempo terminar A Divina Comédia e não entra em meu crânio. Será que foi a batida que sofri em 2008? Será que fiquei menos "rico". kkkk