8 de out de 2018

Sobre Bolsonaro e onde estamos amarrando o nosso burrinho


Isso não é sobre mim.

Mas eu tenho medo. Medo mesmo. Medo de verdade. Medo por conta das últimas questões políticas. Medo por ser mulher. Medo pelos meus alunos negros e pobres da periferia. Medo pelas minhas amigas mulheres, por todas as mulheres. Medo pelos meus amigos e amigas homossexuais. Medo pelas minorias. Medo pelas pessoas.

Ontem preparava uma aula e me deparei com Drummond: “Congresso Internacional do Medo”

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Mas o lance é não deixar o medo dominar, certo?

Então... Eu escrevo.

Vivemos num mundo polarizado, mas me recuso a embarcar nessa. Para mim, quem é pró-Bolsonaro não é “do mal” nem nada assim, porque isso aqui não é novela da Globo com mocinhos e bandidos. Satanizar não resolve, não contribui.

Além disso, a gente é complexo, a gente tem mais camadas. O fato é que Bolsonaro encontra umas coisinhas escondidas nessas camadas, hein? A meu ver, sem dúvida, ele é o tipo de pessoa que tem trazido o lado mais sombrio das pessoas à tona, disseminando discurso de ódio contra todo mundo que não seja como ele, todos que sejam desaprovados por ele.

Não entendo como mulheres, negros, homossexuais possam apoiar um candidato misógino, racista e homofóbico. Sim, porque existe. Não seria auto sabotagem votar em alguém que declara oficial e escancaradamente seu posicionamento sobre pessoas como você?

Sobre religião... Minha cabeça deu um nó! Como pessoas com crença religiosa tão firme poderiam apoiar alguém que dissemina e incita discursos de ódio?

[Para os religiosos seguidores do Cristianismo]

Novo testamento. Mensagem de Jesus: “amar ao próximo como a ti mesmo”. Passa a régua. É fácil amar quem pensa como eu, quem age como eu. O desafio é, minimamente, respeitar aquele que é diferente de mim, que de algum modo “desafia” minhas crenças. Se tinha alguém que poderia julgar prostitutas e cia, era Jesus. E ele não fez isso. Aí a ficha caiu. Isso não é sobre religião, isso é sobre os preconceitos de cada pessoa. E nada mais fácil do que usar a minha ‘crença religiosa’ para justificar meus preconceitos não?

Há pessoas que acreditam que Bolsonaro não passa de um Trump e que não vai conseguir fazer muita coisa, uma vez que não decide nada sozinho. Fato. Mas alguém viu a quantidade de políticos pró-Bolsonaro que entraram em cargos importantes nas eleições de ontem? E mesmo que não houvesse, o que impediria o candidato, caso eleito, de fazer “tudo a sua maneira”?

Juscelino quis fazer 50 anos em 5. Nós queremos voltar 50 em uma eleição.

Isso não é sobre mim. Isso é sobre nós.

30 de ago de 2018

Sobre mantras, pessoas péssimas e outras coisas

Não importa o quão péssimo seja o lugar: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimas sejam as pessoas: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimo seja o lugar: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimas sejam as pessoas: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimo seja o lugar: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimas sejam as pessoas: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimo seja o lugar: o importante é que você saiba lidar. Não importa o quão péssimas sejam as pessoas: o importante é que você saiba lidar.

Pronto, você agora tem um mantra.

Podemos interiorizar esse mantra, mas a pergunta que não quer calar: existe limite para tudo isso? Ou tudo bem viver o resto da vida assim?

14 de ago de 2018

Sobre envelhecer e outras coisas


Vi que sua pele estava um pouco áspera perto de um dos olhos e peguei um hidratante. Conforme ia passando-o com cuidado pelo rosto magro de pele fina, cheia de rugas, pensava nos sentidos do envelhecer. Também pensava em minha avó, em minha mãe. Em mim mesma.

Ninguém nos prepara para envelhecer, talvez porque seja uma daquelas experiências pelas quais temos que passar e fim. Tem coisas que posso te falar, coisas pelas quais já passei, mas não é a mesma coisa do que a sua própria vivência. Envelhecer deve ser uma dessas coisas.

Não digo nem pela vaidade, afinal, é feio ser velho. Pelo menos é o que nossa sociedade vende. Talvez ninguém nos prepare para isso porque ainda hoje, mesmo que algumas questões tenham melhorado, sinto que ainda se evita falar da velhice, como se ela fosse doença ou fosse contagiosa.

Digo tudo isso pelo receio de ter a cabeça lúcida e o corpo doente. Ou o corpo bom e a cabeça ruim. Bom, aparentemente, o que dá para fazer agora é cuidar de corpo e cabeça, coisa com a qual já venho me preocupando há algum tempo.

Mas fica sempre o mistério: como as coisas vão ser? E pergunto isso sem ansiedade, muito mais como quem procura uma pista perdida vindo do futuro, como um lenço esquecido sobre a mesa.

Terminei de passar o hidratante e olhei seu cabelo bem branquinho. Tão bonito. Ela ainda tão bonita. As rugas que são a sua história, li algo assim e achei tão bonito. Tão importante quanto ter essa velhice cuja imagem trago na cabeça é saber que as rugas do meu rosto serão as de uma história bonita de vida. E que a todo e cada momento possamos celebrar a vida, não importa se velha, menina ou moça.

13 de mai de 2018

Sobre quem marcha rumo ao Colapso

"Esteja sempre em movimento", ele lera num livro de auto-ajuda. "Ora, queda livre é movimento, não?".

Por dentro, desmoronava. Por fora, firme e resoluto, tomava conta de si, da família, da vida. Por dentro, cada vez tudo mais sombrio. Sombras que o arrastavam volta e meia para lugares torpes. Procurava-se entre os escombros e só ouvia um murmúrio abafado de que (não) queria ser salvo.

Dentro de sua cabeça, a marcação era 1, 2, 1, 2, 1,2... Marchava rumo ao Colapso. Firme e resoluto, como se não houvesse outro caminho, como se não houvessem escolhas. Marchava rumo ao Colapso. Com toda a calma do mundo.

4 de mai de 2018

Sobre quem muito idealiza (na visão de Ana)


Ela tem um sorriso desse solzinho de fim de tarde. Me olha com seus grandes olhos sem qualquer mistério. Anda descalça. Vai pegar um café. Descalça. Mulher solar, pés no chão. Amarra os longos cabelos bagunçados no alto da cabeça. Volta com o café. Me oferece, mas recuso: quero ficar olhando-a de perto. Apenas olhando. Repousar meus olhos em toda a sua pessoa. Ana me olha de volta e esse olhar repreende. Ela balança a cabeça. Deve ser virginiana, não sei. Prática que só. Mulher da terra, pés de sol.

Lembrei da vez em que disse-lhe:

- Ana, seu sorriso é desse solzinho de fim de tarde.

Mas ela não sorriu. E agora não sorri.

Repito agora:

- Ana, seu sorriso é desse solzinho de fim de tarde.

Ela afaga meus cabelos como uma mãe o faria e balança a cabeça de novo:

- Essa sua mania de idealizar as coisas ainda vai ser a sua perdição.

3 de mai de 2018

Sobre o que não faz sentido nessa minha, sua, nossa vida

Ultimamente, ando colecionado as coisas sem sentido na minha vida.

Por exemplo, o imposto de renda. Não faz sentido. Pago imposto em tudo que consumo e mais imposto por aquilo que ganho e uso o que ganho no que consumo (!) Não faz sentido.

Bom, até aí, também não faria sentido pagar escola particular ou convênio médico se pago meus impostos direitinho.

Mas... Espera... Raaaaaaios! A questão não é o imposto de renda!

A questão é tudo aquilo que não faz sentido na nossa vida e que vamos identificando ao longo do tempo. E quando você identifica essa tal coisa BUUUM! O mal está feito! (Será um mal mesmo?)

Porque é impossível não reagir: você pode se sentir de mil e uma maneiras... Ficar aborrecido (como estou agora), furioso... Ou pode até apelar para a boa e velha resistência e 'dar um migué', não realizando aquilo que aos seus olhos não faz sentido. Contudo, é bem possível que faça sentido para um número grande de pessoas, isso sem contar a 'importância' que a tal coisa pode ter no seu trabalho, vida familiar, sociedade etc.

Então a minha resistência no momento diz respeito a reclamar menos e ligar o som no último volume. Uma amiga me disse que precisamos escolher as nossas lutas e nem todas essas coisas sem sentido vão valer essa minha/ nossa luta. Então resisto a vontade doida e doída de reclamar loucamente. Sim, eu, esse pobre ser injustiçado!

E o que tenho por ora, de certo, é a gaveta do criado-mudo, cheia de coisas sem sentido que, às vezes, não me deixam dormir.

Bom, eu não sei quanto a vocês, mas eu ainda não sei o que fazer com essa minha coleção...

1 de mai de 2018

Sobre eu não ser uma lasanha congelada que fica pronta em 15 minutos

Pois é.

O título esdrúxulo me veio porque NÃO me vejo pronta.

Mas se não estou pronta, estou em processo, no caminho, a caminho.

Não estou pronta para ser mãe. Não estou pronta para envelhecer. Não estou pronta para perder quem amo.

Mas... Quem está?

(Filhos? Queria me tornar perfeita para depois ser mãe, mas obviamente não é assim que se segue)

(Envelhecer deve ser uma baita coisa difícil e não é sem algum pesar que constato as primeiras e acanhadas marcas de expressão no meu rosto)

(Minha religião me consola, mas... )

Mas eu não estava pronta para o mestrado. E cá estou

Mas eu não estava pronta para dividir minha vida com alguém. E cá estou.

Mas eu não me via pronta para o que a vida me reservava. E cá estou.

A gente fica pronto no caminho, se constrói no processo. E ah! Como eu amo o processo!

Estou neste exato momento no meio do caminho. Bem no meio. Olho para trás e digo:

- Noooooossa! Se fosse hoje, eu...

E aí dou as mais diversas soluções para histórias antigas. Como mudei. Mas, se olho para trás, é sem arrependimento, nostalgia ou qualquer coisa do tipo. É olhar para constatar o tudo que já passei e perceber que ainda não estou pronta.

Porque não, não sou uma lasanha de fica pronta em 15 minutos, da noite para do dia. Ninguém fica. Já me cobrei muito. Há muita gente que se cobra ainda. Ter todas as respostas e acenar com a 'vida feita', como se alguém pudesse. De fato. cada qual com as suas ilusões.

Bem no meio do caminho. Olho para frente e vejo um pouco de neblina. Então avanço. Lentamente. Com faróis baixos. Sempre segura. Em segurança - não porque a vida me transmita isso, mas porque é o que sinto em relação às minha escolhas.

Ouvindo Meridians.

30 de abr de 2018

Dos insuportáveis que nos cercam

Ela contou ao amigo sobre o colega de trabalho:

- ... É por isso que ele é insuportável!

- No seu lugar, eu teria me segurado para não rir dessas coisas que ele disse.

- Me segurei para não voar no pescoço dele, isso sim. Ambiente de trabalho, né? E o tamanho do moço...

Ele riu.

- Sabe... Se eu não estivesse casada, na certa, estaria sozinha...

- Por quê?

- Porque eu não teria paciência de ficar buscando. Ouço as histórias das minhas amigas, sabe? Não que só tenha caras otários por aí... Não é isso! Mas é comum que você se depare com gente que minhanossassinhora até achar alguém que você queira e te queira e aquela coisa toda.

- Entendo.

- Nossa, imagina eu sair com um cara como esse moço...

- Nossa, mas gente assim dá preguiça mesmo!


6 de mai de 2016

Confiando na desconfiança


Desconfio
da solução simplista
da receita fácil
da direita extremista
qualquer extremo, na verdade
que a vida é de matizes
não é binária
arbitrária?
Desconfio.

5 de mai de 2016

Sobre ingratidão

Ela olhou para ele, queixo confiante. Tão jovem. Balançou a cabeça, mas, dessa vez, não teve tristeza nem remorso. Colocou a mão em seu ombro:

- Fiz o que pude, mas agora a vida se encarrega de você.

E sumiu numa lufada de vento.

3 de mai de 2016

Sobre abordagens sedutoras (I)

Os dois são jovens e estão sentados num banco de praça. Acabaram de almoçar e ele deita a cabeça no colo dela. Ambos olham para os raios de sol que escorregam por entre as altas copas verdes.

É um certo encantamento que os tem rodeado.

Permanecem em silêncio por algum tempo. Um daqueles momentos mágicos.

- Você toma anticoncepcional? - ele dispara ansioso, enquanto ela lhe afaga os cabelos.

- Não - ela responde com naturalidade, embora tenha se surpreendido com a pergunta.

- Mas é bom, nunca se sabe, né?

Silêncio.

Os dois são jovens.

19 de abr de 2016

Sobre o "cidadão analfabeto" e outros absurdos da rede pública


Eu realmente acredito na escola pública. Se não acreditasse, não estaria há seis anos trabalhando nela, ora com língua inglesa, ora com leitura, como POSL. 

E embora já tenha visto muita coisa nesses seis anos, algumas ainda me assustam e me chocam. Uma delas é o discurso de uma categoria de docentes que acredita que não é necessário alfabetizar o aluno: mais importante do que isso é que o aluno seja "cidadão". Gestores aplaudem docentes, docentes aplaudem gestores e jovens se formam analfabetos no último ano do ensino fundamental (9º ano).

Ok. Há quem pense que ser cidadão é não jogar o lixo no chão e outras coisas assim. Cidadania vai muito, mas muito além mesmo. Cidadania é o exercício de direitos e deveres dentro de um Estado. Ora, ao não ensinar o aluno a ler e escrever (e interpretar!) estou tirando dele um de seus direitos, o de fazer parte de uma sociedade letrada. Alguém já parou para pensar o que isso implica?! O que eu tiro de uma criança quando tiro nessa dela a possibilidade de aprender a ler e escrever?

Quando não faço questão de alfabetizar um aluno, o estou excluindo dessa sociedade, sob o discurso do "cidadão analfabeto". Nego a uma criança um direito. Quando essa categoria faz isso, só reforça o status quo, trabalha para o governo que quer "cidadãos" incapazes de ler o mundo por meio da escrita. Sei bem que esta não é a única possibilidade de leitura de mundo, mas é uma muito importante. Trabalho com EJA (ensino de jovens e adultos) e há quem volte a estudar para poder pegar ônibus sozinho, uma vez que não sabe ler. as duas atividades de ler e escrever vão das coisas mais cotidianas até as coisas mais decisivas.

Mas, afinal, qual é o papel dos educadores? 


E tal categoria, mutias vezes, se mostra incapaz também de ensinar as crianças a não jogarem o lixo no chão, falham no que julgam ser "ensinar o aluno a ser cidadão". E tenho certeza que essa categoria, formada por gestores e docentes, não teria esse discurso assustador na rede particular, porque é um espaço onde isso não entraria. Ok, entram outras coisas, mas, enfim, não vem ao caso.

O que eu gosto na escola pública é a possibilidade de fazer o que você quiser, essa liberdade de trabalhar sem se estar presos a método engessados ou materiais didáticos. Agora, tem quem use isso para finalidades escusas. Mamar nas tetas do setor público é uma delas. Uma amiga muito querida, excelente professora, me disse certa vez que na rede pública você encontra os piores e os melhores professores. Cada vez concordo mais com ela: se por um lado, a rede pública é um espaço de liberdade e muito trabalho a se fazer, por outro, é o espaço onde muita gente se encosta para mão trabalhar e, por ser concursado, raramente poderia ser demitido.

Gente que não sobreviveria no setor privado, fosse por falta de competência, fosse por falta de comprometimento. Gente que envergonha a minha profissão. Gente que não deveria lidar com gente. Fazer trufas e vender Avon é menos nocivo, porque não estão comprometendo o futuro de crianças e, consequentemente, do país, considerando que me todo lugar pode-se encontrar gente assim.


O que eu queria ver mesmo era a tal categoria sustentando o discurso do "cidadão analfabeto" com seus próprios filhos na rede pública. Queria ver se topariam filhos analfabetos aos 15 anos, mas, ah, pelo menos não jogam lixo no chão.

A escola é tão mais do que tudo isso. Ela pode ser muito mais do que tudo isso.

28 de jan de 2016

Sobre gratidão, pessoas e tudo mais

Reclamei o ano de 2015 todinho das pessoas ingratas, de todos aqueles que não reconheceram aquilo que ofereci. Fosse o que fosse. E ofereço tudo. Sou pisciana, sabe como é, né? Horóscopos à parte, acho que peguei essa coisa de gratidão de um antigo chefe, pessoa realmente inspiradora. Pisciano também, vale ressaltar.

Ele valorizava as relações humanas. Mais do que tudo, talvez. E aprendi muito com ele sobre fazer um bom trabalho, não, um trabalho muito além do "bom". Foi alguém que me apoiou quando eu disse, por exemplo, que não conseguia conceber Educação sem afeto. E ele falava muito que devemos ser gratos e demonstrar gratidão.

E quando não obtive a gratidão que julguei merecer, bem, fiquei bem chateada (acho que fiquei só com uma parte do que ele disse a respeito). Mas passou. Porque as coisas passam. Se dissolvem. Se você dissolver as suas gotinhas de Dipirona num copo com bastante água, mal vai sentir o amargo. E aí o remédio desce mais fácil.

Só que, felizmente, me peguei encerrando 2015 e entrando em 2016 com uma outra perspectiva: é tempo de ser grata. E não digo isso porque botei tal ideia na minha listinha de ano novo, digo isso porque é algo que venho experimentando nos últimos meses. Gratidão.

Me percebi agradecendo às pessoas. Agradecendo muito. Muita gente. Pessoas maravilhosas que fazem (ou fizeram) parte da minha vida e contribuem (ou contribuíram) para que eu fosse me tornando alguém melhor. E percebi que tenho muito o que agradecer e muitos a quem agradecer.

Gente que não espera nada em troca. Gente que ajuda com palavra, cafuné, bombom. Gente que, do seu modo, quer o seu melhor e te apoia da melhor forma que pode. Gente que não some, que sente saudades e diz, que lembra o dia em que você vai começar no novo emprego e liga pra saber como foi. Gente que ouve sem julgar. Como não me sentir grata?

E então, não mais do que de repente, recebi a gratidão que tanto achei merecer. Reconheceram em mim aquilo que ofereci de melhor. O meu melhor que, mesmo sendo falho (visto que sou humana), foi o meu melhor. E, no fundo, acho que mereci. 

Seja como for, estou enxergando essa coisa de gratidão por uma outra ótica e isso não tem preço: sair do próprio umbigo, perceber como o outro se importa e demonstrar como aquilo faz diferença na nossa vida. Isso é simplesmente mágico.

22 de jan de 2016

Diário: Era um filme de um pianista, sabe?

Na videolocadora, depois de escolher três filmes com B., resolvo peguntar:

- Denis, tem um filme, sabe, que eu vi quando era bem pequena e ele falava sobre um pianista.

- Um pianista? - ele me incentivou a continuar.

Denis é o dono da videolocadora.

- E esse pianista se casa, tem um filho, mas a mulher morre e o deixa sozinho com o nenê. Aí o pianista fica amargo, até que se apaixona pela nova babá do filho que faz com que ele recupere a alegria de viver. Mas isso depois de muito tempo, o meninos já tinha uns dez, onze anos. Só que ele descobre que tinha uma doença terrível e não poderia mais tocar piano.

- Você não sabe nada do nome do filme?

- Não, só sei que é bem antigo. Talvez fosse em preto e branco...

Silêncio.

- Acho que estou pedindo demais, né, Dênis?

- A história me é familiar, mas não sei te dizer o nome do filme...

- Tudo bem. Vou procurar por aí de novo...

- Se eu descobrir, te aviso, okay?

Quinze minutos depois ele me manda, via Whatsapp, a sinopse de "Melodia imortal". Era aquele! Perguntei se ele tinha o DVD, mas a resposta foi negativa. Ficou de providenciar. Fui pesquisar o filme e descobri que ele é baseado em fatos reais, na vida de um pianista chamado Eddy Duchin.

Enquanto não consigo o filme, me deleito com a cena final:




20 de jan de 2016

Sobre homens inconvenientes e as coisas que me contam por aí (1)

Não. É isso mesmo: eu disse não. Então por que será que você insiste?

Eu disse não porque você não me interessa. Porque sou casada e, mesmo que não fosse, você não despertaria o meu interesse. E você é casado e, mesmo que não fosse, não despertaria o meu interesse. 

Eu desenhei uma linha no chão. Uma fronteira com giz branco. Achei que era o bastante. Porque eu fui clara e objetiva. Mas fui delicada e educada. Jaz aí o problema?

Porque você ultrapassou a fronteira que tracei no chão. Se a desenhei no chão, foi por um motivo - que você parece não entender. Minha delicadeza não encobriu minhas intenções de não ter nada com você. Então por que será que você insiste? 

Você ultrapassou a linha e me deu um apelidinho. Você me trata com uma intimidade que nunca lhe foi dada. Você se tornou um homem inconveniente.

E eu sou legal. Não mereço um homem inconveniente.

Eu desenhei uma linha no chão. Uma fronteira com giz branco. Achei que era o bastante. Não foi. Então a saída foi construir um fosso mesmo, cheio de crocodilos.


10 de jan de 2016

Sobre amizades, rompimentos e "Toy Story"

Eram grande amigas. Tinham se conhecido na escolinha, mas as afinidades fizeram com que se aproximassem, mesmo depois de terem saído de onde estudavam. Eram como água e vinho, mas não como água e óleo: embora muito diferentes, havia um respeito tão grande e verdadeiro que eram quase como irmãs. A mais velha e a mais nova. Não se viam com frequência, embora morassem próximas uma da outra. Contudo, sempre que podiam se encontravam para um sorvete e para colocar a vida em dia. E foi assim durante alguns bons anos.

Se foi é porque não é mais. De repente, não mais do que de repente, a mais velha tornou-se incomunicável. Não respondia telefonemas, mensagens, e-mails, cartas...

- Ei! O que aconteceu? Está tudo bem? Fiz alguma coisa que te magoou?

A amiga respondeu que andava muito ocupada. E, graças as redes sociais, a mais nova pôde ver como andava realmente ocupada: saindo com outros amigos, indo a outros lugares, fazendo outras coisas - das quais ela tinha sido deixada de lado.

Vitimando-se, sentiu-se como um dos dos brinquedos velhos de "Toy Story", daqueles com os quais Andy não queria mais brincar. Mas, de fato, não gostava de se vitimizar e, não vendo culpa de sua parte naquilo que havia ocorrido, atribuiu tudo à vida. Mas sem culpá-la. O amor pode acabar sem grandes pirotecnias, sem grandes razões, meio que inexplicavelmente. É a vida. Talvez com a amizade, que não deixa de ser um tipo de amor, fosse a mesma coisa.

5 de jan de 2016

Sobre minha avó, cozinha e saudade

- Minha avó fazia bolinhos deliciosos, de todos os legumes e verduras que você podia imaginar. E sempre ficavam excelentes!

Eu disse a B. na semana passada, enquanto ele devorava um delicioso bolinho de abobrinha. Era um bolinho frito e os bolinhos dela eram sempre fritos. E, de uma forma engraçada, eles fazem parte da minha infância.

Bolinho de espinafre, de arroz, de couve-flor... Ela batia os ovos com um garfo, coisa que demorei a aprender, e depois mergulhava os bolinhos e os empanava.

Não, eu não sou nostálgica, mas me bateu uma saudade boa da minha avó materna hoje de manhã, enquanto preparava um frango de panela. Ele me ensinou várias coisas, como pregar botões e picar alho. Me lembro que eu deveria ter uns oito ou nove anos e ela me explicou como se descascava o dente de alho e como, com cuidado para não se cortar, se picava o alho. Ajudei-a a temperar muito arroz e muito bife assim - e me sentia muito importante!

A cozinha tem o seu encantamento, mesmo em relação as coisas mais simples como picar alho e eu nunca me esqueci do modo como ela tinha me ensinado isso ou a temperar um bom bife à milanesa, uma de suas especialidades. Sua sopa de feijão com macarrão ave maria também era lendária, assim como seu bolo de cenoura.

Olhei a bandejinha onde antes estava o frango, agora com cascas de cebola, restos de alho e de frango, ainda cru, e me lembrei da comida fresca que fazia para nós quatro - meu avô, meu primo, minha irmã e eu - todos os dias. Sempre comida deliciosa.

Talvez ela tivesse gostado da minha comida. Acho que sim. Espero que sim. Espero um dia cozinhar como ela.

22 de dez de 2015

Sobre o retorno dos platônicos

Não foi culpa dela. A menos que ela fosse culpada por existir. É que existir às vezes bastava, às vezes era o suficiente. E era o caso. Mas não era culpa dela. Era culpa sim de uma certa luz por entre nuvens num fim de tarde, dessas que insistem em estar lá mesmo com chuva.

E ela também estava lá, mesmo com chuva. Guarda-chuva na mão, oferecendo uma carona. Mas por que falar de culpa? Ele se sentia tão... Leve. A vida fluía quando estavam juntos. Aquela mulher pequena e forte e leve e suave e intensa e... Cintilante. O esmalte de suas unhas, as palavras de sua boca, seus lábios.

E ele se viu como um colegial: o mesmo olhar, a mesma falta de jeito. Aquela idealização... Mas colegial na casa dos trinta? Complicado. Mas havia coisas mais complicadas. Mesmo porque todos sabemos que certas pessoas terão esse efeito sobre nós, não importa a idade - a nossa e a delas.

Queria passar o máximo de tempo possível ao seu lado, ouvindo sua voz e suas ideias e suas piadas terrivelmente sem graça.

Ela era tudo o que sua esposa não era.

21 de dez de 2015

Sobre a cova dos leões

Sonhei que havia caído na cova dos leões. Tentei escalar as paredes, mas nada. Muitos tentaram me resgatar com cordas e afins. Gritavam, tentando me motivar a, mais uma vez, tentar sair dali. Mas, depois de certo tempo, vi que não adiantava mais tentar.

E foi então que percebi que não me restava outra coisa se não ensinar os leões a rezar.

13 de dez de 2015

Sobre polarização, sapatos e livros

Faz um tempo que circula do Facebook a seguinte frase:





Achei interessante até perceber que este não passa de mais um exemplo de polarização.

Como assim?

A primeira acepção do Google é esta aqui:

polarização
substantivo feminino
  1. 1.
    ação de polarizar ou estado daí resultante.
  2. 2.
    concentração em extremos opostos (de grupos, interesses, atividades etc. antes alinhados entre si).


A garota que gosta de livros é colocada num polo e a que gosta de sapatos, no outro. Mas e se a tal garota gostar das duas coisas? Quem gosta de sapato é fútil? Quem gosta de livros é cult, inteligente e interessante? Desde quando preferências como livros ou sapatos são garantia de que a tal garota é um "bom partido", vale a pena e coisas do gênero? Não posso gostar de livros E de sapatos? Gostar de livros me faz uma pessoa melhor do que aquela que prefere sapatos?

Sei lá. Não vejo porque polarizar esse tipo de coisa quando as pessoas são tão mais complexas do que livros e sapatos e conselhos bobos como o sugerido acima.