6 de mai de 2016

Confiando na desconfiança


Desconfio
da solução simplista
da receita fácil
da direita extremista
qualquer extremo, na verdade
que a vida é de matizes
não é binária
arbitrária?
Desconfio.

5 de mai de 2016

Sobre ingratidão

Ela olhou para ele, queixo confiante. Tão jovem. Balançou a cabeça, mas, dessa vez, não teve tristeza nem remorso. Colocou a mão em seu ombro:

- Fiz o que pude, mas agora a vida se encarrega de você.

E sumiu numa lufada de vento.

3 de mai de 2016

Sobre abordagens sedutoras (I)

Os dois são jovens e estão sentados num banco de praça. Acabaram de almoçar e ele deita a cabeça no colo dela. Ambos olham para os raios de sol que escorregam por entre as altas copas verdes.

É um certo encantamento que os tem rodeado.

Permanecem em silêncio por algum tempo. Um daqueles momentos mágicos.

- Você toma anticoncepcional? - ele dispara ansioso, enquanto ela lhe afaga os cabelos.

- Não - ela responde com naturalidade, embora tenha se surpreendido com a pergunta.

- Mas é bom, nunca se sabe, né?

Silêncio.

Os dois são jovens.

19 de abr de 2016

Sobre o "cidadão analfabeto" e outros absurdos da rede pública


Eu realmente acredito na escola pública. Se não acreditasse, não estaria há seis anos trabalhando nela, ora com língua inglesa, ora com leitura, como POSL. 

E embora já tenha visto muita coisa nesses seis anos, algumas ainda me assustam e me chocam. Uma delas é o discurso de uma categoria de docentes que acredita que não é necessário alfabetizar o aluno: mais importante do que isso é que o aluno seja "cidadão". Gestores aplaudem docentes, docentes aplaudem gestores e jovens se formam analfabetos no último ano do ensino fundamental (9º ano).

Ok. Há quem pense que ser cidadão é não jogar o lixo no chão e outras coisas assim. Cidadania vai muito, mas muito além mesmo. Cidadania é o exercício de direitos e deveres dentro de um Estado. Ora, ao não ensinar o aluno a ler e escrever (e interpretar!) estou tirando dele um de seus direitos, o de fazer parte de uma sociedade letrada. Alguém já parou para pensar o que isso implica?! O que eu tiro de uma criança quando tiro nessa dela a possibilidade de aprender a ler e escrever?

Quando não faço questão de alfabetizar um aluno, o estou excluindo dessa sociedade, sob o discurso do "cidadão analfabeto". Nego a uma criança um direito. Quando essa categoria faz isso, só reforça o status quo, trabalha para o governo que quer "cidadãos" incapazes de ler o mundo por meio da escrita. Sei bem que esta não é a única possibilidade de leitura de mundo, mas é uma muito importante. Trabalho com EJA (ensino de jovens e adultos) e há quem volte a estudar para poder pegar ônibus sozinho, uma vez que não sabe ler. as duas atividades de ler e escrever vão das coisas mais cotidianas até as coisas mais decisivas.

Mas, afinal, qual é o papel dos educadores? 


E tal categoria, mutias vezes, se mostra incapaz também de ensinar as crianças a não jogarem o lixo no chão, falham no que julgam ser "ensinar o aluno a ser cidadão". E tenho certeza que essa categoria, formada por gestores e docentes, não teria esse discurso assustador na rede particular, porque é um espaço onde isso não entraria. Ok, entram outras coisas, mas, enfim, não vem ao caso.

O que eu gosto na escola pública é a possibilidade de fazer o que você quiser, essa liberdade de trabalhar sem se estar presos a método engessados ou materiais didáticos. Agora, tem quem use isso para finalidades escusas. Mamar nas tetas do setor público é uma delas. Uma amiga muito querida, excelente professora, me disse certa vez que na rede pública você encontra os piores e os melhores professores. Cada vez concordo mais com ela: se por um lado, a rede pública é um espaço de liberdade e muito trabalho a se fazer, por outro, é o espaço onde muita gente se encosta para mão trabalhar e, por ser concursado, raramente poderia ser demitido.

Gente que não sobreviveria no setor privado, fosse por falta de competência, fosse por falta de comprometimento. Gente que envergonha a minha profissão. Gente que não deveria lidar com gente. Fazer trufas e vender Avon é menos nocivo, porque não estão comprometendo o futuro de crianças e, consequentemente, do país, considerando que me todo lugar pode-se encontrar gente assim.


O que eu queria ver mesmo era a tal categoria sustentando o discurso do "cidadão analfabeto" com seus próprios filhos na rede pública. Queria ver se topariam filhos analfabetos aos 15 anos, mas, ah, pelo menos não jogam lixo no chão.

A escola é tão mais do que tudo isso. Ela pode ser muito mais do que tudo isso.

28 de jan de 2016

Sobre gratidão, pessoas e tudo mais

Reclamei o ano de 2015 todinho das pessoas ingratas, de todos aqueles que não reconheceram aquilo que ofereci. Fosse o que fosse. E ofereço tudo. Sou pisciana, sabe como é, né? Horóscopos à parte, acho que peguei essa coisa de gratidão de um antigo chefe, pessoa realmente inspiradora. Pisciano também, vale ressaltar.

Ele valorizava as relações humanas. Mais do que tudo, talvez. E aprendi muito com ele sobre fazer um bom trabalho, não, um trabalho muito além do "bom". Foi alguém que me apoiou quando eu disse, por exemplo, que não conseguia conceber Educação sem afeto. E ele falava muito que devemos ser gratos e demonstrar gratidão.

E quando não obtive a gratidão que julguei merecer, bem, fiquei bem chateada (acho que fiquei só com uma parte do que ele disse a respeito). Mas passou. Porque as coisas passam. Se dissolvem. Se você dissolver as suas gotinhas de Dipirona num copo com bastante água, mal vai sentir o amargo. E aí o remédio desce mais fácil.

Só que, felizmente, me peguei encerrando 2015 e entrando em 2016 com uma outra perspectiva: é tempo de ser grata. E não digo isso porque botei tal ideia na minha listinha de ano novo, digo isso porque é algo que venho experimentando nos últimos meses. Gratidão.

Me percebi agradecendo às pessoas. Agradecendo muito. Muita gente. Pessoas maravilhosas que fazem (ou fizeram) parte da minha vida e contribuem (ou contribuíram) para que eu fosse me tornando alguém melhor. E percebi que tenho muito o que agradecer e muitos a quem agradecer.

Gente que não espera nada em troca. Gente que ajuda com palavra, cafuné, bombom. Gente que, do seu modo, quer o seu melhor e te apoia da melhor forma que pode. Gente que não some, que sente saudades e diz, que lembra o dia em que você vai começar no novo emprego e liga pra saber como foi. Gente que ouve sem julgar. Como não me sentir grata?

E então, não mais do que de repente, recebi a gratidão que tanto achei merecer. Reconheceram em mim aquilo que ofereci de melhor. O meu melhor que, mesmo sendo falho (visto que sou humana), foi o meu melhor. E, no fundo, acho que mereci. 

Seja como for, estou enxergando essa coisa de gratidão por uma outra ótica e isso não tem preço: sair do próprio umbigo, perceber como o outro se importa e demonstrar como aquilo faz diferença na nossa vida. Isso é simplesmente mágico.

22 de jan de 2016

Diário: Era um filme de um pianista, sabe?

Na videolocadora, depois de escolher três filmes com B., resolvo peguntar:

- Denis, tem um filme, sabe, que eu vi quando era bem pequena e ele falava sobre um pianista.

- Um pianista? - ele me incentivou a continuar.

Denis é o dono da videolocadora.

- E esse pianista se casa, tem um filho, mas a mulher morre e o deixa sozinho com o nenê. Aí o pianista fica amargo, até que se apaixona pela nova babá do filho que faz com que ele recupere a alegria de viver. Mas isso depois de muito tempo, o meninos já tinha uns dez, onze anos. Só que ele descobre que tinha uma doença terrível e não poderia mais tocar piano.

- Você não sabe nada do nome do filme?

- Não, só sei que é bem antigo. Talvez fosse em preto e branco...

Silêncio.

- Acho que estou pedindo demais, né, Dênis?

- A história me é familiar, mas não sei te dizer o nome do filme...

- Tudo bem. Vou procurar por aí de novo...

- Se eu descobrir, te aviso, okay?

Quinze minutos depois ele me manda, via Whatsapp, a sinopse de "Melodia imortal". Era aquele! Perguntei se ele tinha o DVD, mas a resposta foi negativa. Ficou de providenciar. Fui pesquisar o filme e descobri que ele é baseado em fatos reais, na vida de um pianista chamado Eddy Duchin.

Enquanto não consigo o filme, me deleito com a cena final:




20 de jan de 2016

Sobre homens inconvenientes e as coisas que me contam por aí (1)

Não. É isso mesmo: eu disse não. Então por que será que você insiste?

Eu disse não porque você não me interessa. Porque sou casada e, mesmo que não fosse, você não despertaria o meu interesse. E você é casado e, mesmo que não fosse, não despertaria o meu interesse. 

Eu desenhei uma linha no chão. Uma fronteira com giz branco. Achei que era o bastante. Porque eu fui clara e objetiva. Mas fui delicada e educada. Jaz aí o problema?

Porque você ultrapassou a fronteira que tracei no chão. Se a desenhei no chão, foi por um motivo - que você parece não entender. Minha delicadeza não encobriu minhas intenções de não ter nada com você. Então por que será que você insiste? 

Você ultrapassou a linha e me deu um apelidinho. Você me trata com uma intimidade que nunca lhe foi dada. Você se tornou um homem inconveniente.

E eu sou legal. Não mereço um homem inconveniente.

Eu desenhei uma linha no chão. Uma fronteira com giz branco. Achei que era o bastante. Não foi. Então a saída foi construir um fosso mesmo, cheio de crocodilos.


10 de jan de 2016

Sobre amizades, rompimentos e "Toy Story"

Eram grande amigas. Tinham se conhecido na escolinha, mas as afinidades fizeram com que se aproximassem, mesmo depois de terem saído de onde estudavam. Eram como água e vinho, mas não como água e óleo: embora muito diferentes, havia um respeito tão grande e verdadeiro que eram quase como irmãs. A mais velha e a mais nova. Não se viam com frequência, embora morassem próximas uma da outra. Contudo, sempre que podiam se encontravam para um sorvete e para colocar a vida em dia. E foi assim durante alguns bons anos.

Se foi é porque não é mais. De repente, não mais do que de repente, a mais velha tornou-se incomunicável. Não respondia telefonemas, mensagens, e-mails, cartas...

- Ei! O que aconteceu? Está tudo bem? Fiz alguma coisa que te magoou?

A amiga respondeu que andava muito ocupada. E, graças as redes sociais, a mais nova pôde ver como andava realmente ocupada: saindo com outros amigos, indo a outros lugares, fazendo outras coisas - das quais ela tinha sido deixada de lado.

Vitimando-se, sentiu-se como um dos dos brinquedos velhos de "Toy Story", daqueles com os quais Andy não queria mais brincar. Mas, de fato, não gostava de se vitimizar e, não vendo culpa de sua parte naquilo que havia ocorrido, atribuiu tudo à vida. Mas sem culpá-la. O amor pode acabar sem grandes pirotecnias, sem grandes razões, meio que inexplicavelmente. É a vida. Talvez com a amizade, que não deixa de ser um tipo de amor, fosse a mesma coisa.

5 de jan de 2016

Sobre minha avó, cozinha e saudade

- Minha avó fazia bolinhos deliciosos, de todos os legumes e verduras que você podia imaginar. E sempre ficavam excelentes!

Eu disse a B. na semana passada, enquanto ele devorava um delicioso bolinho de abobrinha. Era um bolinho frito e os bolinhos dela eram sempre fritos. E, de uma forma engraçada, eles fazem parte da minha infância.

Bolinho de espinafre, de arroz, de couve-flor... Ela batia os ovos com um garfo, coisa que demorei a aprender, e depois mergulhava os bolinhos e os empanava.

Não, eu não sou nostálgica, mas me bateu uma saudade boa da minha avó materna hoje de manhã, enquanto preparava um frango de panela. Ele me ensinou várias coisas, como pregar botões e picar alho. Me lembro que eu deveria ter uns oito ou nove anos e ela me explicou como se descascava o dente de alho e como, com cuidado para não se cortar, se picava o alho. Ajudei-a a temperar muito arroz e muito bife assim - e me sentia muito importante!

A cozinha tem o seu encantamento, mesmo em relação as coisas mais simples como picar alho e eu nunca me esqueci do modo como ela tinha me ensinado isso ou a temperar um bom bife à milanesa, uma de suas especialidades. Sua sopa de feijão com macarrão ave maria também era lendária, assim como seu bolo de cenoura.

Olhei a bandejinha onde antes estava o frango, agora com cascas de cebola, restos de alho e de frango, ainda cru, e me lembrei da comida fresca que fazia para nós quatro - meu avô, meu primo, minha irmã e eu - todos os dias. Sempre comida deliciosa.

Talvez ela tivesse gostado da minha comida. Acho que sim. Espero que sim. Espero um dia cozinhar como ela.

22 de dez de 2015

Sobre o retorno dos platônicos

Não foi culpa dela. A menos que ela fosse culpada por existir. É que existir às vezes bastava, às vezes era o suficiente. E era o caso. Mas não era culpa dela. Era culpa sim de uma certa luz por entre nuvens num fim de tarde, dessas que insistem em estar lá mesmo com chuva.

E ela também estava lá, mesmo com chuva. Guarda-chuva na mão, oferecendo uma carona. Mas por que falar de culpa? Ele se sentia tão... Leve. A vida fluía quando estavam juntos. Aquela mulher pequena e forte e leve e suave e intensa e... Cintilante. O esmalte de suas unhas, as palavras de sua boca, seus lábios.

E ele se viu como um colegial: o mesmo olhar, a mesma falta de jeito. Aquela idealização... Mas colegial na casa dos trinta? Complicado. Mas havia coisas mais complicadas. Mesmo porque todos sabemos que certas pessoas terão esse efeito sobre nós, não importa a idade - a nossa e a delas.

Queria passar o máximo de tempo possível ao seu lado, ouvindo sua voz e suas ideias e suas piadas terrivelmente sem graça.

Ela era tudo o que sua esposa não era.

21 de dez de 2015

Sobre a cova dos leões

Sonhei que havia caído na cova dos leões. Tentei escalar as paredes, mas nada. Muitos tentaram me resgatar com cordas e afins. Gritavam, tentando me motivar a, mais uma vez, tentar sair dali. Mas, depois de certo tempo, vi que não adiantava mais tentar.

E foi então que percebi que não me restava outra coisa se não ensinar os leões a rezar.

13 de dez de 2015

Sobre polarização, sapatos e livros

Faz um tempo que circula do Facebook a seguinte frase:





Achei interessante até perceber que este não passa de mais um exemplo de polarização.

Como assim?

A primeira acepção do Google é esta aqui:

polarização
substantivo feminino
  1. 1.
    ação de polarizar ou estado daí resultante.
  2. 2.
    concentração em extremos opostos (de grupos, interesses, atividades etc. antes alinhados entre si).


A garota que gosta de livros é colocada num polo e a que gosta de sapatos, no outro. Mas e se a tal garota gostar das duas coisas? Quem gosta de sapato é fútil? Quem gosta de livros é cult, inteligente e interessante? Desde quando preferências como livros ou sapatos são garantia de que a tal garota é um "bom partido", vale a pena e coisas do gênero? Não posso gostar de livros E de sapatos? Gostar de livros me faz uma pessoa melhor do que aquela que prefere sapatos?

Sei lá. Não vejo porque polarizar esse tipo de coisa quando as pessoas são tão mais complexas do que livros e sapatos e conselhos bobos como o sugerido acima.

15 de nov de 2015

Sobre a nova moda do "amiga, não se apega!"

Então é essa a nova moda, a nova tendência: você se desfaz de quem vai embora porque é preciso desapegar. Nada de ter o seu tempo para digerir o fim, viver seu luto, fazer um balanço (não só do fim da relação, mas da própria relação em si): o negócio é deixar o outro para trás, como se ele não tivesse feito parte de nada, da sua vida, da sua história, de quem você foi, mesmo que por um breve espaço de tempo.

Se apegar é brega? Feio? Old fashioned? Deve-se ter vergonha de não superar tudo na velocidade da luz? Parece que é mais uma coisa que alguém de fora, que nada sabe sobre nós, impõe para a vida de dentro, a nossa vida.

Aprendi muito com meus términos e eu não seria quem sou hoje se não tivesse passado por essas experiências, tendo tirado o melhor que pude delas. Podemos aprender muito com a frustração, com o sofrimento, com aquela coisa de tudo ter saído muito diferente do que tínhamos planejado. Não somos deuses, não controlamos os sentimentos dos outros - e, muitas vezes, nem os nossos

Não é necessário ostentá-los, mas fingir que não estão lá, escondê-los debaixo do tapete de um sorriso para quem. E a aí você quer mostrar que estar bem ou quer ficar bem? para ficar bem, é preciso tempo, agora, qualquer pode mostrar do Facebook o quão feliz depois do fim de um casamento de 20 anos.

Não sou psicóloga, terapeuta nem nada assim, mas imagino que passar por cima de coisas em vez de tentar digeri-las pode nos fazer arrastar alguns cadáveres indefinidamente. São os negócios pendentes. Aí a pessoa nunca mais consegue se relacionar bem com os outros 

A vida segue, é claro, mas cada um de nós sabe o seu tempo, o seu ritmo, o seu passo - com o sapato que for, mas de preferência um que não machuque os calos.

Eu nunca deixaria que alguém me forçasse a superar um término antes do meu tempo. E agradeço a todos que sempre respeitaram isso

P.S. Pantera, lembrei tanto das nossas conversas! =)

Ouvindo "Lost stars" (Keira Knightley)

27 de out de 2015

Sobre o mundo dos adultos e outras coisas I

Nunca tive problema com o mundo dos adultos, aquela parte das responsabilidades, das contas e tudo isso que assusta tanta gente. Talvez em parte por conta do meu temperamento, em parte por conta da criação que tive. Os meus medos sempre foram outros...

Às vezes, esbarro com um ou outro pela rua. Mas peço desculpas (outra coisa de minha criação) e ambos seguimos nossos caminhos. Por vezes, precisamos sentar, tomar um café e discutir a relação. Contudo, ultimamente, eles devem estar andando por outras bandas, pois raramente nos vemos. No momento, os problemas são outros...

Falar em problema é meio pesado, mas são coisas que realmente incomodam. Uma coisa pode incomodar em vários níveis e o nível do dia é:

COISAS QUE SÃO NATURALIZADAS EMBORA NÃO SEJAM NATURAIS

Na verdade, pensando bem, existe uma lista disso para a vida, mas meu objetivo é só o de pensar nas coisas do mundo adulto. E uma que me assusta um pouco é o trabalho. Ou melhor, o modo como as pessoas lidam com o trabalho.

A maioria das pessoas com quem convivo trabalha demais. Mas quando eu digo demais, é demais mesmo. E aí fica naturalizado que tudo bem você varar madrugadas trabalhando em casa ou na empresa. Tudo bem deixar de almoçar e de se voltar a outras necessidades, tudo por conta do trabalho.

E tudo isso feito com frequência.

E é gente organizada, muito organizada mesmo - então, não, o problema não é organização.

Amo meu trabalho, quem me conhece sabe disso, mas fazer da vida o trabalho é... simplesmente... complicado. E se falo dessas pessoas que exageram quando o assunto é trabalho é porque estou tentando não enveredar por esse caminho. Na verdade, já enveredei e meu esforço é o de cair fora na próxima saída ou retorno. Já até liguei a seta! E ela grita:

CHEEEGAAAAA

(com todas as duas vogais que a palavra possui)

Mas, sabe como é, digamos que estou na Marginal Tietê e conseguir uma saída assim, fácil, não é exatamente, digamos, fácil. Mas a seta já está piscando e isso é um sinal - muito mais para mim do que para os outros.

Pensando bem, essa história toda piora ainda mais quando passam a celebrar esse excesso de trabalho. Não que haja uma competição para ver quem perde mais noites de sono preparando reuniões ou coisas assim, mas vejo as pessoas falando com um certo orgulho de quanto tempo se dedicaram a essa ou àquela atividade em detrimento de coisas essenciais.

E, assim, vão perdendo tudo: de dentes de leite do primogênito a shows incríveis do U2 (porque é preciso preparar a prova para dia X) e assim por diante.

Achei, primeiro, que isso fosse coisa da minha geração, mas desconfio que é coisa do nosso tempo mesmo. Seja como for, é bom mergulhar no trabalho e fazer cinco chegadas do nado medley, mas a vida não é só isso: a vida é também toboágua e pedalinho.

Sobre gente dita sensível

De que adianta a pessoa ter sensibilidade para escrever se não a tem para lidar com pessoas? Que seja um autor distante e não um conhecido querido.

26 de ago de 2015

Sobre galãzinhos da auto-ajuda

Devo estar ficando chata, porque ando desconfiando de todo mundo que me aparece com receita pronta, resposta certa, solução 100% garantida. Principalmente quando a receita, a resposta e a solução se referem à aprendizagem e, consequentemente, ao ser humano.

Por isso, quando o vi, tão bonito no palco, com seu cabelo milimetricamente arrumado, torci o nariz.

Eu já sabia bem quem ele era. Vê-lo ao vivo, com suas palavras sedutoras, seu discurso de auto-ajuda, seu sentimentalismo barato, sua auto-promoção cansativa, sua voz doce e mansa,  sua cara sem barba de bom moço, o modo como falava de grande escritores como se tivesse intimidade, a rasgação de seda... Sério. 

E a plateia ia ao delírio:

- Queria pelo menos uma noite com ele - ouvi uma moça dizer.

Mesmo?

Acho que quase ninguém se deu conta dos desserviços que ele vem prestando. Um picareta é sempre um picareta, mas um picareta que ocupa cargo político me incomoda mais, pois ele está me representando, ainda que mal e porcamente. Quem me representa é alguém que escreve livros fazendo pastiche com as ideias dos grandes educadores e filósofos, dizendo serem suas.

Só não sei o que é pior: aquele que engana ou o que se deixa enganar. Ou, olhando por outro ângulo: parece haver mais preocupação em tirar fotos com ele e examinar com cuidado o quão justa sua calça  é do que em ver o que ele realmente tem feito.

21 de ago de 2015

Sobre o garçom mais simpático do mundo

Mais uma vez cá estou eu falando sobre despedidas... Será que isso é um sinal? Possivelmente, só não sei ainda de quê...

Acontece que eu e B. costumamos frequentar uma pizzaria perto de casa. Gostamos muito de lá: a pizza é boa, assim como o preço. E o atendimento é, sem dúvida, um diferencial - por isso mesmo escolhi escrever uma frase só para ele, para destacá-lo.

A equipe de garçons é muito boa e um deles, desde o começo, chamou minha atenção: Joaquim. Outro motivo que me faz gostar desse lugar é o fato dos garçons usarem crachás e eu saber seus nomes. Gosto dessa humanização, sabe? Antes de ser funcionário, é ser humano e tem nome, então por que não ter um crachá para que todos saibam quem é aquela pessoa? E eu sempre fico imaginando que história de vida esses homens trazem por trás do

"Calabresa"

"Perperoni"

"Palmito"

O fato é que Joaquim (afinal, a história hoje é sobre ele...) é um dos garçons das pizzas doces - que, diga-se de passagem, são excelentes - e é o garçom mais alegre que eu conheço. Extremamente simpático e de sorriso sincero, ele era conhecido como "o garçon das pizzas doces".

Digo isso porque, certa vez, senti sua falta e vi um novo rapazinho (que parecia a personagem Tintin de Hergè) trabalhando como garçom. Conclusão? Perguntei a um dos garçons sobre Joaquim. Ele suspirou e disse que Joaquim estava de aviso prévio, que estava cansado de lá e que ninguém servia pizza doce como ele.

Fiquei feliz por saber que todos reconheciam seu trabalho, mas muito triste em saber sobre o aviso prévio. Temi nunca mais vê-lo nem poder dizer:

- Olha, eu gosto mesmo do seu trabalho!

Fui para casa pensativa. Como as pessoas podem fazer a diferença em nossas vidas e não se darem conta disso? Eu não podia pensar que Joaquim iria embora sem saber que ele fazia a diferença no mundo, colocando amor no seu trabalho, na função que exercia.

Essas coisas são importantes, sabe? As pessoas são importantes e devem ser reconhecidas, assim como sua dedicação e seu trabalho. E tenho para mim muito essa coisa de gratidão, agradecer ao outro pelas coisas que faz, bem feitas, mesmo que isso, em tese, não passe de sua "obrigação".

Lembrei daquela frase: "O trabalho dignifica o homem" e Joaquim me passou essa coisa de dignidade em todas as vezes que o encontramos na pizzaria. E eu não podia deixar que ele fosse embora sem que soubesse disso.

Na vez seguinte que fomos à pizzaria, antes de ir embora, resolvi falar com ele. Fui sem graça, mas resolvida, sem querer atrapalhá-lo em seu horário de serviço:

- Com licença... Percebemos sua ausência na última vez que viemos aqui e perguntamos sobre você a um colega. Ele disse que você está de partida. Espero que você seja feliz nessa nova fase da sua vida e saiba que ninguém serve pizzas doces como você.

Ele me sorriu feliz, com uma pizza em cada mão, e agradeceu.

E foi assim que eu disse adeus a Joaquim.


26 de jul de 2015

Sobre despedidas incompletas

Ela tem uns quarenta e poucos anos. É casada e tem dois filhos já criados. Veio de Minas assim que casou e, depois, acabou voltando poucas vezes para ver a família. Poucas vezes. Os filhos, o marido, o trabalho, a vida. Tudo chama. Criou raízes em São Paulo e voltou poucas vezes para casa. Casa? Sua casa agora era São Paulo, zona sul da cidade, numa casinha simples, bonita e aconchegante na periferia.

Foi um baque quando recebeu a notícia da morte do pai, em 26 de dezembro. Logo após o Natal. A mãe tinha vindo à São Paulo, então ele tinha morrido sozinho. Ia voltar para Minas. Fizeram as malas e foram s'imbora.

Ela não chorou no enterro, mas ficou impressionada como o pai tinha a cabeça branquinha. Não tinha visto seus cabelos ficarem brancos. Não chorou. Voltou para São Paulo. A vida continua, não? A vida seguia, implacável. os filhos, o marido, o trabalho, a vida. As raízes fincadas em outro lugar.

Um dia, ela subia a Brigadeiro, a caminho do serviço, dentro de um ônibus. E um outro ônibus parou ao lado. Lá, ela avistou um senhorzinho de cabelos brancos. Então, chorou.

Ouvindo Once upon a time (Air)


15 de jul de 2015

Wonderland é aqui ao lado

Tudo começou quando ela viajou para o interior, onde o pai de seu namorado tinha uma bela chácara. Lá, plantavam café e produziam mel e era um lugar realmente adorável. Sempre que ia pra lá, ela levava sua câmera fotográfica para registrar plantas, insetos e demais coisas interessantes que pudesse encontrar.

Acontece que, dessa vez, o sogro lhe disse que havia um coelho branco circulando por entre os pés de café. Um coelho branco! Ele tinha fugido do terreno do vizinho e agora corria pela propriedade. 

Aquilo deixou a jovem extremamente empolgada: imagine tirar uma foto do tal coelho branco! Assim, munida de sua máquina Nikon, seguiu andando calmamente por entre os pés de café. Engraçado como agora eles pareciam em quantidade muito maior do que ela tinha percebido e, quando se deu conta, estava perdida: não conseguia encontrar o caminho de volta ao seu ponto de partida.

"Bem, vou continuar atrás do coelho e uma hora encontro de novo o caminho que me trouxe até aqui", pensou ela com seu vestido azul. 

Não se sabe se a jovem encontrou o coelho branco, porque ela simplesmente nunca mais foi vista. Apenas encontraram sua máquina fotográfica, caída, ao lado de um montinho de cogumelos.

14 de jun de 2015

Sobre a criança como um fim para um mundo melhor

A discussão era a questão dos direitos da criança e do adolescente. ECA e afins. E fui tomada por uma sensação grande de desconforto. Me explico.

O clichê que não saía da boca das pessoas era o de que a criança e o jovem são o futuro da nação, logo deve-se cuidar deles e protegê-lo. Ora, isso está certo, mas por que não se pensa em cuidar de ambos pelo simples cuidado? Por que preciso pensar nesse cuidado visando um favorecimento futuro, uma melhor sociedade? Não posso pensar em cuidar de ambos por serem seres humanos mais frágeis e em formação?

Penso que tudo aquilo que diz respeito a um olhar diferenciado para eles deva ser levado em conta independentemente de futuro. O futuro não deve ser um fim para que haja uma preocupação em garantir os direitos da criança e do adolescente.

A criança não vale pela criança? O jovem não vale pelo jovem?