6 de mai de 2016

Confiando na desconfiança


Desconfio
da solução simplista
da receita fácil
da direita extremista
qualquer extremo, na verdade
que a vida é de matizes
não é binária
arbitrária?
Desconfio.

5 de mai de 2016

Sobre ingratidão

Ela olhou para ele, queixo confiante. Tão jovem. Balançou a cabeça, mas, dessa vez, não teve tristeza nem remorso. Colocou a mão em seu ombro:

- Fiz o que pude, mas agora a vida se encarrega de você.

E sumiu numa lufada de vento.

3 de mai de 2016

Sobre abordagens sedutoras (I)

Os dois são jovens e estão sentados num banco de praça. Acabaram de almoçar e ele deita a cabeça no colo dela. Ambos olham para os raios de sol que escorregam por entre as altas copas verdes.

É um certo encantamento que os tem rodeado.

Permanecem em silêncio por algum tempo. Um daqueles momentos mágicos.

- Você toma anticoncepcional? - ele dispara ansioso, enquanto ela lhe afaga os cabelos.

- Não - ela responde com naturalidade, embora tenha se surpreendido com a pergunta.

- Mas é bom, nunca se sabe, né?

Silêncio.

Os dois são jovens.

19 de abr de 2016

Sobre o "cidadão analfabeto" e outros absurdos da rede pública


Eu realmente acredito na escola pública. Se não acreditasse, não estaria há seis anos trabalhando nela, ora com língua inglesa, ora com leitura, como POSL. 

E embora já tenha visto muita coisa nesses seis anos, algumas ainda me assustam e me chocam. Uma delas é o discurso de uma categoria de docentes que acredita que não é necessário alfabetizar o aluno: mais importante do que isso é que o aluno seja "cidadão". Gestores aplaudem docentes, docentes aplaudem gestores e jovens se formam analfabetos no último ano do ensino fundamental (9º ano).

Ok. Há quem pense que ser cidadão é não jogar o lixo no chão e outras coisas assim. Cidadania vai muito, mas muito além mesmo. Cidadania é o exercício de direitos e deveres dentro de um Estado. Ora, ao não ensinar o aluno a ler e escrever (e interpretar!) estou tirando dele um de seus direitos, o de fazer parte de uma sociedade letrada. Alguém já parou para pensar o que isso implica?! O que eu tiro de uma criança quando tiro nessa dela a possibilidade de aprender a ler e escrever?

Quando não faço questão de alfabetizar um aluno, o estou excluindo dessa sociedade, sob o discurso do "cidadão analfabeto". Nego a uma criança um direito. Quando essa categoria faz isso, só reforça o status quo, trabalha para o governo que quer "cidadãos" incapazes de ler o mundo por meio da escrita. Sei bem que esta não é a única possibilidade de leitura de mundo, mas é uma muito importante. Trabalho com EJA (ensino de jovens e adultos) e há quem volte a estudar para poder pegar ônibus sozinho, uma vez que não sabe ler. as duas atividades de ler e escrever vão das coisas mais cotidianas até as coisas mais decisivas.

Mas, afinal, qual é o papel dos educadores? 


E tal categoria, mutias vezes, se mostra incapaz também de ensinar as crianças a não jogarem o lixo no chão, falham no que julgam ser "ensinar o aluno a ser cidadão". E tenho certeza que essa categoria, formada por gestores e docentes, não teria esse discurso assustador na rede particular, porque é um espaço onde isso não entraria. Ok, entram outras coisas, mas, enfim, não vem ao caso.

O que eu gosto na escola pública é a possibilidade de fazer o que você quiser, essa liberdade de trabalhar sem se estar presos a método engessados ou materiais didáticos. Agora, tem quem use isso para finalidades escusas. Mamar nas tetas do setor público é uma delas. Uma amiga muito querida, excelente professora, me disse certa vez que na rede pública você encontra os piores e os melhores professores. Cada vez concordo mais com ela: se por um lado, a rede pública é um espaço de liberdade e muito trabalho a se fazer, por outro, é o espaço onde muita gente se encosta para mão trabalhar e, por ser concursado, raramente poderia ser demitido.

Gente que não sobreviveria no setor privado, fosse por falta de competência, fosse por falta de comprometimento. Gente que envergonha a minha profissão. Gente que não deveria lidar com gente. Fazer trufas e vender Avon é menos nocivo, porque não estão comprometendo o futuro de crianças e, consequentemente, do país, considerando que me todo lugar pode-se encontrar gente assim.


O que eu queria ver mesmo era a tal categoria sustentando o discurso do "cidadão analfabeto" com seus próprios filhos na rede pública. Queria ver se topariam filhos analfabetos aos 15 anos, mas, ah, pelo menos não jogam lixo no chão.

A escola é tão mais do que tudo isso. Ela pode ser muito mais do que tudo isso.

28 de jan de 2016

Sobre gratidão, pessoas e tudo mais

Reclamei o ano de 2015 todinho das pessoas ingratas, de todos aqueles que não reconheceram aquilo que ofereci. Fosse o que fosse. E ofereço tudo. Sou pisciana, sabe como é, né? Horóscopos à parte, acho que peguei essa coisa de gratidão de um antigo chefe, pessoa realmente inspiradora. Pisciano também, vale ressaltar.

Ele valorizava as relações humanas. Mais do que tudo, talvez. E aprendi muito com ele sobre fazer um bom trabalho, não, um trabalho muito além do "bom". Foi alguém que me apoiou quando eu disse, por exemplo, que não conseguia conceber Educação sem afeto. E ele falava muito que devemos ser gratos e demonstrar gratidão.

E quando não obtive a gratidão que julguei merecer, bem, fiquei bem chateada (acho que fiquei só com uma parte do que ele disse a respeito). Mas passou. Porque as coisas passam. Se dissolvem. Se você dissolver as suas gotinhas de Dipirona num copo com bastante água, mal vai sentir o amargo. E aí o remédio desce mais fácil.

Só que, felizmente, me peguei encerrando 2015 e entrando em 2016 com uma outra perspectiva: é tempo de ser grata. E não digo isso porque botei tal ideia na minha listinha de ano novo, digo isso porque é algo que venho experimentando nos últimos meses. Gratidão.

Me percebi agradecendo às pessoas. Agradecendo muito. Muita gente. Pessoas maravilhosas que fazem (ou fizeram) parte da minha vida e contribuem (ou contribuíram) para que eu fosse me tornando alguém melhor. E percebi que tenho muito o que agradecer e muitos a quem agradecer.

Gente que não espera nada em troca. Gente que ajuda com palavra, cafuné, bombom. Gente que, do seu modo, quer o seu melhor e te apoia da melhor forma que pode. Gente que não some, que sente saudades e diz, que lembra o dia em que você vai começar no novo emprego e liga pra saber como foi. Gente que ouve sem julgar. Como não me sentir grata?

E então, não mais do que de repente, recebi a gratidão que tanto achei merecer. Reconheceram em mim aquilo que ofereci de melhor. O meu melhor que, mesmo sendo falho (visto que sou humana), foi o meu melhor. E, no fundo, acho que mereci. 

Seja como for, estou enxergando essa coisa de gratidão por uma outra ótica e isso não tem preço: sair do próprio umbigo, perceber como o outro se importa e demonstrar como aquilo faz diferença na nossa vida. Isso é simplesmente mágico.

22 de jan de 2016

Diário: Era um filme de um pianista, sabe?

Na videolocadora, depois de escolher três filmes com B., resolvo peguntar:

- Denis, tem um filme, sabe, que eu vi quando era bem pequena e ele falava sobre um pianista.

- Um pianista? - ele me incentivou a continuar.

Denis é o dono da videolocadora.

- E esse pianista se casa, tem um filho, mas a mulher morre e o deixa sozinho com o nenê. Aí o pianista fica amargo, até que se apaixona pela nova babá do filho que faz com que ele recupere a alegria de viver. Mas isso depois de muito tempo, o meninos já tinha uns dez, onze anos. Só que ele descobre que tinha uma doença terrível e não poderia mais tocar piano.

- Você não sabe nada do nome do filme?

- Não, só sei que é bem antigo. Talvez fosse em preto e branco...

Silêncio.

- Acho que estou pedindo demais, né, Dênis?

- A história me é familiar, mas não sei te dizer o nome do filme...

- Tudo bem. Vou procurar por aí de novo...

- Se eu descobrir, te aviso, okay?

Quinze minutos depois ele me manda, via Whatsapp, a sinopse de "Melodia imortal". Era aquele! Perguntei se ele tinha o DVD, mas a resposta foi negativa. Ficou de providenciar. Fui pesquisar o filme e descobri que ele é baseado em fatos reais, na vida de um pianista chamado Eddy Duchin.

Enquanto não consigo o filme, me deleito com a cena final:




20 de jan de 2016

Sobre homens inconvenientes e as coisas que me contam por aí (1)

Não. É isso mesmo: eu disse não. Então por que será que você insiste?

Eu disse não porque você não me interessa. Porque sou casada e, mesmo que não fosse, você não despertaria o meu interesse. E você é casado e, mesmo que não fosse, não despertaria o meu interesse. 

Eu desenhei uma linha no chão. Uma fronteira com giz branco. Achei que era o bastante. Porque eu fui clara e objetiva. Mas fui delicada e educada. Jaz aí o problema?

Porque você ultrapassou a fronteira que tracei no chão. Se a desenhei no chão, foi por um motivo - que você parece não entender. Minha delicadeza não encobriu minhas intenções de não ter nada com você. Então por que será que você insiste? 

Você ultrapassou a linha e me deu um apelidinho. Você me trata com uma intimidade que nunca lhe foi dada. Você se tornou um homem inconveniente.

E eu sou legal. Não mereço um homem inconveniente.

Eu desenhei uma linha no chão. Uma fronteira com giz branco. Achei que era o bastante. Não foi. Então a saída foi construir um fosso mesmo, cheio de crocodilos.


10 de jan de 2016

Sobre amizades, rompimentos e "Toy Story"

Eram grande amigas. Tinham se conhecido na escolinha, mas as afinidades fizeram com que se aproximassem, mesmo depois de terem saído de onde estudavam. Eram como água e vinho, mas não como água e óleo: embora muito diferentes, havia um respeito tão grande e verdadeiro que eram quase como irmãs. A mais velha e a mais nova. Não se viam com frequência, embora morassem próximas uma da outra. Contudo, sempre que podiam se encontravam para um sorvete e para colocar a vida em dia. E foi assim durante alguns bons anos.

Se foi é porque não é mais. De repente, não mais do que de repente, a mais velha tornou-se incomunicável. Não respondia telefonemas, mensagens, e-mails, cartas...

- Ei! O que aconteceu? Está tudo bem? Fiz alguma coisa que te magoou?

A amiga respondeu que andava muito ocupada. E, graças as redes sociais, a mais nova pôde ver como andava realmente ocupada: saindo com outros amigos, indo a outros lugares, fazendo outras coisas - das quais ela tinha sido deixada de lado.

Vitimando-se, sentiu-se como um dos dos brinquedos velhos de "Toy Story", daqueles com os quais Andy não queria mais brincar. Mas, de fato, não gostava de se vitimizar e, não vendo culpa de sua parte naquilo que havia ocorrido, atribuiu tudo à vida. Mas sem culpá-la. O amor pode acabar sem grandes pirotecnias, sem grandes razões, meio que inexplicavelmente. É a vida. Talvez com a amizade, que não deixa de ser um tipo de amor, fosse a mesma coisa.

5 de jan de 2016

Sobre minha avó, cozinha e saudade

- Minha avó fazia bolinhos deliciosos, de todos os legumes e verduras que você podia imaginar. E sempre ficavam excelentes!

Eu disse a B. na semana passada, enquanto ele devorava um delicioso bolinho de abobrinha. Era um bolinho frito e os bolinhos dela eram sempre fritos. E, de uma forma engraçada, eles fazem parte da minha infância.

Bolinho de espinafre, de arroz, de couve-flor... Ela batia os ovos com um garfo, coisa que demorei a aprender, e depois mergulhava os bolinhos e os empanava.

Não, eu não sou nostálgica, mas me bateu uma saudade boa da minha avó materna hoje de manhã, enquanto preparava um frango de panela. Ele me ensinou várias coisas, como pregar botões e picar alho. Me lembro que eu deveria ter uns oito ou nove anos e ela me explicou como se descascava o dente de alho e como, com cuidado para não se cortar, se picava o alho. Ajudei-a a temperar muito arroz e muito bife assim - e me sentia muito importante!

A cozinha tem o seu encantamento, mesmo em relação as coisas mais simples como picar alho e eu nunca me esqueci do modo como ela tinha me ensinado isso ou a temperar um bom bife à milanesa, uma de suas especialidades. Sua sopa de feijão com macarrão ave maria também era lendária, assim como seu bolo de cenoura.

Olhei a bandejinha onde antes estava o frango, agora com cascas de cebola, restos de alho e de frango, ainda cru, e me lembrei da comida fresca que fazia para nós quatro - meu avô, meu primo, minha irmã e eu - todos os dias. Sempre comida deliciosa.

Talvez ela tivesse gostado da minha comida. Acho que sim. Espero que sim. Espero um dia cozinhar como ela.