13 de nov de 2011

Maurício+Malu: Introspecção

Malu brincava distraída com a alface no prato: enrolava as folhas úmidas e as mordia. Charuto. 

- A verdade me embrulha o estômago - disse Maurício.

- A verdade do almoço pesado? - quis saber Malu.

- Não, outras coisas - ele respondeu, olhando através dela.

Ele passava o indicador pela borda do copo. Será que queria tirar algum som do copo meio vazio? Nada. O copo era mudo, como a sala sem som.

- Não sei o que fazer com as coisas que morrem em mim. As coisas que as pessoas matam em mim.

- Enterrar?

- Achei que pudesse ressussitá-las... Mas não. Algumas coisas são irrecuperáveis. E sabe o que é pior? Não me ressinto disso.

- Então qual é o problema?

- É que estive me enganando e enganando aos outros, pensando ser uma coisa que não sou mais. Nem nunca vou ser - ela olha pela janela.

- E a verdade te embrulha o estômago?

- É.

- Estamos no mesmo barco então.

Maurício sorri pesaroso e serve groselha aos dois, na esperança de adoçar um pouco da vida.

Um comentário:

renatocinema disse...

Dialogo profundo na melhor ideia de dizer muito em poucas palavras. Filosofia pura minha amiga poeta.

Indico o filme Sitcom com essa mesma linhagem. Tem pitadas de diálogos assim, com mescla de bizarrice. kk