20 de nov de 2011

Clara vai ao hospital

Às vezes era melhor não dizer muito, melhor dizer pouco, não explicar muito: as palavras eram como cadarços desamarrados, nos fazendo tropeçar por aí. Clara olhava o Pico do Jaraguá da janela do seu apartamento. Manhã natimorta e ela foi se vestir. Pêlo em arrepio frio. Um pio lá fora. Quem era? Não saberia dizer. 

O coração pesado. Por que escorregava? Escapulia? Um amigo costumava dizer: Você está sempre escapulindo como um um leitãozinho ensaboado. Ela rira na época, mas não ria agora. Não, não agora. Era pressão demais, expectativa demais - bom demais? De onde vinha o peso - e a falsa calma em seu sorriso?

Franziu a testa. O corpo pesado quis deixar-se afundar na poltrona da sala. Aquela com a mancha de café deixada por ele. Algumas pessoas nos deixavam marcas. Não se contentando com isso, ele deixara a mancha no meu sofá. Agora eu sorria, mas não quando aconteceu.

Sábado era dia de queimar a língua com o café da padaria. Mas hoje não quis, apesar de ser sábado. A tristeza - por um triz. Ou era ela por um triz. Ele. Ficara seis meses fora do país para voltar e descobrir um recado afoito na secretária eletrônica. Recado sobre ele: estava no hospital.

E lá foi colhendo cultivando fazendo a coragem brotar - não sabia de onde. Como encará-lo numa cama de hospital? Como estaria? Como  manteria um sorriso de apoio quando suas pernas estavam bambas só de pensar na cena?

Mas não podia mais fugir. Mas bem que queria. E tanto e tanto.  Com toda a sua intensidade, a intensidade de seus  quase trinta anos. Nunca como quisera fugir de Louis. Aquilo era diferente. E era dia de visita. Equilibrou-se nas botas pretas. Voltar a vê-lo era voltar a ver a si mesma, mas não era dali que provinha o seu medo. Teve medo de não mais ter futuras chances de vê-lo - vivo.

Voltou para janela, como se o ar matinal lhe fosse trazer qualquer resposta. Seu Anísio passou com seu blusão do Taz e as meias paisley:

- Bom dia, Clarinha! - gritou efusivo da calçada, jornal a mão, dia de jogo.

Clara sorriu o seu sorriso de falsidade polida, mas gentil. Acenou com a mão trêmula. E com a mesma mão, pegou a bolsa e saiu. Ardia dentro dela uma raiva da fragilidade da vida - e de sua covardia.

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