31 de mar de 2010

Ana

Sempre lhe diziam que estava magra demais. E ela sempre dando ombros. A família, os colegas do trabalho, a sociedade. Ninguém entendia que ela estava bem e se sentia bem com o seu corpo. Nem era tão magra assim... 

E aquilo foi enchendo-lhe a paciência.

Um dia, o noivo comentou que ela podia ganhar uns quilinhos. Foi a gota d'água! Desmanchou com ele e expulsou-o de sua vida. Aproveitou e mandou embora todos aqueles que falavam de seu peso e de sua aparência. Ninguém conseguia amá-la do jeito que era!

Agora, ela faz as tarefas domésticas feliz, encaixando a alça da bacia de roupas entre duas de suas costelas.

Salão Calmon Viana

A jovem empregada doméstica voltava para casa de trem. Linha Brás-Calmon Viana. O horário de pico desafiava a lei da física segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço. No fundo, acho que somos todos foras-da-lei.

Apesar do barulho dentro do trem, ela consegue distinguir o barulho de alguém cortando as unhas. Um téc téc téc ritmado e compenetrado. Ela procura, mas não consegue ver o homem sentado há alguns metros dela, com suas unhas compridas e sujas. Muito meticuloso, preocupa-se em cortá-las com perfeição, mas sempre deixa a do dedo mindinho sem cortar, para que com essa possa coçar seu ouvido e fazer cócegas em seu cérebro.

As unhas voam aleatoriamente para dentro de sacolas dispostas no chão e pratinhos com milho verde quente e cozido. Até elas disputam espaço com os passageiros, invadindo seus pertences e "refeições". Mas se excedem e vão mais longe (longe demais?): um pedaço de unha do indicador se lança kamizazicamente contra o olho direito da jovem empregada.

Ganhou uma unha e perdeu uma vista. Acho que a vida pode ser injusta às vezes.

30 de mar de 2010

Chô!



Porque quando eu era pequena, achava "A rua dos pombos" o máximo. Hoje, olhando por uma outra perspectiva, começo a desconfiar que ter uma rua com esse nome e cheia dessas pobres aves urbanas que transmitem doenças não seja assim tão legal...

25 de mar de 2010

Perigo perigo (choro mode on)

Mais uma invenção japonesa: o bebê-robô. De acordo com a Globo, tal nobre criatura tem como função incentivar os casais a terem filhos (já que a taxa de natalidade anda baixíssima), e, segundo a Record, treinar os pais de primeira viagem.

Quando vi a notícia na televisão, ela muito me lembrou dos tamagotchis, febre há alguns anos atrás. Pelo que sei, eles eram uma alternativa já que não havia espaço para que as crianças tivessem bichinhos de verdade. No caso do bebê-robô, brinca-se de boneca não porque não se pode ter bebês, mas porque não se quer tê-los?

Seja com a função de incentivo, seja com a de treino, acho que isso tem muito mais a ver com valores que não foram trabalhados em determinda época da vida dos parents-to-be. E tomara que seja "válido" e não vire um tamagotchi com o qual o casal possa brincar e deixar de lado quando se cansar.

Foto: AFP



Ração humana



Foi-se a febre da soja: o negócio agora é a tal da ração humana. Toda vez que ouço esse termo, um arrepio me percorre a espinha: o adjetivo humana me sugere "(feito) de humanos" e não "para humanos", que é o real significado. 

Acho.

17 de mar de 2010

If you were in my shoes...

Não se deixe enganar pela aparência delicada e frágil: sapatos com lacinho podem causar danos irreversíveis aos pés. Bleeding feet. Desconfio deles como desconfio das pessoas que falam muito mansamente. Não se deixe enganar pela aparência delicada e frágil: por trás da fala mansa pode haver alguém que se julga superior e veste a máscara da humildade. E pisam nas pessoas sem que estas se dêem conta. Assim também, o lacinho pode indicar uma delicadeza não vivenciada pelos dedos e calcanhar.

No fim das contas, acabo sempre ficando com o pé atrás...

Diário: Thirty-three

Passei para a versão 2.3 por esses dias e nem tive muito tempo para pensar no que isso significa. Todavia, ainda estou sentindo o que é ter essa idade. E acho que vou sentir por mais um ano inteiro. Bom, esse é o plano. Tomara que não haja nenhum contratempo no meio do caminho...

[Desiti de tentar enganar Paulinho: confessei-lhe meus vinte e poucos anos]

Quando eu for mais velha e lembrar dessa época, uma coisa que estará sempre presente é o vento: eu não lembro de ter tido antes tanto vento nos meus dias. Não sei se está varrendo o que é velho e trazendo o que é novo, só sei que posso ouvir o assovio de Winds of change me rondando de vez em quando. Eu sei que é clichê, but I can't help the feeling.

Novas perspectivas e possibilidades... As coisas não saíram como eu esperava: saíram melhores. Para minha alegria, a gente nem sempre tem aquilo o que pede, pois nem sempre é o melhor para nós. E de fato, aquilo não era. E para a minha alegria, não precisei de muito tempo para perceber o que [e quem] era [e é] realmente importante.

Há um ano atrás, eu imaginava como a minha vida seria hoje. Aos poucos as coisas foram tomando um rumo diferente e hoje eu nem sei como já vivi de outro modo e já passei por certas coisas. No final das contas, tudo é aprendizado - e se não for para encarar a vida assim, pra quê se vive? Para preencher lacunas de vácuo sem paixão?

O plano é ser uma pessoa melhor e seguir o meu caminho. Ter planos em curto, médio e longo prazo não nos impede de manter a mente aberta para as surpresas da vida. E, depois do último ano, posso dizer que elas existem. E devem ser abraçadas.

Eu voltava no trabalho na segunda e ouvia Thirty-three tocando na minha cabeça. Não sei porque se eram só twenty-three. Só sei que ventava muito e eu olhava as libélulas dançando [veludosamente] do ar. Eu também dançava - e flutuava. Parece que estou [e]ternamente assimilando a vida - o que não se revela um problema de fato.

P.S. A tendência é que os posts fiquem mais escassos por falta de tempo, mas continuarei firme e forte por aqui.

11 de mar de 2010

Bangalô

Toda vez que eu ouço Atlanta do STP penso na boneca Barbie. Cresci vendo as propagandas da casa da Barbie, namorado da Barbie, cachorro da Barbie blá blá blá - sem esquecer que o slogan era "Barbie: tudo o que você quer ser".

E a Barbie tinha um tal de bangalô de praia (ou seria de férias?). O fato é que eu nunca tinha ouvido essa palavra antes e só fui ouvi-la muito tempo depois, em inglês, na música já citada:

She lives in the bungalow 



Legal que o som e a escrita são parecidos com o português. Mais legal ainda é ver a continuação:

She kills me with rose garden thorns
She waits for me
My love is unusual
It's painted with roses and thorns
With her I'm complete


She lives by the wall and waits by the door
She walks in the sun to me
She lives by the wall and waits by the door
She walks in the sun to me

Visions of Mexico seduce me
It goes to my head so carefully
Memories of candles and incense
And all of these things remember these

She lives by the wall and waits by the door
She walks in the sun to me
She lives by the wall and waits by the door
She walks in the sun to me

She comforts me when the candles blow out
The cake has grown mold but the memories are sweet
The laughter's all gone but the memories are mine
The Mexican princess is out of my life

She lives by the wall and waits by the door
She walks in the sun to me
She lives by the wall and waits by the door
She walks in the sun to me



Se Scott Welland estivesse morto, eu arriscaria dizer que este post faria com que ele se remexesse no túmulo - afinal, grunge e Barbie são dois conceitos inconciliáveis. Embora o slogan da Barbie me diga o contrário...

10 de mar de 2010

Papéis avulsos

De uns anos para cá, veio a questão dos papéis. Sim, sempre os papéis... De onde veio esse hábito terrível de guardá-los? E não são folhas A4, mas sim papéis de bloquinho, esses que podem ser facilmente perdidos ou esquecidos em qualquer lugar. Ou até mesmo levados pelo vento - venta tanto por aqui... Além deles, há outros papéis - pequenos por natureza - que habitam minhas gavetas e quadro magnético.

Telefones... cabelereiro, academia, livraria, amigos, escolas, auto-escola (ai meu Deus!). Bula de remédio? Não, não fico doente. Nunca. Milhares de lembretes. Renovar livros. Comprar dicionário. Ligar para X, Y e Z. Banco. Providenciar lista de documentos. Prazos justos. Prazos em longo prazo. Planos em curto e médio prazo. Os em longo prazo prefiro guardar na cabeça por enquanto.

Comprovantes. Canhotos. Comprar comida para o beta. Marca-livros caseiros. Cálculos toscos (em 90% das vezes é regra de três). Agrados futuros para quem se ama. Agrados passados de quem nos ama. Bilhetes cômicos de minha irmã. Mensagens carinhosas de minha mãe. Um carta de amor. Uma foto em preto-e-branco dos três. Citações teóricas para a pós e outras que simplesmente me inspiraram, ainda que encontradas em livros teóricos. Citações literárias e citações de amigos. Citações de músicas. O sândalo perfuma o machado que o feriu. Todas juntas. E eu pensando: Diante de tudo isso, qual é o meu papel?

E claro, minhas notas aleatórias de extrema importância:

"arrastar as asas" (gíria idosa)

9 de mar de 2010

Carpas noturnas

Sonhei que andava de braço dado com ele. Ele quem? Pouco importava, pois não me lembro de seu rosto. E desconfio que não tivesse. Me pagou um café num dia mergulhado em sol. Uma conversa vaga e sem graça. Mais sabor tinha o café do que ele - e sua falta de expressividade.

- Acho que vai chover...

Nos abrigamos num toldo e logo ventava tanto que por pouco este não era levado. Se estivesse acordada, teria tido medo? Sim, mas então eu não tinha medo porque sabia que era sonho? E sabia? De supetão a chuva parou e ele me puxou pela mão.

Estávamos na Praça do Relógio e vi que a água tinha alagado um buraco grande, de onde o mato crescia valente. As folhas cortavam a superfície e vi que havia mais vida lá. Eram peixes, mais especificamente carpas, negras e vermelhas e eu pensando:

- Mas o que vocês estão fazendo aí?

Ele me disse que elas deveriam estar num laguinho lá perto e que a chuva devia tê-las trazido. Não dei atenção e percebi que ele tinha medo delas. Meu nariz começou a sangrar coágulos de sangue. Antes de desaparecer ele me deu um lenço, a princípio recusado, mas logo aceito: o sangue que pingava deixava as carpas agitadas.

Continuei caminhando pelo terreno alagadiço, pensando nas carpas e não contendo o meu assombramento com aquele céu tão claro e lúcido. Ou era eu quem estava lúcida? Senti que era o fim dos tempos e que eu era o último ser humano na Terra. Aquele gosto de fim dos tempos, gosto de leite desnatado.

Sentei para descansar. O lenço encharcado de sangue e a grama de água. Fechei os olhos e me senti terrivelmente cansada. Queria voltar para casa? Que casa? Eu podia não ter visto muito, podia não ter visto tudo, mas sabia que as coisas tinham mudado para sempre. Queria me livrar daquele cheiro de sangue como tinha me livrado do café, dele e das carpas que misteriosamente o amedrontavam.

Acordei com o cheiro de sangue - e o travesseiro manchado de vermelho-sangue - naturalmente.

Slam!



Os amantes discutiram. Muitas coisas foram ditas, coisas que não deveriam nunca ser ditas.
- PODE IR! VAI EMBORA! - gritou ele exasperado.
Mas ela não respondeu nada: já tinha ido.

8 de mar de 2010

Quem colore e quem abole?

Eu entendo que abolir é um verbo defectivo: ninguém abole nada sozinho, daí ser eu abolo algo inviável - e gramaticalmente incorreto. Mas e colorir? Qual seria a explicação regada a chá de cogumelo para a a "impossibilidade" de eu coloro?



Ouvindo Use somebody (Kings of Leon)

Terror noturno

Juninho chega até a professora, mal a deixa colocar suas coisas na mesa:
- Professora, por que se diz que o bicho-papão vai pegar a criança se ela não dormir. Ela vai ficar com medo e aí não dorme!
- As musiquinhas têm bicho-papão, cuca e essas coisas para que as crianças obedeçam e vão dormir...
- Mas se a cuca ou o bicho-papão vai pegar a criança, ela vai ficar com medo e não vai dormir, professora!
- Acho que a idéia é punição: ou você dorme ou a cuca te pega. A moral da história é: "crianças desobedientes devem ser punidas".
- Ah! Agora entendi!
Juninho sai satisfeito. Fossem outros tempos, teria saído morrendo de medo - ainda mais por ser a criança terrível que é.

5 de mar de 2010

O Rei

Eu devia ter uns oito ou nove anos quando tive essa conversa com tia Célia. Estávamos só nós duas no apartamento dela e eu me lembro, como se fosse, hoje daquele cheiro de tinta para ônibus e de amaciante. 

Falávamos sobre minha escola e sobre música. Ouvíamos Roberto Carlos e ela falava de como o adorava desde sempre. Tia Célia tinha me feito um chá - adorava chá! - e, sentada na banqueta, eu tive que confessar-lhe:

- Tia, sinto muito, mas não gosto de Roberto Carlos...

Ela me olhou muito carinhosa, com aquele jeito de "você não sabe nada da vida, minha menina" e disse:

- Um dia, quando você tiver os seus quarenta anos e ouvi-lo cantando todo romântico "mulher de quarenta, eu quero ser o seu namorado" você vai entender - ela sorriu.

Mesmo sendo uma bobinha que eu era, na época desconfiei de que tal declaração não se aplicaria a mim. Hoje, aos 22 anos, prestes a fazer 23, mais do que nunca, tenho certeza.

Para mim, rei mesmo só o Elvis...

3 de mar de 2010

Do homem de bem

"O grande assombra, o glorioso ilumina, o intrépido arrebata; o bom não produz nenhum desses efeitos. Contudo, há uma grandeza, há uma glória, há uma intrepidez em ser simplesmente bom, sem aparato, nem interesse, nem cálculo; e sobretudo sem arrependendimento" 

(Machado de Assis)

1 de mar de 2010

Metaaaaaaaaaaaaaal


Paulinho

A moça está esperando o ônibus. Não é feia, mas também não é bonita. - embora julgue (secretamente) ser bonita a sua própria maneira. Mas isso nem lhe importa muito. Sempre muito discreta e educada. "Mas será que essa garoa não cessa?". Ela sente as meias finas úmidas.

É sexta-feira e ela está cansada em seus saltos altos tec tec tec e a bolsa pesadíssima - uma alça arrebentou - e a garganta sem voz, embora a vontade de cantar seja grande e o fim de semana esteja aí. Quer tirar os sapatos e livrar-se do peso da bolsa. Coloca-a no chão, mas o peso sobre seu ombro - direito - permanece. Na verdade, o peso parece recair sobre seus dois ombros. Talvez só precisasse de um dia de descanso ou de uma mudança de ares.

Ela sorri debaixo da garoa fina. Em outros tempos, aquilo lhe teria devorado e ela estaria entristecida e tingida pelos mais diversos matizes de cinza. Mas a vida é outra agora. Pensa em Paulinho e seu convite inocente:

- Quer que eu massageie seus pés?

E ela aquela cara de exclamação. Diz-lhe qualquer coisa e ele insiste:

- E que tal uma massagem nas costas? Sei fazer uma massagem muito boa! - ele vai se aproximando.

Ela pede que ele vá fazer qualquer coisa e se afasta, arisca. Mas quando está sozinha, ri. Ri porque enxerga em Paulinho a sua adolescência não tão distante. Ri do seu sorriso de menino de 12 anos. Porque Paulinho só tem 12 anos. E, sempre que a vê, é todo sorrisos e atenção e bombons e agrados. E ela acha graça porque, em parte, ele parece saber muito mais do que dezenas que homens da sua idade. Ou então, saber tão pouco quanto eles:

- Professora, por que as mulheres são tão complicadas?

Ela, interrogação e exclamação, pergunta:

- Como assim Paulinho?

- Ah, não sei. As mulheres parecem ser de uma outra raça. Não entendo elas!

Aquela era a constatação de metade dos homens que ela conhecia. E ele lá, discreto e ligeiro, tinha desvendado o mistério do mistério feminino. Ela gostaria de tê-lo ouvido mais, mas tinha centenas de redações para ler. Mas, agora, sozinha, ela pode rir. Rir da sua idade, de seu passado, de Paulinho. E da gostosa sensação disso tudo. Porque olhar para Paulinho é ver um pouquinho de si mesma. E um pouco daquelas pequenas coisas que parecem ser atemporais.