25 de jul de 2014

Diário: De como fui a última pessoa que eles viram.

Minha tarefa era a de desocupar as prateleiras das biblioteca: precisávamos retirar todos os dicionários e minigramáticas que não atendiam à Reforma Ortográfica, ou seja, que eram anteriores à ela.

Era algo bastante simples: catalogar o material num grande caderno negro, retirar os livros das prateleiras e encaixotá-los, para que fossem despachados.

Eu poderia ter atirado os livros do alto da escada para as caixas (a estante é bastante alta), mas não quis. Não pude. Ainda que não tivessem mais serventia e estivessem ultrapassados, eram livros. Lembrei do respeito que meus pais tinham me ensinado em relação a eles e à leitura e não pude deixar de olhá-los com um carinho secreto e solitário.

Não, eu não poderia tratá-los com desdém. Como se fossem qualquer coisa.

As palavras não são qualquer coisa. Nem a língua. As palavras têm força, forma e volume e podem encher facilmente uma sala ou uma piscina. As palavras são escolhas diárias, fugazes, permanentes. A língua é identidade, é quem se é.

Cataloguei os livros, um a um, encaixotei-os com um cuidado sem igual, cuidado maternal. E fui eu quem lhes disse 'adeus'.

Um comentário:

Bob disse...

Tirá-los das prateleiras é querer apagar a história. Taí porque do título de "povo sem memória".