30 de set de 2009

Meninos e Meninas (1)

A fim de ilustrar não-me-lembro-bem-o-que, a professora pergunta:
- Que rapaz aqui já se declarou para uma mulher?
Olho significativamente para Miss Pineapple - uma das minhas melhores amigas e companheiras de imersão na complexidade da vida. Silêncio constrangedor. A sala cheia e ninguém responde nada. Mais desapontada do que Miss Pineapple e eu, só a professora.

29 de set de 2009

Lili almoça com Arnaldo Antunes

A pálida lasanha quatro queijos a encarava, solene. Aquela não seria exatamente uma grande experiência gustativa, Lili sabia. Ventava tremendamente lá fora. Nunca tinha visto ventar tanto em toda a sua vida. Da fruteira, os abacates a olhavam tristes. Seria o humor de ambos afetado pelo tempo? Ou estaria o humor dos mesmos influenciando-o? Já o cardume de gominhos de limão que nadava em seu copo parecia mais feliz. Vai entender. A despeito de tudo, lá estava Arnaldo e sua voz incomum reverberava pela cozinha. E ecoava dentro de Lili. O silêncio manso dos que aceitam parecia convidar o copo - solitário - para um brinde. Mas não tinha com quem brindar. Vamos celebrar! O quê? Por dentro, Lili fez tlin tlin e sorriu. Parecia que todo dia era um casulo novo do qual precisava sair. Mas celebrar o quê? A vida. Só? Ah! A saudade? Hum... Lili me olhou feio. Ela não gostava quando eu insistia com essas coisas. O que você está fazendo? Abraçando... O quê? Tudo. E ‘tá consumado.

"Não mudou nadinha"

Tinha por volta dos quarenta, mas a carinha era de vinte. Logo que a conheciam, os amigos de suas filhas costumavam achar que Fafá – Dona Fafá, como viriam a chamá-la depois – era irmã e não mãe das meninas.
Um dia Dona Fafá encontrou uma antiga amiga de colégio. A amiga ficou muito impressionada com a aparência de Dona Fafá, que sem qualquer intervenção cirúrgica mantivera o frescor dos vinte e poucos anos.
- Você realmente está muito bem! Não parece ter a minha idade... Se bobear eu passo por sua mãe – riu gostosamente Tia Ninota.
Dona Fafá, sempre muito modesta, dizia que não, que bobagem! Foram tomar um café e passaram uma tarde colocando as décadas em dia. Ao voltar para casa, de tardezinha, perguntei sobre o encontro, ao que Tia Ninota respondeu:
- Foi ótimo. A Fafá está muito bem.
- Você a reconheceu de cara?
- De cara e de resto, continua do mesmo jeitinho. Não mudou nadinha.
- Nossa, mesmo?
Silêncio.
- Os mesmos medos, sonhos e concepções.
Silêncio.
- Depois de vinte anos não mudou nada – disse Tia Ninota com pesar.

Deus

Eu já com pastas e sacolas, prontas para sair. Ele me espera à porta, pacientemente. A menina de olhos brilhantes:
- Só uma pergunta: a senhora é católica?
- Não, mas acredito em Deus.
Ela sorri, acho que "Deus" havia lhe bastado. Continuo:
- Não se esqueça que uma coisa não pressupõe a outra.
Seu sorriso fica mais evidente. E me sorrio por dentro.

28 de set de 2009

Zeca e o tédio

Zeca não tinha medo de nada. Nem da morte. Na verdade, tinha um medo sim, que se estendia aos demais homens. Não a todos, naturalmente, mas a uma boa parcela. Zeca tinha medo de mulher. Se fosse bonita. Ai ai ai. Se fosse inteligente. Putz! Agora, se fosse bonita e inteligente, complicava tudo. Muita areia para o caminhãozinho. Um medo danado de ouvir “não”, mas medo maior ainda de ouvir “sim”. Dado o seu ego, que ocupava o Morumbi inteiro (ele era são paulino), nem por você nem por ninguém ele se envolveria com alguém que pudesse, sem querer, fazer com que se sentisse inferior. Certa vez uma amiga lhe disse:


- Ah! Então você gosta de mulheres burras?


Ele respondeu prontamente que não, após lhe confessar sua covardia e o quão intimidante as mulheres inteligentes eram. Seguindo tal filosofia e rejeitando as mulheres bonitas e inteligentes que cruzaram seu caminho – ok, só foram uma ou duas, mas o suficiente para que buscasse outro “tipo” - arranjava as desculpas mais esfarrapadas a fim de não se envolver com nenhuma delas. Um dia encontrou, finalmente, a mulher perfeita! Beleza e inteligência medianas. Na verdade, ela não era lá muito esperta nem muito bonita. Mas era, sem dúvida, uma boa companhia: sempre concordava com ele, sempre achava tudo o que ele dizia fascinante e não tinha grandes opiniões sobre as coisas. Já que não era muito bonita, os homens não olhavam e Zeca não tinha ciúmes – embora não deixasse que saísse de mini-saia, ordem essa que ela acatava com a maior consideração.

O tempo foi passando e o namoro foi cansando Zeca. Sem grande paixão nem emoção foram ficando juntos. Porque, afinal de contas, era seguro e confortável. Nas palavras de Valdemort, “era cômodo”. Até que um dia, percebeu que não era aquilo que queria para sua vida. Mas só se deu conta disso quando ela estava vestida de branco, na sua frente, com uma aliança na mão esquerda. Ela dissera “sim”.

Nota para o Historiador e demais interessados: "Valdemort" é o apelido de um amigo que costumava condenar veementemente o comodismo das pessoas.

27 de set de 2009

Apelidos

Na loja de roupas, a esposa grita carinhosamente:
- Bolão! Vem ver essa camisa aqui!

Lili e a encruzilhada


A estrada se bifurcava logo a sua frente. Lili encontrava-se numa encruzilhada. Ela parou e desceu da monark lilás e, antes que pudesse tomar qualquer decisão, avistou um homem à sua frente. Ele estava caído no chão. Completamente sozinho. Aproximou-se rapidamente. Desconfiou que já estivesse morto. Embora uma voz dentro da sua cabeça dissesse que não havia nada que pudesse fazê-lo voltar à vida, ela tentou. Reconhecendo que era alguma coisa cardíaca, tentou fazer com que seu coração voltasse a funcionar. Usou de seu tempo e de sua energia. Mas foi tudo em vão. O coração do pobre havia parado de funcionar definitivamente.

O grande dilema de Lili já não era a bifurcação, mas o cadáver que jazia sereno sobre a terra. Os primeiros urubus despontavam no céu. Nuvens plúmbeas se aproximavam curiosamente. Lili não conseguiria enterrar o homem. Pensou em levá-lo em sua bicicleta. Mas isso logo se mostrou impossível. Não poderia carregá-lo por muito tempo. Não agüentaria tal peso por muito tempo.

Entristecida, fechou os olhos do homem e deixou-o protegido por seu guarda-chuva. Não havia mais nada que pudesse fazer. Estar de mãos atadas lhe era por demais doloroso. Mas assim era a vida. Subiu em sua monark lilás e escolheu um dos caminhos. Não posso dizer qual. No fundo, ela sabia que os urubus fariam companhia para o cadáver. Olhou para trás diversas vezes e chegou mesmo a voltar uma parte do trajeto. Mas voltou a seguir o seu caminho. A chuva caía desesperadamente e Lili não podia mais voltar.

26 de set de 2009

Que falta!

Que culpa eu tenho se cada pessoa ocupa um lugar único na minha vida o que faz com que cada uma seja

ÚNICA?

Como ser surpreendida

Conversando com Sherlock:
A: É, essa coisa de casamento não faz muito a minha praia.
B: Ué! Você não quer casar?
A: Olha, eu realmente não sei, mas não 'tava falando disso. Essa coisa de casamento em igreja, vestido branco, véu, buquê... Não fui criada para isso, não tem nada a ver comigo... Nem consigo me imaginar de noiva!
B: Mas eu consigo.

Lili e o Menino-Moço

Lili desce as escadas - vaporosa. Vestida de preto e os cabelos soltos. Estava de saída. Encarando-a por alguns momentos, ele diz:
- Você parece diferente...
Reconhecendo aquele olhar, ela sorri mornamente:
- Mesmo? Sou a mesma de sempre.
E vai embora.

25 de set de 2009

Quinzinho in love

Quinzinho flutua em estado de graça. Vê corações em poças d’água e o rosto de sua amada em nuvens – ainda que ela se diga tão concreta. Quer lhe escrever um poema. Não consegue. Quer pintar-lhe um quadro. Fracassa. Mas depois de uma noite em claro, percebe que seu amor não precisa de nada disso, só de alguém que lhe segure a mão – e lhe compre balas de coco de vez em quando.

Clara e Dante


Conheceu o tal. Boa Conversa. Algumas risadas. Bonito. Inteligente. E um leve cheiro de enxofre que já conhecia de carnavais passados. Depois de nenhuma hesitação, disse que já tinha compromisso para o sábado a noite.

Lili e o Silêncio

Não foi possível escrever esse post: ela sempre terá algo a dizer.

O (nada) abominável gato das neves





Só para não deixar o inverno com inveja.

Primaverilirismo


Os dentes-de-leão estão por toda parte. A baliza perfeita. Rosas cor-de-rosa na janela. O sexagenário de all star. Pompons lilases nas alturas e flores violetas forrando o chão. Margaridas me saúdam – diariamente. Gosto dando delas: doam-se com naturalidade, entregam-se tão facilmente. Sem os meneios e requebros das rosas ou o exotismo presunçoso das orquídeas.
Ouço internamente:
Chegou a primavera repartindo suas flores
E traz junto com ela borboletas de mil cores
A folhas ficam mais verdinhas
A grama fica bem fofinha
Os jardins todos coloridos
E os bosques mais floridos [...]
Só esse frio que não entendo... Resquícios do inverno? É, são quatro as estações. Pode ser do Vivaldi ou do Renato Russo – até da Sandy – mas é hora de escolhermos a nossa. Mais especificamente o que mais me toca é o Tim Maia – sem esquecer da dos Los Hermanos.

23 de set de 2009

Poema Circense (José Paulo Paes)

Atirei meu coração ás areias do circo como se atira ao mar âncora aflita. Ninguém bateu palmas. O trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente, o palhaço zombou de minha sombra fatídica.

Só a pequena bailarina compreendeu. Em suas mãos de opala, meu coração refletia as nuvens de outono, os jogos de infância, as vozes populares

Depois de muitas quedas, aprendi. Sei agora vestir, com razoável destreza, os risos da hiena, a frágil polidez dos elefantes, a elegância marinha ds corcéis.

Todavia, quando as luzes se apagam, readquiri antigos poderes e voô. Voô para um mundo sem espelhos falsos, onde o sol devolve a cada coisa a sombra natural e onde não há aplausos, porque tudo é justo, porque tudo é bom.

*************
Depois de "Tragédia Brasileira" de M. Bandeira, este é meu poema favorito.

Sinônimos sertanejos


Acabei de descobrir que o adjetivo "bruno" é um sinônimo do adjetivo "marrone". Agora tudo faz sentido!

Brunas Brunas


Pior do que Bruna Surfistinha ser escritora, é Bruna Lombardi ser poetisa. Procurando poesias num site, encontrei-a figurando entre grandes poetas da língua portuguesa. Se Paulo Coelho está na Academia, nada mais me espanta. Por ora.

Ou isto ou aquilo (Cecília Meireles)

[Para os indecisos...]

Ou se tem chuva ou não se tem sol,
ou se tem sol ou não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo dinheiro e não compro doce,
ou compro doce e não guardo dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Nana nenê


O gosto em ganhar pijamas só vem depois de certa idade. Na infância não há nada mais enfadonho do que ganhar roupas, principalmente pijamas. É, a maturidade muda nossa visão sobre o mundo...

Ostradilhos


Estava cá eu voltando do trabalho - eita caminho cheio de descobertas e olha que nem é uma floresta encantada hein? - e eis que me deparo com uma fiorino com a seguinte propaganda:

OSTRA VAGANTE

Achei lírico, me soou bem. Esperando o sinal abrir, continuo observando a fiorino,

OSTRA VAGANTE

pois percebo que tinha alguma coisa me passando despercebida. Pouco antes de abrir o sinal cai a ficha.


OSTRAVAGANTE
Fazenda Marinha

Fez meu dia mais... pastoral?

Para quem duvidar, eles têm um site:
http://www.ostravagante.com.br/

Pieguice

Às vezes afundo
Às vezes flutuo
Às vezes sou Deus
E crio o oceano
- Tudo depende de como acordo

21 de set de 2009

Pobres ovelhas

Espera

Penélope fez sua escolha: tecer. E assim foi feito durante anos a fio. Comprou toda a lã do mundo, toda a linha do mundo e nada mais havia restado. E não podia desfazer o tecido. Não tendo mais de onde tirar matéria prima, pois as ovelhas já não davam lã, escolheu usar seus cabelos. E suas veias. E suas artérias.

Enéas não voltou.

Heavy Metal


Foi escolhida a mais bela virgem da aldeia. Ela seria entregue em sacrifício ao terrível dragão, que ameaçava os pobres e indefesos aldeões. Mas ela não foi de livre e espontânea vontade: se revoltou, esperneou e tentou fugir – tudo em vão. Todavia, guardava em si a esperança de que seu grande amor, o filho do alfaiate, viesse resgatá-la, pois ele havia prometido que fugiriam juntos. A bela virgem foi levada e amarrada junto a um penhasco. Gentil oferenda. A corda vertia o sangue de seus pulsos – o mesmo vermelho de seus cabelos. Não conseguia escapar. Tentava desesperadamente se desfazer daquele fim cruel, sem nunca perder a esperança de que seu amado viria resgatá-la. Até o último instante manteve-se constante a tal pensamento. Mesmo no momento em que avistou o terrível dragão. Mesmo no momento em que ele a abocanhou gostosamente. Huuuuuuum. Que delícia! Pensou o dragão após mastigá-la lentamente.


Enquanto isso, na aldeia, o filho do alfaiate desempenha suas funções de filho de alfaiate, como se nada tivesse acontecido.

Conselhos sentimentais de Tia Ninota 3

Diante do meu humor inconstante e da constância do sentimento guardado a sete chaves, Tia Ninota resmungou:
- Minha filha, você não vai passar sua vida toda assim, vai?
- Não, Tia Ninota. Só preciso de um tempo para assimilar as coisas...
- Quanto tempo?
Dei ombros:
- Não faço idéia. Como é que a gente se agarra a coisas que afundam?
- Você estava tentando se salvar e se agarrou a uma ancora?
- Acho que sim...
- Parece o Édipo...
- Não matei meu pai e casei com minha mãe.
- Não, mas na tentativa de fugir do seu destino acabou encontrando-o.
- Não acredito em destino e mesmo que acreditasse, não voltaria para ele.
- Eu também não, filha. Mas fugir do que se sente não resolve. É uma boa chance de aprender a nadar, não?
- É, talvez seja. Cansei de ouvir “homem ao mar”...
Ela riu.

Zeca e o Pesadelo


Zeca sonhou que carregava sua amada no colo. Ela estava terrivelmente doente e ele podia sentir o seu hálito de febre e seu halo de morte. Mas o que mais o assustava era a fragilidade dela, denunciada pelas costelas sensíveis ao tato. Ele subia uma alameda sombria e apesar de ela ser tão leve, não a agüentou e deixou que caísse. O desespero estourou-lhe quando percebeu que ela se dissolvera ao tocar o chão.


Acordou com o grito gritado em seu sonho e naquela noite descobriu que se você chorar enquanto está deitado, as lágrimas se escondem dentro dos seus ouvidos.


No dia seguinte não teve dúvida: capturou sua amada e colocou-a dentro de uma caixinha, junto com as preciosidades herdadas de sua avó. Agora, todas as noites, ele abre a caixinha e uma suave melodia começa a tocar - a bailaria em que se transformou sua amada dança até que ele caia no sono.

19 de set de 2009

Objetividade

O Ministério da Saúde adverte:

Metáforas utilizadas em excesso podem causar conflitos graves, levando até mesmo à quebra de laços afetivos.

**************

Os dois na loja de material de construção:

A: O que você acha de pintarmos a casa de amarelo?
B: As ondas que quebram na praia...
A: Não dá para ser mais direto?
B: ...
A: Vai ser amarela então.

Aceito!


Toda dia, no caminho do trabalho para casa, passo em frente a uma loja de vestidos de noiva. A bela vitrine expõe belos manequins em belos vestidos – longos e brancos. Há um ou dois modelos para madrinhas e um para daminhas. Nem sinal do traje do noivo, naturalmente. Entretanto, o que realmente me chama a atenção – toda vez que passo em frente à loja – é o manequim com os trajes para o menininho (cujo nome oficial não me lembro, alguém me ajuda?) equivalente masculino para a daminha. O fato é que o tal manequim se apresenta plantando bananeira (!). Dá para perceber que ele não foi colocado, mas feito/criado nessa posição. Não sou muito ligada em casamentos, mas desconfio que tal comportamento não seja muito ortodoxo na cerimônia. Seria este socialmente aceito? De quem terá sido a idéia de dispor um manequim de um menininho plantando bananeira? Terá sido para mostrar um ambiente descontraído ou lúdico? É... São as grandes questões existenciais...

18 de set de 2009

Como salvar a sexta-feira à noite do seu amigo

No meu caso, bastou que o Bunny Man me mandasse um e-mail contando as novidades. Nunca subestime o poder das palavras, do carinho e da amizade.

Quinzinho e a Química

Quinzinho cansou-se das experiências químicas. Não dava para essas coisas. Então, resolveu guardar seu diamante mais precioso e os reagentes dentro de um velho baú. Não vou nunca mais precisar disso. Olhava o baú já fechado. Desapontado e ligeiramente enfezado. Por pouco não explodira a casa, tentando lapidar o tal diamante. Um louco! diziam os vizinhos. Por que não tentar algo mais convencional para atingir seu objetivo? Trancou o baú e colocou-o debaixo de sua cama. Em seguida, derreteu a chave – pelo menos isso conseguia fazer.
Enquanto o metal fervia junto ao fogo, sentiu com carinho, por entre seus dedos, a chave sobressalente no bolso direito do paletó.

Paradoxo

Como podem haver guerras no Oceano Pacífico?

Zeca e a Consciência

Descendo a alameda ouviu-se um grito:
- COVARDE!
Zeca olhou e na lata respondeu num berro:
- Não sou covarde!
A multidão olhava embaraçada: o grito não havia sido para Zeca, mas para o homem à sua frente.

GPS

Geograficamente Perdido - Sempre.

17 de set de 2009

Haikai

"Sob a chuva primaveril
absortos em um diálogo
a capa de palha e um guarda-chuva."
(Buson)

Aforismo Cítrico

Com ou sem limões, faça a limonada.

Como fazer um homem perder a cabeça

Aforismo Caiado

Pior do que ser mau é não ser bom.

Aforismo Geométrico

Um abraço é a menor distância entre dois amantes.

Como surpreender pessoas

A: É... Eu participei da Maratona Pão de Açúcar de Revezamento...
B: Nossa! Que legal! Eu não sabia que você corria!
A: Mas não corro.

16 de set de 2009

Gramática sentimental

Amar é um verbo que não admite imperativo
(autor desconhecido)

Lili e o Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças

Porque a cabeça de Lili andava um turbilhão. Mas uma coisa não tinha mudado. No silêncio da noite – quando todos dormem – ela lembra. Sem raiva, sem rancor. Só um carinho imenso do tamanho da noite que emoldura sua insônia. Não conta mais estrelas. Os abacateiros, o bambuzal, as músicas são as mesmas. Mas a sala está vazia agora. Os olhos castanhos de Lili – e não pretos, ao contrário do que pensam – continuam os mesmos. Talvez mais velhos, mas o brilho ainda é de gente que tem muito por fazer. Mas nada mais se reflete neles. Sorri sozinha na saudade de sua insônia. A caneta jaz sobre a mesa. São duas da madrugada e ela deseja à qualquer estrela lá fora que aquilo o que não mudou possa chegar ao seu destino tão desejado.

Quem sabe, sabe

"Quem sabe, faz; quem compreende, ensina."
(Lee Shulman)

15 de set de 2009

Beijo de despedida

Cabo de Guerra

Lili e o Homem de Lata


Porque as vidas das pessoas iam se emaranhando umas nas outras. E Lili, às vezes, se perdia por essas veredas. Sem vocação para mistério, Lili perguntava o que queria saber. Perguntas difíceis, respostas mais difíceis ainda. O Homem de Lata respondeu. Sim, ele tinha um coração, ela já sabia há tanto tempo... E veio-lhe um cansaço milenar. Parecia coisa das suas centenas de vidas passadas. Ele lhe lembrava um palhaço triste, que por trás da pintura escondia... O quê? Ela sorriu abobalhadamente. Sabia vagamente. Tudo e todos sempre tão vagos. E então celebrava sua exatidão ao lidar com a vida e com seus desejos.

O verbo do encontro foi querer: “O que você quer?” Lili torcia o nariz. Aquela sua transparência já não celebrada e sua necessidade de terra firme a impeliam a responder. O Homem de Lata respondeu, timidamente. Porque ele entregava um pouquinho de si cada vez que ficava sonolento. Mas dessa vez, apesar de já ser tarde da noite, ele estava lúcido e respondeu-lhe sóbrio. Sincero e sóbrio. Não vomitava palavras irrefletidas como Lili. Era comedido e sempre muito racional. Talvez tão prático quanto ela.

A tal resposta a levou a uma ilha. Ela chegou à terra firme, sentia-se segura agora, mas, de algum modo estranho, ainda continuava às margens – e observou os pés molhados à beira da praia. Mas não gostou dessa terra nova. Aridez desértica. Não cresciam flores lá. Armada da pequena jangada, Lili lançou-se ao mar de novas possibilidades, em busca de terra firme em que crescesse alguma coisa.

Orfeu

(José Miguel Wisnik)

Quando tudo faz lembrar
Guardar comigo um bem que se perdeu
Quando chove como hoje choveu
Repara bem meu bem que é para consolar
Toda dor que nada pode reparar nem poderá
Nem a luz do sol e a terra que nos faz
Girar girar
Então faz acreditar
Mesmo um segundo tudo vai voltar
Mas se arrisca teu olhar pra trás
Encara sem receio o escuro e nunca mais
Depois vai seguindo assim sob esse céu azul sem fim
E você é onde se guardou em mim
A música

Lili and the winds of change

Lili olhou pela janela. O dia estava frio lá fora e o mensageiro dos ventos acusava, naturalmente, vento. Ela fez as malas. De novo. Por que estaria sempre partindo? Levantou a sobrancelha esquerda significativamente quando lhe perguntei isso. Não respondeu. Ou antes teria murmurado alguma coisa? Fosse como fosse, monossílabos não eram um bom sinal vindos dela. Nem poucas palavras. No fundo, acho que só estava digerindo os mais recentes acontecimentos. Davam mais trabalho, sem dúvida, do que o cachorro-quente com tirinhas de pimentão do qual ela tanto gostava. E ela, que gostava tanto de coisas estomacais e viscerais, viu-se, mais uma vez, evitando os “Risíveis Amores” de Milan Kundera, a fim de não pensar muito. Apanhou cachecol rosa-chá e tingiu-se de camomila.


Torrou seus últimos tostões com o tão desejado xilofone e teria fugido com o circo, se, à porta de casa, não tivesse se dissolvido no vento.

11 de set de 2009

Os Três Mal-Amados (João Cabral de Melo Neto)

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

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Isso é simplesmente lindo... (E verdadeiro)

7 de set de 2009

Para rir

a) Professor: O que devo fazer para repartir 11 batatas por 7 pessoas?
Aluno: Purê de batata, senhor professor!

b) Professor:- Joaquim, diga o presente do indicativo do verbo caminhar.
Aluno:- Eu caminho... tu caminhas... ele caminha...
Professor:- Mais depressa!
Aluno:- Nós corremos, vós correis, eles correm!

c) Professor: "Chovia" que tempo é?
Aluno: É tempo muito mau, senhor professor.

d) Professor: Quantos corações nós temos?
Aluno: Dois, senhor professor.
Professor: Dois!?
Aluno: Sim, o meu e o seu!

e) Dois alunos chegam tarde à escola e justificam-se:
- O 1º Aluno diz: Acordei tarde, senhor professor! Sonhei que fui à Polinésia e a viagem demorou muito.
- O 2º Aluno diz: E eu fui esperá-lo no aeroporto!

f) Professor: Pode dizer-me o nome de cinco coisas que contenham leite?
Aluno: Sim, senhor professor. Um queijo e quatro vacas.

g) Um aluno de Direito a fazer um exame oral: O que é uma fraude?
Responde o aluno: É o que o Sr. Professor está a fazer.
O professor muito indignado: Ora essa, explique-se...
Diz o aluno: Segundo o Código Penal comete fraude todo aquele que se aproveita da ignorância do outro para o prejudicar!

h) PROFESSORA: Maria, aponte no mapa onde fica a América do Norte.
MARIA: Aqui está.
PROFESSORA: Correto. Agora turma, quem descobriu a América?
TURMA: A Maria.

i) PROFESSORA: Pedro, me diga sinceramente, você ora antes de cada refeição?
PEDRO: Não professora, não preciso.. A minha mãe é uma boa cozinheira.

j) PROFESSORA: Artur, a tua redação "O Meu Cão" é exatamente igual à do seu irmão. Você copiou?
ARTUR: Não, professora. O cão é que é o mesmo.

k) PROFESSORA: Bruno, que nome se dá a uma pessoa que continua a falar, mesmo quando os outros não estão interessados?
BRUNO: Professora.

(Autoria Desconhecida)

Evolução (?)

Da Paixão




A Paixão é como um cavalo: útil quando se tem suas rédeas e perigosa quando nos governa.

6 de set de 2009

Can you hear the drums Fernando*?


Fernando* me perguntou se poderíamos marcar um café na quarta passada. Adoraria, mas não seria boa companhia do momento. Ele me lê bem, sempre me leu e surge-lhe uma ponta de preocupação. Mas prometo-lhe ser agradável. Transporte público. Atraso e aviso. Logo o vejo e como aquilo me faz bem... Engulo meus dramas pessoais, a fim de não desperdiçar o momento. Convenhamos...

Ele passara um tempo fora do país e fazia muito tempo que não nos víamos. Logo ao voltar, já tinha falado sobre um tal presente para mim. Qual não foi a minha surpresa o receber o tal presente!

Capa dura. Preto-e-branco. Vida e obra – ESCHER! Caramba!
É de segunda mão. Mas está novo.
Segunda mão que nada... Fantástico!


Vamos tomar café. Pergunto-lhe sobre sua vida, seus planos, sua namorada. Ele vai narrando, bem a sua maneira tão peculiar. Sempre calmo e tranqüilo. É sempre bom ouvir suas histórias, me levam para longe. E ainda assim, sua lucidez me traz para a concretude do mundo. Tenho muita sorte de ter te conhecido...


Nos despedimos e estou mais leve e feliz.


Engraçado como o preto-e-branco do livro de Escher contrastou como o meu dia – colorido por Fernando*.

No banho




Sem borracha


Num breve encontro nas escadas com o Historiador:

- E as suas cinco novelas? - perguntou ele com um sorriso.

Para minha surpresa ele novamente insistia que eu tinha cinco novelas simultâneas. Talvez eu fosse tão dramática que o desgaste emocional valesse por cinco ou ainda, talvez eu me agarrasse tanto a certas coisas que parecesse mesmo uma boba. Mas, sinceramente, não me importo com isso.

- Era uma só e acabou.

- Ah! Mas isso é ótimo! Agora você pode começar do zero, da página em branco – disse ele gesticulando animadamente.

Ok. Ele era uma pessoa positiva – eu também. Mas ele, sendo Historiador, mais do que ninguém, deveria saber que essa história de “começar do zero” não funciona. A história não pode se apagada. Talvez esquecida. No máximo, podemos virar a página - e tem gente que nem isso consegue. Mas na minha condescendência:

- Ah! Recomeçar sim.

- É! Faz bem!

Eu não entendia porque ele estava tão animado com isso tudo. Talvez ele visse coisas que eu ainda não tivesse visto. Talvez minha visão ainda estivesse ligeiramente turva – embora já dividisse alguns planos-futuros-possíveis com a Diva Ruiva. De qualquer modo, eu estava feliz. Escrevemos os capítulos de nossa história e todos têm um momento certo para acabar. Alguém me disse que “só acaba quando a gente decide que acabou” e gostei disso – nos faz ver como temos o poder sobre nossas vidas. Um poder do qual tantas vezes não ou mal nos damos conta.


A Garota de Leeds pareceu celebrar minha decisão. E por dentro, também celebrei. Todavia, o tal recomeço já se manifesta nesse meu sorriso bobo. Talvez minha visão não estivesse turva como julguei a princípio... E que venha o desconhecido!

5 de set de 2009

Esquecimento

Florbela Espanca


Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!

4 de set de 2009

Tatuagem do Village People em lego??

Forrest Gump

A terrível influência dos video-games


Sobre o tempo...


As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos


Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo… Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim, as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados… Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

(Machado de Assis)