23 de set de 2009

Poema Circense (José Paulo Paes)

Atirei meu coração ás areias do circo como se atira ao mar âncora aflita. Ninguém bateu palmas. O trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente, o palhaço zombou de minha sombra fatídica.

Só a pequena bailarina compreendeu. Em suas mãos de opala, meu coração refletia as nuvens de outono, os jogos de infância, as vozes populares

Depois de muitas quedas, aprendi. Sei agora vestir, com razoável destreza, os risos da hiena, a frágil polidez dos elefantes, a elegância marinha ds corcéis.

Todavia, quando as luzes se apagam, readquiri antigos poderes e voô. Voô para um mundo sem espelhos falsos, onde o sol devolve a cada coisa a sombra natural e onde não há aplausos, porque tudo é justo, porque tudo é bom.

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Depois de "Tragédia Brasileira" de M. Bandeira, este é meu poema favorito.

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