19 de jun de 2013

Intimidade

Para o Fã do Clube de Esquina

Era uma quinta-feira preguiçosa e estava deitado confortavelmente, esperando o tempo passar. Folheava um livro qualquer sobre um assunto qualquer. Entediado. Do sofá, dava para vê-la na porta do banheiro, diante do espelho, fazendo não sei o quê. Lembrou-se de perguntar sobre o último filme do Coppola. Não que aquilo não pudesse esperar, mas não tinha nada para fazer - coisa rara. Na verdade, esperava.

Foi até o banheiro e encostou o corpo esguio no batente. Olhou para ela. O rosto estava limpo e ela se olhava séria. Sóbria e séria. Ela encarou de volta e os olhos de ambos se encontraram no espelho. Mas o que viram na verdade?

Não trocaram palavra.

Ela engoliu em seco aquela invasão. Sim, porque o olhar dele, naquele momento, era mais perscrutador e incômodo do que o olhar de qualquer fotógrafo para quem já tivesse posado. Seu espaço pessoal sendo tomado pelo olhar de quem não tinha com ela intimidade e, ainda assim, insistia em pegar um banquinho e se sentar do lado de fora, mas, ainda assim, olhando. Os olhos voltaram a se encontrar no espelho após a primeira camada de pó, mas ela fingia que não via. Fingia mal. Via mais do que queria.

Mas o que via[m] na verdade?

Talvez por ele ser a antropomorfização do desapego, talvez fosse a sua relação com a liberdade, seu conforto morno dos sapatos antiquados, o cabelo em charme desalinhado... Deixou que ele ficasse e olhasse - não sei o quê. Na verdade, ela não sabia porque ele estava ali. E ele também não sabia.

Se ela tentasse explicar, ele não entenderia. Não entenderia que o momento em que vestia ou tirava qualquer máscara era algo terrivelmente pessoal e algo que ela não costumava compartilhar. Era como se ficasse vulnerável, embora os seus superpoderes residissem em outro lugar. O olhar. Um olhar concentrado agora em marcar os olhos e esfumar as pálpebras. 

Ele não entendia, apenas olhava o que ela fazia. E, apesar dos olhos agora estarem diferentes, a dureza do olhar dela ainda era a mesma, ainda que misturada a alguma coisa que ele não soube identificar. Viam e não viam.

A insistência do olhar alheio sem motivo justificável já era por demais incômoda, aquilo então, um abuso quase, mas ela se mantinha firme, como de costume. Como se o olhar fosse o bastante para desvendar alguém por completo! Mais fácil ler mãos e ter alguma consistência do que tentar desvendar com o olhar e se perceber vencido.

E o martírio teve fim quando ela pintou os lábios de vermelho. E sorriu, como se tivesse saído de algum encanto e voltasse a ser a mesma de sempre. Ele sorriu de volta.

E o que viram de verdade?

O que viria de verdade?

Qual era a verdade?

Ah preguiça de quinta-feira sem consistência nem forma. Não tocavam palavras: mantinham-se adormecidas e preguiçosas como a própria quinta-feira dentro de cada um. Mas o vizinho tocava qualquer coisa bonita e a vida era boa.

Um comentário:

renatocinema disse...

Que saudável é voltar a ler seus textos, diálogos e insanidades poéticos.

abs