12 de abr de 2014

Tânato doméstico

Tinha umas violetas na janela da cozinha. Sabia que elas precisavam ser regadas a cada dois dias. Mas não as regava: ficava olhando-as murchar. As folhas caídas imploravam um olhar. E ele nada. Nada. 

Ele gostava de vê-las murchar, implorar, para depois renascerem água fonte de vida eterna. As violetas não eram eternas. Apenas sua vontade imperiosa.

Ele gostava de devolver-lhes a vida, regando-as com polida bondade. E elas, a semelhança de Estocolmo, agradeciam efusivamente ao seu algoz.

Aquela sensação de poder sobre a vida, a vida alheia, sobre a vida. Vida. Tirar as violetas da linha tênue e tenaz que as separava do sono sem sonhos, tendo ele mesmo as colocado lá.

Era boa sensação, sim, aquela de ter poder sobre a vida alheia - era como brincar de Deus. E ele achava  tudo aquilo justo e bom, já que Deus brincava com a vida dele.

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