30 de nov de 2010

Waldo S2 Carmem


Fonte: http://www.rumorsdaily.com/brd/wp-content/uploads/2008/01/the_affair_by_bob_rz.jpg

29 de nov de 2010

Diário: Viagem a Berlim

Copiei o mapa da tela do computador e me lembrei de como gostava de desenhar. E desenhava bem. Tinha que voltar a fazer isso. Conferi os papéis na pasta quinhentas vezes, refiz meu caminho, os cálculos. Tudo certinho. Vesti qualquer coisa. Prendi o cabelo de qualquer jeito. 

Ah sim. Peguei meu livro. Fundamental.

Engraçado como Clarice Lispector já não me dizia tanto quanto antes. Não que não goste mais dela, acho seus textos fantásticos. Mas Ignácio de Loyola Brandão me diz tanto mais do que ela! Conforme vou lendo "O beijo não vem da boca", refaço caminhos, retomo lugares, pessoas, situações. É algo que me toca, toca em feridas, me expõe a tanta coisa nova  - e outras tão antigas quando a origem da Terra. Coisas que já vivi, outras que vou viver. Outras que me contaram, viveram. Outras ainda só imagino. E muitas pelas quais nunca vou passar. Me apresenta um mundo que bem conheço e outro que nunca vi - simultaneamente.

Parece que estou em Berlim com Breno. Acho que o conheço. Quero ir a Berlim e voltar a estudar alemão. Faz mais de ano que me deleito com o já citado livro. Gostava tanto que quase dei meu exemplar a um amigo. Queria dividir, compartilhar. E o leio sem pressa, saboreando cada palavra, momento, cirscunstância, diálogo, referência histórico-cultural, olhando para fora da janela - e para dentro de mim.

Ouvindo Body and soul (Ella Fiztgerald)

28 de nov de 2010

Diário: The Greatest

Assistia "Bones" e ouvi essa voz inconfundível.

Insensível: Musical

Ela está terminando mais um romance mal rascunhado:

- Mas você não pode acabar tudo! - ele suplica.

- Tudo? Não temos nada. - ela esclarece.

- Você tem até trilha sonora! - ele ostenta o CD junto ao peito.

- For no one ou Every you every me?

Ouvindo a melhor versão de Lover come back to me, a de Billie Holiday.

26 de nov de 2010

Pretty girls make graves

O rapaz trabalhava há pouco tempo como caixa na loja de departamentos.

- Débito - disse uma voz enquanto colocava diversas peças de lingerie sobre o balcão.

Ele levantou o olhar: parou sem jeito. Fugaz, intensa, bela. Sorriu. E tinha pressa, muita pressa.

- Desculpe, vamos começar de novo: "boa noite" - a voz era macia - Débito, por favor - as unhas em esmalte claro. Dedos longos.

Ele pegou o cartão, tocando de leve a pele morna-morena da cliente. Estava tonto, não raciocinava direito. Começou a imaginar coisas enquanto contava os itens do balcão. Sobre ele: renda e cetim em tons pastéis, vermelho e preto. Imaginou que poderiam sair de lá para tomar alguma coisa.

- Ah! Eu me esqueci disso! - ela disse, tirando da bolsa um envelope - Tenho uns vale-presentes aqui, não precisa do cartão.

O rapaz não disse nada, não dizia nada. Devolveu o cartão. Só observava, com uma fome mal-disfarçada. Mais tarde ficaria irritado por ter se portado como um adolescente inexperiente. O tique do olho começara há pouco, mas ela parecia não ter percebido. Eram duzentos reais em vale.

- Vai gastar os duzentos nessa compra? - leve tom de curiosidade na voz.

- Isso - disse ela, prendendo os cabelos num coque (ombros e pescoço à mostra).

Quem teria dado duzentos reais em vale-presente para ela? Olhos grandes e amendoados. Boca expressiva (o que estariam expressando agora?). Braços e pernas macios (mini-saia). Mão seguras (nuas, sem anéis ou alianças). Rosto tranquilo. Despudor no riso incontido e honesto ao celular. Bom, era fácil imaginar quem poderia ter lhe dado os vales (com quem estaria falando?).

- Está tudo aqui  - ele disse, colocando a última peça de renda numa sacola grande, sem esconder o seu desagrado pelo fato.

Ela sorriu e agradeceu. Até aquele momento, ela não tinha percebido nada da parte dele. Distração. Talvez pensasse em como seria a noite... E era aquela sua distração que a fazia mais tentadora.

- Mais alguma coisa? - ele suplicou.

Então ela parou. Sorriu de novo. Mas era um sorriso diferente. De repente, ela o tinha lido por completo. O rapaz sentiu-se acuado e, ao mesmo tempo, satisfeito que seu olhar tivesse finalmente sido notado. E, curiosamente, o fato de ela perceber o efeito que causava a fez mais tentadora.

- Não, obrigada. Já tenho tudo o que preciso - disse ela, num misto de impressões.

Pálido, ele assentiu com a cabeça, entregou-lhe um panfleto cinzento da loja. O seu "volte sempre" foi sincero. Depois disso, ele voltou à sua vida de sempre, mas sempre imaginando. Ela, depois de transbordar junto ao balcão, voltou para casa - inesperadamente satisfeita.

Go back

Os dois amigos conversam, esperando o filme começar:

A: - Meu, não sei o que fiz de errado...

B: - Por quê?

A: - Poxa! Saímos três vezes. Nos divertirmos nas três. Rimos juntos. Gostei da conversa. Gostei do beijo. E achei que fosse recíproco.

B: - Mas...

A: - Ela sumiu, deu uma desculpa qualquer e sumiu. Não sei mesmo o que fiz de errado.

B: - Bom, tem coisas que a gente não entende mesmo. Tem coisas que a gente não deve se esforça para tentar entender. Senão vai desperdiçar a vida e perder outras oportunidades. Tem coisas que a gente nunca vai entender. De repente, você nem fez nada de errado...

A: - Você acha mesmo?

B: - Certeza. Melhor deixar pra lá. É assim que eu penso agora. Só quero saber do que pode dar certo: não tenho tempo a perder.

Ouvindo:



* Música dedicada ao Diego de la Vega (que adora Fito Paez)

25 de nov de 2010

Diário: Não posso evitar de me apaixonar em dezembro

Dezembro não me traz memórias muito floridas e as férias sairão muito tarde. As coisas andam tão corridas que só me dei conta quando comecei a preencher a papelada e me preocupar com a burocracia caraterísticas de fim de ano. Mas uma coisa que estranhamente me mostrou que era dezembro, e de um modo inusitado, foi Can't help falling in love de Elvis Presley.

Estava baixando músicas do Rei e esbarrei com ela. Choque! Sempre que ouço essa música, tenho uma forte lembrança de estar dançando-a com alguém na virada de ano. É uma lembrança morna e confortante. Mas aí eu páro para pensar: poxa, isso nunca realmente aconteceu! Então como sinto tal lembrança tão intensa em mim? Será que foi algo que vi num filme, algo que sonhei (meu inconsciente dando as cartas), algo que implantaram na minha mente (sou uma replicante, há!) ou simplesmente algo de outra vida?

Não importa. A sensação me faz feliz. E já sei ao som de que música vou fazer a passagem de 2010 para 2011.

20 e poucos anos: Globalização

Num restaurante na Liberdade:

- Nunca mais saio para comer comida chinesa com você! - desbafou Lô,envergonhada.

- Por quê? - perguntou Raul de boca cheia.

- Queijo ralado no yakissoba?! - disse ela, inconformada.

Raul olhou para o sachê aberto, um dos inúmeros sachês de queijo ralado que levava consigo.

- Bom, é tudo macarrão mesmo.

24 de nov de 2010

Bem vindo

Sensação de ver chegando
Tua sombra na areia branca
A silhueta nua
de promessas e arroubos
Só a certeza da presença
Constante
Colhendo conchinhas na praia.

(Frau Forster)

Sobre pessoas, digo, personagens planas


Você é superficial como um espinho ou é superficial só na superfície mesmo e tem profundidade de raiz?

23 de nov de 2010

20 e poucos anos: Leis de atração

Numa inocente happy hour:

- Não sei porque, mas só atraio caras inseguros... - lamentou-se Lô.

- Será que não é o contrário? Digo, será você não é atraída por eles? - especulou Clara.

- Não, são eles que vêm atrás de mim. E o que será que isso significa? O que será que eu passo, que eu transmito para atrair homens assim? - perguntou Lô.

Neste momento, ambas olharam para Zeca. Ele não disse nada, só deu ombros: pensava se Lô teria razão... Estava bastante interessado nela e questionava-se se isso tinha algo a ver com o fato de ser extremamente inseguro. (Não) concluiu nada e terminou seu drink. Raul só observava: prazer visceral em observar as pessoas ao seu redor, tão senhor de tudo e todos.

Ouvindo Eu que não amo você (Engenheiros do Havaí)

22 de nov de 2010

20 e poucos anos: Espera

Conheci Otávio numa sala de espera de consultório médico: eu tinha problemas de estômago, ele, de coração e esperávamos pelos respectivos médicos. Ele puxou papo e conversamos por uns trinta minutos sobre várias coisas. Descobrimos coisas em comum. Muitas coisas. E coisas delicadas. Assuntos delicados.

Ele tinha um ar de rapaz tímido, mas articulava bem, se expressava bem. Muito sério e prático, mas tão idealista quanto eu. Bonito? Eu não teria reparado em Otávio se não tivéssemos conversado. Mas conversamos. Ele era interessante: fazia muito tempo que eu não tinha uma conversa como aquela com alguém do sexo oposto. Otávio falava a minha língua e isso era uma coisa que já tinha me feito muita falta. Agora eu já não sabia se fazia.

- Já deu o horário, daqui a pouco vão chamar a gente - eu lhe disse e a atendente logo nos chamou.
Nos levantamos (ele era alto) e perguntou meu nome: afinal, para todos os efeitos, éramos dois estranhos que passaram agradáveis trinta minutos falando sobre praticamente tudo. Respondi-lhe e ele sorriu, era a primeira vez que sorria.

Achei que ele fosse pedir meu telefone e, por uma fração de segundo, vislumbrei nosso futuro, pelo menos um café. Mas ele hesitou, sorriu novamente: se contentou com meu nome, naturalmente. Como poderia aquilo ser diferente do que eu já tinha vivido? Ele hesitou mais um pouco na nossa despedida. Fui eu quem falou primeiro:

- Boa sorte com o coração! - sorri.

Ele sorriu novamente, tímido. Eu poderia ter pedido seu telefone, não tinha problemas quanto a isso, mas... Eu queria aquilo? Eu não queria nada, a não ser a distância de quaisquer assuntos sentimentais. Acho. Descobrimos coisas em comum. Muitas coisas. Talvez não o suficiente para marcarmos um café, mas agora, nunca saberíamos. Pensei que talvez ele me esperasse na saída, mas descartei a idéia boba. Saí de lá com uma sensação que não conhecera até então e parecia que algo me estava sendo devolvido aos poucos.

Ouvindo Pocahontas (Johnny Cash)

Neruda

"sou onívoro
de sentimentos,
de seres,
de livros,
de acontecimentos
e lutas.
comeria toda a terra.
beberia todo o mar."

(Pablo Neruda)

21 de nov de 2010

Como reduzir sua pesquisa de 1 ano num discurso de 15 minutos [2]

Ensaiei e ensaiei - as pessoas me olhavam estranho enquanto eu discursava alto, em público, sem me preocupar muito com os olhares estranhos. Sim, descobri como fazer isso: reduzir minha pesquisa de 36 páginas, 1 ano, 45 referências bibliográficas em 15 minutos. São só números.

Todavia, na hora H, me empolguei e estourei o tempo. A coordenadora da mesa gentilmente avisou:

- Você pode ir finalizando.

Eram só números. E o comentário decisivo não tinha nada a ver com números:

- Bem se vê a paixão com a qual você fala sobre seu trabalho!

Pouco me importavam os números ou se eu tinha sido brilhante: recebi um dos maiores elogios que poderia receber, pois sentia que meu entusiasmo transbordava pelos poros e, antes mesmo que a coordenadora dissesse qualquer coisa, pensei comigo mesma:

- Um ser apaixonado...

19 de nov de 2010

Que cor você quer?

Cor dos comprimidos altera resultado do tratamento

Aparência do remédio

A cor, a forma, o sabor, e até mesmo o nome de um comprimido ou pílula, podem ter um efeito sobre como os pacientes sentem a sua medicação.

A escolha de uma combinação adequada desses quesitos, além do efeito placebo, dá um grande incremento ao poder curativo do comprimido, melhora os resultados e pode até mesmo reduzir os efeitos colaterais.

Esses efeitos já são conhecidos e têm sido cada vez mais estudados, a ponto de os cientistas defenderem que o efeito placebo deve ser parte efetiva do tratamento médico.

Agora, cientistas da Universidade de Bombaim, na Índia, estudaram medicações contra-indicadas para descobrir o quanto a aparência de um comprimido influencia a escolha do paciente.

Sabor e cor

Se, quando se trata de alimentos, a cor é importante, os remédios não ficam para trás. 

R. Srivastava e seus colegas relatam que as pastilhas de cores vermelha e rosa são as preferidas pelos pacientes.

Eles entrevistaram mais de 600 pessoas, mostrando que três quartos delas consideram que a cor e a forma dos comprimidos funcionam como auxílio à memória para tomarem o remédio conforme a receita.

Estranhamente, os cientistas descobriram que 14 por cento das pessoas acreditam que os comprimidos de cor rosa têm sabor mais doce do que os comprimidos vermelhos, enquanto um comprimido amarelo é percebido como mais salgado, independentemente dos seus ingredientes reais.

11% dos entrevistados acham que os comprimidos brancos e azuis têm o gosto amargo, e 10% disseram que os comprimidos de cor laranja são azedos.

Em comparação com adultos mais jovens, o dobro de pessoas de meia-idade prefere comprimidos vermelhos. As mulheres preferem mais os comprimidos vermelhos do que os homens.

Experiência sensorial

Os pacientes até podem confiar em seu médico ou farmacêutico, mas isso não significa que eles vão tomar o comprimido mais amargo.

"Os pacientes submetem-se a uma experiência sensorial cada vez que auto-administram uma droga, seja engolir um comprimido ou cápsula, mastigar um comprimido, engolir um líquido, ou aplicar um creme ou pomada," diz a equipe.

"O ritual envolvendo as percepções pode afetar poderosamente como um paciente vê a eficácia do tratamento," escrevem os pesquisadores em seu artigo.

Os cientistas sugerem que é possível garantir que todos os elementos sensoriais de um remédio atuem em conjunto para criar uma percepção positiva que complementa os atributos médicos do próprio remédio.

Eles ressaltam, no entanto, que surpreendentemente pouca atenção tem sido dada a este aspecto da formulação farmacêutica.
Fonte: Diário da Saúde - www.diariodasaude.com.br
URL: http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=cor-dos-comprimidos-altera-resultado-tratamento&id=5956&nl=nlds

18 de nov de 2010

20 e poucos anos: Geografia


 Raul e eu estávamos numa videolocadora. Esbarrei com um daqueles filmes cult:

- Que língua se fala na Iuguslávia?

Raul me olhou como se eu tivesse matado alguém - talvez um iuguslavo:

- A Iuguslávia não existe mais, Lô. Ela foi desmembrada - ele disse, de boca aberta.

- Do jeito que você fala eu me sinto alienada... - dei ombros.

- E não é para se sentir? - ele arregalou os olhos.

- Ah! É que eu sempre me perco na Europa Central - me desculpei.

Silêncio.

- Mas que língua se falava na Iuguslávia?

Neil Young again - naturally

16 de nov de 2010

Sobre gregos, baleias e alucinações

Quando me entregaram as três caixinhas de Cebion eu parei:

- Mas eu pedi Redoxon!

Cebion para mim é nome de cetáceo marinho (Pode um cetáceo não ser marinho? Talvez possa ser de água doce... Estou a anos luz das aulas de biologia), provavelmente primo distante das baleias belugas, minhas baleias preferidas. Qual é a sua? Todavia, Cebion também me soa muito como nome de criatura grega mítica, quase posso ouvir:

- Hércules derrotou o Cebion!

A imaginação voou longe, mas eu preferia Redoxon: não tem nem o gosto nem a cor estranha do cetáceo grego Cebion.

20 e poucos anos: Tribos

Lô e eu estávamos em frente à tevê, mas não assistíamos nada. Conversávamos, pra variar.

- Acho que eu sou velho: não vejo graça em Friends, comédia stand-up e CQC.

- Acontece nas melhores famílias - ela respondeu, sem dar muita importância (tinha começado uma reportagem sobre escutas telefônicas e quebra de sigilo no Planalto).

- Sei lá, às vezes me sinto fora dos grupos. Parece que não consigo me enquadrar em lugar nenhum...

Lô parou de prestar atenção na tevê:

- Quantos anos você tem? Que papo é esse de se "enquadrar"? Pra mim quem enquadra é polícia...

- Ah! Eu sei que você entende o que eu tô falando: todo mundo precisa ser e quer ser aceito pelo grupo.

- Que grupo?

- Bom, tem vários...

- E em qual você quer se enquadrar? Nos que gostam de Friends, comédia stand-up e CQC?

- ...

- Bom, porque se você quiser a minha aceitação, é bom ficar quietinho até o fim da reportagem.

15 de nov de 2010

Diário: Arriscando

Se você quer algo bem-feito, faça você mesmo. É isso o que diz o ditado. Entretanto, não se aplica necessariamente a todas as coisas. Corte de cabelo é uma delas. Mas o ditado pode funcionar mesmo em relação ao corte de cabelo - principalmente quando você não aguenta mais o mesmo visual.

Aprovaram.

The moon again - naturally

"Come a little bit closer
Hear what I have to say
Just like children sleepin'
We could dream this night away."

14 de nov de 2010

[re]conhecimento

Um dia você acorda e quer se matar por perder uma hora e meia num caminho que você costuma fazer em vinte minutos. E, de quebra, descobre que não dirige tão bem. Mas o dia ainda te reserva boas surpresas.

Nesse mesmo dia, alguém reconhece seu trabalho. De verdade. Não qualquer pessoa, mas aquela pessoa que você admira. E você descobre que ela te admira também. Sem os elogios fáceis. Alguém que te acompanha passo-a-passo e te valoriza pelo que você é e faz. E essa pessoa faz você perceber que lealdade e dedicação valem a pena. Lealdade não é coisa só de cachorro. Essa pessoa te entende e entende pelo que você luta, o que você busca. Sem o discurso besta que você tem ouvido de muitos da sua idade.

E se importam verdadeiramente com o que você sente. E você se sente feliz. Ao mesmo tempo, você lida com assuntos sérios com naturalidade e sobriedade. E você percebe que seu coração está leve, chegou ao ponto certo, ao ponto de antes. Só precisava daquela conversa especial para voltar aos eixos.

O prospecto é bom. Em todos os sentidos. Você consegue vislumbrar um futuro promissor, do jeitinho que você queria. Ou melhor. E fica feliz em perceber que as coisas estão saindo diferente do planejado - e isso, nem de longe, é um problema. Porque você conseguiu muito mais do que imaginava. E é só o começo.


Ouvindo Lonely (Frente)

12 de nov de 2010

Sgt. Peppers

Clara conheceu o Sgt. Peppers num momento de grandes mudanças. Conheceram-se num bar: ela no palco, ele na platéia. Tinham muito em comum e era natural que se tornassem amigos. Um dia, depois de ouvir Clara contar uma de suas anedotas:

- Você é uma mulher maravilhosa.

Clara ficou sem palavras. Não pelo elogio em si - já tinha ouvido muita coisa -, mas pela pessoa que o tinha feito: era a primeira vez que um homem que não era da família nem que tivesse segundas intenções lhe falava daquele jeito.

- Mesmo - ele continuou - sua força, sua determinação, sua independência são admiráveis!

Clara agradeceu com um sorriso. Achou incrível que alguém entedesse o que ela estava fazendo com sua vida. Será que ele entendia por ter mais do que o dobro de sua idade? Porque a maioria de seus amigos de vinte e poucos anos não conseguia entender o que Clara estava buscando.

Liniers [1]


Se Liniers diz isso, quem sou eu para discordar?

11 de nov de 2010

Em busca da INfelicidade

Conversava eu ontem com um velho amigo e eis que me lembro de algo que ele costumava dizer:

- A gente tem que tomar cuidado para não se acomodar.

É uma coisa difícil, na verdade. E acho que em diferentes momentos da vida e por diferentes razões, a gente acaba de acomodando. Se acomodar não é crime e talvez seja a tendência da maioria de nós. O problema é a situação na qual a gente se acomoda.

Conheço gente que escolhe se acomodar na infelicidade - seja por conta de um parceiro infeliz, seja por causa de um emprego ingrato (são as duas coisas que primeiro me vêm a mente). Muitas vezes nós temos a possibilidade de escolha, na verdade, acredito que em 99,9% dos casos está em nossas mãos o poder de buscar algo melhor para nossa vida.

Se acomodar na infelicidade é não aceitar que há algo além do que se tem. E quando alguém diz:

"Você merece algo melhor"

a gente é obrigado a concordar, porque aquilo não basta mais - se é que um dia bastou.

Acredito que é sempre tempo de ousar, meter as caras, arriscar... Simplesmente tentar. Eu pelo menos defendo que a doçura ou azedume dos frutos está acima da ausência de sabor dos frutos que não nasceram por não haver semente.

Insensível: A declaração


Ele traz um buquê de rosas vermelhas e perfumadas, se ajoelha diante da Insensível e se declara:

- Estou perdidamente apaixonado por você.

Ela olha sem disfarçada indiferença:

- E eu com isso?

Silêncio.

- Ah. Não gosto de rosas.

10 de nov de 2010

[Re]encontro

Os dois se esbarram na padaria, num sábado de manhã. Olham-se por um instante longo. Ela com o saco de pães. Ele com os frios - presunto e queijo. Um sorriso amarelo de longe. Um aceno de longe. Distância? Uma sensação estranha no estômago. Um deles criando coragem se aproxima:

- Quer tomar café lá em casa?

- 'Cê tá sem companhia?

- Isso é um sim?

- É sim. Faz tempo que a gente não se vê...

- É... É verdade. Cansei dos desencontros. Agora só quero saber de te reencontrar. 

Ouvindo:

Maurício+Malu: É o bicho


No café-da-manhã, passando a manteiga no pão:

Maurício: - Dormiu bem?
Malu: - Que nada! Um calor dos infernos... E você?
Maurício: - Tive uns sonhos estranhos: sonhei com dois jacarés.
Malu: - E daí?
Maurício: - Era um casal de jacarés. A fêmea usava batom cor-de rosa...
Malu: - Então acho que você devia jogar "jacaré" no jogo do bicho.
Maurício: - Eu disse que a fêmea usava batom cor-de-rosa e você acha isso normal?
Malu: - Não, não acho, besta. Mas você tem duas opções: ou joga no bicho ou fica esperto.


Um dia desses

A: - Podemos fazer alguma coisa...

B: - É.

A: - A gente podia ir ao cinema...

B: - É.

A: - Quando você está livre?

B: - Ah. Um dia a gente vê isso...

A essa altura as coisas ficaram muito claras: eles nunca iriam ao cinema.

Ouvindo Sh-Boom (The Chords)



9 de nov de 2010

Feudo

Ele tinha sorrido e me dito:

- Não precisa se preocupar, estou bem.

E concordei com a cabeça, obedientemente. 

Depois de ouvir suas palavras mais recentes, vi alguma tristeza, alguma preocupação. Que fazer? Talvez conversar com ele -  ou simplesmente ouvir. Bom, ele não era muito de falar desses assuntos. Era discreto e reservado. Entretanto, mais do que isso, ele era muito preciso. E vi a precisão da linha que ele traçou na areia:

- Daqui você não pode passar.

Mensagem recebida e compreendida. Minha preocupação era inevitável, mas sabia que era desnecessária e inútil.

Slowly

8 de nov de 2010

20 e poucos anos: Meaningless

Tombei a cabeça em seu colo, não queria levantar. Fiquei olhando para o teto. Ouvi Tibúrcio ronronar em algum lugar por perto. Me bateu um desânimo grande. Tão grande que quase me devorou. O que me salvou foi a voz de Lô:

- Quer conversar?

- Não. Quero só ficar assim no seu colo, posso?

- Detesto quando você se fecha.

- Mas você devia respeitar...

- É, eu sei.

Lô dedilhava os meus cabelos, mas não conseguiu extrair qualquer som de mim. Eu queria dizer a ela o que sentia, só não sabia como. Nunca fui muito bom com palavras, embora as minhas cartas de amor fossem belas - isso em outros tempos.

- Eu não consigo sentir mais nada. Todo o ódio, o amor... Tudo! Parece que eu estou anestesiado.

- Homem-vegetal? Entrou no tanto faz por causa das coisas que têm acontecido?

- É... Tudo. Eu estou em colaspo.

Ela riu.

- Desculpe, mas você diz isso com uma naturalidade tocante.

Sorri.

- Vai passar, eu sei. Eu sempre renasço. Já morri e vou ainda nascer muitas e muitas vezes. O problema é que ninguém respeita isso, ninguém quer que eu fique mal.

- Claro que não: a gente se preocupa com você, Raul.

- Você não entendeu, Lô. Parece que eu não posso nem ficar mal, porque todo mundo me cobra para superar o que quer que eu esteja sentindo logo. Estou digerindo. É uma feijoada, não uma salada de alface. Você sabe do que estou falando.

- Sei sim. Mas as pessoas não fazem por mal. Hum. Talvez seja um pouco egoísta, tanto da sua parte quando da delas. Os outros querem que você fique bem porque de algum modo isso os afeta, interfere na vida deles. E você quer continuar no seu mundo, isolado dos demais, sem se preocupar se o que sente e o modo como tem agido interferem na vida alheia.

- Talvez você tenha razão. Mas eu preciso desse tempo. Daí eu ter largado o emprego e essa minha vontade de fugir, sumir. A vida me parece tão sem sentido.
- Acho que é normal as coisas entrarem em crise de tempos em tempos. Serve para repensarmos as coisas e darmos uma guinada.

- E eu nem sou autro-destrutivo como você.

- Ei!

- Ah Lô. Olhe para você.

Suas mãos pararam de brincar com meus cabelos. Ela achava terapia uma furada, mas não conseguia lidar com seus problemas. Tinha perdido muito peso, desconfiava que não comia direito.

- O seu cabelo, Lô.

- Mas como você cismou com ele! Quando você vai entender que é uma metáfora?

Eu ri. Aquilo era bem coisa dela mesmo.

- Metáfora para quê? Para mostrar como você corta com o sistema?

- Não, não é nada disso. É o modo físico que tenho de me podar, já que por dentro não tem mais como.

Me assustei. Agora era ela quem falava com uma naturalidade que me espantava. Levantei e olhei para ela. Estava tranquila, estranhamente tranquila. Menos olheiras, o rosto mais corado.

- Eu sou mais forte do que você e o resto do mundo pensam. Não sou a princesa que você julga e não preciso provar isso para ninguém.
- Eu não entendo como você consegue.

- O quê?

- Ficar comigo nessas condições.

- Nessas condições? - ela riu gostosamente e passando a mão pelo meu rosto - Eu disse que era forte, vocês que são uns tolos e confiam só no que podem ver. Acham que a minha aparência define o que eu sou por dentro. Não sou auto-destrutiva só porque tenho meus momentos de tristeza. E dane-se se a tristeza não dura tanto quanto os outros querem ou acham que deveria durar. Eu estou aqui do seu lado porque você precisa de mim. Já consolei tanta gente que não precisava. Já ofendi tanta gente com meu excesso de zelo. Já afugentei tanta gente com o meu amor desajeitado. Não estou sendo auto-piedosa, mas não precisavam de mim. Perdi meu tempo e o dos outros. Mas você precisa de mim. Sinto isso na sola dos meus pés. É um tremor suave que vem da terra. Eu encontro força no meu sofrimento para te dar força.

Fiquei olhando para Lô. Se eu a conhecesse há pouco tempo, ela teria acabado de me afungentar com seu amor - nada desajeitado. Era uma coisa veemente com a qual eu nunca saberia lidar.

- Estou só buscando o sentido da vida de novo.
- Acho que é isso o que a gente faz quando está em crise, não?

- É, acho que sim. Você sabe que eu não sou muito de crises.

- Te prometo que passa, Raul.

Ela segurou as minhas mãos delicadamente. 

- Mas lembra que você não precisa de todas as respostas.

- Não quero todas, quero a meia dúzia que me cabe, só isso.

- Mimado. Desde quando a gente tem tudo o que quer?

Ela inclinou a cabeça para o lado, sorrindo. Aquele sorriso. Agora assim eu a reconhecia debaixo dos escombros. Será que ela me reconhecia debaixo dos meus? Ela não tinha tido muito das coisas que quisera. E até que lidava bem com isso. Seu mundo de ponta-cabeça e ela segurando minha mão. Era como se eu a conhecesse a partir daquele momento: que mulher tinha se tornado? A menina.... Bem, a menina eu conhecia.

- Vou te fazer uma xícara de chá.

- Vai me curar?

- Eita dengo! Claro que não - ela pulou do sofá - mas garanto que uma boa xícara de chá e um passeio na companhia da minha adorável pessoa vão te fazer bem. Você precisa respirar e não só metaforicamente. E eu também, ou daqui a pouco cheiraremos a mofo.

"Adorável" era essa a palavra. Lembrei de suas intensas aspirações a femme fatale. E nada, Lô não tinha nada disso. Mas, ainda assim, era adorável. Talvez um dia ela entendesse que aquilo era mais do que o suficiente.

- E a gente vai encaixando as peças do quebra-cabeças e dando sentido para a vida, que tal? - ela gritou da cozinha.

- Eu acho que esse glitter no esmalte dos seus pés é sem sentido.

Lô veio para a sala. Colocou as mãos no quadril. Olhou os seus pés e com ar de fingida superioridade:

- Mais um mistério da humanidade.

Ouvindo Romance ideal (Paralamas do Sucesso)

Dirigindo









7 de nov de 2010

6 de nov de 2010

Maldosamente ingênua


Pedido inesperado

Ele: - Posso te pedir uma coisa?

Ela: - Diga.

Ele: - Você espera por mim?

Ela: - Como assim?

Ele: - Me espera por seis anos. Aí eu vou ter dezoito anos e você...

Ela: - Vou ter trinta e um.

Ele: - Ainda vai estar novinha!

5 de nov de 2010

Quer a minha opinião?

É preciso aprender a filtrar os conselhos que nos dão - porque se quiséssemos levar TUDO que os outros falam em conta ficaríamos  no mínimo, doidinhos, não? 

Recebi alguns conselhos interessantes, sutis, delicados - bem diferentes do que eu estou acostumada, mas o fato é que comecei a prestar atenção nos conselhos que eu dou a mim mesma. Há ainda outros tipos de conselho, claro, os famosos "socos-no-estômago", também muito úteis, sem dúvida. E sempre aqueles conselhos porcos sobre como você deve viver a sua vida... blá blá blá.

"Se conselho fosse bom, não era dado, mas vendido", diz a sabedoria popular - e acho que casa muito bem em alguns casos, principalmente quando pensamos nas "boas intenções" que recheiam alguns conselhos... O que leva a um outro ditado popular que me divide: "De boas intenções o inferno está cheio".

Eu mesma só dou o meu pitaco se "consultada", a não ser que seja algo sério ou grave no qual eu me ache no dever (e não direito) de me intrometer. E depende para quem eu estou falando também, não? Seja como for, gostei das últimas coisas que ouvi: não porque eram o que eu queria ouvir, mas porque eram o que precisava ouvir.

Meus próprios conselhos. Dessa vez, não só os ouvi atentamente, latejando certeiros, como resolvi colocá-los em prática. O resultado está sendo interessante e parece que me renovo a cada novo instante, como se trocasse de pele. Não, esqueça o lance da metamorfose da borboleta. Thor costumava usá-la quando eu estava em crise, mas acho que hoje não me serve - saudades grandes de você. Hoje de neste momento, mas não quer dizer nunca mais. Acho que é porque me sinto mais próxima da terra do que do céu.

Ouvindo Cayman islands (Kings of convenience)

Diamonds are a girl's best friend

A: - Me diga uma mulher que prefira flores à jóias!

B: - Não me decepcione, C.

C: - Eu.

B: - Não acredito!

C: - Não ligo mesmo.

B: - Você prefere flores agora porque é jovem e romântica. Eu aprendi que não adianta ser romântico nessa vida.

C: - Não é questão de ser romântica: aonde eu iria usando jóias? Não é romantismo, é praticidade.

4 de nov de 2010

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível…
E que esse momento será inesquecível..
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém…
e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons
sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente
importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca
cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter
forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe…
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia,
e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,
talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas…
Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder
dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim,
sem ter de me preocupar com terceiros…
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão…
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…
e que valeu a pena.
Mário Quintana

3 de nov de 2010

Leaving

A: - Aonde você foi?

B: - Eu já tinha dito.

A: - Nem se despediu.

B: - Mas eu disse: "estou indo".

A: - Por que esse comportamento?

Silêncio.

B: - Não faço a mínima idéia.

1 de nov de 2010

20 e poucos anos: Proteção

Cansei de ficar de pernas para o ar. Tibúrcio deitado sobre a minha barriga. Tão engraçado esse lugar em que ele gostava de ficar. Desta vez eu não estava com fome, então ninguém miava de dentro da minha barriga. 

Tinha tido sonhos estranhos. Tanta gente e tanta coisa. Sonhei com você. Eu acho que eu ainda era algumas coisas, apesar de. Raul e o resto do mundo me diziam muita coisa. E eles tinham toda razão, mas eu ainda tinha uns ares sonhadores, apesar de. Claro, só questão de tempo até que fossem sepultados. Por ora, estavam adormecidos, enterrados sob o solo árido. Eram sementes que não germinariam tão fácil ou cedo. E eu nem queriam mesmo. Queria exterminar qualquer pessoa ou coisa que viesse a me causar dor de novo.

Raul tinha ido comprar frango assado. Ele tinha ficado uma semana fora e precisávamos colocar as coisas em dia. Ele não estava bem também. O que fazer quando nós dois estávamos em crise? Da última vez que aquilo tinha acontecido... nossa... fazia muito tempo. A noiva de Raul o tinha deixado. Eu me lembro de entrar no quarto dele: tudo revirado e Bon Jovi ao fundo. Eu teria rido se não fosse sério: Raul, sempre tão organizado e sóbrio... Ele estava largado na cama, nem chorava mais. Estava seco como eu. Não respondia nada, não comia, não reagia. E eu morrendo de vontade de lhe dar uns tabefes:

- ACORDA RAUL!

Ele não reagiu a nada do que eu lhe disse, mas reagiu a algo que viu: as marcas no meu rosto, nos meus ombros, nos meus olhos. Ele parou, saiu de dentro de si, sentou-se sobre a cama, como que acordando de um transe. Leu a vergonha nos meus lábios apertados.

- Quem fez isso?

De zumbi-coração-partido ele tinha se tornado o Incrível Hulk.

- Eu caí - disse quase que me desculpando, olhei para baixo.

- Eu não acredito no que eu ´tô vendo.

Ele me pegou pelos braços. Gemi de dor. Levantou a manga do braço esquerdo: o vergão verde-vergonha.
- Vou estourar esse cara!

- Não precisa, depois disso eu terminei tudo.

- Mas agora é a minha vez de terminar.

Ele saiu esbaforido do quarto. Tinha ido atrás dele. Mais tarde fui saber que graças a Raul, ele tinha ido parar no hospital. Briguei feio com Raul, disse que não iria perdoá-lo nunca. Eu detestava violência. Mas parte de mim se sentiu grata, muito grata. Era a maneira que Raul tinha de se importar. Uma atitude machista, claro, mas foi alguma coisa. A única coisa que fizeram. Porque as pessoas me davam conselhos toscos e nenhum deles sobre o que fazer se você leva uma surra do seu namorado aos 17 anos. E ninguém parecia se importar muito. E eu era tonta e fiz o que faz uma menina tonta de 17 anos: fugi.

- Eu quero lutar, mas não com essas armas.

Um dia eu queria explicar ao Raul, mas eu acho que não conseguiria me fazer entender. Nem me importei muito. Tibúrcio ronronava. Estava tão cansada de explicar as coisas. Tão desgastante. Era mais importante que ele soubesse o que eu sentia. E ele sabia.

Tocou a campainha. Pulei da cama. Tibúrcio foi se enroscando na minha blusa de meia malha, até que pudesse, por fim, pular para o chão e se esconder no cesto de roupas sujas da lavanderia. A luz de fora entrava lilás na sala, mas os móveis conservavam um ar de ouro velho, um brilho antigo. Por um instante, parecia que aquele brilho vinha de mim e refletia nos móveis.

- Mas que saudade! - agarrei Raul, quase derrubei ele e o frango.

Dei -lhe um abraço tão forte que ele não entendeu. Acho. Ele me deu um beijo na testa, abraçando a mim - e o frango. 

- Entra, entra - eu disse, puxando-o pela mão.

Seu olhar estava baço, sentia sua força morrer conforme caminhávamos rumo a cozinha. Nada comparado a história do Bon Jovi, mas ele não estava bem.

Servi o frango e nos sentamos.

- Vamos conversar?

Raul fez que sim com a cabeça. O garfo sobre o prato. Seus olhos grandes e pretos conservavam ainda aquele hálito que me tinha conquistado desde o começo.

Ouvindo Quien es la que viene alli (Los tres)

(In)diferença

Pensando na Pink Lady...

"[...] How come no-one told me
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference
I guess it's up to me now
Should I take that risk or just smile? [...]"

Miread (Kings of Convenience)



Persona

A: - Preciso de uma nova persona.

B: - O que vamos pensar para você?

A: - Olha, me transformaram num monstrinho nos últimos tempos. Talvez uma vilã latina caia bem.

B: - É, você leva jeito.