26 de nov de 2010

Pretty girls make graves

O rapaz trabalhava há pouco tempo como caixa na loja de departamentos.

- Débito - disse uma voz enquanto colocava diversas peças de lingerie sobre o balcão.

Ele levantou o olhar: parou sem jeito. Fugaz, intensa, bela. Sorriu. E tinha pressa, muita pressa.

- Desculpe, vamos começar de novo: "boa noite" - a voz era macia - Débito, por favor - as unhas em esmalte claro. Dedos longos.

Ele pegou o cartão, tocando de leve a pele morna-morena da cliente. Estava tonto, não raciocinava direito. Começou a imaginar coisas enquanto contava os itens do balcão. Sobre ele: renda e cetim em tons pastéis, vermelho e preto. Imaginou que poderiam sair de lá para tomar alguma coisa.

- Ah! Eu me esqueci disso! - ela disse, tirando da bolsa um envelope - Tenho uns vale-presentes aqui, não precisa do cartão.

O rapaz não disse nada, não dizia nada. Devolveu o cartão. Só observava, com uma fome mal-disfarçada. Mais tarde ficaria irritado por ter se portado como um adolescente inexperiente. O tique do olho começara há pouco, mas ela parecia não ter percebido. Eram duzentos reais em vale.

- Vai gastar os duzentos nessa compra? - leve tom de curiosidade na voz.

- Isso - disse ela, prendendo os cabelos num coque (ombros e pescoço à mostra).

Quem teria dado duzentos reais em vale-presente para ela? Olhos grandes e amendoados. Boca expressiva (o que estariam expressando agora?). Braços e pernas macios (mini-saia). Mão seguras (nuas, sem anéis ou alianças). Rosto tranquilo. Despudor no riso incontido e honesto ao celular. Bom, era fácil imaginar quem poderia ter lhe dado os vales (com quem estaria falando?).

- Está tudo aqui  - ele disse, colocando a última peça de renda numa sacola grande, sem esconder o seu desagrado pelo fato.

Ela sorriu e agradeceu. Até aquele momento, ela não tinha percebido nada da parte dele. Distração. Talvez pensasse em como seria a noite... E era aquela sua distração que a fazia mais tentadora.

- Mais alguma coisa? - ele suplicou.

Então ela parou. Sorriu de novo. Mas era um sorriso diferente. De repente, ela o tinha lido por completo. O rapaz sentiu-se acuado e, ao mesmo tempo, satisfeito que seu olhar tivesse finalmente sido notado. E, curiosamente, o fato de ela perceber o efeito que causava a fez mais tentadora.

- Não, obrigada. Já tenho tudo o que preciso - disse ela, num misto de impressões.

Pálido, ele assentiu com a cabeça, entregou-lhe um panfleto cinzento da loja. O seu "volte sempre" foi sincero. Depois disso, ele voltou à sua vida de sempre, mas sempre imaginando. Ela, depois de transbordar junto ao balcão, voltou para casa - inesperadamente satisfeita.

3 comentários:

Cayo Candido disse...

E o meu blog que só tem desencontros?

Adorei o texto!

Bj

Vinícius Cássio disse...

um de seus melhores contos, definitivamente!

Leandro Amado disse...

Nossa, Lari, muito bom!


E não sei porque mas a menina do conto é a Scarlett Johansson!! Talvez seja culpa do Woody Allen...