22 de nov de 2010

20 e poucos anos: Espera

Conheci Otávio numa sala de espera de consultório médico: eu tinha problemas de estômago, ele, de coração e esperávamos pelos respectivos médicos. Ele puxou papo e conversamos por uns trinta minutos sobre várias coisas. Descobrimos coisas em comum. Muitas coisas. E coisas delicadas. Assuntos delicados.

Ele tinha um ar de rapaz tímido, mas articulava bem, se expressava bem. Muito sério e prático, mas tão idealista quanto eu. Bonito? Eu não teria reparado em Otávio se não tivéssemos conversado. Mas conversamos. Ele era interessante: fazia muito tempo que eu não tinha uma conversa como aquela com alguém do sexo oposto. Otávio falava a minha língua e isso era uma coisa que já tinha me feito muita falta. Agora eu já não sabia se fazia.

- Já deu o horário, daqui a pouco vão chamar a gente - eu lhe disse e a atendente logo nos chamou.
Nos levantamos (ele era alto) e perguntou meu nome: afinal, para todos os efeitos, éramos dois estranhos que passaram agradáveis trinta minutos falando sobre praticamente tudo. Respondi-lhe e ele sorriu, era a primeira vez que sorria.

Achei que ele fosse pedir meu telefone e, por uma fração de segundo, vislumbrei nosso futuro, pelo menos um café. Mas ele hesitou, sorriu novamente: se contentou com meu nome, naturalmente. Como poderia aquilo ser diferente do que eu já tinha vivido? Ele hesitou mais um pouco na nossa despedida. Fui eu quem falou primeiro:

- Boa sorte com o coração! - sorri.

Ele sorriu novamente, tímido. Eu poderia ter pedido seu telefone, não tinha problemas quanto a isso, mas... Eu queria aquilo? Eu não queria nada, a não ser a distância de quaisquer assuntos sentimentais. Acho. Descobrimos coisas em comum. Muitas coisas. Talvez não o suficiente para marcarmos um café, mas agora, nunca saberíamos. Pensei que talvez ele me esperasse na saída, mas descartei a idéia boba. Saí de lá com uma sensação que não conhecera até então e parecia que algo me estava sendo devolvido aos poucos.

Ouvindo Pocahontas (Johnny Cash)

2 comentários:

Maria Rita disse...

Adorei a sua forma espontânea de escrever, e quanto ao Otávio....ah que pena que a timidez ganhou mais uma vez!

Beijos pra Ti

Anônimo disse...

nossa! delicado!!!
sara