8 de nov de 2010

20 e poucos anos: Meaningless

Tombei a cabeça em seu colo, não queria levantar. Fiquei olhando para o teto. Ouvi Tibúrcio ronronar em algum lugar por perto. Me bateu um desânimo grande. Tão grande que quase me devorou. O que me salvou foi a voz de Lô:

- Quer conversar?

- Não. Quero só ficar assim no seu colo, posso?

- Detesto quando você se fecha.

- Mas você devia respeitar...

- É, eu sei.

Lô dedilhava os meus cabelos, mas não conseguiu extrair qualquer som de mim. Eu queria dizer a ela o que sentia, só não sabia como. Nunca fui muito bom com palavras, embora as minhas cartas de amor fossem belas - isso em outros tempos.

- Eu não consigo sentir mais nada. Todo o ódio, o amor... Tudo! Parece que eu estou anestesiado.

- Homem-vegetal? Entrou no tanto faz por causa das coisas que têm acontecido?

- É... Tudo. Eu estou em colaspo.

Ela riu.

- Desculpe, mas você diz isso com uma naturalidade tocante.

Sorri.

- Vai passar, eu sei. Eu sempre renasço. Já morri e vou ainda nascer muitas e muitas vezes. O problema é que ninguém respeita isso, ninguém quer que eu fique mal.

- Claro que não: a gente se preocupa com você, Raul.

- Você não entendeu, Lô. Parece que eu não posso nem ficar mal, porque todo mundo me cobra para superar o que quer que eu esteja sentindo logo. Estou digerindo. É uma feijoada, não uma salada de alface. Você sabe do que estou falando.

- Sei sim. Mas as pessoas não fazem por mal. Hum. Talvez seja um pouco egoísta, tanto da sua parte quando da delas. Os outros querem que você fique bem porque de algum modo isso os afeta, interfere na vida deles. E você quer continuar no seu mundo, isolado dos demais, sem se preocupar se o que sente e o modo como tem agido interferem na vida alheia.

- Talvez você tenha razão. Mas eu preciso desse tempo. Daí eu ter largado o emprego e essa minha vontade de fugir, sumir. A vida me parece tão sem sentido.
- Acho que é normal as coisas entrarem em crise de tempos em tempos. Serve para repensarmos as coisas e darmos uma guinada.

- E eu nem sou autro-destrutivo como você.

- Ei!

- Ah Lô. Olhe para você.

Suas mãos pararam de brincar com meus cabelos. Ela achava terapia uma furada, mas não conseguia lidar com seus problemas. Tinha perdido muito peso, desconfiava que não comia direito.

- O seu cabelo, Lô.

- Mas como você cismou com ele! Quando você vai entender que é uma metáfora?

Eu ri. Aquilo era bem coisa dela mesmo.

- Metáfora para quê? Para mostrar como você corta com o sistema?

- Não, não é nada disso. É o modo físico que tenho de me podar, já que por dentro não tem mais como.

Me assustei. Agora era ela quem falava com uma naturalidade que me espantava. Levantei e olhei para ela. Estava tranquila, estranhamente tranquila. Menos olheiras, o rosto mais corado.

- Eu sou mais forte do que você e o resto do mundo pensam. Não sou a princesa que você julga e não preciso provar isso para ninguém.
- Eu não entendo como você consegue.

- O quê?

- Ficar comigo nessas condições.

- Nessas condições? - ela riu gostosamente e passando a mão pelo meu rosto - Eu disse que era forte, vocês que são uns tolos e confiam só no que podem ver. Acham que a minha aparência define o que eu sou por dentro. Não sou auto-destrutiva só porque tenho meus momentos de tristeza. E dane-se se a tristeza não dura tanto quanto os outros querem ou acham que deveria durar. Eu estou aqui do seu lado porque você precisa de mim. Já consolei tanta gente que não precisava. Já ofendi tanta gente com meu excesso de zelo. Já afugentei tanta gente com o meu amor desajeitado. Não estou sendo auto-piedosa, mas não precisavam de mim. Perdi meu tempo e o dos outros. Mas você precisa de mim. Sinto isso na sola dos meus pés. É um tremor suave que vem da terra. Eu encontro força no meu sofrimento para te dar força.

Fiquei olhando para Lô. Se eu a conhecesse há pouco tempo, ela teria acabado de me afungentar com seu amor - nada desajeitado. Era uma coisa veemente com a qual eu nunca saberia lidar.

- Estou só buscando o sentido da vida de novo.
- Acho que é isso o que a gente faz quando está em crise, não?

- É, acho que sim. Você sabe que eu não sou muito de crises.

- Te prometo que passa, Raul.

Ela segurou as minhas mãos delicadamente. 

- Mas lembra que você não precisa de todas as respostas.

- Não quero todas, quero a meia dúzia que me cabe, só isso.

- Mimado. Desde quando a gente tem tudo o que quer?

Ela inclinou a cabeça para o lado, sorrindo. Aquele sorriso. Agora assim eu a reconhecia debaixo dos escombros. Será que ela me reconhecia debaixo dos meus? Ela não tinha tido muito das coisas que quisera. E até que lidava bem com isso. Seu mundo de ponta-cabeça e ela segurando minha mão. Era como se eu a conhecesse a partir daquele momento: que mulher tinha se tornado? A menina.... Bem, a menina eu conhecia.

- Vou te fazer uma xícara de chá.

- Vai me curar?

- Eita dengo! Claro que não - ela pulou do sofá - mas garanto que uma boa xícara de chá e um passeio na companhia da minha adorável pessoa vão te fazer bem. Você precisa respirar e não só metaforicamente. E eu também, ou daqui a pouco cheiraremos a mofo.

"Adorável" era essa a palavra. Lembrei de suas intensas aspirações a femme fatale. E nada, Lô não tinha nada disso. Mas, ainda assim, era adorável. Talvez um dia ela entendesse que aquilo era mais do que o suficiente.

- E a gente vai encaixando as peças do quebra-cabeças e dando sentido para a vida, que tal? - ela gritou da cozinha.

- Eu acho que esse glitter no esmalte dos seus pés é sem sentido.

Lô veio para a sala. Colocou as mãos no quadril. Olhou os seus pés e com ar de fingida superioridade:

- Mais um mistério da humanidade.

Ouvindo Romance ideal (Paralamas do Sucesso)

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