30 de abr de 2010

Já dizia a mãe do Bambi...

Era uma vez uma criança adorável e bobona. Essa criança era eu. Me impressionava muito fácil e quando a mãe do Bambi disse

"Nunca vá para a campina. Pode ser perigoso",

aquilo ficou me ressoando na cabeça e fiquei com medo da tal campina. Eu nunca iria à campina, porque era periogoso, eu tinha medo e era obediente. Entretanto, não havia campinas por perto e só vim a saber o que era isso bem mais tarde (Eu tinha uns sete anos quando vi Bambi).

Lembrava da minha mãe falando:

"Não fale com estranhos e não aceite doces de ninguém".

Acho que era o equivalente da mãe da Disney (uma das poucas, já que as histórias são recheadas de má-drastas) dito pela mãe do mundo real.

Quando  descobri que era perigoso ir à campina porque era uma área aberta, propícia para a caça dada a ausência de árvores, a campina perdeu o seu poder sobre mim. Eu não era um cervo nem qualquer bicho da floresta. Nessa época, eu era uma bailarina. E Branca de Neve nas festinhas de fim de ano.

28 de abr de 2010

Lafayete, o alfaiate




Nada tenho a dizer sobre ele, a não ser que é uma combinação deveras sonora. Na verdade, ele não é alfaiate. Imagine se fosse! Se eu fosse ele, mudaria de profissão.

Cova rasa

Venha ver o pôr-do-sol - convido a quem quer que esteja interessado. Observo o cadáver mirradinho e seco à minha frente. O que fazer? O suor escorre delicado pela minha testa. Cavo uma cova, mas, por mais que eu cave, continua rasa. O que é que quanto mais se tira, maior fica? O buraco. Mas não é esse o meu caso. Antes tivesse eu esse prazer secreto de fugir às convenções. Mas não tenho.

Pode-se morrer de qualquer coisa. Tuberculose,  desgosto, gripe suína, tristeza. Às vezes não se sabe a causa da morte. É esse o caso. O que houve com você, meu caro? Mandaram que fosse enterrado em uma vala qualquer. Que fazer? Aos olhos do mundo pode não ter sido grande coisa, mas um dia foi importante para mim. Um dia. E agora? Agora não sei o que fazer com esse seu corpo frágil que de nada mais me serve. Não carrego mais mortos. Mais um pouco e se tornará estorvo.

O cadáver perdeu aquela expressão de desespero do primeiro momento - morri?! - e agora parece tranquilo. Ainda assim, como que por um feitiço, parece que não vou conseguir enterrá-lo. Só parece. Empenho-me aplicada e há quem me ajude. A cova parece um pouco mais profunda agora.

Pode-se matar com qualquer coisa. Abridor de cartas, lança-chamas, corda, açúcar, bolinhos de chuva. Vai chover. Às vezes não se sabe porque se mata. Por que foi morto? Não se sabe. Só se sabe que foi morto. E não é a sua morte que me assombra, mas sim o mistério: O que? Por quê? Onde?

Olho para sua expressão infantil. Frágil, tão frágil. Foi frágil em vida, por que se tornaria forte na morte? Enterrar o seu corpo morto é enterrar o mistério da sua morte. Eu não quero mais saber. Eu não preciso mais. Então me deixa ir. Você agora é só matéria. Vai se dissolvendo na terra. Alimentar essa terra em que caminhamos. Fazer nascerem novas flores. Já passou o seu tempo. Vai tranquilo. E me deixa ir.

Vai chover. Uns pingos gatos-pingados sussurram qualquer coisa na brisa suave. Suspiro de cansaço. Cavei a cova mais profunda para te plantar e te fazer nascer em flor. Lírios da Paz. É o que eu quero. Não está tão profundo como deveria, mas descoberto o seu corpo não fica. E o tempo e suas areias, sua chuva, sua grama, vai crescer um jardim sobre sua matéria sem vida.

A certeza de que você existiu um dia é um fato. Entretanto, sua presença começa a ser dissolvida  no tempo. Porque foi assim que decidi.

27 de abr de 2010

Na sala de aula: Twilight

As duas adolescentes estão com uma edição da Capricho com o Robert "Eca" Pattinson na capa - ou Edward "Shiny" Cullen.
- Se vocês não guardarem eu vou ganhar uma revista...
- Ai teacher! - diz a primeira.
- Vocês acham ele bonito? - pergunto.
- Mas é claro! - diz a segunda.
E eu pensando: puxa, será que quando eu era adolescente eu gostava desses caras sem sal? Será que eu ia curtir esse cara se eu fosse mais novinha? 
- Você não acha ele gato não? - pergunta a segunda.
- Não vejo graça nele, na verdade...
Aí eu apelo:
-... Sou mais o Jake Black. Vocês não gostam dele não?
As duas fazem uma carinha sapeca e abrem um sorriso:
- Gostamos sim!
Ainda não falamos a mesma língua, mas estamos mais próximas.

Comentários Pertinentes:
- O único Robert que me interessa é o Smith;
- Robert Pattinson não toma banho;
- Twilight, na minha opinião, é muito chato! Bella e Edward são o casal mais sem sal e sem graça da história dos livros infanto-juvenis.
- Uma vez que queria saber quem era o ator que faz o Jake Black. Digitei no google imagens "Jake Black" e me veio a sugestão "Jake Black sem camisa". Isso me faz entender o porquê do sorriso das moçoilas e é explicado pelo fato de o ator passar 95% do filme New Moon - desnecessariamente - sem camisa.

26 de abr de 2010

Como é que se diz "eu te amo" [1]

Fui preparar a minha pseudo-janta antes de ir trabalhar. Escolhi um tapeware simpático de tampa branca e tamanho bom - adequado a minha porção peso-pena, mas sem frango. Ia ficar muito bom se estivesse morno. Bom, tem microondas lá. E formigas não tão simpáticas. Só formigas.

Peguei qualquer coisa de sobremesa. Qualquer coisa nada: uma bela barrinha de hersheys cookies branco com biscoito. Era isso? Que diferença faz o nome se o gosto é tão bom? Um suco, um guardanapo. Nenhuma companhia. Nenhum drama. As formigas nada simpáticas - entrando pela minha bolsa! - me fazem companhia.

O garfo.

Tem um saquinho cheio de garfos descartáveis em algum lugar. Achei! Penso em você. Puxa, mais um garfo de plástico. Petróleo pretróleo petróleo. Os espíritos ancestrais de todos os fósseis parecem me perguntar:

- Descartável?

Fuço na gaveta e encontro pequenos garfos de sobremesa - perfeitos para o tamanho de minha bolsa. Um garfo de plástico descartável a menos. Okay. É só um, mas e daí? Coloco o alegre garfinho junto com a pseudo-marmita. Vou trabalhar pensando em você e no mundo não-descartável que deixaremos para os nossos filhos.

24 de abr de 2010

Na sala de aula: Ser ou não ser?

Depois de ouvir pérolas do tipo:

- I, you, he é verbo to be, né?

E de corrigir provas nas quais mistura-se a negativa do to be com verbos no simple present:

"She isnt't eat cake".

(Mesmo depois de já ter falado que a única coisa que am, is e are e study, work e swim  - I am happy; I study very much - têm em comum é que estão no presente...), tento recorrer assim a alguns meios mais alternativos do tipo:

-O auxiliar do/ does/ did e o verbo to be são dois inimigos mortais: nunca estão na mesma frase.

&

- O auxiliar do/ does/did e o verbo to be são como Clark Kent e Superman: onde um está o outro nunca está.

E claro, sempre lembrando que o verbo to be é suuuuper independente e não precisa de ninguém junto dele, nenhum auxiliar. Ele mesmo se basta.

(Pô, quero ser o verbo to be...)

23 de abr de 2010

Como definir um dia da semana


A Wikipédia define "Monday" como "the day of the week between Sunday and Tuesday". Assim até eu.

Diário: Lucidez

Eu estava num ponto de ônibus, voltando do trabalho quando um velhinho simpático veio me perguntar:

- O 789M já passou?

Eu lhe disse que ainda não tinha passado. Ele agradeceu e se sentou ao meu lado. Logo, outros três velhinhos chegaram no ponto e começaram a papear. Senti falta do dominó. Cedi meu lugar e fiquei de ouvido na conversa. Bom, seria impossível não ficar, logo que falavam muito alto, mas muito alto mesmo. E não eram surdos.
Fiquei espantada como o "meu" velhinho era lúcido, como falava das atualidades, da vida que tinha levado. Veio o papo de

 - No meu tempo as coisas eram diferentes...

(um clássico!) o que desembocou em algo do tipo 

- [...] a solução para o tráfico de drogas é a castração!

Aí eu estranhei: bom, de uma pessoa mais radical eu poderia esperar um discurso do tipo "solução para estuprador é castração", mas tráfico de drogas? Logo descobri que, para ele, a castração era solução para tudo.

Depois de passar uns quinze minutos ouvindo o seu discurso acalorado sobre como a minha geração e as mais novas vivem nas drogas, prostituição e similares, e de como a castração é a solução para tudo, duvidei da sua experiência e, de certa forma, da sua lucidez.

20 de abr de 2010

Como engolir choro

Coloque uma bola de meia - limpa de preferência - na boca: o tecido não só abafa os soluços como absorve as lágrimas. Quando perguntarem o que você tem, simplesmente responda: "Só estou cansado...".

Fica a dica.

18 de abr de 2010

Isso é amor

Conversando com uma colega de trabalho. Falávamos de uma conhecida dela:

- Ela era bem novinha, engravidou e se casou com o rapaz, dez anos mais velho do que ela. O cara ameaça bater nela caso ela saia de casa e ela morre de medo - ela comenta.
- Nossa! Que situação... - eu digo.
- Ela não consegue se livrar dele: quer estudar, mas ele não deixa; quer trabalhar, mas ele não deixa. Eu digo para ela largá-lo, mas ela diz: "ele me ama!". Além disso, ela tem medo dele, naturalmente. Aí eu pergunto: isso é amor?
- Não! - respondo veementemente.
- Sim! Não nego que o cara a ame, ainda que a maneira dele...

Tem coisas que não combinam com amor. E essa coisa de "Ah! Ele(a) gosta dela(e) do jeito dele(a)" tem limite. É uma pena que as pessoas não percebam isso. Tem coisas que não se pode tolerar, violência é uma delas. Violência e amor não coexistem. Se há violência, não há amor. A despeito da definição de amor que você tenha.

Não estou dizendo que existe um padrão de coisas (ou melhor, uma cartilha) que se deva seguir para estar com o ser amado. Só digo que tem coisas pressupostas. Como se fossem os dez mandamentos! E o primeiro deles, para mim, seria:

1) Respeitar o ser amado.

O respeito engloba outros trilhões de coisas em si, por isso da minha escola. E pensando bem, esse primeiro mandamento deveria ser mais abrangente:

1) Respeitar as pessoas. Ponto.

Talvez eu seja ainda muito jovem para definir o que é amor. Entretanto, consigo definir com certeza aquilo que ele não é.

16 de abr de 2010

Teoria da conspiração: H1N1

Ao ouvir as pessoas temeorosas sobre a vacina contra a gripe suína, uma sineta soou enérgica em meu ouvido. Voltei no tempo! E como que por encantamento me vi em sala de aula há uns dez anos atrás, estudando o trabalho de Osvaldo Cruz, um importante médico e sanitarista brasileiro.

Na escola, eu lembro de ter aprendido que há muito tempo atrás - considerando que ele faleceu em 1917, sabemos que foi há um longo tempo mesmo - Osvaldo Cruz tentou fazer com que as pessoas fossem vacinadas contra febre amarela e varíola. Tal vacinação se tornou coisa obrigatória porque as pessoas simplesmente tinham medo e se rebelaram contra a campanha de vacinação (!). E era uma vez a tal da Revolta da Vacina. Isso tudo na cidade do Rio de Janeiro, que era mesmo muito suja naquela época - 1903-1904.

Passados 100 anos, teremos mudado? Ou ainda achamos que estão todos contra nós? O Brasil é reconhecido mundialmente por diversos de seus programas de saúde. Por que não reconhecer o que temos de bom? Afinal, quem acha que Brasil é só praia, futebol e cerveja... Bom, aí dá outro post-revolta.

Sim, vamos nos rebelar de novo contra a campanha de vacinação!

Eu acho que a gente acaba se rebelando contra as coisas erradas... Enquanto o que realmente importa, deixamos na mesma....

14 de abr de 2010

Maurício+Malu: Evergreen

No começo era o  verbo

Certa tarde de inverno, Maurício e Malu estavam num parque, conversando. O sol só fornecia luz sem calor. Ambos agasalhados obervavam a tarde azul de vento frio, mas um dia tão bonito. O passado, já passado, era por vezes repassado, mas concentravam-se no [seu] futuro.

- Sabe... Você não precisa se preocupar com isso. Eu sou constante. O problema são os outros - ela sorriu, ajeitando a boina rosa-chá que escorregava pelos seus cabelos lisos.
- Por quê os outros? - ele quis saber, arrumando o chachecol.
- Bom, eu nunca deixei ninguém: sempre fui deixada - disse ela sem qualquer sinal de auto-piedade - Sei lá, talvez eu simplesmente não seja tudo aquilo que pensei - olha para um passarinho lá no alto - Acontece. Ou de repente tem alguma coisa errada comigo - pensava ela no desfecho [deveras] desagradável e um bocadinho recente.
- Malu, eu nunca vou te deixar - disse Maurício sério, segurando sua mão.

A expressão de Malu era uma exclamação:  sua intenção era mostrar para Maurício o quanto levava tudo aquilo à sério. Todavia, acabava sendo surpreendida por ele. 

- Quando eu disse aquilo sobre sempre ser deixada... Eu não quis me fazer de vítima não, sabe? Me fazer de "coitadinha". Reconheço que somos responsáveis, em grande parte, pelo nosso próprio sofrimento.
- Eu sei disso. Concordo com você em gênero, número e grau. Sei que você não quis se fazer de vítima indefesa. Mas eu estou dizendo o que eu sinto: eu não vou te deixar. Só se você não me quiser mais.  Aí não tem nada que eu possa fazer, pois meu alcance é limitado. Não vou nunca te impor nada, muito menos o meu amor.

Ouvindo Lover come back to me (Lily Frost)

13 de abr de 2010

Atrás das mulheres erradas

A noite está morna e as duas estão sentadas na varanda. A mais velha reclama:
- O que são esses mosquitinhos chatos?
- São pernilongos machos - respondeu a mais nova.
- Não entendo porque ficam me rodeando!

A caçula observa a irmã: os pernilongos realmente estão ao seu redor.
- Ei! Vocês não perceberam que estão atrás da fêmea errada? - e diante da insistência desagradável deles - Não é a toa que estão sozinhos...

Aforismo Nadalienável

"Quem tem tempo pra ficar lendo sabe de tudo que acontece, quem não tem faz tudo acontecer"
(S. Black & Frau Forster)

Todo macaco velho já foi novo um dia

Porque isso cansa a minha beleza. Isso o quê? Essa mania de gente mais velha jogar a sua experiência na minha cara. Claro, não desprezo sua vivência  e tudo aquilo pelo que já passaram.  Gosto de ouvir sobre o que já viveram e aprender com isso. Mas será que eles já pararam para pensar que não é porque serviu para eles que serve para mim?

Sim, eles me apresentam suas verdades absolutas e universais numa bandeja de prata, esperando, naturalmente, que eu aceite tudo e lhes seja eternamente grata. E ai de mim se questionar qualquer coisa! Uma ingrata! É assim que serei chamada. Aliás, já fui.

O mundo tem mudado tanto nos últimos tempos que muitas coisas já não fazem sentido. Conselhos e similares se tornam anacrônicos ou inviáveis. E como eu explico isso? Ingrata! Estava mesmo conversando com C., o dobro da minha idade, e, depois eu eu ter reclamado sutilmente que recicla-se muito pouco no Brasil, ele me disse, entre outras coisas:

- Ah vocês jovens querem que as mudanças ocorram muito rápido!

Sim, com aquele olhar paternal beirando uma certa arrogância. O fato é que as mudanças tem ocorrido muito rápido - das mudanças ambientais às comportamentais. (Parêntese: a garota de 11 anos aparece com uma marca escura no queixo e eu lhe pergunto se ela tinha caído. Qual não é a minha surpresa com sua resposta: "é um chupão". Aí me sinto muito velha porque acho um absurdo uma menina de 11 anos estar nessas...). Às vezes, parece que estamos num turbilhão de acontecimentos e temos que decidir e resolver as coisas logo. O que é diferente de ser imediatista. O mundo hoje exige que as coisas sejam resolvidas logo.

O tempo é outro. Quando digo isso, não só quero dizer que não estamos mais na década de 70, mas que o tempo, apesar de ainda ser medido por relógios, se tornou outra coisa. E se não tomarmos cuidado, somos tragados por ele.

Eu acho engraçado as pessoas da minha idade que sustentam a aura de "eu sou uma pessoa vivida", quando de fato não são. Já conheci pelo menos duas pessoas assim. Eu não me impressiono fácil e sei que tem certas coisas que só o tempo trás. Assim, se alguém vem com a história de "eu conheço bem as mulheres, entendo delas" com aquele ar arrogante de adolescente que não se resolveu, bom, aí a arrogante sou eu:

Por fora, ela sorri um sorriso simpático. Mas, por dentro, alça as sobrancelhas, põe as mãos nos quadris e diz em tom de mofa:

- Você sabe tanto da vida quanto eu: absolutamente nada.

* Claro que eu exagero aqui, mas é para dar maior dramaticidade *risos*

* E eu sempre desconfio de quem diz entender muito de mulher. Muitas vezes a pessoa não entende muito  de seres humanos, em geral! Ou pior ainda, nem entende muito bem de si mesma!

Eu não tenho medo de errar, de quebrar a cara, porque aprendo com meus erros. E com os dos outros também, felizmente. A vida está aí para isso: para ser vivida. Eita clichê bom!

Não sei porque os mais velhos vêm cheios de neuras. Sim, a palavra é essa: neura.

6 de abr de 2010

Via crucis

Ia plúmbea e sangüínea. Sangüínea não que seu sangue ralo já tinha se esvaído. No seu caminho matutino se despia de tudo: sonhos, medos e máscaras. Não sobraram unhas ou cores: era uma boneca de cera. Todavia não derreteria caso tentassem aquecê-la. O fato é que já não era humana.

No seu ouvido de zumbi, morta-viva, zumbiam as vozes exteriores e violavam seu ouvidos e sua vontade. Caso seguisse a trilha de cabelos, encontraria-a macilenta e cinza. Cabelos? Sim, se desapegava de tudo a sua volta numa incrível velocidade e os cachos negros foram ficando para trás. A boca sem cor, os olhos de botões pretos e gastos e velhos. Nem suspiros nem surpresas. No alarms and no surprises.

Sempre no meio fio, na corda bamba que se tornara a sua vida jovem. Sempre às margens, sem pertencer a lugar nenhum ou ser reconhecida como um ser vivente e pensante e decidinte. Votar ela bem  podia, decidir o futuro do país, mas era provida do direito de decidir sobre a sua própria vida.

Sempre às magens, parou no meio da ponte. Alguns fios de cabelo ainda iam se soltando no vento úmido e saudoso. Não queria mais as margens, queria o fundo.

De chumbo, afundou e num gole foi tragada pelo rio Pinheiros.

5 de abr de 2010

Cama e mesa

Cresci assitindo Polishop, por isso não sei como não me tornei consumista. Aliás, tenho um excelente senso de economia doméstica. Outra coisa televisiva que me traz a infância de volta é o anúncio do Grill Hall (a.k.a. churrascaria) Prazeres da Carne.

Quando eu ouvia "prazeres da carne", imaginava alguém comendo e se deliciando com churrasco, já que se trata(va) de uma churrascaria. Há apenas algumas semanas eu percebi a dupla leitura. Gee! Piadinha tão marota - ironia mode on. Pensando bem, cama e mesa.

É isso o que acontece quando a gente passa a "pensar" sobre as coisas encaradas como automáticas... Igual às cantigas infantis.

2 de abr de 2010

Vestido de noiva

Ela, que disse que nunca ia se casar de véu e grinalda, apareceu vestida de noiva. Tão linda. Ele ficou olhando a delicadeza dos brincos de pérola, imaginando quantas coisas não gostaria de ter sussurrado em seu ouvido.

Lembrou-se de quando a conhecera: quem olhasse para ela não teria lhe dado muita importância. Mas ele sabia ver coisas que os outros não viam. Quem tivesse reparado na sua blusa de renda branca e na saia azul marinho - dois dedos acima dos joelhos arredondados -, nos olhos mornos e adocicados, no queixo delicado, mas resoluto, na firmeza das mãos saberia que ela não era comum.

Da última vez, tinham ido jantar juntos e a noite acabara com ele a levando para [a] casa [dela] e voltando para sua esposa. Mas  um pedaço dele tinha ficado na rua onde conversaram sobre o estranho relacionamento que vinham mantendo. Achava agora que encontraria uma parte de si caso passasse por lá. Talvez outro pedaço estivesse perdido para sempre - ela o tinha levado embora. Era mais letal  do que se poderia julgar a primeira vista e agora ele sabia. Vê-la depois de dois ou três meses trazia a tona uma série de sentimentos contraditórios e ele ficou confuso. De novo.

- Muito bonita a sua fantasia - ela sorriu, olhando para ele.

- A sua também - ele respondeu.

- Não é fantasia - disseram os olhos mornos.

- Ah! É pra valer? - engoliu ele em seco o seu orgulho e o seu temor.

- Pra valer o quê? O casamento? - ela riu - Não, mas o vestido é de verdade - disse ela mostrando o bordado das mangas.

- Ah! Engraçado, porque não é sua fantasia casar de branco, né?

- Não, mas é a de outra pessoa - disse ela vagamente.

- Ah! Não sabia que estava noiva... Meus parabéns! - sorriu ele em choque: "em dois meses ela fica noiva?"

- Não estou noiva, nem pretendo casar. Ele me disse que eu devia ficar linda de noiva.

- Ele? - a sua cara era a de ponto de interrogação.

- Só estou comprovando que ele estava certo - ela sorriu.

- Bom, você está ótima mesmo - disse ele e pensou "ótima? que elogio é esse?" - Ah! Então está namorando?

- Isso. Daqui a pouco ele chega. Aí eu te apresento - provocou ela.

- Vai me esfregar o namorado na cara? É isso? - disse ele, sem conseguir se segurar, com um sorriso nervoso no rosto.

- Bom, você nunca soube o que sentia por mim. Ele sabe. E que culpa eu tenho se temos amigos em comum e a gente vem para a mesma festa que você? - disse ela cinicamente.

- Olha, eu não estou te cobrando nada, você sabe... - disse ele já arrependido.

- Nem poderia, nunca tivemos nada - ela deu ombros, desenhosa.

- Lá vai você com essa história! - irritou-se ele.

- Estou mentindo? - ela colocou as mãos na cintura, mau sinal.

- Você me machuca toda vez que fala assim - confessou ele com os olhos baixos.

- Cadê a sua esposa, hein? - agora era ela quem se irritava.

- Pegando um bebida. Vai me esfregar a esposa na cara também? - perguntou ele cínico.

- Não, essa você tem me esfregado na cara nos últimos anos, não?

Ele sabia ver coisas que os outros não viam. Todavia, nunca soube o que fazer com isso e perdia oportunidades como um jogador perde tudo numa mesa de pôquer.


Tudo azul, todo mundo nu




Porque festa do cabide não tem nada de especial para naturistas.
(Observação pertinente: não confunda naturista com naturalista)

Alianças ou Tolas metáforas anelais

A aliança era apertada. Ele quis fazer-lhe uma surpresa. Estrangulava-lhe o dedo - roxo. Uma paixão que sufocava, faltava-lhe ar e espaço. E a aliança pesava. Mas o nome já estava nela gravado. O que fazer? Poderia trocar?

A aliança era frouxa. Muito frouxa. Mas muito frouxa mesmo. Ele quis fazer-lhe uma surpresa e não tinha idéia do tamanho de seu dedo. Apesar de o nome já estar gravado, trocou-a por uma menor. Mas ainda assim continuava frouxa. Muito frouxa. Se não tomasse cuidado ao acenar ou fazer qualquer outro movimento, a aliança voava para longe. Muito longe. Talvez outro continente. O que fazer? Poderia trocar?

A aliança caía-lhe como uma luva, com o perdão da expressão. Os dois foram escolhê-las juntos. Elas, as alianças. De repente é tudo plural. Nem o sufocamento da sala abafada, nem a distância fria do ártico. Nem a prisão com carcereiro apaixonado, nem a "liberdade" dos solitários oficialmente acompanhados. O que  fazer? Poderia trocar? Não. De repente não vai precisar trocar.