2 de abr de 2010

Vestido de noiva

Ela, que disse que nunca ia se casar de véu e grinalda, apareceu vestida de noiva. Tão linda. Ele ficou olhando a delicadeza dos brincos de pérola, imaginando quantas coisas não gostaria de ter sussurrado em seu ouvido.

Lembrou-se de quando a conhecera: quem olhasse para ela não teria lhe dado muita importância. Mas ele sabia ver coisas que os outros não viam. Quem tivesse reparado na sua blusa de renda branca e na saia azul marinho - dois dedos acima dos joelhos arredondados -, nos olhos mornos e adocicados, no queixo delicado, mas resoluto, na firmeza das mãos saberia que ela não era comum.

Da última vez, tinham ido jantar juntos e a noite acabara com ele a levando para [a] casa [dela] e voltando para sua esposa. Mas  um pedaço dele tinha ficado na rua onde conversaram sobre o estranho relacionamento que vinham mantendo. Achava agora que encontraria uma parte de si caso passasse por lá. Talvez outro pedaço estivesse perdido para sempre - ela o tinha levado embora. Era mais letal  do que se poderia julgar a primeira vista e agora ele sabia. Vê-la depois de dois ou três meses trazia a tona uma série de sentimentos contraditórios e ele ficou confuso. De novo.

- Muito bonita a sua fantasia - ela sorriu, olhando para ele.

- A sua também - ele respondeu.

- Não é fantasia - disseram os olhos mornos.

- Ah! É pra valer? - engoliu ele em seco o seu orgulho e o seu temor.

- Pra valer o quê? O casamento? - ela riu - Não, mas o vestido é de verdade - disse ela mostrando o bordado das mangas.

- Ah! Engraçado, porque não é sua fantasia casar de branco, né?

- Não, mas é a de outra pessoa - disse ela vagamente.

- Ah! Não sabia que estava noiva... Meus parabéns! - sorriu ele em choque: "em dois meses ela fica noiva?"

- Não estou noiva, nem pretendo casar. Ele me disse que eu devia ficar linda de noiva.

- Ele? - a sua cara era a de ponto de interrogação.

- Só estou comprovando que ele estava certo - ela sorriu.

- Bom, você está ótima mesmo - disse ele e pensou "ótima? que elogio é esse?" - Ah! Então está namorando?

- Isso. Daqui a pouco ele chega. Aí eu te apresento - provocou ela.

- Vai me esfregar o namorado na cara? É isso? - disse ele, sem conseguir se segurar, com um sorriso nervoso no rosto.

- Bom, você nunca soube o que sentia por mim. Ele sabe. E que culpa eu tenho se temos amigos em comum e a gente vem para a mesma festa que você? - disse ela cinicamente.

- Olha, eu não estou te cobrando nada, você sabe... - disse ele já arrependido.

- Nem poderia, nunca tivemos nada - ela deu ombros, desenhosa.

- Lá vai você com essa história! - irritou-se ele.

- Estou mentindo? - ela colocou as mãos na cintura, mau sinal.

- Você me machuca toda vez que fala assim - confessou ele com os olhos baixos.

- Cadê a sua esposa, hein? - agora era ela quem se irritava.

- Pegando um bebida. Vai me esfregar a esposa na cara também? - perguntou ele cínico.

- Não, essa você tem me esfregado na cara nos últimos anos, não?

Ele sabia ver coisas que os outros não viam. Todavia, nunca soube o que fazer com isso e perdia oportunidades como um jogador perde tudo numa mesa de pôquer.


3 comentários:

Vinícius Cássio disse...

genial. Simplesmente genial.

Tatiana Machado disse...

Às vezes me pergunto se a a arte é reflexo do mundo ou se a arte que é viva e nós que "play the role" em histórias de ficção que a arte encena!

Muito bonito... AMO poker :P

Bjs

Shirley disse...

Adorei.... bárbaro rs...

beijos,