31 de jul de 2011

29 de jul de 2011

Borralho

Acordou com a mão esquerda formigando intensamente. O coração aos pulos de sobressalto descompassado aos mergulhos na garganta oscilante dançante sufocante delirante. Arritmia. A pressão? Acordara no meio da noite com a mesma sensação, mas tudo se acalmara e ela voltara a dormir.

Ele se levanta. Vai se olhar no espelho. Tão bonita. Estaria prestes a morrer? Mesmo sendo tão bela e tão jovem. Bela e jovem: era apenas isso o que era e a isso se resumia. Nada mais. E tudo seria menos triste se fosse velha e feia? As pessoas ruminariam que sim, secretamente entre seus confortáveis travesseiros. Segredos de alcova.

O essencial não era invisível aos olhos, mas escorria deles, sutilmente. Ser bela não tinha valor algum e não fazia qualquer diferença naqueles momentos, quando lembramos ser todos humanos - e frágeis. A dor, algo partilhado pela humanidade. A morte, certeza da despedida da centelha divina. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó.

E foi com a mão que formigava que acenou adeus.

27 de jul de 2011

Eu não queria ser Gisele Bündchen

Não acho a Gisele Bündchen a mulher mais bonita do mundo, mas ela é, sem dúvida, um sex symbol e muito admirada por homens e mulheres. Assim, a despeito de eu não concordar com a maioria, reconheço facilmente o lugar que ela ocupa no imaginário popular. E justamente por isso a última campanha da Sky me incomoda tanto.

O cara fica meses fora e quando volta só quer saber de TV a cabo? Claro que existem outras coisas além de amor, sexo e relacionamentos em geral, outras coisas na vida mas... televisão? 

Eis as possíveis interpretações:

(a) A programação da Sky é tão boa que até Gisele é deixada de lado;
(b) O cara que volta de viagem é um boboca ao trocar sua mulher pela televisão;

Mas o que me grita é:

(c) Não importa quem você seja: se Gisele que é Gisele não consegue a atenção do sujeito, quem conseguirá?

Em suma, perturbador, principalmente porque sei que esse lance de deixar o parceiro de lado por atividades duvidosas (televisão para mim é uma delas) não é incomum.

Me coloquei no lugar dele e dela: voltando de viagem, passaria um bom tempo agarrada ao meu companheiro(a), fosse quem fosse, sem me importar com a quantidades de canais da Sky ou com a qualidade dos mesmos. Mas de repente isso não é comportamento padrão... Devo estar desatualizada nessa área pelo jeito...


25 de jul de 2011

Diário: Paixões esquecidas

Por vezes, as obrigações fazem com que a gente se esqueça das coisas que adoramos fazer. E aí temos nossas paixões esquecidas. Felizmente, tive a chance de ressucitar uma ao entrar num simpático sebo, entre um compromisso e outro.

O senhor que veio me atender era muito alto e magro, cabelos grisálios, aéreos e despretenciosos, assim como o seu olhar. Do nariz grande e delicado, suas narinas oscilavam interessadas e gentis no rosto comprido e magro. Ele subia e descia as escadas sem pressa, trazendo novos livros.

Eu já tinha estado lá antes, mas com alguma pressa. Hoje não tinha pressa, mas também não muito dinheiro. Vasculhei o sebo, mas não o esquadrinhei. Todavia, sonhei com os títulos que via dispostos nas prateleiras e que saberia poder comprar em breve.

Perguntei sobre Gertrude Stein. Ele caminhou para a saleta dos fundos, iluminada por conta das telhas de vidro, examinou uma prateleira sem muita fé, como se já conhecesse a resposta, e me respondeu:

- Não temos nada dela mesmo.

Perguntei sobre Simone de Beauvoir. Ele sorriu, pulou para a saleta anterior e me entregou um livro parrudo de capa dura e amarela: um romance. Eu queria seus ensaios, mas o outro livro que ele me entregou também era um romance: A convidada. Li a sinopse e decidi que era Simone quem acompanharia o escolhido da seção de "psicologia": Complexo de Cinderella - que já comecei a ler e estou adorando.

Na noite passada, decidira dar uma segunda chance ao Hegel e sua estética. Já fazia seis anos que tínhamos tentado - em vão. Embora o livro não tenha mudado, mudei bastante durante esse tempo e me atrevi a não mandá-lo embora na última doação.

Olhara as prateleiras: tantos mundos me aguardam e eu aqui... A espera de quê? Separei os mais atraentes, algumas prioridades profissionais e outras que adoraria reler (Milan Kundera, Ignácio de Loyolla Brandão, Raduan Nassar...).

Meu breve encontro com Hegel - breve porque naturalmente não terminei de ler seu livro -, uma olhada mais atenta na prateleira e, por fim, a ida ao sebo me certificaram de que há necessidades que guardamos e esquecemos em gavetas - neste caso específico: livros! Também me lembraram que é tempo de arranjar tempo para leitura e as outras pequenas coisas que valem a vida valer (mais) a pena.


Ouvindo Mary (Scissor Sisters)

Firegirl & Thumbelina: Exclusão

Firegirl e Thumbelina tiraram férias e foram para Paraty. Entre uma água de coco e outra, Thumbelina comenta:

- Descobri que o Super-Primo me excluiu de uma rede social.

- Provavelmente é porque vocês não conversam mais.

- Bom, se eu quiser falar com ele agora...

- Thumbs, ele é meu primo, eu o amo, mas é só um homem.

22 de jul de 2011

Porque eu sou crítico, benhê! ou Uma geração de chatos

(ou Como ser um chato)

A febre do momento é ser crítico. Todo mundo é crítico. Todo mundo se acha crítico. Todo mundo de acha no direito de criticar - o que quer que seja.

Correndo o risco de ser impalada, declaro que não sou a maior fã de Stand up comedy. A maior parte do que vejo são os ditos humoristas criticando o que todo mundo critica. Não vejo muita coisa  nova sendo sugerida ou produzida por essa geração. Tá ruim assim? Proponha algo melhor.

Essa geração é a minha geração. Não vota em ninguém porque se acha crítica o bastante para falar que ninguém presta e, como forma de protesto, não escolhe ninguém. Okay, é um direito e uma posição dos quais eu discordo - mas é a democracia, direito de quem escolhe ficar em cima do muro.

Porque para mim isso é sim ficar em cima do muro (droga, vou ser impalada de novo!), mas ficar em cima do muro não deixa de ser assumir uma posição: a posição da omissão. Só muito me irrita aguentar a cambada reclamando de um governo quando não se mobilizou para escolher alguém que não parecesse tão ruim. Porque eu também não sou nem um pouco fã da nossa situação política atual (parêntese irrelevante: se eu acreditasse em inferno, diria que vai ficar lotado com a trupe dos desonestos aí)

Mudando de área, volto a dizer que é bastante cansativo ouvir as críticas sobre Luan Santana, Restart, Justin Bieber e Cia. Acredito que eles devam ter lá o seu valor, já que têm tantos fãs. A cada coisa o seu devido valor, é o que eu sempre falo. Então o problema não é gostar de Restart, mas compará-lo aos Rollings Stones, pois são duas coisas bastante diferentes. Isso é inegável.

O grande problema é ser crítico a respeito de coisas que não se entende. Por exemplo, acho muito chato gente que não dirige (nem pretende) e fica palpitando na direção do motorista. Você manja do volante? Não? Entendo perfeitamente que é legal ter o olhar de alguém de fora (seja lá o que for), mas é necessário um certo conhecimento para criticar certas coisas.

Canso de ouvir críticas à educação e aos professores, sendo que as tais críticas vêm de pessoas que nunca entraram numa escola de periferia ou numa sala de aula qualquer e não fazem a mínima ideia do que é ensinar. Não, não é arrogância da minha parte falar desse jeito, porque eu sei o que é isso, porque eu vivencio isso - e não fico lendo notícias de jornal e especulando sem qualquer conhecimento menos superficial.

Não defendo a tirania no melhor estilo: É proibido criticar, mesmo porque isso me soa deveras ditatorial. Só acho muito válido pensar na utilidade e relevância de cada crítica que fazemos. Exemplo exemplar:  

Amigos jogam vôlei descontraidamente na praia, um que está sentado e não está brincando exclama energica e seriamente:

- Mas vocês estão jogando errado! Fulano, joga mais fraco e mais para a esquerda.

E mesmo quem faz críticas úteis e relevantes o tempo todo torna-se, no mínimo, um chato, em vias de insuportável. E ninguém gosta de gente assim. O segredo é dosar nas críticas e relaxar um pouco também, né? Do contrário, "adeus estômago!" e convívio social.

- Ih, lá vem o chato...

21 de jul de 2011

Alianças ou Tolas metáforas anelais II




Pois já acreditei nas metáforas que pareciam estar escondidas em diferentes momentos da minha vida. Hoje eu acho que tanto faz o que você leva nos dedos se o que traz nas mãos são pedras. Os símbolos ficam em segundo plano quando esvaziados de significado. A conclusão é a mais óbvia possível: vale mais o que se traz por dentro do que se ostenta por fora.

20 de jul de 2011

Woody Allen & eu

Meu querido Woody
Começou por causa de M. Soares em 2007. Foi ele quem me apresentou ao Senhor Allen e foi amor à primeira vista. Bom, eu me apego fácil ao que desperte o meu desejo e foi assim com "Match Point"(2005). Nas aulas de cinema, fizemos algumas análises sobre o filme e as questões por eles sucitadas.

Em casa, esbarrei com "Scoop" (2006) muito por acaso, mas "Cassandra's dream" (2007) fiz questão de ver no cinema com duas amigas cujo interesse por Woody Allen também tinha sido despertado recentemente. 

* Contém spoilers!
Já me recomendaram dezenas de filmes dele, mas o único que consegui assistir foi "The purple rose of Cairo" (1985), o qual achei realmente fascinante. Me deu um aperto no coração, coisa que não aconteceu em "Midnight in Paris" (2011), a despeito de eu ter visto alguns pontos em comum entre ambos, destcando um em especial: a imaginação utilizada como fuga da realidade quando a mesma não satisfaz. Ou as  personagens de Woody Allen,  Cecilia e Gil, estariam inseridas num mundo onde a realidade e o mundo dos sonhos se mistura?  Ou de repente não é nadinha disso! O que eu senti pode estar errado, mas são apenas impressões e sensações, porque não entendo de critica.

Este Woody também é ótimo!
Não sou crítica de cinema, nem quero ser. Quero continuar com o prazer simples de reconhecer se um filme é bom ou não, sem que o meu gosto ou preferência interfira no julgamento de valor Afinal, não é porque eu não gosto de um filme que ele é ruim e não é porque eu gosto que ele é necessariamente bom.

Mas voltado ao Woody e "Midnight in Paris"... Eu adorei o roteiro, detestei Inez, sua família e amigos, achei cativante a insegurança de Gil. Entendo o que é buscar num outro tempo uma realização pessoal que não se encontra no presente - não, eu não gostaria de viver no Brasil Colonial. Me encantei com os escritores, pintores e demais artistas com os quais Gil esbarrou e acho que foi tudo muito bem retratado e ficou bem próximo do que eu havia imaginado.

O final foi parcialmente esperado, mas coisa de 20%, ou seja, uma parcela insignificante. Gostei do rumo que Gil decidiu dar a sua vida  - às vezes, é preciso muita coragem para se fazer isso, como foi no caso dele. Saí do cinema pensando em tanta coisa sobre a vida, sobre minhas decisões e meu destino - por mim assim tecido. E percebi, entre outras coisas, que preciso continuar escrevendo, definitivamente.


18 de jul de 2011

Homem se conquista pelo estômago!

Para o Arquiteto

Foi isso o que um amigo meu me disse quando falei que não sabia mais cozinhar. Mas será que a gente desaprende as coisas que sabe ou elas ficam só guardadas e, na primeira oportunidade, temos sucesso se decidimos voltar a ação?

O fato é que eu não tenho necessidade de cozinhar, mas tenho sim muita preguiça. Aliás, sempre tem quem cozinhe - e muito bem por sinal. Mas comecei a lembra de como gostava de fazer doces, biscoitos, bolos... E precisavam de uma torta. Levantei cedo e exclamei enfática:

- Deixa comigo!

O.k. Não foram essas as palavras, aliás, não lembro porque tinha sono. Todavia, o que importa é que fui à luta, neste caso, à cozinha. Enquanto preparava a minha torta, percebi como me sinto mais completa quando cercada de xícaras, panelas, farinha e afins.

Preparei com muito gosto, torcendo para que nada desse errado. E fui bem sucedida, quem diria? É sempre um consolo. E agora me sinto mais tranquila: se homem se conquista pelo estômago, it's done.

17 de jul de 2011

A verdade não sai da minha boca

Gosto de ondas e elas gostam de mim. Ao menos nos encontramos com alguma frequencia e nossa convivência tem se mantido pacífica nos últimos meses.

A onda do momento é o "de verdade". Poderia dizer que a verdade não sai da minha boca, pois várias coisas que digo são acompanhadas por "de verdade": namorado de verdade, cinema de verdade, frango de verdade, motorista de verdade... Hoje mesmo soltei a pérola:

- Foi a primeira vez que brinquei com um gato de verdade.

(o delicioso Rudá)

E obtive como resposta:

- Mas você já brincou com muitos gatos de mentira?

Pausa.

- Não, acho que nunca brinquei com nenhum gato de mentira.

Fico pensando o que será que essa coisa do "de verdade" representa para mim. Acho que mostra que algumas coisas não parecem ser o que são ou deveriam ser a princípio. E você só vai saber que não eram tudo aquilo quando viver ou conhecer um pouco mais... Do quê? Da vida, dos sabores, dos perfumes... 

Mas quanto ao gato... Bom, foi a primeira vez que acarinhei um gato sem medo. A ausência do medo seria a tal verdade?

Ouvindo Interstate love song (STP)

15 de jul de 2011

You do something to me

Para você

Uma amostra de Cole Porter. Essa música toca na cena da loja de discos. Simplesmente deliciosa na voz de Frank Sinatra.

14 de jul de 2011

Coffee (milk) and TV

Assisto pouca televisão, mas quando esbarrei com o simpático pacote do café Três Corações ele me pareceu muito familiar. Mas de onde eu o conhecia? Nada que um pouco de música não me desse uma luz: eu já tinho visto uma carinha igualmente simpática no videoclipe "Coffee and Tv" do Blur. 

Não sei se o responsável pela campanha publicitária tinha o Mr. Milk em mente, mas é impossível não pensar nele.



Para quem não conhece, vale a pena dar uma conferida na música (com legendas em espanhol mesmo, já que não achei outra versão):




12 de jul de 2011

Que "la vie en rose" que nada!

Pois é. Quando comprei os meus óculos escuros a la Jackie Kennedy, não imaginava que veria o mundo em sépia. Longe de parecer que vejo tudo como se estivesse num filme antigo, agora vejo tudo ensolarado. Quando coloco meus óculos escuros vejo o mundo ensolarado! E nos dias de frio, garoa e céus cinzas pelos quais passamos  é a melhor maneira de evitar o anti-depressivo!

Agora, melhor do que ver a vida com lentes cor-de-rosa, é vê-la ensolarada. Prefiro me enganar desse jeito.

11 de jul de 2011

O lado B do "Meu querido Poney"

Todo mundo tem um lado B. E todo mundo tem um lado não muito legal - também conhecido como "mau". Muito me admira haver pessoas acima dos vinte que pensam que o mundo é dividido entre mocinhos e vilões, no melhor estilo Star Wars.

Mas o que eu queria mesmo era falar que todo mundo tem um lado B. Todo mundo faz algo que foge do senso comum, dos bons costumes, do trivial, do arroz com feijão.

Até o "Meu querido Poney" que é um bichinho todo açucarado tem o seu lado B e aí é que está a graça da vida. Não há nada mais cansativo do que ouvir que o legal é ser diferente: não é uma questão de ser legal ou não, é uma questão de opção - ou da falta dela. Afinal, todo mundo é diferente.

Claro, há aqueles que se julgam iguais a massa - que, por mais massa que seja, é feita de indivíduos que não concordam em tudo nem pensam igual em tudo, por mais alienados que sejam - e ainda há aqueles que querem mostrar que são mais diferentes do que os outros. Há os que se auto-afirmam pela (tentativa de) mistura à massa (heterogênea) e outros que só se sentem bem destacando-se do "resto".

Felizmente ao longo dos meus humildes 24 anos, nunca conheci uma pessoa igual a outra. E essa é uma das coisas que eu amo na humanidade. Mesmo os mais parecidos não se parecem tanto se você chega mais de perto, de deixa de lado o pré-estalebelecido, o previsível. Chegue mais perto e você vai se deparar com o jeito como se pousa os talheres, com vícios de linguagem, trejeitos, tiques, modo de estacionar o carro, cozinhar, atender o telefone, assoar o nariz, pentear o cabelo, dizer adeus.

Todo mundo tem um lado B: escreve carta de próprio punho, ouve Prince ou Roberto Carlos, (ainda) dança a macarena, curte Didi e Dedé, assiste Miss Universo todo ano, lê "Caras"... O que é exatamente lado B afinal? É aquele lado mais secreto, das coisas que somos/ fazemos/ gostamos e ninguém sabe? É o lado do não-convencional, do não-aceito? Como achar que a vida é preto no branco quando somos em 3D? Personagens esféricas - amáveis e detestáveis, às vezes simultaneamente.

O gostoso da vida é aceitar que temos os dois lados da mesma moeda, o lado A e o lado B, o lado bom e o mau, tudo convivendo dentro de nós - pacificamente? Nem sempre...

Dá para ouvir Black Sabbath


E pensar que 



Fluff é trilha sonora para "Meu pequeno poney". Mas nunca se sabe se o lado B do bonitinho não é justamente Black Sabbath.

Dois pra lá dois pra cá

Adentravam a madrugada. Ela, ligeiramente ébria. O corpo leve e solto. Os cabelos num desleixo cuidadoso. Ele se mantinha firme. Mais uma taça de vinho quando ela levantou do sofá velho para trocar o disco. Chamou-o para dançar.

- Mas eu não dançar.

Ela sorriu:

- Quando alguém te chama para dançar, isso é o que menos importa.


10 de jul de 2011

Pedras que miam

No meu caminho tinha um gato.
Tinha um gato no meu caminho.
Freei o carro delicadamente
E o gato lá permanceu:
no meio da rua.
Tarde da noite: esqueça a buzina.
Tarde da noite: lembre dos ladrões.

No meu caminho tinha um gato.
Tinha um gato no meu caminho.
Que fazer para entrar
Sem o gato machucar?

No meu caminho tinha um gato gordo.
Tinha um gato gordo e belo no meu caminho.
(também laranja)
Que fazer com ele para poder seguir?
O mesmo que faço com pedras:
Desviar.

Ouvindo Into your arms (Love positions)

A decepção, meia-irmã da expectativa

Eu desisti de tentar não esperar nada, mas acho que aprendi a esperar um pouco menos. Só acho, porque vira e mexe eu me decepciono com as pessoas e as situações. "Somos todos humanos e erramos" não serve de consolo sempre. Não mesmo. Tem erros que não deveriam ser permitidos, mas é errando que se aprende - em tese. Há controvérsias para todas as teses de senso comum.

Há uns anos atrás, eu tinha uma gradação para isso e podia classificá-la em três categorias: chateação (leve), desapontamento (moderado) e decepção (fatal). Na verdade, acho que ainda levo isso em conta atualmente, só que agora para merecer a categoria decepção é muito mais difícil - o que tem me trazido grande tranquilidade.

Quem não quiser se decepcionar, é melhor nem sair de casa... Ou melhor, é melhor nem sair para a vida - afinal, mesmo em casa você pode se decepcionar com o almoço de natal que miou por sua causa.

Ter expectativas e se decepcionar são coisas que vivemos todos os dias e que fazem de nós, os seres humanos que somos. E, convenhamos, mesmo eu que adoro planejar reconheço que a vida seria um tédio se todas as nossas expecativas fossem atingidas. E como aprender a lidar com o que não dá certo? Durante a vida, ouvimos mais "nãos" do que "sins" e pobre daquele não consegue aceitar ou lidar com isso.

A gente muda, a nossa vida também - do mesmo modo que as nossas expectativas e as coisas que nos decepciona[riam]. Tem que ser assim, não? Não dá para esperar a mesma coisa da vida a vida toda, ou dá? Se der, acho que tem alguma coisa errada... Algumas coisas talvez permaneçam em essência, mas a roupagem e o olhar é outro, porque somos outros.

Se por um lado eu acredito que tanto as expectativas que dão frutos quanto as decepções sejam boas (por diferentes motivos), por outro, não acredito de modo algum em pessoas que dizem não ter expectativas - isso é discurso de quem tem medo de se frustar, de se decepcionar.

(Publicado originalmente por mim em 08/07/11, no blog no qual escrevo às sextas: Meninas Improváveis)

9 de jul de 2011

E era uma vez a deturpação da lei da oferta e da procura

Charlie e eu resolvemos passar o dia na Galeria do Rock - que já não é tão do rock assim - e nos deparamos, logo de cara, com uma loja só de chapéus. Na verdade, nem tinham tantos chapéus, mas uma variedade de bonés (bah!) e... BOINAS!

Coleciono boinas. Confeccionei algumas de crochê e os resultados podem ser classificados de "frustrantes " a "plenamente satifsatório" - mas confesso que essa coisa de fazer sem receita, sem molde, sem instruções tem o seu charme e encanto.

Mas o fato é que entramos para ver as boinas. Havia duas vendedoras que nos viram e fingiram não nos ver. Okay, não responderam ao nosso "bom dia" simpático e aprazível. Preferiram continuar conversando entre si sobre o que quer que fosse. 

Encontrei as boinas na vitrine. E eis o "diálogo" que se estabeleceu com uma das mocinhas:

- Bom dia, posso ver as boinas?

- Estão aqui.

Quando fiz a pergunta acima, eu já tinha visto as boinas e sinalizado tal fato, tendo batido levemente o indicador sobre o balcão de vidro. Mas a atendente não se deu ao trabalho de tirar as boinas para me mostrar: preferiu deixá-las debaixo do balcão mesmo. Será que daria muito trabalho tirá-las e depois colocá-las de volta, correndo o risco de efetuar uma venda?

- Quanto estão saindo?

- Vinte.

- Quais cores você tem?

- Essas.

Mais uma vez a atendente não se deu ao trabalho de tirar as benditas boinas debaixo do balcão. Havia uma boina cinza por cima das demais, de modo que eu não conseguia vê-las direito. A despeito da  falta de empenho, insisti - correndo o risco de me passar por tapada (ou chata?).

- Além da cinza, quais são as outras cores?

Finalmente, a atendente tirou as demais boinas debaixo do balcão de vidro, num misto de descaso e má vontade. De repente, percebi que já não queria a boina. E que, muito provavelmente, pouco importava se eu a comprasse ou não. Ela não queria me vender e eu já não queria a boina. E, finalmente, nos entendemos e eu fui embora, sem levar nada obviamente.

Sou uma cliente bastante razoável, por isso, erroneamente, acabo sempre esperando ser tratada de modo razoável. E posso não estar muito a par das estratégias mercadológicas e tendências de vendas, mas algo me diz que tem alguma coisa errada no tratamento que nos foi dado na tal loja. Ou vai ver que estou querendo demais... Vai saber.

8 de jul de 2011

Monólogos disfarçados de diálogos

Me acostumei tanto com monólogos disfarçados de diálogos que quando alguém realmente me ouve, eu me espanto. Não espantamento de levantar do sofá, mas o de me fazer sentar e perguntar:

- Tem alguma coisa que você queria falar também?

Percebo que em algumas instâncias, estive falando sozinha por anos e isso me deixou um pouco baqueada. Ou me ouviam e não diziam nada (literalmente) ou apareciam com todas as pedras nas mãos (metaforicamente) ou riam largamente (e assustadoramente) de tudo o que eu tinha a dizer.

Falar não é sinônimo de se comunicar. Falar muito menos ainda. E muito pode se dizer no silêncio. Mas esse mesmo silêncio pode funcionar como veneno em qualquer situação. Alguém pode pedir a sua opinião sobre um problema quando só quer, na verdade, ser ouvido: um monólogo disfarçado de diálogo.

Temos dois ouvidos, mas raramente ouvimos mais do que falamos. E há quem pareça ter quinhentos ouvidos. Há momentos em que o é melhor se fazer de João sem braço - e sem ouvidos (vou fingir que não ouvi) ou todo ouvidos (melhor só ouvir e não dizer nada). 

Seja como for, acho que é fundamental ter percepção e sensibilidade mínima para saber quando falar, quando calar (sem esquecer que quem cala consente) e quando perceber que o diálogo que você busca não vai passar de um monólogo, dependendo de com quem você fala.

6 de jul de 2011

Diário: Estarei sentindo tudo errado?

Às vezes eu simplesmente não sei o que sentir. Quero dizer que sou surpreendida - no mau sentido da coisa - por uma mistura de sentimentos, dos quais a culpa normalmente faz parte. Não que eu tenha feito nada errado, mas... Posso me sentir como me sinto? Está certo que certos sentimentos venham à tona quando supostamente não deveriam vir? "Supostamente" com base no julgamento de quem?

Pelo menos agora não encaro isso com paixão: consigo raciocinar em vez de explodir. Mas o desconforto permanece e é a única sensação que consigo distinguir...

4 de jul de 2011

Papéis sentimentais

Era uma vez uma caixa de sapatos cheia de nacos de passado.

Ela: - Que isso?

Ele: - Letra de música.

Ela leu em voz alta e alçou alto as sobrancelhas.

Ela: - Ganhou de quem?

Ele: - Uma amiga.

Ela: - Uma amiga.

Ele: - É, uma amiga.

Ela: - Hum. Amigas não mandam letras de músicas como essas.

Ele: - Mandam quando as namoradas não mandam.

3 de jul de 2011

Adormecidos

Peguei a pequena no colo: choramingava baixinho. Logo os resmungos viraram um choro mais intenso, que desaguava na sala e ensopava meu vestido. Um choro baixo e discreto. Mas intenso. A intensidade de sua dor? Embalei-a suavemente. Murmurava uma canção de ninar qualquer. Só queria sossegar seu pequeno coração, por ora pesado.

Parecia tão frágil que me senti forte dentro da minha aparente fragilidade e logo estava pronta para ampará-la, naquele sonho-sono que não vinha. Continuei acalentando-a, para que não se sentisse só, para que soubesse que eu ficaria com ela até a manhã chegar, para garantir que o ursinho de pelúcia não de desprendesse de seu abraço delicado e infantil.

Andei com ela suavemente pelo quartinho rosa-chá. Em silêncio, prometi espantar todos os fantasmas e quaisquer monstros debaixo de sua cama. De seu berço. Ela era tão pequena. Ainda assim, senti que muito em breve teria que deixá-la.

Finalmente, o choro foi se extinguindo e seu corpo foi esmorecendo nos meus braços. Era estranho sentir em mim brotando uma certa maternidade. Maternidade essa que se dissolveu quando pousei a pequena em seu leito. Em seus traços, reconheci os meus: era eu quem jazia adormecida.

Ouvindo Sonata No. 14 (Beethoven)

E não era tão ruim assim...

Ela parecia perplexa:

- Ele é bonito. Bem bonito.

- Ele quem?

- O seu amigo.

- Ah. E isso é um problema?

- Sim. Porque eu estava pronta para odiá-lo...

- Por quê?

- Por causa das coisas que você me disse sobre ele.

- Ah. Ele é inofensivo. Mas tem namorada.

- Outro problema.

1 de jul de 2011

Sonhar com dente é morte de parente



Sonhar que tinha chocolate escorrendo do volante do meu carro poderia ser interpretado como: "dirigir é delicioso"?

Auto-motivação rola?

Eu nunca defendi a auto-motivação, porque acho que precisamos sim de estímulos externos. Mas dá pra depender só de estímulos externos pra fazer as coisas?

Num dos lugares onde trabalho, há uma crescente onda de desmotivação porque não temos sido devidamente valorizados. Reconhecer, eu até reconheço isso. Mas o que se faz com tal informação? Foi então que percebi que isso não me afeta como afeta os demais.

Não sei se pela minha geração, pela minha criação ou pela minha vivência, eu realmente não espero que as pessoas reconheçam o meu trabalho - o que não quer dizer que eu não goste quando isso acontece. E foi então que eu percebi que auto-motivação funciona - mas será que tem prazo de validade?

É bom quando alguém valoriza o que fazemos e tudo mais, mas vamos deixar de fazer só porque não perceberam/ valorizaram? Ou vamos apelar para a birra clássica:

- Vou deixar de fazer, aí quero ver só não darem importância.

Neste caso, são grandes as chances de sermos despedidos, fato. 

E aí eu me pergunto: o que é que nos motiva quando todos nos dizem para desistir?