25 de jul de 2011

Diário: Paixões esquecidas

Por vezes, as obrigações fazem com que a gente se esqueça das coisas que adoramos fazer. E aí temos nossas paixões esquecidas. Felizmente, tive a chance de ressucitar uma ao entrar num simpático sebo, entre um compromisso e outro.

O senhor que veio me atender era muito alto e magro, cabelos grisálios, aéreos e despretenciosos, assim como o seu olhar. Do nariz grande e delicado, suas narinas oscilavam interessadas e gentis no rosto comprido e magro. Ele subia e descia as escadas sem pressa, trazendo novos livros.

Eu já tinha estado lá antes, mas com alguma pressa. Hoje não tinha pressa, mas também não muito dinheiro. Vasculhei o sebo, mas não o esquadrinhei. Todavia, sonhei com os títulos que via dispostos nas prateleiras e que saberia poder comprar em breve.

Perguntei sobre Gertrude Stein. Ele caminhou para a saleta dos fundos, iluminada por conta das telhas de vidro, examinou uma prateleira sem muita fé, como se já conhecesse a resposta, e me respondeu:

- Não temos nada dela mesmo.

Perguntei sobre Simone de Beauvoir. Ele sorriu, pulou para a saleta anterior e me entregou um livro parrudo de capa dura e amarela: um romance. Eu queria seus ensaios, mas o outro livro que ele me entregou também era um romance: A convidada. Li a sinopse e decidi que era Simone quem acompanharia o escolhido da seção de "psicologia": Complexo de Cinderella - que já comecei a ler e estou adorando.

Na noite passada, decidira dar uma segunda chance ao Hegel e sua estética. Já fazia seis anos que tínhamos tentado - em vão. Embora o livro não tenha mudado, mudei bastante durante esse tempo e me atrevi a não mandá-lo embora na última doação.

Olhara as prateleiras: tantos mundos me aguardam e eu aqui... A espera de quê? Separei os mais atraentes, algumas prioridades profissionais e outras que adoraria reler (Milan Kundera, Ignácio de Loyolla Brandão, Raduan Nassar...).

Meu breve encontro com Hegel - breve porque naturalmente não terminei de ler seu livro -, uma olhada mais atenta na prateleira e, por fim, a ida ao sebo me certificaram de que há necessidades que guardamos e esquecemos em gavetas - neste caso específico: livros! Também me lembraram que é tempo de arranjar tempo para leitura e as outras pequenas coisas que valem a vida valer (mais) a pena.


Ouvindo Mary (Scissor Sisters)

2 comentários:

Anônimo disse...

livros uma relação quase compulsiva, sebos uma paixão

clelia,tia

hugo disse...

Não aconselho ninguém a enfrentar Hegel sozinho, é muito perigoso... Da próxima vez, ao menos deixe a equipe de resgastes de sobreaviso.