29 de jul de 2011

Borralho

Acordou com a mão esquerda formigando intensamente. O coração aos pulos de sobressalto descompassado aos mergulhos na garganta oscilante dançante sufocante delirante. Arritmia. A pressão? Acordara no meio da noite com a mesma sensação, mas tudo se acalmara e ela voltara a dormir.

Ele se levanta. Vai se olhar no espelho. Tão bonita. Estaria prestes a morrer? Mesmo sendo tão bela e tão jovem. Bela e jovem: era apenas isso o que era e a isso se resumia. Nada mais. E tudo seria menos triste se fosse velha e feia? As pessoas ruminariam que sim, secretamente entre seus confortáveis travesseiros. Segredos de alcova.

O essencial não era invisível aos olhos, mas escorria deles, sutilmente. Ser bela não tinha valor algum e não fazia qualquer diferença naqueles momentos, quando lembramos ser todos humanos - e frágeis. A dor, algo partilhado pela humanidade. A morte, certeza da despedida da centelha divina. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó.

E foi com a mão que formigava que acenou adeus.

2 comentários:

Anônimo disse...

Impressões,sobre morrer jovens e belas, nos remete que o natural é morrermos velhos, e sabidamente não tão belos como outrora, a morte inesperadamente visita, jovens pricesas e a todos nós.

clelia, tia

Ludmila. disse...

É curioso que tudo seja tão especial exatamente por ser extremamente trágico...