3 de jul de 2011

Adormecidos

Peguei a pequena no colo: choramingava baixinho. Logo os resmungos viraram um choro mais intenso, que desaguava na sala e ensopava meu vestido. Um choro baixo e discreto. Mas intenso. A intensidade de sua dor? Embalei-a suavemente. Murmurava uma canção de ninar qualquer. Só queria sossegar seu pequeno coração, por ora pesado.

Parecia tão frágil que me senti forte dentro da minha aparente fragilidade e logo estava pronta para ampará-la, naquele sonho-sono que não vinha. Continuei acalentando-a, para que não se sentisse só, para que soubesse que eu ficaria com ela até a manhã chegar, para garantir que o ursinho de pelúcia não de desprendesse de seu abraço delicado e infantil.

Andei com ela suavemente pelo quartinho rosa-chá. Em silêncio, prometi espantar todos os fantasmas e quaisquer monstros debaixo de sua cama. De seu berço. Ela era tão pequena. Ainda assim, senti que muito em breve teria que deixá-la.

Finalmente, o choro foi se extinguindo e seu corpo foi esmorecendo nos meus braços. Era estranho sentir em mim brotando uma certa maternidade. Maternidade essa que se dissolveu quando pousei a pequena em seu leito. Em seus traços, reconheci os meus: era eu quem jazia adormecida.

Ouvindo Sonata No. 14 (Beethoven)

Um comentário:

clelia tia disse...

final inesperado,mas na verdade todos nós precisamos de colo,um consolo para nossa tristeza e medo, gostei muito.