28 de dez de 2012

Felícia, espartilhos e ideologia.

Antes de experimentá-lo, ela se olhou desconfiada:

- Acho que isso vai contra muitas coisas que eu acredito...

Sim, era uma bobagem, mas as bobagens constantemente a levavam a coisas um pouco maiores - como se seguisse uma abelha até chegar a colmeia. Enfim. 

Experimentou o espartilho preto de renda e couro. A moça da loja ajudou-a a apertá-lo. Sempre tinha achado bonita aquela coisa de cintura fina. E espartilho era uma coisa sensual, muito sensual. A moça da loja continuava apertando. Lembrou-se da sua infância assistindo Looney Tunes: Felícia. Felícia que abraçava tanto seus bichinhos amados que os deixava sem ar.

A moça da loja não a abraçava, mas sim o espartilho. E não a amava. Deve haver um modo mais agradável de ficar sem ar, mais válido. Será que para ser amada, notada preciso disso?

Finalmente, se viu pronta junto ao espelho: estava sem ar, mas tão bonita! A cintura marcada como ela tinha imaginado. E, de fato, sensual, muito sensual. E, de fato, desconfortável, muito desconfortável. Deveras desconfortável.

Pois é. O espartilho se revelava uma questão ideológica. Do que ela estaria disposta a abrir mão pela dita beleza, pela dita sedução? A mulher que se submete a tudo pelas aparências e nega a natureza de seu corpo?

Balançou a cabeça, olhando-se no espelho:

- Deve haver um modo mais simples - ela murmurou para si, enquanto tirava o espartilho e colocava de volta seu vestidinho leve e solto.

O céu se riscava de gotas como o giz risca uma lousa. Ela saiu da loja e parou no ponto de ônibus. Seu Terminal logo chegou e ela embarcou. Estava tão concentrada em suas mais recentes divagações que acabou não notando o olhar do bonito moço, insistente e cobiçoso a acompanhá-la em seu caminhar.

2 comentários:

Carolina disse...

Às vezes a gente se ilude com essa coisa de beleza e sensualidade. Esquecemos que a simplicidade pode ser mais linda e sexy do que qualquer lingerie.

Nara disse...

A gente não nota, né? Quer ser artista pra ficar bonita, fazer "arte" pra ser desejada.
A gente deveria andar pelada por aí.


Beijo