28 de mar de 2012

Verdades duras da vida [1]

Algumas pessoas trabalham. Outras, exploram suas vovós e ainda saem de bacanas. Com aplausos e tudo.

(alguns chamam isso de empreendedorismo)

26 de mar de 2012

20 e poucos anos: Descrenças

Estavam deitados um de frente para o outro. Olhos fechados. Lô interpelou:

- Você acredita em Deus?

Raul abriu os olhos e levantou as sobrancelhas. Sabia nunca poder escapar daquelas perguntas inadequadas
à queima-roupa.

- O momento é inadequado? - Lô perguntou sem interesse.

- Acredito sim. Acredito em Deus - respondeu Raul num suspiro.

Um instante se passou, Raul esperançoso que ela tivesse desistido de seguir adiante. Mas resistir era inútil.

- Mas como você acredita em Deus se me disse outro dia que não acredita na humanidade?

- Ah, sei lá. Você quer mesmo falar disso agora?

- Sim, por quê? Não pode?

Raul pensou em dar uma resposta mal-criada, mas já sabia bem o rumo que as coisas tomariam.

- Se Deus criou a humanidade e você acredita em Deus, como não acreditar na humanidade?

- Não sei, Lô: as pessoas são incoerentes mesmo. Sou humano, é direito meu. Devia até constar na Constituição Federal ou na Declaração dos Direitos Humanos.

- Eu acredito em coerência interna. Acredito que, dentro de você, há uma explicação. Você só não sabe qual é ou simplesmente não quer me dizer.

- E por que eu não te diria?

- Porque são duas da manhã e você está cansado.

Raul riu.

- A coisa mais sensata que você disse hoje. Religião às duas da manhã?

- Você é o bom moço católico, Raul. Eu fugia da catequese, você sabe.

- Fugia pra comprar pipoca na praça.

- Gula: pecado capital.

Os dois riram.

- Eu acredito nas instituições católicas. Como o casamento. E o amor.

- Não sei como pode uma coisa dessas... Mas te respeito mesmo assim.

- É muito maior prova de amizade respeitar as descrenças alheias do que as crenças, eu acho.

- Eu não acredito no amor e ele não é uma instituição católica, meu caro - ela coçou o ombro nu - Não sei de onde você tirou isso.

- Okay, você está certa. Acredito na família.

- O bom modelo católico.

- Nuclear, você diz? Não, não. Falo dos valores.

- Cristãos e não católicos.

- Pode ser - considerou Raul.

- Mas não precisa ser cristão para ter bons valores.

- É, faz sentido - ponderou ele - Conheço uma pá de gente sem religião que é gente boa. Boníssima.

- Eu acredito em amizade. Acho que é uma das coisas mais importantes da vida ou, pelo menos, uma daquelas coisas em que eu realmente acredito.

- Eu acredito em amizade, mas não acredito em amizade entre homem e mulher.

- Ah eu acredito. Dá para não ter segundas intenções sim. De uma das partes pelo menos, acho.

- Não, não é assim que funciona.

 Ela olhou através dele:

- Tenho fé na juventude.

Ele sorriu para ela, que continuou:

- Tenho fé em nós.

A ambiguidade tinha um gosto estranho. Indefinível como as palavras de Lô: entre o doce e o amargo. Continuou olhando um pouco mais para aquela que considerava sua melhor amiga. Lô se levantou, vestiu o pijama, largado na banqueta do quarto e saiu para a cozinha. Não, ele não queria um chá: queria passar mais alguns instantes calado e sozinho, pensando e repassando e matutando sobre tudo aquilo em que realmente acreditava.

25 de mar de 2012

Diário: Laços Capilares

Ajudei-a entrar no carro. Era dia de minha avó almoçar lá em casa. Coloquei-lhe o cinto:

- Está confortável assim? Quer que eu arrume o banco?

- Não, não: está bom assim.

Ela olhou para mim e sorriu:

- Seu cabelo está tão bonito! - disse ela pela quinta vez em dez minutos.

- Ah! Obrigada! O seu também está ótimo. Está ficando mais comprido, né?

- É sim. Vou deixar crescer agora. Gosto de cabelo comprido.

Pausa. Dou a partida.

- Você também devia deixar seu cabelo crescer, fica tão bonito - ela comentou.

- É, estou pensando em fazer isso, mas a tentação de cortar o cabelo igual ao da menina da novela é grande.

Pausa.

- Até onde a senhora quer deixar crescer o cabelo?

- Até aqui - ela responde, mostrando com a mão a altura dos ombros.

- Então a gente faz assim e deixa combinado: as duas deixam o cabelo crescer. O que você acha?

- Acho ótimo!

Nós duas sorrimos. Dou a partida.

23 de mar de 2012

Segredos de máquina de lavar

Foto: Cayo Candido
Pisou nela pela primeira vez. Assim sutil, mas perceptivelmente. A voz macia de Tia Ninota ecoava em sua cabeça:

- Nunca deixe um homem pisar em você.

Mas deixou. E aquele pisão a deixou tão suja que precisou se lavar na máquina. Mas secou-se à sombra, pendurada no varal, simpática e resignadamente. Ainda assim, ficaram algumas manchas.

Achou que ele valia uma segunda chance. Mais uma vez a voz de Tia Ninota:

- Segundas chances só podem ser dadas uma vez: do contrário, deixam de ser segundas.

Pisou nela pela segunda vez. E ela era toda um olhar desoncertado e confuso.

- Por quê? - devia ter perguntado.

Colocou-se de molho por uns dias, sabendo das consequencias para suas cores de borboleta monarca. Lavou-se três vezes na máquina de lavar, como se a água pudesse lavar toda a sujeira das solas dos sapatos dele, aqueles sapatos que tinham percorrido os quatro cantos do mundo.

Estendeu-se no varal, mas, desta vez, ao sol. Quem se importa com o desbotado?

Ela deu ombros e encontrou-o pela última vez. Última porque obviamente ele pisou nela novamente. Ele apenas fazia o que mandava sua natureza, mas ela foi contra a sua própria e resolveu não desperdiçar mais chances, tempo ou OMO tripla ação: foi embora para lavar-se pela última vez.

Secou-se ao vento e ao sol, ignorando os avisos dos demais. Abraçou suas manchas e disse adeus as cores que iam abandonando-a.

Era a experiência e suas marcas - e perda de cores entre outra ilusões.

21 de mar de 2012

Sonolentos

Os dois estavam sonolentos. Deveras sonolentos. Já devia passar das duas e ambos lutavam contra o sono. A cabeça de ambos tombava para esquerda. Olharam-se e sorriram um para o outro, cúmplices. Como que se reconhecessem, não pela primeira, mas pela terceira vez naquela mesma noite. E era a terceira vez naquela noite que uma ternura morna e mista tomava conta de ambos.

Era uma coisa assim delicada, uma coisa do cuidado com o outro, de rirem juntos e se olharem como os velhos amigos que eram e... ainda assim...  Sentirem uma sensação diferente, uma mistura de cócegas, brisa e benjoim.

Já devia passar das duas e ambos lutavam contra o sono - ou seria contra os sonhos? Eram sólidos, serenos e sensatos. Não havia espaço para sonhos, mas aconteceu alguma coisa naquela noite. Naquele momento. E não sabiam ao certo se haviam jogado o momento fora, com os restos de fim de festa ou se apenas o tinham guardado para mais tarde, cultivado carinhosamente à conta-gotas na mornidão do peito-estufa. 

17 de mar de 2012

Da [falta de] sutileza [geral]

Ele: - Vi você saindo na hora do almoço.

Ela: - Mas hoje eu não saí: fiquei direto.

Ele: - Eu sei: foi uma vez que te vi ano passado.

Ela: - Ai que medo.

Na frente de trinta pessoas.

16 de mar de 2012

De repente 25!

Ontem fiz aniversário. Me atualizei para versão 2.5 e finalmente posso cantar A palo seco, do Belchior. Acordei feliz e, pela primeira vez em duas semanas, não tive dor de cabeça. Acordei com uma sensação engraçada dentro de mim: cócegas internas. A mesma sensação de quando falei, semana passada:

- Quanto sai a tirolesa?

(e, quando dei por mim, já estava descendo contente: uiiiiiiiiiiiiiiii)

Recebi mensagens e ligações carinhosas. Tive um dia simples, mas consegui almoçar acompanhada - o que é raridade. Voltava com a minha mãe, nós duas bem humoradas. Certo momento, lhe disse:

- Sabe o que é mais engraçado: hoje faço um quarto de século... E continuo sem saber nada da vida!

Então abracei-a e ri. Ri como não ria há muito tempo. 

Talvez a descoberta de um lado tomboy tenha a ver com isso, não sei. Ou é a leveza que conquistei. Li que "a convição é também uma conquista" e achei tão bonito. Mas, já algum tempo, tenho deixado as explicações de lado - sejam para mim, sejam para os outros. E me contento em viver.

Há uma semana atrás, quando estávamos eu e o Pirata no bote de rafting, chegamos a um certo ponto do Rio Peixe e o instrutor falou:

- Quem quiser pular aqui, pode pular.

Eu só tinha um par de tênis, então não ia entrar na água. Foi aí que o Pirata olhou para mim:

- Vamos?

E eu pensei com meus botões: eu não vim até aqui para não pular! Caí na água numa cambalhota e lembrei como era divertido nadar de tênis. Fiquei com eles em sopa até de noitinha. E não me arrependo de modo algum. 

Acho que esse é o espírito dos 25 anos. Obrigada! =)


15 de mar de 2012

Like a princess

Era uma vez...

Ela gostava do jardim de casa. Todas as noites, se sentava junto ao banco que dava para as roseiras brancas. Não gostava de rosas, mas a recíproca não era verdadeira: as rosas pareciam ficar mais felizes quando a viam. Tinha bom coração e boas intenções - então agradava as rosas e se sentava com elas.

Era uma vez um tempo em que ainda a agradava agradar aos outros.

E todos os pequenos insetos vinham visitá-la, sentada com um livro, com a flauta, com o bordado. A delicadeza de suas mãos e palavras escondia qualquer coisa no olhar. Mas sempre muito contida e serena por entre besouros esverdeados - fusquinhas metalizados -, mariposas veludosas, vagalumes incandescentes, centopéias dançarinas, mosquitinhos serelepes, grilos sensatos.

Era uma vez um tempo em que ainda bordava.

Pois eis que um sapo foi morar no seu jardim. Chegou como quem não queria nada e foi ficando e ficando. Logo veio outro e mais outro. Logo, eram cinco. Ela lendo, tocando, bordando. E eles ali, observando-a absortos.

Curioso era notar que ela nunca os procurava: eram eles que vinham até ela. Alguns cantavam, querendo sua atenção. Ela olhava e sorria, suavemente. Dificilmente eram encontrados por quem quer que os procurasse, mas bastava que ela saísse no jardim e lá estavam eles, diligentes e gentis.

Certa vez, ela pousou o livro no banco - Grimm - e encarou os sapos perplexa, como se despertando de um longo sono de cem anos:

- O que será que eles estão pensando?

14 de mar de 2012

20 e poucos anos: Natureza feminina

Raul entrou casbisbaixo e desmoronou sobre o meu sofá. Depois, despejou sobre mim suas últimas notícias sobre a menina de quem ele tanto gostava. Concluiu brevemente:

- E ela disse isso - disse sentido.

Olhei com pena (coisa que ele de-tes-ta-va) e disse como que me desculpando:

- Ela está te manipulando, Raul.

- Eu sei, Lô - disse ele sem certeza e continuou - Mas me sinto tão culpado, tão mal.

- Mulher quando dá para ser ruim...

Seu tom mudou. Ele olhou para mim duro e sério.

- Você deve saber do que está falando.

Me senti acuada e confusa, enquanto queimava as mais recentes cartas de amor recebidas.

11 de mar de 2012

Sobre Pokemons, relacionamentos estranhos e briga de galo

Ontem, eu e o Pirata chegamos a seguinte conclusão:

- Pokemon nada mais é do que briga de galo.

Os pokemons podem ser considerados animais que são colocados para brigar. A animação nipônica gira em torno das tais lutas. E num tempo em que as pessoas estão se conscientizando sobre os direitos dos animais, são celebradas batalhas entre personagens que podem ser comparadas aos últimos. Mas é claro que todo mundo sabe diferenciar realidade de ficção, afinal, nunca vamos ver uma criança colocando seu cachorro (na ausência de um pokemon) para brigar, certo?

Mas acho que o que me assusta é como o relacionamento entre mestre e pokemon é estranho:

- Pikachu, amo você -  pausa - Agora vá lutar e vença a batalha.

Ah, eu pelo menos não acho saudável lidar desse modo com quem se ama ou de quem se diz gostar. Por que colocar em perigo ou em risco quem se quer bem? E, no final do dia, o pokemon volta obedientemente para sua pokebola. Há quem faça isso no mundo real.

7 de mar de 2012

Almas-gêmeas distorcidas

Ele tinha chegado aos cinquenta em crise. A falta de cabelo - e de segurança. A barriga que cismava em ficar saliente por debaixo da camisa preta da qual tanto gostava. A solução? Uma bela mocinha de vinte e um anos: corpo maravilhoso e disposta a tudo.

Ela tinha chegado aos vinte e um com muita preguiça e pouca formação. Não sabia o que fazer da vida e, mesmo que soubesse, não moveria uma palha. A solução? Um cinquentão disposto a tudo: mantê-la com todos os seus caprichos.

Eram almas-gêmeas.

Casaram-se.

E o mundo era justo.

6 de mar de 2012

Sobre cafés, expectivas e tentativas

Ela voltou três dias depois ao mesmo atendente. Poxa, o cara trabalhava num centro cultural e manjava de Wittgenstein e de Pscinálise.

- Oi, tudo bem? - ela, alguma timidez.

- Tudo sim e você? - ele, sem qualquer timidez.

- Acho que você não se lembra de mim... - ela sorriu com um naco de esperança.

- Lembro: a menina da Virgínia Woolf.

Ela sorriu. Ele sorriu.

- Então... Eu estava pensando...

Deixou no ar, ela ficou olhando os cabelos bagunçados e os olhos tranquilos por trás dos óculos.

- Sim?

Deixou no ar, ele ficou olhando o vestido no joelho e o enfeite de flor nos cabelos.

- Então... Você não gostaria de tomar um café comigo agora à tarde?

Ela sorriu. Ele sorriu, triste.

- É que eu já tenho compromisso.

Na aliança na mão dele, ela leu: compromissado.

- Ah, me desculpa: eu não tinha reparado.

- Tudo bem, sem problemas.

Ela: suspiro.

- Bom, não custa arriscar.

- É - ele sorriu triste.

Ela tinha vindo de longe só para vê-lo e tentar a sua sorte. Enfim. Sorriu de volta e se despediu dele: um tchau resignado e suave.

(Ele: suspiro)

5 de mar de 2012

Da delicadeza

Para o Filho de Foucault.

Ele sorriu suspirante:

- Em beijo em cada mão.

Ela sorriu sussurrante.

- Ah não! Lembro que você disse que todos os homens beijam as mãos. Então, um beijo na ponta do nariz.

- Beijo no nariz é coisa muito boa.

Ela ofereceu o nariz arrebitado. Um silêncio morno.

- Mas beijo nas mãos também.

E ofereceu suas mãos.

4 de mar de 2012

Quem gosta de falsidade levanta a mão!

Acho curioso quando as pessoas, quando perguntadas sobre o que não suportam nos outros, respondem categóricas:

- FALSIDADE.

Bem, convenhamos, há muita gente falsa que não gosta de falsidade. E o que eu já ouvi de gente que fala pelas costas falando isso... Enfim.

Nem os falsos gostam de falsidade, mas estarão sendo sinceros? Ou é uma questão de hiprocrisia mesmo? Claro que não! Ninguém gosta. Bom, acho. Já ouvi gente dizer que prefere ser enganada (!) e que gosta de pessoas misteriosas - se bem que mistério não é a distorção da verdade, apenas o seu desconhecimento.

Por outro lado, há aqueles que confundem toscamente sinceridade com grosseria. E parece que estamos, de um modo ou de outro, subvertendo o significado real das coisas. Afinal, não dá para aplicar a Doutrina do Relativismos para tudo no mundo.

3 de mar de 2012

Mil e um


Mil e um beijos foram prometidos. Não no papel, não verbalmente. Num olhar mais demorado - por entre os carros ou por entre os lençóis? Só sei que foram - pouco importa onde, pouco importa quando. O que importa é que é fato. Não fato consumado, mas fato que se vem consumando - mais e mais a cada dia. E vem nos consumindo, para nascermos do que depois?

E nós, que tanto temíamos as promessas, nos demos as mãos e dissemos: vamos? E, ao mesmo tempo, nos olhamos desconfiados e olhamos desconfiados para o céu recheado de nuvens.

- Putz! Vai chover!

Faço uma careta, tiro as sandálias e saio correndo descalça de debaixo da marquise.

- Vamos? - estendo a mão.

E sei que nós dois engolimos, temerosos, o chavão "quem sai na chuva é para se molhar". Faz parte do nosso show. Mil e uma gotas de chuva, mil e uma empadinhas de frango (ai azia), mil e um sustos para curar soluços, mil e uma noites de histórias de fazer inveja a Sherazade.

Para meus antigos amantes, eram mil, para você mil e um: cafunés, cafés, caramelos. E, ao mesmo tempo, sem grandes pretensões de te agradar. Os cabelos são meus, as roupas, os gestos, as palavras. Só eu sei o que partilhar e do que abrir mão. E não te peço para não me pedir, pois sei que você sabe o que pedir:

[o mundo, leio nos seus olhos - enquanto você me lê em braile]

Espero que não conte sobre nós, nem as coisas que te prometi. Há coisas que são só nossas. Para o resto, existe o resto: os jornais, revistas e televisão. Para nós, serão criadas mil e uma línguas para expressar aquilo que nem a gente [nem o mundo, ah!] consegue entender.