26 de mar de 2012

20 e poucos anos: Descrenças

Estavam deitados um de frente para o outro. Olhos fechados. Lô interpelou:

- Você acredita em Deus?

Raul abriu os olhos e levantou as sobrancelhas. Sabia nunca poder escapar daquelas perguntas inadequadas
à queima-roupa.

- O momento é inadequado? - Lô perguntou sem interesse.

- Acredito sim. Acredito em Deus - respondeu Raul num suspiro.

Um instante se passou, Raul esperançoso que ela tivesse desistido de seguir adiante. Mas resistir era inútil.

- Mas como você acredita em Deus se me disse outro dia que não acredita na humanidade?

- Ah, sei lá. Você quer mesmo falar disso agora?

- Sim, por quê? Não pode?

Raul pensou em dar uma resposta mal-criada, mas já sabia bem o rumo que as coisas tomariam.

- Se Deus criou a humanidade e você acredita em Deus, como não acreditar na humanidade?

- Não sei, Lô: as pessoas são incoerentes mesmo. Sou humano, é direito meu. Devia até constar na Constituição Federal ou na Declaração dos Direitos Humanos.

- Eu acredito em coerência interna. Acredito que, dentro de você, há uma explicação. Você só não sabe qual é ou simplesmente não quer me dizer.

- E por que eu não te diria?

- Porque são duas da manhã e você está cansado.

Raul riu.

- A coisa mais sensata que você disse hoje. Religião às duas da manhã?

- Você é o bom moço católico, Raul. Eu fugia da catequese, você sabe.

- Fugia pra comprar pipoca na praça.

- Gula: pecado capital.

Os dois riram.

- Eu acredito nas instituições católicas. Como o casamento. E o amor.

- Não sei como pode uma coisa dessas... Mas te respeito mesmo assim.

- É muito maior prova de amizade respeitar as descrenças alheias do que as crenças, eu acho.

- Eu não acredito no amor e ele não é uma instituição católica, meu caro - ela coçou o ombro nu - Não sei de onde você tirou isso.

- Okay, você está certa. Acredito na família.

- O bom modelo católico.

- Nuclear, você diz? Não, não. Falo dos valores.

- Cristãos e não católicos.

- Pode ser - considerou Raul.

- Mas não precisa ser cristão para ter bons valores.

- É, faz sentido - ponderou ele - Conheço uma pá de gente sem religião que é gente boa. Boníssima.

- Eu acredito em amizade. Acho que é uma das coisas mais importantes da vida ou, pelo menos, uma daquelas coisas em que eu realmente acredito.

- Eu acredito em amizade, mas não acredito em amizade entre homem e mulher.

- Ah eu acredito. Dá para não ter segundas intenções sim. De uma das partes pelo menos, acho.

- Não, não é assim que funciona.

 Ela olhou através dele:

- Tenho fé na juventude.

Ele sorriu para ela, que continuou:

- Tenho fé em nós.

A ambiguidade tinha um gosto estranho. Indefinível como as palavras de Lô: entre o doce e o amargo. Continuou olhando um pouco mais para aquela que considerava sua melhor amiga. Lô se levantou, vestiu o pijama, largado na banqueta do quarto e saiu para a cozinha. Não, ele não queria um chá: queria passar mais alguns instantes calado e sozinho, pensando e repassando e matutando sobre tudo aquilo em que realmente acreditava.

Um comentário:

renatocinema disse...

Adoro a incoerência e a ambiguidade. kkk