10 de fev de 2014

Angústia

As coisas vêm não se sabe de onde. E nem sempre se sabe explicá-las. Mas nada disso faz com quem  doam menos, com que incomodem perturbem enlouqueçam menos.

Não tinha mais vontade de viver, mas não queria morrer. Daria para ele ficar assim? Flutuaria entre céu e inferno, alheio a tudo aquilo pelo qual havia lutado a vida inteira. E a vida, ah essa menina batendo na mesma tecla triste e grave e lenta:

tum 

tum 

tum

- Socorro não estou sentindo nada....

Mentia. Engole o choro que homem  não chora. Mas chorava compulsivamente quando cantava Elvis no carro. Sem qualquer motivo. Não é porque não tem motivo que não está ali, que não dói.

Dói ouvir a mesma tecla sem se chegar a lugar nenhum. Sim, ele se perdeu e, estranhamente, não estava desesperado porque os sentimentos ruins consomem a gente, sabe? Era preciso e precioso se focar nos bons, mas... pra quê?

tum

tum

tum

Dobrara-se em mil. E nada. Um desânimo. Assolador. Nem ânimo para reclamar, declarar, declamar. Nada. Era todo vazio e silêncio. Silencioso, bebericava seu café sem que ninguém o notasse. Mas notavam e notaram. Sem perspectivas, sem planos, sem sentir que podia de fato fazer algo de bom pelo mundo e por si.

E não gostava de confete. Passou a evitar o contato social. Mas queria mesmo era evitar a si mesmo todos os dias no espelho do banheiro.

No verão, as noites deveriam ser mais curtas. Mas as dele não eram.