12 de mar de 2014

Óculos multifocal - e lentes cor-de-rosa. Pode?

Hoje, um amigo, ao receber um abraço meu, disse:

- Você parece personagem de comédia-romântica...

Respondi brincando que tomava aquilo como uma ofensa. Ele riu e pediu desculpas. Pensei.

Pensei que se a gente fosse ou quisesse dar conta de tudo aquilo que as pessoas pensam, dizem e acham de nós, não nos sobraria tempo para nos redescobrirmos todos os dias. Porque sim, estamos sempre descobrindo coisas novas sobre nós mesmos. Acabo de descobrir, por exemplo, que bolacha de água e sal com maionese é gostoso.

É engraçado como algumas pessoas podem conviver por anos com você e nunca perceberem quem você é de verdade. Já outras, te leem fácil, tão fácil que você até se assusta. Acho que a percepção em relação ao outro funciona quando a gente evita uma interferência exagerada dos nossos achismos e tenta ver no outro quem ele é - e não a imagem que fazemos dele.

Todo mundo me fala que pareço ser mais jovem do que sou - o que é verdade. Mas também já me disseram, pelas coisas que eu falava, que parecia que eu tinhas uns trinta e oito anos. Não sei o que isso quer dizer, só imagino. Entretanto, penso que incoerentes que somos, quando não conciliamos aparência, idade cronológica e o resto.

Talvez ter trinta e oito anos indicasse maturidade. Eu não sei mais definir o que é ser madura ou ser adulta. Mas sei que sou as duas coisas porque a vida assim me exige. E também não estou preocupada em definir muita coisa. Antes eu achava que ser adulto era pagar as próprias contas. Depois, achei que era assumir as consequências das suas escolhas. Hoje, só sei que não sei. E isso não é ruim. Não saber não é ruim. E ser adulto vai além de contas e decisões. Além de autonomia também. Talvez seja a maneira de ver o mundo. Não sei.

Hoje falei mal da minha geração ao meu chefe:

- Ninguém faz escolhas. Não é questão de escolher mal, mas sim de não escolher nada - e consertei - Se bem que ao não escolher, você acaba fazendo uma escolha.

Ele me olhou muito sério. Ele me leva muito a sério... Claro que fui muito dura, às vezes sou. Acontece. Porque tomar decisões não faz ninguém mais maduro ou algo que o valha e, ainda por cima, dá a falsa impressão de que temos todo o controle sobre nossas vidas.

E o fato é que não temos. E não precisamos ter pressa, sabe?

Uma das melhores coisas que ouvi em relação ao que estou falando foi:

- Você tem a experiência de vida que uma pessoa de vinte sete anos pode ter. Ponto.

Um alívio pensar assim. O que pode parecer óbvio, mas nem sempre é.

O modo como vemos a vida diz muito sobre nós. O modo como julgamos as pessoas diz muito sobre quem nós somos. O modo como lidamos com os outros diz muito sobre o que merecemos.

E, neste exato momento, se me perguntassem como vejo a vida, diria que é com lentes cor de rosa e lentes multifocais: enxergo bem de longe, enxergo a meia distância e enxergo bem de perto e as lentes são cor-de-rosa, o que me faz ver o melhor - e não me iludir com palavras baratas e fáceis. Não é porque não expresso ou ostento minha tristeza e outros sentimentos negativos que não os tenha, apenas deixo o pacotinho pra lá. Porque a vida é curta para se cultivar ervas daninha

Não preciso de mais, nem de menos. Sou exatamente o que posso ser nesse exato momento e o melhor que já fui até o presente. Rumo aos trinta - e feliz. Porque se chove, é claro que uma hora para.

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