2 de mai de 2011

Clara e as teias

Clara e Júlio estão sentados no sofá encardido da sala de estar. Estão no apê dele. Pela janela olham a vida tomando cor lá fora, mas talvez quisessem olhar mais para dentro de si mesmos. Queriam e olhavam. A paisagem era só justificativa para ter o que falar. Encher o silêncio com qualquer coisa que não fossem suspiros. Ou sussurros.

O sol está prestes a transbordar do horizonte e a conversa que se mantinha superficial toma ares subterrâneos, de profundezas enigmáticas, de criaturas indefinidas. Caminhos sem volta talvez. Tanto fazia, tanto fizesse. Estavam sentados lado a lado há horas. As taças de vinho vazias há horas.

- Eu sei algumas coisas. Acho que não é tão difícil seduzir alguém. Eu não sabia, mas aprendi.

- Aprendeu onde?

Júlio quis saber "com quem", mas limitou-se ao "onde". A pupila cresce com o seu interesse ofegante.

- Ah. É a vida né?

Clara sorri com a sua certeza de mulher, ainda que discreta. Meio sorriso diluído da luz que entra da janela.

- Não acredito em você - Júlio sorri  sem jeito com seus olhos que são dois sóis - 'Cê mesma tá cansada de dizer que não existe receita para essas coisas...

- Mas quando foi que eu falei em receita? Só estou falando que sei de certas coisas, coisas que no fundo acho que toda mulher sabe.

- É mesmo? Como o quê?

- Como isso.

Ouvindo Kind of blue (Mile Davis e John Coltrane)